Lotada! A pizzaria tava cheia... Cheia
como sempre... Ana Rosa e eu... Logo na entrada. Sabe, tipo mestre de
cerimônias? É legal observar, imaginar, criar... Refletir!
Foi o que aconteceu. Juro! Verdade!
Certeza!
De repente quem entra? Quem? Quem? Não
era o Raimundo Nonato! Vou dar uma dica: “Ohh céus! Ohh vida! Ohh azar!”... Descobriram?
Isso mesmo. Hardy, a hiena. Aquela
mesma, pessimista, deprimida... Lembram dela?
Aquela hiena do desenho de um tempo
gostoso que não volta mais. Eu em Jacareí assistindo ao Sérgio Mallandro e
esperando a hiena. Lippy, o leão; Hardy, a hiena que adorava se lamentar:
"Oh, céus! Oh, vida! Oh, azar!"
Junto com ela, uma surpresa! Dr.
Pangloss! Tão otimista que chega a ser ingênuo... Aquele do Cândido de Voltaire! Tudo sempre
tava encadeado no melhor dos mundos possíveis.
Pois é. Pangloss sobreviveu ao século
XVIII e veio jantar pizza em São Paulo. E com quem? Com Hardy!
Sentaram... Pelo que consegui pescar,
tavam falando sobre o Brasil. Sobre o depois da algazarra eleitoral...
— Acabou tudo! O Brasil já era! — disse
Hardy. — Olha o mercado. O Ibovespa despencou... Circuit Breaker de cara! O
dólar no Everest! O risco-Brasil disparou. Isso não é ideologia, é fato! O
Brasil já era. A saída é Guarulhos!
Pangloss só olhou. Sorriu...
— Minha caríssima hiena, você só
enxerga o esperneio do mercado, mas não escuta o povo que trabalha. Enquanto o
especulativo saía aos berros, o investimento estrangeiro direto batia recorde!
Terceiro maior destino do mundo! A gente só tá atrás dos Estados Unidos e da China..
Isso, minha hiena, é confiança!
— Confiança? Cê já tá bêbado? E a
educação? A gente só produz analfabetos funcionais. E ainda me inventam esse
tal de Pé-de-Meia! Absurdo! E o celular, então? O povo não conversa mais, não
olha nos olhos, não pensa. Cada um na sua... Hipnotizado! Sozinho! Uma juventude
toda perdida, que não sabe se divertir... Vazia de sentido! Que país a gente tá
construindo? Nenhum. O Brasil já era.
— Hieninha... Tá certo que a gente
ainda tem muito que fazer, mas repare: um país que, contra tudo e todos, reelegeu
um Presidente numa virada épica e surpreendente, e que no dia seguinte viu o
TSE proclamar o resultado e o partido derrotado reconhecê-lo em nota oficial —
esse país deu ao mundo uma aula de institucionalidade.
Quem ganhou, Hardy? Não foi o
algoritmo. Não foi a pesquisa. Não foi um bilionário. Foi o povo! Aqui, não! Além
disso, Hardy, um país que entrega emprego, alimento, energia limpa e
instituições seguras não tá beirando o abismo. Esse é o Brasil!
— Beirando, não — Hardy insistiu na
lamentação. — Já caiu. Só não percebeu.
E nesse jogo de esgrimas, continuaram.
Fatia após fatia. Vinho após vinho. Ela com o colapso, ele com o recorde. Ela
com o analfabetismo, ele com a energia limpa. Ela com a solidão das telas, ele
com a mobilização popular. Ela com o risco-Brasil, ele com o foodshoring, o
nearshoring, o greenshoring, o friendlyshoring.
Uma última grappa! Se o Brasil vai
acabar, que seja com estilo! Ainda brincou Dr. Pangloss!
Levantaram. Ao passar pela porta,
Pangloss olhou para trás. A casa estava abarrotada. Gente em pé, esperando
mesa, rindo, brindando, pedindo mais uma rodada de pizza, mais um pedaço de
vida. Fila na porta, àquela hora. Uma cidade inteira querendo celebrar junto.
Sorriu.
— É — disse, baixinho, para a hiena. —
Parece que o Brasil vai acabar mesmo...
Hardy parou. Olhou a fila, olhou a mesa
cheia, olhou o garçom correndo de um lado para o outro. Olhou pras garrafas de
vinho, cerveja, grappa...
— Oh, céus! Oh, vida! Oh, azar!...
Espera essa conta chegar.
André Naves — Defensor Público Federal,
escritor, Comendador Cultural. Autor de "Caminho: A beleza é
enxergar" e "Beethoven enxergou o Luar". Vice-Presidente do Grupo Chaverim. www.andrenaves.com | @andrenaves.def















