Homenzinho! Marmanjo! Pela primeira vez
eu tava lá... Eu tinha uma cadeira... Era minha! Meu lugar! Homenzinho!
Marmanjo!
A meninice era uma névoa que passou...
Era aquela neblina da manhã que anunciava o Sol forte a aquecer e iluminar. Claro que ninguém cresce de uma hora pra
outra... Crescer, amadurecer, é coisa do tempo... Não é coisa do relógio não! É
coisa do Tempo! Da Alma!
Eu ainda gostava dos Comandos em Ação, de
jogar bola, de correr atrás dos bichos, de trepar nas árvores... Mas, naquele
ano, a mesa tinha uma cadeira só para mim: eu não ficava mais naquela salinha
pintando, brincando de massinha e ouvindo historinha! Eu não ficava mais no
colo da minha mãe nem da minha avó!
A salinha da criançada... Brincadeiras,
historinhas, desenhos, o reino da imaginação!
E eu, que já me sentia quase parte do
mundo dos grandes, olhava pra elas com uma espécie de ternura condescendente. A
verdade é que os pequenos têm seu próprio reino, mas o reino dos pequenos
também prepara o olhar para o mistério dos grandes.
Talvez seja assim que a memória
trabalha.
Eu tinha uma cadeira. Um Lugar! Uma
VOZ!
Tava lá de terninho, todo penteado e arrumadinho.
Era o meu dia! O meu, o nosso,
banquete!
No meio da mesa, uma travessa de prata.
Majestade travessa! Era um símbolo: porções pequenininhas e memória gigantesca.
Era o mapa do tesouro! Ordem...
E quando foram colocando suco na minha
tacinha? Minha avó ralhou! Se eu era, já, um homenzinho, se eu tinha um lugar,
uma voz, que eu fosse respeitado! Um golinho não mata ninguém!
Pertencimento... Eu fazia parte da
cadeia de união ligando gerações... Eu, acolhido, pertencente, responsável!
Palavras, sons, aromas, músicas,
sabores... Eu não conhecia nada, mas entendia tudo! E, assim assim, minha
consciência avoou!
Sabe meu sentimento? Era meio que como
se tudo aquilo já tivesse chegado antes em mim em alguma outra vida e agora a
gente tava lá de novo, velhos amigos que se reconhecem e se reencontram. Só
faltava o bolo de fubá e o cafezinho...
Acho que todo mundo já sentiu aquele
arrepio, aquela sensação estranha, aquela gastura de pensar que a gente tá em
dois lugares ao mesmo tempo. É meio que sonhar acordado... Ter os olhos abertos
para uma consciência que se expande. Como se o presente abrisse uma brechinha e,
de repente, o pensamento entrasse por ela, trazendo junto os sentimentos e as memórias...
SAUDADES!
E o jantar foi indo... Indo... Cada amigo
trazia o melhor de si... Pega um pouquinho disso! Essa receita, minha avó
fazia! Come mais! Ué, não tava bom? Você pegou tão pouquinho...
Sabe o mais curioso? É que isso vai
muito além de qualquer comida! No fim, é um esforço pra oferecer à mesa algo
mais do que matéria: oferecer presença, oferecer cuidado, oferecer o que cada
um tem de mais bonito!
É claro que tava cheio de delícias! Mas
o sabor principal, aquele mais gostoso que fica na boca, não tava no prato... Tava
em cada gesto! O valor era um modo de dizer “eu também faço parte”!
De repente a realidade se misturava aos
sonhos daquele banquete. O que é real? O que é sonho? Imaginação? Via passado.
Via modernidade! Via pessoas vestidas e vivendo como se tivessem saído de milênios.
Via o futuro entrando pela porta da imaginação.
Vi desertos, vi cidades! Vi antiguidades e
modernidades! Vi os antigos e os modernos... Era um novo tempo, sem a rigidez
da razão, mas com a sensibilidade da pele, do entendimento, do coração! Passado
e futuro entrelaçados, como na rosca das sextas...
Acho que foi pela porta aberta, mas
pode ser pela abertura do espírito, que entrou aquela sensação tão difícil, mas
tão fácil, de explicar... Uma sensação de bem-aventurança, de Justiça, de Paz.
Uma paz funda. Daquelas que a gente
reconhece antes de saber falar...
Justiça e Paz não são apenas ideias de
um futuro. Elas já habitam o passado, já moram na memória, já estão no presente
sempre que pessoas se reúnem para repartir sentido. Sonhar Juntos!
PAZ!
Esse é o ponto mais bonito daquele
banquete! A comida era um detalhe, um enfeite! No fim, o que vale é o congraçamento.
É a União. É a Harmonia. Sempre que a gente compartilha o pão, a mesa, a gente
alimenta os outros! A gente dá, e recebe, a Vida! E dar a vida não é libertar?
Não é dar a Liberdade?
Sabe? Naquele banquete era como se cada
alimento dissesse que ninguém se sustenta sozinho. E que a felicidade mais
profunda nasce da comunhão!
No fim, o prato de prata no centro não
era enfeite. Era história! As pequenas porções não eram apenas comida. Eram
lembrança! O vinho era passagem. E a cadeira que me coube, naquela noite, foi muito
mais que uma cadeira: foi o pertencimento ao mistério de uma vida que se
transmite.
De geração em geração...
Afinal, a existência é isso mesmo: uma
mesa onde o passado senta juntinho com o futuro! A gente é feito de herança e
promessa. De memória e desejo. De mãos que nos antecederam e de gestos que
ainda vamos oferecer.
E, quem sabe, a maior beleza esteja
exatamente aí: perceber que a vida, quando é partilhada com verdade, deixa de
ser um amontoado de dias e se torna banquete.
Um banquete de sonhos.
Um banquete de lembranças.
Um banquete onde a alma, enfim, se
reconhece em casa.
André Naves
Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Sociais, Inclusão Social – FDUSP. Mestre em Economia Política - PUC/SP. Cientista Político - Hillsdale College. Doutor em Economia - Princeton University. Comendador Cultural. Escritor e Professor.
www.andrenaves.com
Instagram: @andrenaves.def













