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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Refletindo sobre "Os Tempos"

Por Regina P. Markus

05/02/2026



Esta semana comemoramos Tu B'Shvat (15 de Shvat), o Ano Novo das Árvores. Esta data no calendário judaico é citada na Mishná (Tratado Rosh Hahaná 1:1). É um momento em que se contam os anos para os dízimos dos frutos e as leis que proíbem de comer frutos nos três primeiros anos de produção de uma árvore. Por que esperar 3 anos antes de colher os frutos? Assim como nós humanos, as árvores precisam desenvolver mecanismos de defesa quando uma parte do corpo é cortada. Qualquer um que já seguiu o desenvolvimento de uma árvore percebeu que leva vários anos para que frutos comecem a ser produzidos. E se estes forem colhidos assim que aparecerem, surge uma seiva no local de retirada. Parece que a árvore está sangrando. Anos depois, o fruto pode ser colhido sem nenhuma manifestação da árvore. É o sistema de coagulação sendo desenvolvido. Assim como em humanos, leva anos!

Consultando a IA, temos a informação clássica de que a Mishná, compilação das leis orais, foi escrita no ano 200 da Era Comum (E.C.) pelo Rabino Yehudá haNassi. É formada por seis volumes, conhecidos como ordens, e é a base do Talmud. Cada livro dedica-se a um aspecto das regras do judaísmo: (1) leis agrícolas e orações; (2) Shabat e feriados; (3) casamento, divórcio e contratos; (4) leis civis e penais; (5) doações e Templo; (6) leis de pureza e rituais. Poderia também ter apenas escrito com o que estudamos nas escolas judaicas, mas fica o registro do conhecimento universal do sistema.

Plantar árvores, comer refeições saudáveis e apresentar lindos arranjos de frutas e vegetais para que todos, inclusive as crianças, apreciem estes alimentos é uma antiga tradição. E fica sempre o destaque que estas regras não entram nas leis de cashrut, apresentadas no livro 6, porque devem pertencer a toda a humanidade. 

Ao ler com mais cuidado a Torá, encontramos em Dvarim (Deuteronômio 8:7-9) as seguintes palavras "Porque o Eterno, teu D'us, te traz a uma boa terra... terra de trigo e cevada, de figueira e de romeira; terra de oliveira que dá azeite, e de tamareira. E seguindo a leitura, encontramos as regras do plantio e da colheita e entre elas a regra do Sétimo Ano "Shemitá" no qual a terra deve descansar.

7 espécies - Shivat Haminin

Aqui, faço um retorno aos nossos dias, com o olhar voltado para Eretz Israel. 

O dia 7 de outubro de 2023 entrou para a história do 3º Estado de Israel como um momento de grande vulnerabilidade. Uma invasão feita pelo Hamas a partir de pessoas que já estavam dentro de Israel e aquelas que vieram da Faixa de Gaza. Kibutzim, moshavim e cidades foram invadidos. E também entraram no Festival Nova. Nova é um festival de música que reúne fãs do mundo inteiro. No verão de 2023 este festival ocorreu em Israel. Aquele foi um dia em que atrocidades foram cometidas e reféns foram levados de Israel. Os cidadãos israelenses após o choque inicial reagiram de forma a acolher os sobreviventes, deslocar pessoas para lugares seguros e muito mais. 

A seguir vieram os ataques do Hezbollah, da Jirad Islâmica e dos Houtis. Combater as várias frentes, prover vida segura aos atingidos. Iniciar reconstrução e desenhar um futuro que superasse estes momentos foi de grande importância. Paralelamente, era necessário recuperar os vivos e os mortos de todas as nacionalidades que haviam sido levados para Gaza. "Bring Them Home" foi um mote nacional e internacional. Uniu judeus e justos de todo o planeta. Finalmente, no dia 26 de janeiro de 2026, após 843 dias, os restos mortais de Ran Givili Z'L foram recuperados pelo Exército de Defesa de Israel (IDF). Encerra-se um capítulo da história.

O Irã, governado por ayatolás desde 1979, declarado inimigo de Israel, atacou com drones de longa distância durante 12 dias (12 a 24 de junho de 2025). A maioria dos drones foi abatida antes de chegar em território israelense. Os danos materiais que ocorreram foram importantes, mas minimizados pela capacidade de defesa. 

Chegamos então ao período em que comemoramos a volta de todos os reféns, inclusive de dois que estiveram em Gaza desde 2014. Mas ainda há a ameaça do Irã continuar atacando. 

E como chegarmos à PAZ? Na última reunião do Fórum Econômico Mundial (WEF) em Davos, Suíça, concentrada no tema "Um Espírito de Diálogo", o presidente dos EUA, Donald Trump, oficializou a criação do Conselho da Paz, um órgão internacional desenhado para supervisionar a reconstrução e a segurança da Faixa de Gaza e as fronteiras israelenses e egípcias. Na oportunidade Jared Kushner apresentou um projeto de longo prazo para reconstrução de Gaza. A grande imprensa focou na proposta de construção de uma infraestrutura hoteleira de alto luxo para dar sustentabilidade econômica, aproveitando as belezas naturais da região. Destaco aqui que a linha do tempo para a reconstrução inicia-se com a construção de habitações, escolas, hospitais e equipamentos sociais e de recreação nas áreas em que o Hamas não mais atua. Assim, inicialmente é proposto criar condições de vida e reativar a agricultura local para prover autosustentabilidade básica. É importante lembrar que esta zona era o pomar de Israel antes de 2005, quando lá habitavam árabes e judeus. Oxalá, estes projetos possam ser discutidos e implementados de forma harmônica, permitindo que as populações possam ter uma vida livre do ódio fomentado.

O FUTURO

Ao chegar em Israel pelo Aeroporto Ben Gurion, vemos fotos aclamando a vida dos que voltaram. Recuperação, família, integração! Estas são palavras do momento.

Israel está sendo integrado na sociedade e as comunidades judaicas ao redor do mundo encontrando os pontos de união com a sociedade israelense. 

Fica cada dia mais evidente que a sociedade israelense é formada por várias etnias. Algo que salta aos olhos é a quantidade de judeus israelenses de todas as idades que estão aprendendo árabe. Tive a oportunidade de interagir com árabes israelenses que estavam muito orgulhosos de ver seu idioma sendo entendido e apreciado por pessoas do dia a dia. 

Israel continuará sendo um "melting pot". Um conglomerado de pessoas que mantém a sua própria identidade ao mesmo tempo que ganham pertencimento em uma nação que sabe ser um diferencial na humanidade.

Ser um povo entre as nações é uma característica antiga do Povo Judeu. Ser uma nação que congrega povos é uma forma nova de encarar o único Estado Judeu no mundo. 


Le Dor va Dor - de geração em geração


Boa Semana!








quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Iachad (juntos - יחד) - por André Naves: Roda viva

 



        "Shabat Shalom"!

Hora do descanso!

Desligo o computador. Vejo meu próprio rosto refletido na tela escura... É hora...

Vou feliz até a sala. Ligo o som. “Marcïa Baila”, dos “Les Rita Matsuoko”. Ana Rosa sorri e dança. O jantarzinho especial já perfuma o ar. Vamos acender as velas? A Luz dança...  Fé demais não cheira bem... Nem de menos... Ela tem sua medida... Não é um incêndio! É uma prática de constância.

Sentamos. Vamos pro sofá. Eu confesso, sem a menor culpa intelectual, que sou noveleiro. Ligo no Plin-Plin. "Coração Acelerado". Acompanho os desencontros de Agrado Garcia e João Raul. Me divirto, torço, julgo.

Fico pensando no "Vale a Pena Ver de Novo". Por que reprisamos histórias cujos finais já conhecemos? Talvez porque a vida exige a repetição para que a alma finalmente enxergue o que os olhos apenas viram.

Na primeira vez que tomamos conhecimento de qualquer coisa, nosso coração ainda é duro. É pedra bruta, gritando de imediato, sem nem pensar, quem é o vilão e quem é o herói. Somos juízes implacáveis das circunstâncias alheias. Mas o tempo... ah, o tempo é o grande alquimista.

Daqui a alguns anos, ao rever a mesma cena, o vilão de hoje poderá me parecer um herói debochado... Talvez uma alma ferida. O erro imperdoável da Odete Roitman talvez seja só uma gracinha fora de hora. A repetição tira nossa armadura, sabe aquela arrogância?

A Natureza também é sábia pra quem quer enxergar: o Sol nasce todo dia, as estações giram em círculos... Se engana quem pensa que seja falta de criatividade do Criador. É paciência com a criatura!

D'us repete a lição até que a aprendamos.

Às vezes, a gente se assusta com novidade... Sabe como é, né? No escuro, todos os gatos são pardos... Daí, a gente que não entende vai lá e reclama! A vida é assim... Parece uma prosa concreta. Pedra da realidade. Mundão áspero, injusto. Mas só depois, quando a gente cai em si, olha para trás no retrovisor dourado da memória, é que a gente se reconcilia.

É nessa hora que a festança começa!

É aí que a gente CONCORDA!

Vamos pensar, juntos, na palavra CONCORDAR?

É cum (com) + cordis (coração). Concordar é colocar os corações juntos. É alinhar o compasso do meu peito com o ritmo da existência. É ser harmonia na realidade.

Quando a nossa juventude é uma tempestade impetuosa, a gente só quer que a realidade concorde conosco. Depois que o mundo gira e o outono d´alma vem, aprendemos a concordar com a vida. Enxergamos Unidos. Fazemos uma sociedade com D'us, aceitando que Ele é o Roteirista e nós, atores que, aos poucos, compreendem a complexidade da trama.

O Tempo, dizem, gasta as coisas... Tem caboclo que até fala na traça do tempo... Na poeira da memória! Coisa de mané incauto! Eu prefiro dizer que o tempo amarela, doura! É o amarelo que transforma tudo em ouro! Tempo é o Midas que deu certo!

Ele vai lá e arredonda as quinas cortantes das nossas certezas. Ele derrete a cera dos nossos ouvidos e abranda a dureza do nosso coração, transformando a pedra da lei na carne da compaixão.

Aqui, vendo a novela abraçadinho com a Ana, posso afirmar: a repetição é polimento. A gente “revive” a mesma cena, “ressente” a mesma dor, “rerri” da mesma piada, até que um dia, num estalinho, a gente não apenas vê a circunstância.... A gente enxerga...

E concorda!

André Naves
Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Sociais, Inclusão Social e em Economia Política.
www.andrenaves.com
Instagram: @andrenaves.def

 

        

ACONTECE: Coincidências

 

Por Juliana Rehfeld

Esta semana, coincidências. Isso, em uma história de mais de 5700 anos, não é tão difícil assim de acontecer… 

Em 27/jan - dia da lembrança do Holocausto - celebramos 81 anos da libertação do complexo de concentração e extermínio Auschwitz-Birkenau pelo exército “vermelho” (ucranianos!) revelando à humanidade quão desumano foi este período, até onde a desumanidade da humanidade pode chegar… embora este não tenha sido o primeiro campo libertado e relatos de violência extrema e abundante tivessem surgido nas notícias, foi a entrada neste complexo que trouxe a concretude da “fábrica de matança” nazista, “foi o ponto de virada moral e histórico, quando a negação deixou de ser plausível”. Trouxe imagens que, mesmo já repetidamente expostas desde então em prosa e vídeo, mais nos assombravam até hoje… ou, corrigindo, até 7 de outubro de 2023, quando eventos mais horríveis ainda foram filmados e exibidos com orgulho pelo Hamas.

Na véspera, em 26/jan, o último corpo de um refém israelense mantido em Gaza, identificado como o primeiro-sargento Ran Gvili, foi recuperado pelas Forças de Defesa de Israel e trazido de volta. Acabou uma guerra, encerramos um processo de luta que, no entanto, nunca terminará…

As datas ficam marcadas como fechamento de um pesadelo mas o luto, a dor da perda, nunca terminará. O assombro em relação ao que o ser humano é capaz de fazer persiste mas nos unimos, nós que somos parte desta história, por herança ou empatia, ou simplesmente consciência, e dizemos Nunca Mais! E por um tempo, acreditamos nisso!




Penso no que ambas as datas trazem com força que é o resgate de corpos. É fundamental, para todas as culturas, mas sobretudo para a judaica, concretizar estas mortes e resgatar os corpos. E assim honrar a vida dos mortos. No Holocausto isso evidentemente não foi possível, pela quantidade e pelo método das câmaras de gás e cremação, e isso foi tratado de modo magistral na construção desde 1953 do Museu Yad Vashem, no Monte da Recordação em Jerusalém. Há uma torre de 21 metros de altura lembrando as chaminés mas uma claraboia no alto faz entrar a luz que simboliza a teimosa esperança de que Nunca Mais. E uma pira eterna (Esh Tamid) localizada no centro da Sala da Memória queima em memória das vítimas do Holocausto. A pira eterna é sempre usada para simbolizar a eterna presença de Deus. E muitos se perguntam se ele estava presente no Holocausto enquanto muitos se perguntam onde estava o homem…




O museu e seu nome são uma belíssima e comovente tradução arquitetônica moderna de um versículo bíblico, Isaías. 56.5 - 

‎וְנָתַתִּי לָהֶם בְּבֵיתִי וּבְחֹמֹתַי יָד וָשֵׁם טוֹב מִבָּנִים וּמִבָּנוֹת שֵׁם עוֹלָם אֶתֶּן־לוֹ אֲשֶׁר לֹא יִכָּרֵת

Venatatti lahem beveti uvchomotay yad vashem tov mibanim umivanot shem olam etten-lo asher lo yikkaret.

“Também lhes darei na minha casa e dentro dos meus muros um lugar e um nome, melhor do que o de filhos e filhas; um nome eterno darei a cada um deles, que nunca se apagará." 

Nunca apagaremos o nome de quem foi morto no genocídio nazista, ou na barbárie de 7 de outubro e sua sequência.

Resgatar os corpos concretiza o “ninguém será deixado para trás”, que é uma obrigação moral, religiosa e nacional. O resgate de reféns é mandamento religioso (Pidyon Shvuyim), um enterro digno é dever sagrado (Kavod HaMet). Por isso para Israel, trocas desproporcionais são aceitáveis e há grande pressão pública por cada indivíduo. 

O corpo não é um objeto descartável. Ele foi a “morada” de uma vida, de uma história, de uma neshamá.

Resgatar o corpo é afirmar: essa pessoa importa, até o fim.

Enterrar permite à família fazer shivá - os sete dias de despedida por toda a família, com a presença da comunidade, fazendo um fechamento, uma “cura” da dor com apoio da comunidade. 

Então, resgatar o corpo de reféns mortos não é só um ato religioso ou político — é um ato civilizatório.

É afirmar que mesmo diante da barbárie, há limites que não aceitamos cruzar.




Em 26/jan o país inteiro acompanhou o caminho do caixão de Ran Gvili, que tinha só 24 anos e morreu em combate no próprio dia 7/outubro/23, desde a entrada a partir de Gaza até sua cidade onde foi enterrado. E o presidente Herzog pediu perdão à família, e às demais famílias de reféns e de mortos no fatídico dia 7 porque o governo não conseguiu protegê-los e mantê-los vivos. Netanyahu rezou o “Sheheianu”, celebrando que chegamos vivos para ver este “momento de fechamento”... ele que é formalmente acusado por muitos como o grande responsável pelo não preparo contra o ataque, pela demora e o fracasso nas negociações e no resultado final - vide vídeo de uma acusação formal na Knesset. 

Se para nós - envolvidos na história por herança, empatia ou simplesmente consciência - libertar campos e resgatar corpos concretiza a violência que o povo judeu tem sofrido na modernidade, isso ainda não parece suficiente para uma opinião pública honesta, forjada por uma imprensa, ou mídia, perversa por desinformação,  omissão e irresponsabilidade. E esta é a pior das coincidências… coincidem e se empilham os danos à verdade cometidos por essa mídia. 

Ainda há meios de comunicação que põem em dúvida os fatos de 7 de outubro, ou que os minimizam em relação à resposta de Israel em Gaza. E há importantes meios de comunicação que foram esta semana incapazes de dizer que seis milhões de mortos no Holocausto eram judeus, disseram que eram pessoas, omitindo a principal razão por aquilo ter sido um genocídio, e ainda desinformando que de fato houve muitos mais mortos do que os seis milhões… 

E onde estão as multidões que protestaram contra os ataques a civis palestinos em Gaza - por um exército em resposta a um atentado bárbaro e em cuidados busca por reféns - onde estão eles e elas quando o governo iraniano incentiva atirar na sua própria população que protesta por direitos de expressão e melhores condições de vida? Algumas informações mencionam 30 mil civis mortos! O silêncio das mídias e dos protetores dos direitos humanos está ensurdecedor. 

E penso que nada mudará enquanto não esperarmos as tragédias acontecerem para aí perguntarmos onde estava Deus? Desinformação, omissão e silêncios seletivos são claros sinais de perseguição e desrespeito, racismo mesmo. E onde estão os homens, onde estamos nós, que não vemos e ouvimos estes sinais? E se os percebemos, o que fazemos com isso? É fundamental observar, vigiar e ao perceber, “botar a boca no trombone”! Há muitos veículos e instrumentos para isso. Vamos usar! 

Shabat Shalom

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

VOCÊ SABIA? - Uma gota, uma criança salva da assustadora poliomielite no século XX.

 

Por Itanira Heineberg





Você Sabia que Albert Sabin (1906–1993) foi um médico e pesquisador judeu que desenvolveu a vacina oral contra a poliomielite (paralisia infantil) na década de 1950, lançada nos anos 1960? E que, diferente da vacina injetável de Salk, a VOP (Vacina Oral Poliomielite), conhecida como "gotinha", é feita com vírus atenuado, facilitando a imunização em massa e erradicando a doença em quase todo o mundo?

No Brasil a versão oral contribuiu para a extinção total da doença.


Albert Sabin, médico judeu que erradicou a poliomielite com uma gota.


Sabin nasceu em uma família de judeus em 1906, na cidade de Białystok, então parte da Rússia (atualmente Polônia), e emigrou em 1921 para os Estados Unidos com sua família. Sabin estudou medicina na Universidade de Nova Iorque e desenvolveu um intenso interesse em pesquisa, especialmente na área de doenças infecciosas. Em 1931, completou o doutorado em medicina. Passou uma temporada trabalhando em Londres em 1934, como representante do Conselho Americano de Pesquisas. De volta aos Estados Unidos, tornou-se pesquisador do Instituto Rockfeller de Pesquisas Médicas. Nesse instituto, demonstrou o crescimento do vírus da poliomielite em tecidos humanos.

De posse de tantos conhecimentos e pesquisas e do trabalho de Jonas Salk em busca da cura para a poliomielite, Sabin dedicou-se com entusiasmo ao estudo da doença que assustava o século. E assim ele chegou a uma nova vacina, uma vacina oral, usando vírus enfraquecidos - o que permitiu criar imunidade intestinal e impedir a circulação do vírus. Como seu colega, Sabin procurou salvar vidas e melhorar os resultados na área de saúde nas comunidades do mundo.

A vacina oral de Sabin foi fundamental para reduzir drasticamente os casos de poliomielite, que em 1988 ainda somavam cerca de 350.000 casos anuais no mundo.

No Brasil, centenas de escolas, hospitais, clínicas e instituições brasileiras levam o seu nome. O cientista recebeu do governo brasileiro, em 1967, a Grã-Cruz do Mérito Nacional.

Abaixo temos o médico Albert Sabin em palestra no Instituto Fernandes Figueira – IFF/Fiocruz, durante visita ao Brasil no dia 28 de junho de 1961 — Foto: Arquivo Nacional



A ligação de Sabin com o Brasil vinha de duas décadas antes e havia sido coroada por um casamento. Desde que desenvolveu, em 1960, sua famosa vacina para combater a paralisia infantil, aplicada oralmente e por isso chamada popularmente de "gotinha", o cientista esteve no Brasil por diversas vezes ministrando palestras, oferecendo consultorias e contribuindo para os esforços de erradicação da doença. Em 1971, em uma festa em sua homenagem realizada no Rio, conheceu a brasileira Heloisa Dunshee de Abranches (1917-2016). Um ano depois, estavam casados.

Sabin faleceu em 1993, mas seu legado persiste como um dos pilares da saúde pública moderna e da erradicação de doenças.


Unidade Hospitalar Albert Sabin em Atibaia


Mais uma vez o Judaísmo se fez presente em sua constante preservação e apreço pela vida humana. Tanto Salk como Sabin, cientistas dedicados e desprendidos, abriram mão de lucros para que a vacina descoberta e eficaz, não patenteada, fosse produzida de forma econômica e distribuída de graça, mundialmente.

Assim como aconteceu no Brasil, tanto a vacina inativada de Jonas Salk como a atenuada de Albert Sabin contribuíram e seguem contribuindo para a erradicação do vírus causador da paralisia infantil em todo o mundo. Graças à vacinação, os casos de pólio reduziram 99% em todo o globo, caindo de 350 mil em 1988 para apenas 29 notificações em 2018.

Atualmente a doença permanece endêmica apenas no Afeganistão e no Paquistão. 



Em novembro de 2024, o Ministério da Saúde do Brasil oficializou a substituição da vacina oral poliomielite (VOP), conhecida popularmente como a "gotinha, pela Vacina Inativada Poliomielite (VIP), que é exclusivamente injetável.

Essa mudança marca o fim do uso da gotinha no Programa Nacional de Imunizações (PNI) para reforços e visa tornar a vacinação ainda mais segura e alinhada com as recomendações internacionais.

Aqui estão os detalhes principais da mudança:

O que mudou no esquema vacinal (2024)

Fim da Gotinha: A vacina VOP (atenuada) não é mais utilizada.

Apenas Injeção (VIP): A vacina utilizada agora é a VIP (inativada), composta por vírus mortos, sendo mais segura.

Novo Esquema: A vacinação contra a paralisia infantil é realizada apenas com a vacina injetável aos 2, 4 e 6 meses de vida, com um reforço injetável aos 15 meses.

Reforço de 4 anos: A dose de reforço que era aplicada aos 4 anos de idade com a gotinha foi retirada do calendário, pois o esquema de 3 doses + 1 reforço aos 15 meses é suficiente.

 

FONTES:

https://butantan.gov.br/butantan-educa/salk-x-sabin-conheca-a-corrida-cientifica-por-tras-das-duas-vacinas-que-derrotaram-a-paralisia-infantil

https://www.scielo.br/j/hcsm/a/9tFSfwSZjFX6NpSvxq9NZws/?format=html&lang=pt

https://bvsms.saude.gov.br/26-8-dia-do-nascimento-de-albert-sabin/

https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC8888238/

https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2020/07/10/como-sabin-foi-colaborar-na-erradicacao-da-polio-no-brasil-e-acabou-saindo-pela-porta-dos-fundos.ghtml

https://butantan.gov.br/butantan-educa/salk-x-sabin-conheca-a-corrida-cientifica-por-tras-das-duas-vacinas-que-derrotaram-a-paralisia-infantil


quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Iachad (juntos - יחד) - por André Naves: Andínia

 



Andínia, 1815

Soprava aquele vento gelado dos Andes. Dentro do Salão dos Espelhos do Palácio Imperial, o mundo era outro. Centenas de velas em candelabros de cristal, pelo teto e móveis. Comendador olhou para aquilo e pensou no perigo ardente...

As chamas, lágrimas de luz caótica e dançante, multiplicavam-se nas paredes espelhadas, criando um universo novo, ideal, belo e sem fronteiras. O sussurro de sedas e brocados, toaletes e fardões, os brindes, taças, sorrisos e a orquestra: valsa animada, meio samba, meio salsa, majestosa, um convite à ordem e à harmonia.

“Gente que festeja, não irrita...”, pensou com seus botões o Comendador...

Dava pra ver, através das cortinas entreabertas, a neve da cordilheira... Os Andes, os gigantes que nos protegem, as sentinelas sob um céu de Esperança.

Este seria o grande baile anual, o primeiro de uma Era de Ouro do Povo, que após tanta peregrinação estava firme no propósito de construir Andínia, aquela nação jovem, forjada no fogo do Propósito, da Disciplina e da Perseverança!

Afastados dos comensais dançantes, uma rodinha de celebridades conversava perto de um dos imensos afrescos que retratavam os passos daquela caminhada diaspórica milenar. Resolveu, o Comendador, se aproximar...  Era uma conversa filosófica entre o Conselheiro, a Cientista Markus e a Filósofa...

Debatiam toda aquela saga vitoriosa... Como um Povo conseguiria sair de um cativeiro, peregrinar pelo deserto, ser perseguido, exilado, mas terminar ali, naquele baile? Será que depois de tudo, a neve andina seria o descanso final, um local de Prosperidade e Paz?

O Comendador, homem tímido e ponderado, nem sabia o que, ou como, ou se, dizer... O Conselheiro parecia calcular o peso de cada palavra, sua mente focada nas estruturas mundanas que sustentavam — ou falhavam em sustentar — a nação. A Cientista, cujos olhos azuis se escondiam atrás das lentes escuras, representava o questionamento constante, a busca incansável pela verdade, fosse ela encontrada num microscópio ou num silogismo. E a Filósofa, então? Ela se impressionava com a diversidade do Povo que, unido e sem deixar ninguém para trás, conquistou tanto!

A Cientista, com seu olhar admirado com tudo ao redor, disse: "É fascinante!" "Todo este luxo, essa harmonia e beleza... É inevitável! Brotam-me questionamentos. Qual a verdadeira função disso tudo? É uma celebração da unidade ou uma anestesia coletiva para que esqueçamos o caos mundano?"

O Conselheiro ajeitou o monóculo, um gesto habitual. "Ambos! A liderança de uma nação nova precisa de símbolos. Este baile é a materialização da estabilidade que a gente sempre procurou. Cada passo da dança, cada norma, é um pequeno mandamento que reforça a ideia de uma sociedade coesa, unida. Somos um! No fim, é uma manifestação estética da Justiça e do Louvor: cada um em seu lugar, movendo-se em Harmonia."

O Comendador, que só observava, também deu seu pitaco. "Lá na minha terra, os antigos diziam: 'A festa pode ser vistosa, mas o que sustenta a casa não são os adornos, são os alicerces'. E os alicerces de uma nação, assim como os de um homem, não são visíveis..."

Na janela, ele apontou pra noite lá fora. "A beleza da noite não engrandece a existência da montanha. A montanha simplesmente é. Imponente. Sólida. Perene. Ela nos lembra da necessária Humildade diante do que é maior que nós. Assim também são os verdadeiros Mandamentos. Não os da etiqueta ou do baile, mas aqueles que D'us inscreveu na música do coração."

A Assistente antecipou o nem nascido Saint-Exupery: “O essencial é invisível...”. E continuou... "Uma bela metáfora, Comendador. Mas como essa 'música' se traduz em políticas públicas? Em tribunais justos? A justiça precisa de leis, de códigos, de estruturas. A integridade de uma nação depende de instituições íntegras, não de sentimentos."

"É aqui em que a ciência encontra a filosofia", interveio a Cientista. "Como podemos ter certeza de que todos ouvem a mesma música? A minha busca é por princípios universais, pelos Mandamentos! Quero uma moral que possa ser demonstrada, não apenas sentida. O que garante que a 'música' de um não seja o ruído de outro?"

“Assim como um rio ganha ao receber seus afluentes, o fogo das ideias ilumina mais quando se escuta.”

As pessoas dançando eram como a vida: alguns se moviam bem, com graça e precisão; outros, mais desajeitados; alguns dançavam para serem vistos, outros, para sentir a música; e havia aqueles que dançavam por puro amor à dança, ao encontro com o outro. Tinha aqueles ainda que não dançavam... Sorriam, comiam, bebiam e observavam!

"Estruturas... Princípios Universais... Todos vitais. São o mapa e a bússola. De que serve o melhor mapa se o viajante não sabe para onde vai? De que serve a bússola mais precisa se o coração do navegador aponta para o sul, mas seus atos o levam para o norte? Palavra não enche barriga, e promessa não assenta tijolo."

"São os nossos atos que dão forma e trazem luz ao nosso destino. Nossos atos, e não nossas palavras, mostram quais os valores que realmente importam. O homem que prega a paz, mas não estende a mão; a nação que escreve 'liberdade' em sua constituição, mas acorrenta seus cidadãos com a miséria... Ações gritam mais alto que discursos. É o ato, o gesto concreto, a escolha, que revela o verdadeiro caráter."

“Os Mandamentos Divinos não são um teto! São o chão sobre o qual nos erguemos. Eles não dão frutos sozinhos... É igualzinho à partitura de uma sinfonia! Numa gaveta, não é nada... É preciso de um músico a toque!”

“Verdade! São os atos, atos de pura intenção, que concretizam os mandamentos e trazem as Virtudes. A Justiça não é uma lei no papel; é o ato humano em busca da Autonomia. A Humildade não é uma palavra ao vento; é dar importância ao outro... A Integridade não se ganha com títulos; é uma decisão diária de se buscar ser um só, inteiriço."

De repente, o silêncio...

“Quem fala demais, dá bom dia a cavalo.”.

Entre tanta dança, a conversa deles também era um ballet. Uma dança de ideias, onde almas diferentes, com seus próprios ritmos e melodias, buscavam uma harmonia comum.

"No fim...", escutou-se, "o Iachad, essa unidade que buscamos, não é sobre todos marcharem no mesmo passo."

"Não...".

"É sobre todos ouvirem, cada um à sua maneira... É a música da dignidade, do respeito, da busca por algo maior. É a vibração que nos conecta, mesmo na diferença. É o reconhecimento de que, neste grande baile da existência, estamos todos, de alguma forma, de mãos dadas, mesmo que não nos toquemos."

Na noite andina, em que as estrelas são as guardiãs do mundo, escutou-se... "O baile um dia acaba. As velas se apagam. As fundações permanecem!”

“A Luz que realmente importa não é a das promessas, mas a dos nossos atos."

A orquestra voltou... Mais música no salão!

Um só Povo!

Iachad!



André Naves
Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Sociais, Inclusão Social e em Economia Política.
www.andrenaves.com
Instagram: @andrenaves.def

 

 


ACONTECE: Viajando em Eretz Israel

 
Ein Keren, Jerusalem 


Por Regina P Markus - 22 de janeiro de 2026

Israel, um país eterno

Estar em Israel no Natal de 2025 e nos primeiros 20 dias de 2026 foi uma experiência ímpar, mesmo para quem já visitou o país muitas vezes. Na viagem de ida aproveitei para reler a “Vida de Flavius Josefus”. Um relato autobiográfico escrito entre 94-99 EC (Era Comum) em resposta a duras críticas feitas ao livro “Antiguidades” (93-94 EC) e à pessoa de Flavius Josefus.  FJ era um judeu da Tribo dos Levi, nascido em Jerusalém. Foi comandante das forças de Israel na Galileia e rendeu-se a Vespasiano (então comandante do Exército Romano do Oriente) em 67 EC. Quando Vespasiano tornou-se imperador, concedeu a liberdade ao Comandante em Chefe do Exército de Israel no Norte, e este adotou o nome de Flavius, nome de família de Vespasiano. Tornou-se romano, mas, ao escutar como a história dos judeus estava sendo relatada, escreveu sua versão. Foi uma boa introdução para o que encontrei nesta virada de ano, no século XXI. 

Hoje, ainda há tempo e desejo de muitos para transformar resiliência em tolerância. Esta seria a fórmula mágica para evitar copiar os tempos de Flavius. Muito escutei falar sobre os quatro filhos citados na Hagadá de Pessach. O sábio (Rarram) que faz perguntas objetivas, o malvado (Rashá) que não adere aos princípios e contesta com veemência, o ingênuo (Tam) que faz perguntas básicas, deixando claro que não tem conhecimento e que não sabe perguntar (no hebraico a frase é traduzida literalmente). A este o caminho deve ser mostrado de forma a permitir a inclusão. Tempos de tolerância implicam em conseguir balancear as personalidades e trazer para o centro de decisão pessoas que atuem em busca da tolerância e convivência. Esta será a forma para que o terceiro Estado de Israel independente suplante este longo período de guerra.

Estar em Israel convivendo com família e amigos, morando alguns dias em Lares Estruturados para idosos e andando a pé, conversando com pessoas na rua e sofrendo as pressões e incertezas do dia-a-dia permitiram concluir que a tolerância está mais próxima do que imaginamos. No comércio e nos restaurantes há espaço para todos e mais do que em outras oportunidades. Sentei sem nenhuma restrição em restaurantes de diferentes origens. Os mais diferentes sabores e temperos podem ser encontrados lado a lado. E voltei a ficar encantada por encontrar doces sem açúcar em alguns restaurantes árabes. O mundo ocidental, que muito respeita a rotulagem, tornou a vida dos que não comem açúcar adicionado muito difícil. Sabores diferentes temperam a vida!
A guerra atual deixou muitas marcas, e a resiliência é uma delas. Vou aqui transformar esta palavra “filosófica” em algo muito tangível. Muitas pessoas trabalhavam o tempo todo com luvas pretas. E sobre estas colocavam luvas transparentes. À primeira vista pode parecer algo ligado à higiene, mas na realidade são pessoas que sofreram amputações e se adaptaram aos membros artificiais. Estas cenas também se repetem no convívio familiar e com amigos. Minha impressão é que esta guerra, que está sendo muito longa e que tem como objetivo o isolamento e a difamação, deixará como resultado uma sociedade que sabe superar as dificuldades. Muitos outros sinais que não deixavam esquecer o quanto os israelenses pagaram por estar sob ataque diário em todas as frentes. E o dia-a-dia continuava normalmente. Visitar locais históricos milenares e caminhar por rotas que fazem parte de nossa história foi um dos grandes prazeres desta viagem. Pouco turismo e o país em reconstrução. Os danos impingidos pelos inimigos não foram poucos nem aleatórios. E esta ideia eu não tinha tido na minha última visita em maio de 2025. 

Nem precisei de muito para entender o porquê. Aquela viagem foi no período que muitos israelenses chamam de guerra dos 12 dias. Os 12 dias em que o Irã atacou Israel de forma precisa promovendo grandes destruições em locais de importância. Sim, isto foi em 2025! Foi quando Israel foi acusado e acusado e acusado... e o que mais me impressionou foi ver como a economia israelense reagiu. 

🚀 Israel Tech 2025: um ano histórico de saídas, investimentos e inovação. O ecossistema de tecnologia israelense encerrou 2025 com números que reforçam seu papel como um dos mais dinâmicos e resilientes do mundo — mesmo em um cenário global desafiador. 

🔹 Saída de empresas (Exits)
Saídas de empresas de tecnologia israelenses somaram US$ 17,7 bilhões, em 182 transações, superando 2024.

Destaque para 4 mega-aquisições acima de US$ 2 bilhões cada: Next, Melio, Sapiens e Verint.






Hoje muitos dizem: superamos e vencemos. 

IMPRESSÕES DA VIAGEM


Estar no dia 24 de dezembro em Jerusalém permitiu sentir o respeito por todas as religiões. Na Cidade Velha, dentro das muralhas, há locais em que foram erguidas igrejas cristãs ao longo dos séculos. É construído um presépio e árvores de Natal para comemorar a data. Andamos por este bairro e seguimos para o Muro Ocidental, cruzando civilizações e muitos séculos. Terminar o dia na Biblioteca Nacional, onde pudemos acompanhar as muitas facetas judaicas.
Foi um grande privilégio ver os originais de Flavius Josefus. 
Sentar e ler os procedimentos médicos de Rambam foi divino. Rambam (Rabi Moshe ben Maimon, Maimonides) nasceu em 30 de março de 1138 em Córdoba, Andaluzia, Reino Almorávida. A chegada dos cristãos obrigou judeus e mouros a fugirem para a África. Maimônides, filósofo e médico, estabeleceu-se no Egito. Foi um dos primeiros personagens da história a integrar a medicina e o judaísmo, difundindo a tese de que a saúde física é essencial para a vida religiosa. Escreveu o código da lei judaica “Mishne Torá”. Sentei-me mais de uma hora neste espaço tão rico que une duas de minhas paixões e saí com a confirmação de que no judaísmo a VIDA é o nosso bem mais precioso e que qualquer lei ou regra pode ser transgredida se for para salvar uma vida. Esta é uma biblioteca lúdica para crianças, visual para os amantes das artes e as visitas guiadas nos levam aos muitos mundos judaicos. Somando a isso, há uma arquitetura que permite ver Jerusalém de muitos ângulos. 

Visitei muitos outros lugares pela primeira vez, em Jerusalém e em Israel. No futuro vou escrever um texto sobre o Museu Ralli em Cesareia. O filantropo Harry Recanati (1918-2011) e sua esposa Martine Weil Recanati fundaram uma rede de museus. Em todos estes museus a entrada é gratuita. O objetivo é que a condição econômica não seja um empecilho para usufruir de momentos de arte e cultura, contemplando arte moderna latino-americana, surrealismo e arte europeia dos séculos XVI a XVII. São cinco museus ao redor do mundo: Punta del Este (Uruguai, 1982), Santiago (Chile, 1992), Cesareia (dois museus, 1993, 2007) e Marbella (Espanha, 2000). A arquitetura dos museus é semelhante, privilegiando a entrada de luz ambiental. Os dois Rallis de Israel ficam na mesma plataforma de 40.000 m² olhando para o Mar Mediterrâneo. Recanati era o dono do Discount Bank, Israel, e sua esposa era médica, atendia a população menos favorecida. Quando estavam mais idosos, criaram uma Fundação que se tornou a curadora dos museus. O montante de recursos da Fundação e os Estatutos permitem que este seja o legado de um casal que dedicou grande parte de sua fortuna pessoal para "alimentar" pessoas com cultura e arte. 

OLHEM ALGUMAS IMAGENS - Museus em Cesareia, Israel

 








Conviver com pessoas que imigraram da Ucrânia há mais de 20 anos e que agora trazem seus familiares foi uma outra experiência marcante. Como trazer familiares que lá ficaram? Qual a diferença entre trazer homens e mulheres? As casas que visitei estavam todas enfeitadas com árvores de Natal. Muito lindas, com toda a artesania russa. As pinturas e os presépios eram maravilhosos. Rostos com muita expressão e roupas costuradas com os detalhes das vestimentas russas. Apesar de já ter lido muito sobre o tema, estar com pessoas que acendem as velas de Shabat ao lado de árvores de Natal soou estranho. E lá veio a explicação. Por tantos anos a religião foi proibida na União Soviética, nas províncias que tinham um forte componente cristão eles passaram a usar estratégias que eram usadas pelos judeus locais para driblar as proibições. Assim, enfeitar árvores e ruas ganhou uma conotação cívica. Além disso, durante a imigração ucraniana vieram para Israel muitos que não tinham ascendência judaica. Pois é, os judeus e não judeus vindos de território ucraniano cujo idioma original era russo mantêm uma identidade que premia a diversidade.


Há muito a contar e muito a debater. Por hoje vou ficando por aqui, com uma sensação de ter feito um depoimento sobre fatos vividos e sobre impressões baseadas em conhecimento milenar.

Regina



quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Iachad (juntos - יחד) - por André Naves: Meu Faraó e Eu

 


         Dia quente aqui. Um calor abafado, um Sol ardido... Sábado de manhã. 08:00. Difícil caminhar... Vou descendo a Caraíbas... Parece até um deserto. Eu ia usar de um clichê super comum e falar em “deserto escaldante”, mas gato escaldado tem medo de água fria...

         Meu objetivo é claro e conhecido: quero dar uma olhadela no Palmeiras. A Ana Rosa sempre comigo, me dando as mãos para todo trupicão que dou... Sol forte... Atrapalha a vista... Atrapalha as ideias... De repente, trupico em mim mesmo...

         Deserto... Eu, eu mesmo e mim... Agora, há apenas um deserto... O deserto... O azul esbranquiçado do céu me lembra um mergulho... O mergulho... Lá estava ele sentado. Trono. Faraó.

***

- Achei que o deserto era lá fora. Acontece que ele é aqui dentro. E você... sempre no trono.

- André, minha criança... Você sempre me chama e depois vem o espanto. Sabia que foi você quem me semeou, grão por grão, areia por areia. A cada pequena fuga da sua responsabilidade! Eu sou apenas o Imperador deste reino que você construiu. Ninguém mais! Sou o Imperador Sol.

- Será que fui eu ou os outros? E você?  Imperador... ou tirano? Sua voz é o grilhão que me aprisiona. A masmorra que me impede de... ser.

- Ser? E você não é? Suas ideias são como passarinhos que voam ao menor custo, ao menor sopro de vento. Lembra da juventude? Caótica e impulsiva, feito a pororoca...  Seus fogos poderiam ter incendiado o ninho. Mas, não fui eu quem construiu a gaiola dourada para proteger você de si mesmo. Você não me convidou? Você não me pôs no trono, desesperado por uma ordem, por um rumo? Eu não tomei este poder. Fui só a voz que disse "não", quando seu coração gritava "sim" para anarquia.

- Tá certo que eu... eu precisava de uma lei. Mas, repetindo Brecht, todo mundo chama o rio de violento, mas ninguém fala nada das margens que o oprimem...

- Poesia? Você vive no mundo da Lua! Eu sou a Lei. A luz que dá a vida!

- Mas também a que cega e queima...

- A sua vida, a estrutura, o respeito... acha que nasceram do caos, da algazarra? Não. Nasceram da ordem que impus. Olhe ao redor. Olhe para sua vida, para o que você construiu. Veja as bênçãos, não apenas as correntes. Eu afirmo, repetindo a tradição eterna: Quão lindas são suas tendas, Jacó! Quão belas são suas habitações, Israel! Você não enxerga a beleza da cidadela que ergueu por medo de admitir que precisou de um arquiteto!

- Mas a que preço? Versões e fatos. A lenda diz que sou um homem de sucesso. O fato é que sou um cativo em meu próprio palácio.

- Não existem fatos, apenas histórias. E você se apegou à história do prisioneiro porque ela é mais confortável. Ela livra você da responsabilidade suprema. A Liberdade, meu filho, não é a ausência de muros. É a coragem de assumir a autoria de cada tijolo. Você quer a Liberdade? Então aceite a Responsabilidade pela sua vida. Pare de lutar contra mim. Eu não sou seu inimigo. Sou sua fundação.

- Então... você nunca irá embora?

- Ir embora? Hahahaha! Eu sou a forma da sua alma. Sou os limites, bons e ruins. Sabe o grilo falante? Lembra do ratinho do Dumbo? Sou a prudência que te salvou e o medo que te paralisa. Sou a memória do seu pai, a sabedoria do seu avô, a disciplina de sua mãe... Você não pode me silenciar. Você aprende a dançar comigo.

- EU NÃO SEI DANÇAR!

- Até agora... Ninguém sabe nadar até a água bater na bunda... Só um passo de cada vez. Você precisou de mim para sobreviver à sua juventude. Agora, talvez precise de uma longa peregrinação neste deserto para entender minhas palavras. Para ver a beleza que pode nascer da aridez. Para encontrar a rosa nascida do lixo. Para olhar para trás, não com raiva, mas com gratidão.

- Obrigado... por me manter vivo. Por ter sido a sombra quando o meu Sol era forte demais.

- Agora você começou a entender, cabeçudo! Abençoe o passado para poder enxergar o futuro. O deserto ainda é longo, mas você não tá mais perdido nele. Você tá apenas... caminhando. E lembre-se sempre: é trupicando que a gente aprende a caminhar!

***

         No fim, o Faraó parecia muito comigo. Pudera... Ele era eu!

         Que voz importante a dele... Lógico que só faz sentido quando temperada pela conveniência do real, do concreto.

Era mais uma lição: quando ouvir e quando me pedir licença para seguir.

***

De repente, a luz do Faraó diminui, o trono se desfaz... O deserto recua.

O som de uma freada me traz de volta. A verdade é que nunca fui a lugar nenhum. Estou na esquina da Caraíbas com a Bartira. O sol ainda arde. Agora, não tenho mais um tirano, mas um companheiro de vida.

Ana Rosa segura minha mão com mais firmeza, como se soubesse que algo em mim acabou de mudar. Sempre muda... Continuo a descer a rua, um passo de cada vez.


André Naves
Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Sociais, Inclusão Social e em Economia Política.
www.andrenaves.com
Instagram: @andrenaves.def