Por Juliana Rehfeld
Começamos a nos preparar para "a virada do ano", a passagem para o ano de 5787. Escutamos o toque de shofar aqui e ali, definimos quem convidar ou que convite aceitamos para o jantar de entrada nos chamados "iamim noraim, dias terríveis", decidimos com que parte da família estaremos, já que as grandes famílias se dividem, e começamos a pedir desculpas, aos amigos e parentes, pelo que "pisamos na bola" no ano que passou.
E, como todo ano, pisamos mesmo na bola. Produzimos menos do que nos propusemos, completamos menos projetos do que tínhamos planejado, adiamos aquele curso no qual pretendíamos nos inscrever, visitamos menos a família, nem fizemos a desejada viagem, aquela que sonhamos… "não deu"; não deu tempo ou não deu vontade, deu preguiça, faltou dinheiro, as prioridades foram outras… as justificativas estão sempre prontas para nos consolar, reduzir o peso de termos falhado. Elas, as justificativas, pulam da nossa boca, ou invadem nosso pensamento, prestativas e corajosas, e nos envolvem como se fossem inocentes e verdadeiras, não como fruto da nossa imaginação que tiramos do bolso quando confrontados com os resultados aquém do esperado, do prometido.
Mas ocorre muitas vezes que a exigência e as expectativas que nós mesmos nos colocamos eram demasiadas e possivelmente inalcançáveis, causadas por um desejo, uma pretensão de dar um ou mais passos maiores que as pernas, menos planejamento e mais impulso… e aí a culpa é até maior! "Como fui me meter nisso? Mergulhar de cabeça sem bóia? Avaliar tão mal as probabilidades?"
De qualquer lado que olhamos, a condenação é inexorável… Ah, a culpa judaica! Não é um conceito religioso mas é uma carga cultural atávica, isto é, que herdamos e que nos acompanha de geração em geração, nossa "yiddishe mama, introjetada", quase impossível de satisfazer…
A responsabilidade comum, coletiva, a necessidade de fazer "tikkun olam", repararmos sozinhos o mundo inteiro… não é à toa que muitos de nós, muitas vezes, "vestimos a carapuça", incorporamos culpas que nos são atribuídas por quem sistemática, e obstinadamente, nos persegue… como judeus somos mesmo culpados por tantos males que acontecem no mundo? Como sionistas, então, que defendem o direito de Israel existir e se defender, somos mesmo responsáveis por tudo de que nos acusam?
Anexamos um vídeo que justamente pergunta se sofremos de "Israel Derangement Syndrome", síndrome de distúrbio por causa de Israel… expressão politica emprestada dos conceitos da saúde mental… Israel tem sido acusado de praticamente produzir todos os males do mundo… uma insanidade, uma pandemia que precisa, diz o vídeo, ser tratada com doses significativas de um remédio chamado Realidade, que certamente traz efeitos colaterais a quem "é alérgico a fatos"!, com o que eu concordo. Aliás, é acreditar nessa terapia que nos move a editar esse veículo EshTaNaMidia.
Há muito que criticar nas ações do governo de Israel hoje, mesmo nas recentes ações absurdas de cidadãos conhecidos como colonos em relação a concidadãos árabes palestinos, que foram notícia na última semana, e que me encheram de vergonha! Eles estão sendo investigados e julgados, espero que sejam exemplarmente punidos, mas a taxa de solução justa nestes casos vem diminuindo… isto não é satisfatório.
O fato é que vêm acontecendo ações indefensáveis que têm que ser impedidos de se repetir. Mas vêm sendo verbalizadas acusações absurdas sobre judeus, sionistas e Israel, o "Estado imaginário de Israel", que configuram um distúrbio da sociedade, da imprensa formadora de opinões incautas… o equilíbrio tem que ser perseguido, e informação, sem deformação, é remédio fundamental no tratamento do antissemitismo e anti sionismo oportunistas.
Mas como é mesmo que vou lidar com a minha culpa este ano?
É nisso que começo a pensar ao toque diário do shofar, neste mês de Elul.
Shabat Shalom

















