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sexta-feira, 17 de abril de 2026

Acontece: Yom Haatzmaut - Dia da Independência

 



YOM HAATZMAUTH - Dia da Independência de Israel. 

5 de Iyar -  do anoitecer de 21/04 ao anoitecer de 22/04/2026

Regina P. Markus - equipe do ETNM


Estamos no mês de Iyar, o mês da esperança, o mês em que a primavera acontece em Israel. Uma estação linda marcada pelas flores e por algumas oliveiras muito especiais. Um mês em que se comemora o dia da Independência do atual Estado de Israel. Este é o terceiro estado judaico dentro das fronteiras da Terra Prometida. Para muitos isto é encarado como uma questão de fé e para outros nem vale mencionar. Quero hoje sair desta armadilha do A versus o Z, do início e do Fim.  Vou usar o olhar de Albert Einstein e de Chaim Weizmann, dois judeus que nasceram e viveram há mais de 1 século e que foram decisivos no estabelecimento do Estado de Israel. São também dois cientistas de destaque que alteraram o curso da história através de suas descobertas e que se respeitavam.

Voltando à armadilha do A versus o Z, Einstein sempre olhava para debates deste tipo como situações que impediam o entendimento dos processos. Estes sempre têm várias faces. E cada tipo de olhar distingue uma realidade. Assim, é abraçada a ideia de que o caos, a confusão, a multiplicidade de opiniões existem. E a relevância relativa de todas as opiniões determinaria o futuro.  

O CAOS É DETERMINISTA - apesar deste fato já ter sido debatido, foi Einstein que escreveu um trabalho de divulgação científica introduzindo cálculos matemáticos complexos que permitiam relativizar o futuro de acordo com os dados.

Albert Einstein era tão aberto a controvérsias que não recebeu o Prêmio Nobel em 1921, quando foi nominado, mas sim em 1922. Isto porque muitos tinham dúvidas da Teoria da Relatividade e acabaram premiando seus achados e estabelecimento da Lei que regular o efeito fotoelétrico. E Einstein segue no seu estilo próprio e contundente. A  Conferência Nobel em 1923 foi intitulada "IDEIAS FUNDAMENTAIS E PROBLEMAS DA TEORIA DA RELATIVIDADE". 

Como bom judeu, não deixou passar a oportunidade de tornar visível a sua descoberta. E também como bom judeu não deixou a sua descendência desprotegida. No documento que atesta o divórcio com Mila Maric, que data de 1919, havia uma cláusula que doava todos os recursos financeiros do Prêmio Nobel que poderia vir a receber. 

O ESTADO DE ISRAEL É O LAR NACIONAL JUDAICO

Einstein se envolve com o sionismo desde seus primórdios e une sua capacidade científica com a formação dos alicerces do Estado de Israel. Foi um dos incentivadores e ativistas para a formação da Universidade Hebraica de Jerusalém (1918), ministrou uma conferência sobre Relatividade em 1923. No dia da Inauguração Oficial em 1 de abril de 1925 estava na América do Sul, em visita ao Brasil e à Argentina. Einstein viajou com Chaim Weizmann pelo mundo em busca de fundos para o estabelecimento das raízes do estado judaico moderno. Doou todo o seu acervo de livros e de correspondências, bem como rascunhos e outros escritos. 

Há muito para escrever e contar destes primeiros tempos. A saga dos chalutzim que emigraram para o Mandato Britânico da Palestina. Em 1917, Arthur James Balfour, Primeiro-Ministro britânico (1902-1905) e Secretário dos Assuntos Estrangeiros (1916-1919), encaminhou uma carta para o Lord Lionel Walter Rothschild, líder das comunidades judaicas no Reino Unido, para ser transmitida à Federação Sionista. Apoia o estabelecimento de um Lar Nacional para o Povo Judeu nas terras do Mandato Britânico da Palestina. Tinha uma ressalva de que nada deveria prejudicar os direitos civis e religiosos das comunidades não judaicas.

HOJE é importante mencionar que na Declaração de Independência do Estado de Israel (1948) também há menção a que todos os habitantes da terra são bem-vindos e serão considerados cidadãos. Naquela época muitas pessoas de diferentes origens conviviam naquelas terras. 

HOJE devemos considerar que o Exército de Israel é formado por cidadãos israelenses de diferentes origens. Árabes israelenses sunitas e cristãos representam 26% dos cidadãos israelenses. Beduínos, drusos, circasianos, bahá'íes e armênios. E muitos destes cidadãos servem ao Exército de Defesa de Israel. Homens e Mulheres. Posições de destaque em comunicação e também em forças de combate e segurança.

A atual guerra, iniciada em 7 de outubro de 2023 pelo grupo Hamas e continuada em diferentes etapas, gerou um grau alto de antissemitismo e uma tentativa de dissociar o sionismo das raízes e aspirações do povo judeu. As duas andam par e passo! Lado a lado, e muitas vezes formando uma argamassa própria para construir o futuro.

Neste mês de Iyar, o mês da esperança para muitos que estão recebendo a primavera, e também para muitos do hemisfério sul que convivem com um outono frutífero, desejo a todos nós:



Regina P Markus




quinta-feira, 16 de abril de 2026

Iachad (juntos - יחד) - por André Naves: Almoço no Oásis

 



SanFran, 20 anos depois... Ou seriam trinta?

De repente o calendário parece que vai se confundindo... Sabe fumaça? Imagina ele sendo enterrado pelas areias de uma ampulheta...

20? 30? Mais? Menos? Será que importa...

La Bohème
La bohème
On était jeunes
On était fous

E de repente o tempo sai da ampulheta... Ele tá nas mesas...

Ontem a gente tava lado a lado, aprendendo como andar, saindo da casca do ovo! Éramos Esperança! Planos! Futuro! Hoje a gente continua se encontrando todo mês... Pensa em beduínos que se reencontram depois da duna...

Os planos? Cada um deles, igual as fumaças do meu velho Gitanes, tomaram rumos inesperados. Possibilidades inimaginadas que se realizam! Quando a gente tinha certezas, do alto de nossa ignorância arrogante, D´us dava risadas! Os caminhos Dele nos levarão a oásis nunca imaginados!

Sim! E eu gosto de pensar assim: nós somos beduínos! A gente sabe que o oásis não é acaso, é travessia. Duna depois de duna, passo após passo, a Esperança no coração e o trabalho na mão.

Esperança sem esforço é miragem. Trabalho sem Esperança é sede.

ESPERANÇAR!

Chega o pastel... Quem compartilha é irmão. E o legal é que a verdade é uma pedra preciosa... Se a gente joga na cara do outro, machuca... Não o irmão! Claro que ele também sente a dor da verdade, mas ele sempre estará lá. O legal dos irmãos é isso... Eles sempre brigam, mas nunca brigam!

— E o Gitanes do Stevie? Ele se achava o Sartre da turma...

— Pior que o Sartre fumava Galoise... Nem isso fazia certo!

— Não importava... Aquela fumaça era minha promessa! Minha possibilidade! Eu enxergava beleza e possibilidade naquela dança cinzenta subindo devagar, tomando rumos imprevisíveis até sumir no ar do mundo.

POSSIBILIDADES!

— Eu nunca fui fumante! Fui da fumaça! Gostava do perfume, do desenho, da coreografia quase sensual daquele corpo leve que se erguia e, antes de desaparecer, nos ensinava o mistério: nem tudo o que existe precisa ser tocado para ser real. Há coisas que não se veem. Se sentem.

— Fumaça é liberdade! Liberdade pro imprevisível. Pra pergunta. Pro Futuro. Eu ainda sou o Sartre da turma.

Hahaha.

— Viver é escolher. E escolher é assumir o peso e a beleza do que ainda não aconteceu. É aguentar o tranco!

— O Acorde de Tristão...

— Não me venha com Wagner! Antissemita! Oportunista! Materialista!

— Não, não, não! A música, não. A música é maior que o homem que a escreveu. O acorde de Tristão abre um portal e, ao mesmo tempo, recusa o fechamento. Ele fica suspenso, interminado, como se dissesse: “Você ainda não terminou de ser”. “Você pode!”

Pensa nisso... Será que isso não é o que somos nós.
Ser humano é não estar pronto. É poder ser tudo: sorriso, lágrimas, trabalho, preguiça, disciplina, displicência, arco-íris, trovão.

É carregar possibilidades... É a fumaça... Memória! Lá vai fumaça...

— Enxergar o futuro... Enxergar não é ver com os olhos. É perceber com a Alma... Com o coração! Com a ação da coragem! É ter humildade pra ver o que ainda pode florescer.

— Pra isso, só tendo uma certeza! D’us conosco! Não é slogan vazio! É com presença! Com trabalho! Com dever! Com disciplina! Se engana quem só vê texto na Torá! Ela é pensamento! É ato. É reflexão. É escolha.

É COMPROMISSO!

— Com o quê?

— Com a responsabilidade. Com a dignidade. Com a escuta. Com a Justiça!

Sem escuta não tem Justiça.

Sem Justiça não tem Dignidade.

Tira a Dignidade... Tudo vira máquina, engrenagem! A vida não foi feita para ser mecanismo. Foi feita para ser encontro.

— A vida é a arte do encontro...

— O piano do Vinícius tinha perfume de whisky... Ele tocava bebendo... A música dele é um brilho embriagado de beleza. O piano perfumado era parte da inspiração.

— Igualzinho a fumaça do meu Gitanes... Ou a mesa da minha avó, um café coado, todo mundo falando ao mesmo tempo... Uma baderna boa!

— Memória é perfume! É fumaça! Fumaça é isso: possibilidade! O subir. O ir. O não se deixar prender...

SILÊNCIO...

— Passou um anjo!

— Quem sabe a vida todinha não é isso? Caminhar pelo deserto, pagando boletos, sorrindo e sabendo que a próxima duna pode ser a última antes do oásis... Por Esperança! Por amor ao que ainda não veio!

— Então, beduínos no deserto?

— Beduínos do Afeto. Beduínos da Palavra. Beduínos que sabem que o Oásis sempre chega!

— Ao Pão!

— Ao Encontro!

— À Memória.

— À Esperança.

— Ao Trabalho!

— Oásis sem caminho é fantasia. Mas caminho com Esperança é destino em construção...

CONSTRUÇÃO!

André Naves

Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Sociais, Inclusão Social – FDUSP. Mestre em Economia Política - PUC/SP. Cientista Político - Hillsdale College. Doutor em Economia - Princeton University. Comendador Cultural. Escritor e Professor.
www.andrenaves.com
Instagram: @andrenaves.def

quinta-feira, 9 de abril de 2026

ACONTECE: Antissemitismo - por que ele persiste?




A guerra, afinal, acabou ou não? Ormuz abriu, fechou ou reabriu? Trump ameaçou de novo? Voltou atrás? O Paquistão intermediou, ou foi a China que empurrou o Paquistão a se meter por que faz de tudo para irritar seu real grande inimigo, a Índia? Milhões de dúvidas em meio a milhares de narrativas da mídia e das redes, dos podcasts… balbúrdia desconexa de palavras que muitas vezes nada contam…

Como engolir uma quebra de trégua iraniana que usa como motivo ataques de Israel ao Líbano quando o próprio governo libanês expulsou o embaixador iraniano e tenta extirpar o câncer Hezbollah que consome o país há mais de 40 anos? Como engolir equiparação de sul do Líbano com Gaza? E, como tolerar a exportação daquele conflito para comunidades em longínquos cantos do mundo como São Paulo ou Rio de Janeiro, onde há lugares em que se você tiver cidadania americana ou israelense é impedido de entrar porque é responsabilizado por uma guerra que muito provavelmente você nem aprova, e antes da qual não te perguntaram coisa alguma? E como não denunciar locais que quiseram imitar isso para lucrar com a publicidade e com “vaquinha”? 

Como escreveu Tony Blair, no Sunday Times, “há uma estranha aliança entre setores da esquerda e o islamismo radical”, é o que temos visto em muitos países e especialmente, porque nos afeta diretamente, aqui no Brasil. As pessoas criticam ataques ao Irã, mas não criticam o Irã pelo que vem fazendo há 50 anos com sua própria população e por financiar organizações terroristas. O dono do bar que fechou a entrada dos mencionados cidadãos é militante do PSOL, o mesmo do atual Ministro-Chefe da Secretaria-Geral da Presidência, e cuja plataforma “se baseia no socialismo democrático, com foco no combate à extrema-direita, defesa de direitos humanos, justiça social e sustentabilidade ambiental”. O partido defende “o fortalecimento de serviços públicos, a reforma tributária progressiva, a valorização do trabalho e o combate às opressões (racismo, machismo, LGBTfobia)”. Mas o combatente militante carioca hostiliza quem ele acusa de representar quem ataca o Irã que, como sabemos, tem uma plataforma e uma ação diária, diametralmente oposta à do seu partido… e outros estabelecimentos seguem essa farsa porque “rende”…

Como lembra o jornalista João Pereira, a esquerda vem fazendo esta aliança da mesma forma que os direitistas nazistas da Alemanha a fizeram com o radicalismo islamico nas décadas de 1920–40, durante o Mandato Britânico na Palestina, representado pelo principal líder religioso e político árabe palestino, o Mufti Haj al Husseini que fugiu para a Alemanha e se encontrou com Hitler. Aquela colaboração política e ideológica foi uma aliança estratégica útil para ambos, que levou à produção de propaganda pró-nazista em árabe (rádio no Mandato), incentivou muçulmanos a lutar ao lado do Eixo, apoiou a formação de unidades muçulmanas nas SS (nos Bálcãs). Embora tenha sido uma aliança oportunista e limitada mostra que “ideologia muitas vezes não resiste ao ao ódio e ao preconceito”. 

E no momento, mais uma vez, atiram-se pedras no bode expiatório de plantão, nos judeus, de qualquer país, qualquer partido, qualquer torcida no futebol… isso contém antissemitismo claro. 

E o antissemitismo começou a ser discutido, ou mais corretamente, tornou-se motivo de gritaria, por causa do Projeto de Lei 1424/26 de 26/3/2026, apresentado pela deputada Tábata Amaral. A maior queixa dos críticos é que propõe que se passe a usar uma clara definição de antissemitismo e adota a da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto, considerada - pela esquerda - ampla demais, ou incluindo casos relacionados à Israel. Alega-se que ele impede críticas “justas” a Israel, quando na verdade o maior problema, a meu ver,  é o oposto: hostilizam-se judeus na diáspora como críticas ao governo de Israel.

O PL ainda inclui exemplos internacionais para orientar educação, políticas públicas e combate ao preconceito. E faz algo muito importante: relembra, para fins educativos, que antissemitismo é crime de racismo, inafiançável, reforçando o entendimento de 2003 do STF. Aproveito para pedir que se informem e votem sobre ele no link: https://www.camara.leg.br/enquetes/2612333 

É importante também acompanhar e apoiar a atuação da Frente Parlamentar Brasil–Israel, grupo informal dentro do Congresso Nacional que reúne parlamentares interessados em fortalecer as relações entre o Brasil e Israel. Desta forma poderemos, de maneira mais efetiva, contribuir para a educação,  e o combate à desinformação e ao próprio antissemitismo. 


Juliana Rehfeld

terça-feira, 7 de abril de 2026

VOCÊ SABIA? - Pessach, a Festa da Inclusão

 



Você sabia que a comemoração de Pessach, festa da Liberdade, é também, e definitivamente, a festa da Inclusão?

E um alerta para a conquista da Liberdade para todos os seres humanos, sem distinções?

Com grande surpresa e encantamento descobri ou me apercebi da veracidade desta afirmação no texto elucidativo e convincente de André Naves, nosso editor companheiro quinzenal desta Newsletter.

Assim sendo, aqui segue sua mensagem de Pessach para nós!


Pessach, a festa da Inclusão



“Ainda que me faltem condições e autoridade para discorrer sobre o tema, já que toda a tradição e sabedoria culturais judaicas foram-me castradas violentamente pelos tribunais inquisitoriais, além de sepultadas pelas poeiras dos séculos e do olvido, arriscar-me-ei a tecer um singelo e humilde comentário acerca de um pequeno, mas fundamental, aspecto da simbologia trazida pela festividade de Pessach.

Pessach é a Festa da Liberdade e também da Inclusão!

É um lembrete perene, e daí sua necessária repetição, de que não há espaço para fermentação e expansão do “eu”. Ao contrário, nossa individualidade, a festa nos lembra, só se completa quando nosso “eu” se dissolve num harmônico “nós”. Ou seja, todos temos nossa essência individual que deve ser potencializada e celebrada, mas nossa dignidade só se perfaz coletivamente, com a pressuposição de que estamos todos juntos, em um mesmo caminho, e devemos cuidar uns dos outros.

Assim como o povo judeu, em sua jornada rumo a Jerusalém, era formado pelas mais diversas individualidades que, com suas diferentes capacidades, atuou mediante o cuidado coletivo mútuo de maneira a potencializar as características e possibilidades pessoais de cada um, nós, em nosso labor constante de aperfeiçoamento devemos buscar apoio nas melhores capacidades coletivas.

Nenhum de nós é tão pequeno que não possa contribuir. Nenhum de nós é tão poderoso que não precise de algum auxílio!

Somos diferentes, somos diversos, somos únicos. Somente com a união de nossas melhores capacidades conseguiremos, com sucesso, alcançar nossos objetivos finais!

Chag Pessach Sameach!”

ANDRÉ NAVES


Especialista em Direitos Humanos e Sociais.

Defensor Público Federal. Escritor, Palestrante e Professor. Conselheiro do Chaverim, grupo de assistência às pessoas com Deficiência. Comendador Cultural.

Colunista do Instituto Millenium, além de diversos outros meios de comunicação. www.andrenaves.com






quinta-feira, 2 de abril de 2026

ACONTECE: Pessach, Passagem Liberdade, Responsabilidade

Regina P. Markus

04 de abril de 2026

O jantar de Pessach é chamado de Seder. Pode ser traduzido como Ceia ou como Ordem. É uma noite que segue um ritual estabelecido há milênios: judeus do mundo inteiro, de todas as raças e cores, sentam-se à mesa e seguem um ritual que se assemelha. Mas não é igual. Existem diferenças entre o que é feito pelos judeus das mais diferentes origens. No entanto, as diferenças são superadas por um fio condutor comum. Podemos aqui lembrar que para ter ordem é necessário definir a desordem e que o ritmo entre as duas fases de um ciclo torna estes opostos parceiros. A vida necessita do alerta e do sono. Em todos os locais o Seder começa com a leitura da Hagadá. O livro que contém uma ordem baseada em perguntas e respostas e na constatação das diferenças entre as pessoas e as histórias. Como dizem, quem conta um conto aumenta um ponto. E a cada ano, em cada família e em cada comunidade há sempre algo especial e diferente, que faz com que lembremos de fatos pontuais que caracterizam o momento. Ao mesmo tempo, participamos da corrente do tempo, que nos dá a certeza de que contar a história da saída do Egito e da formação do povo judeu é o nosso legado para as próximas gerações. As crianças e jovens que estão à mesa se lembram com carinho de cada ano.

O jantar de Pessach também é ritual. E este começa a ser preparado muitos dias antes. O grande toque é a limpeza do “chametz”. A retirada da casa dos alimentos que contêm farinha de trigo e fermento. Isso nos lembra que na saída do Egito não havia farinha de trigo e que a saída tinha que ser tão rápida que não deu tempo de fermentar o pão. Foram levados suprimentos de pão não fermentado, a matzá. 

E como fica o Shabat da semana de Pessach, Shabat Chol ha Moed, isto é, o Shabat que cai nos dias intermediários da festa? Este também é especial e vale lembrar que as leituras da Torá e da Haftará (profetas) saem do seu ritmo e buscam passagens que “falam” com a mensagem de Pessach. São lidos os textos de Êxodo 33:12 – 34:26. Esta passagem aborda os pedidos de Moisés após o episódio do Bezerro de Ouro e a renovação das Tábuas da Lei, mencionando também as três festas de peregrinação. Moisés intempestivamente impede que Adonai destrua o povo. Não foi uma súplica, foi uma chamada à razão. E HaShem volta atrás, criando caminhos para superar o medo e a desconfiança. Na última leitura, chamada Maftir (Números 28:19-25), são enumeradas as oferendas específicas para os dias de Pessach. 

A leitura dos Profetas (Haftará) encaixa sob medida no espírito de Pessach (Ezequiel 37: 1-14). O profeta é levado a um vale com ossos secos e Adonai pergunta se aqueles ossos podem voltar a viver. E diz a profecia que os ossos são cobertos com tendões, carne e pele. Quando a brisa (vento) entra por suas narinas, todo um exército se põe de pé. Em hebraico, Ruach (ch com som de r) é a palavra para vento, sopro e alma. E é neste texto que Adonai explica que os ossos representam os descendentes de Israel, que se sentiam sem esperança, serem acordados e estarem prontos para voltar e lutar por sua terra. Um pequeno território a ser deixado como legado para as futuras gerações.

E este é o espírito de Pessach:

Acordar todos para transmitir um legado importante às gerações futuras.

UMA NAÇÃO ENTRE AS NAÇÕES 

A Deputada Carla Dickson e o Senador Carlos Viana convidam para celebrar, na Câmara dos Deputados, em Brasília, no dia 15 de abril, a Frente Parlamentar Brasil-Israel. Esta frente é composta por 212 parlamentares que reconhecem o direito do povo judeu por sua terra ancestral. Nesta semana também seguimos na expectativa dos desdobramentos da Guerra. Os israelenses seguem com a vida sendo perturbada por objetos voadores de diferentes classes. Hezbollah, o grupo que atua no sul do Líbano, está muito ativo e causando vítimas entre israelenses e libaneses. O espírito de resiliência segue e nesta semana ouvir sobre os preparativos para o Seder e para a Páscoa traz esperança.

Desejo um Chag Sameach para todos que estão comemorando e o Legado da Vida para a humanidade.

Regina P Markus 











terça-feira, 31 de março de 2026

Iachad (juntos - יחד) - por André Naves: Banquete de sonhos

 



Homenzinho! Marmanjo! Pela primeira vez eu tava lá... Eu tinha uma cadeira... Era minha! Meu lugar! Homenzinho! Marmanjo!

A meninice era uma névoa que passou... Era aquela neblina da manhã que anunciava o Sol forte a aquecer e iluminar.  Claro que ninguém cresce de uma hora pra outra... Crescer, amadurecer, é coisa do tempo... Não é coisa do relógio não! É coisa do Tempo! Da Alma!

Eu ainda gostava dos Comandos em Ação, de jogar bola, de correr atrás dos bichos, de trepar nas árvores... Mas, naquele ano, a mesa tinha uma cadeira só para mim: eu não ficava mais naquela salinha pintando, brincando de massinha e ouvindo historinha! Eu não ficava mais no colo da minha mãe nem da minha avó!

A salinha da criançada... Brincadeiras, historinhas, desenhos, o reino da imaginação!

E eu, que já me sentia quase parte do mundo dos grandes, olhava pra elas com uma espécie de ternura condescendente. A verdade é que os pequenos têm seu próprio reino, mas o reino dos pequenos também prepara o olhar para o mistério dos grandes.

Talvez seja assim que a memória trabalha.

Eu tinha uma cadeira. Um Lugar! Uma VOZ!

Tava lá de terninho, todo penteado e arrumadinho.

Era o meu dia! O meu, o nosso, banquete!

No meio da mesa, uma travessa de prata. Majestade travessa! Era um símbolo: porções pequenininhas e memória gigantesca. Era o mapa do tesouro! Ordem...

E quando foram colocando suco na minha tacinha? Minha avó ralhou! Se eu era, já, um homenzinho, se eu tinha um lugar, uma voz, que eu fosse respeitado! Um golinho não mata ninguém!

Pertencimento... Eu fazia parte da cadeia de união ligando gerações... Eu, acolhido, pertencente, responsável!

Palavras, sons, aromas, músicas, sabores... Eu não conhecia nada, mas entendia tudo! E, assim assim, minha consciência avoou!

Sabe meu sentimento? Era meio que como se tudo aquilo já tivesse chegado antes em mim em alguma outra vida e agora a gente tava lá de novo, velhos amigos que se reconhecem e se reencontram. Só faltava o bolo de fubá e o cafezinho...

Acho que todo mundo já sentiu aquele arrepio, aquela sensação estranha, aquela gastura de pensar que a gente tá em dois lugares ao mesmo tempo. É meio que sonhar acordado... Ter os olhos abertos para uma consciência que se expande. Como se o presente abrisse uma brechinha e, de repente, o pensamento entrasse por ela, trazendo junto os sentimentos e as memórias...

SAUDADES!

E o jantar foi indo... Indo... Cada amigo trazia o melhor de si... Pega um pouquinho disso! Essa receita, minha avó fazia! Come mais! Ué, não tava bom? Você pegou tão pouquinho...

Sabe o mais curioso? É que isso vai muito além de qualquer comida! No fim, é um esforço pra oferecer à mesa algo mais do que matéria: oferecer presença, oferecer cuidado, oferecer o que cada um tem de mais bonito!

É claro que tava cheio de delícias! Mas o sabor principal, aquele mais gostoso que fica na boca, não tava no prato... Tava em cada gesto! O valor era um modo de dizer “eu também faço parte”!

De repente a realidade se misturava aos sonhos daquele banquete. O que é real? O que é sonho? Imaginação? Via passado. Via modernidade! Via pessoas vestidas e vivendo como se tivessem saído de milênios. Via o futuro entrando pela porta da imaginação.

 Vi desertos, vi cidades! Vi antiguidades e modernidades! Vi os antigos e os modernos... Era um novo tempo, sem a rigidez da razão, mas com a sensibilidade da pele, do entendimento, do coração! Passado e futuro entrelaçados, como na rosca das sextas...

Acho que foi pela porta aberta, mas pode ser pela abertura do espírito, que entrou aquela sensação tão difícil, mas tão fácil, de explicar... Uma sensação de bem-aventurança, de Justiça, de Paz.

Uma paz funda. Daquelas que a gente reconhece antes de saber falar...

Justiça e Paz não são apenas ideias de um futuro. Elas já habitam o passado, já moram na memória, já estão no presente sempre que pessoas se reúnem para repartir sentido. Sonhar Juntos!

PAZ!

Esse é o ponto mais bonito daquele banquete! A comida era um detalhe, um enfeite! No fim, o que vale é o congraçamento. É a União. É a Harmonia. Sempre que a gente compartilha o pão, a mesa, a gente alimenta os outros! A gente dá, e recebe, a Vida! E dar a vida não é libertar? Não é dar a Liberdade?

Sabe? Naquele banquete era como se cada alimento dissesse que ninguém se sustenta sozinho. E que a felicidade mais profunda nasce da comunhão!

No fim, o prato de prata no centro não era enfeite. Era história! As pequenas porções não eram apenas comida. Eram lembrança! O vinho era passagem. E a cadeira que me coube, naquela noite, foi muito mais que uma cadeira: foi o pertencimento ao mistério de uma vida que se transmite.

De geração em geração...

Afinal, a existência é isso mesmo: uma mesa onde o passado senta juntinho com o futuro! A gente é feito de herança e promessa. De memória e desejo. De mãos que nos antecederam e de gestos que ainda vamos oferecer.

E, quem sabe, a maior beleza esteja exatamente aí: perceber que a vida, quando é partilhada com verdade, deixa de ser um amontoado de dias e se torna banquete.

Um banquete de sonhos.

Um banquete de lembranças.

Um banquete onde a alma, enfim, se reconhece em casa.

André Naves

Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Sociais, Inclusão Social – FDUSP. Mestre em Economia Política - PUC/SP. Cientista Político - Hillsdale College. Doutor em Economia - Princeton University. Comendador Cultural. Escritor e Professor.
www.andrenaves.com
Instagram: @andrenaves.def

 

sexta-feira, 27 de março de 2026

Acontece: Parece, mas o tempo não para

 

Por Juliana Rehfeld




Novamente entramos naquela situação em que o tempo parece parar: a guerra em curso entre EUA e Israel de um lado e Irã do outro, que envolve 11 países entre direta, indiretamente e em nível político militar, muda de tom, tem altos e baixos em termos do preço do petróleo e das baixas propriamente ditas, e segue sem cessar; dormimos e acordamos com ela. A rigor, israelenses nem dormem …

O que pareceu ser uma guerra relâmpago, com vitória estrondosa como a operação de 12 dias do ano passado, acabou se complicando… 

Mas o que se repete agora é a reverberação, na imprensa e nas redes sociais, que acusa Israel e EUA pela iniciativa e força, mas não critica o regime iraniano pelo que ele sempre foi: ditatorial e sanguinário. Não se ouvem, como não se ouviram nos últimos quase cinquenta anos, os brados pelo desrespeito dos aiatolás aos direitos humanos. O permanente discurso de dois pesos e duas medidas é exaustivo e deprimente…

Trazemos aqui várias falas de iranianos, libaneses e ativistas por direitos humanos que mostram o que está em jogo e provam a legalidade dos dos ataques contra o Irã, vídeos esses que nunca são mostrados ou cujos argumentos nunca atingem as telas da Globo, da Band, as ondas das rádios mais ouvidas…

Mas de fato o tempo não está parado. A ONU continua trabalhando para votar resoluções que aprofundam injustiças ao invés de moções que ajudem de fato a corrigi-las: ontem foi novamente marcado,  em 25 de março, o Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravidão e do Tráfico Transatlântico de Escravos. Justo. Criado em sequência às Conferências em Durban, sobretudo a de 2001, na qual participaram 160 países e houve consenso para a Declaração e Programa de Ação que denunciou o racismo e a xenofobia, confirmou a escravidão como grande crime contra a humanidade e previu ações  de educação e de reparação que se desenrolam até hoje. Justo.

Em 2001 Israel e EUA se retiraram de Durban antes da declaração denunciando o posicionamento de equiparação do sionismo ao racismo, várias declarações antissemitas e hostilidade contra o país judeu. As ações afirmativas contra a escravidão e contra o racismo ainda não resultaram em justiça para os afetados, até nossos dias ainda há muito que “consertar”… mas uma coisa não mudou, ou piorou: o antissemitismo e a particular obsessão em hostilizar Israel. Neste 25/3/26, conforme publicado pela Agência Brasil de notícias,  a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou uma resolução, proposta por Gana, que “reconhece o tráfico transatlântico de africanos escravizados como o mais grave crime contra a humanidade já cometido”. 

Desta vez 123 países foram a favor, sobretudo os africanos e os BRICS, 52 países se abstiveram, na maioria os europeus e Canadá, Japão e Austrália, e apenas 3 votaram contra: EUA, Argentina e Israel. Foi a primeira vez que o adjetivo “mais grave” foi agregado à expressão “crime contra a humanidade”.  É sutil a diferença, não? Passou despercebida? NÃO. Os tempos mudaram! 

A maioria das abstenções e o voto contra dos EUA refletiram discordâncias quanto à magnitude das medidas de reparação propostas mas o voto da Argentina e de Israel foi indignação pela proporção do julgamento. Comparar tragédias e crimes exige estômago e paciência, não deveria ser necessário fazê-lo, mas a dosimetria de penas no judiciário é obrigada a entrar em detalhes. Mas, como qualquer horror pode superar a sistemática máquina assassina nazista? Mesmo o horrendo 7 de outubro foi equiparado por alguns mas negado pela maioria! 

Infelizmente, mas obrigatoriamente, mais uma votação isola Israel e “dá pano pra manga” para as próximas manifestações antissemitas, para longas hipócritas falas de jornalistas mal intencionados, ou apressados e superficiais…

Aconteceu e continua acontecendo. Desnecessário repetir que precisamos redobrar a “educação “ de quem “tropeça desavisadamente” nas notícias que aparecem na mídia e totalmente desconhece, por falta de acesso, as que não aparecem…

Parece, mas o tempo não para.

Shabat Shalom