Por Juliana Rehfeld
A semana teve momentos emocionantes e tensos, como a terceira rodada das negociações entre Israel e o Líbano sobre o cessar fogo e desarmamento do Hezbollah, o desempenho de Israel na competição musical Eurovision, a decisão da Knesset de dissolver o atual mandato e antecipar eleições e também a chegada de mais uma flotilha, vinda da Turquia, em direção a Gaza, para citar apenas algumas notícias. Nisso tudo há “mais do mesmo” mas há evoluções importantes: desde sexta passada aumentaram as perspectivas de acordos de longo prazo para pacificar o norte de Israel; na final de domingo a canção Michelle, apresentada em Viena, embora vaiada além de aplaudida, provou que foi vencida uma forte tentativa de boicote à participação de Israel com persistência e resiliência do cantor e da banda mas, sobretudo, pelo empenho dos que votaram em massa fora da Europa para marcar o apoio; o incômodo sobre a questão do alistamento dos ultra-ortodoxos levou a uma proposta de dissolução do atual parlamento e esta proposta acabou de ser aceita por unanimidade, sendo que o relativo enfraquecimento da coalizão governista pode abrir caminho à queda de Netanyahu; a última flotilha foi mais uma vez interceptada mas de maneira mais cautelosa e evitando motivos de crítica, informando de maneira transparente que não seria permitida a entrada mas que seriam plenamente aceitas e distribuídas as ofertas humanitárias recebidas por terra, mostrando que o governo podia ser mais flexível e preocupado com as repercussões mesmo que firme no fracasso e na denúncia das reais intenções dos “ativistas”.
E agora estamos em Shavuot que, em hebraico, significa Semanas. Desde Pessach viemos contando 7 semanas, “Sefirat ha Omer, diariamente por 49 dias, para chegarmos a hoje 6 de Sivan no calendário lunar-solar judaico. E agora celebramos “o aniversário da Torá”. A rigor o que marcou a transformação de um bando de fugitivos da escravidão perambular pelo deserto em um povo com passado e destino comuns, valores e leis compartilhados, foi este recebimento - e aceitação - da Torá, dos mandamentos. É evidente que não é uma fotografia do momento que realiza a transformação, mas é o momento em que se olha para o percurso que se vem traçando e para o plano do caminho a seguir, que dá o nome de transformação ao processo todo.
E esse processo é vivo, está em curso a cada ciclo em celebramos juntos Pessach, com a família cada vez mais numerosa e barulhenta, e contamos juntos, paramos a cada Shabat para descansar e refletir sobre este percurso, e confirmamos nossa aderência aos valores que nossos antepassados aceitaram no Sinai. Mais tarde, já em Canaã, nesta época colhiam-se os primeiros frutos das plantações - e esses “bikurim”, os mais bonitos e melhores eram oferecidos a Deus, no Templo, como agradecimento. E a história, o processo da chegada a aquele momento era contado aos pequenos para que fossem crescendo como parte do caminho… nós trazemos na memória, no nosso “inconsciente coletivo” e nas repetidas celebrações , as raizes que nos é essencial passar para a frente, para os que trouxemos a este mundo, e aqui deixaremos… porque esse processo é vivo? Porque nunca o repetimos igual, pelo contrário, o que acontece a nossa volta é parte fundamental da reflexão e do debate interno, a cada Shabat ou Chag, as perguntas que se acumulam, as dúvidas que nos surgem, são respondidas cada vez à luz do momento histórico. E frequentemente, familiar e coletivamente…
A história é longa, as mudanças geográficas e sociais foram imensas, mas seguimos o fio da meada, o que nos permite nos reconhecermos e identificarmos com aqueles antepassados que estavam no Sinai em Shavuot... nossa realidade é tão mais complexa quanto o acervo de emoções que vivemos, de lições que aprendemos - ou percebemos que não aprendemos -, das cicatrizes que adquirimos, das dores que acumulamos, e muito, das realizações das quais nos orgulhamos… Ainda no Sinai, às portas de Canaã reforça-se o compromisso da aliança com Deus com todos que lá estão e “com aqueles que não estão aqui conosco”. Somos nós.
Daí a nossa responsabilidade de, a cada vez, ouvir a história, ressignificá-la à luz da nossa realidade, do nosso tempo, readequar o plano do próprio caminho a seguir e compartilha-lo com a família e na comunidade.
Que sigamos com os ouvidos atentos a nossa volta, com empenho na renovação da nossa pessoal aliança com os valores em que acreditamos, com dedicação e criatividade para repassar as lições aprendidas a próxima geração, para que afinal, o relato das semanas seja cada vez melhor, mais bonito e feliz.
Chag Shavuot Sameach
Shabat Shalom







