Lembrei...
A vida é nostalgia! Ela amarela, vira
ouro...
Lembro,
logo existo!
Sabe quando a gente escuta uma música,
sente um cheiro? É assim... A memória chega cheinha de emoção! Tipo cachorro
que entra na sala, gira duas vezes e deita…
O cachorro da memória acabou de chegar!
Ou será que é a memória de um cachorro? Vai saber, né?
Cheirinho de pão de queijo...
E, de repente, a gente tá lá... Tão
perdido que se encontra! O que é lembrança? O que é sonho? O que é fantasia?
Pensa comigo. O sonho é mais ou menos
um fogo, sabe? Quando a gente olha pruma fogueira, a gente não sabe ao certo o
que é a chama. Como ela acende? Como ela apaga? A gente só enxerga a luz que
vem... A beleza... O calor...
O sonho aquece! A esperança ilumina!
Memórias... Sonhos... Mundo etéreo da
fantasia... Tudo parece se misturar um pouco. Quando o polvilho doce e o azedo
se misturam, não dá pra saber o que é o que... Mas dá pra saber que um bom pão
de queijo vem aí!
É isso… A lembrança, a memória, é um
pouco fantasia. E é dessa misturança que sai a mais saborosa fornada da emoção!
Não quero arengar com que gosta só de
fatos, só da razão, só da ciência... Eu também gosto delas, mas só quando
temperadas pelas especiarias da sensibilidade! Os fatos perdem a validade, mas
os sonhos continuam. As boas histórias continuam!
A emoção dura!
Mas quem carrega esse lirismo todo no
sangue se perde nas nuvens. Vive no mundo da Lua! Por isso que as raízes
precisam ser fortes... Família! Comunidade! Gerações! Rochedos primordiais...
Mas, e o cheirinho do pão de queijo? Ele
que voltou. O Feroz...
Filho do Danado, dizem. Filho do tinhoso...
E eu me pego matutando: será que o Feroz era filho do Danado? Será que o Danado
era filho do Feroz? Será que eles existiram mesmo? Vai saber… É desconfiança de
quem vive no mundo da Lua...
Lembro que eram cachorros. Cachorros
que vivem aquecendo o nosso coração e enchendo a nossa vida de amor, de
esperança... De sonho!
Feroz… "Sabor Feroz"... Nunca
teve um pingo de ferocidade! Era o cachorro mais gentil do mundo. Brincalhão.
Desastrado. Bem parecido com o pai, o tal do Danado. Nunca foi feroz, não. Só
faltava oferecer um cafezinho e um bolo de fubá pras visitas... Claro que ele
ia fazer uma algazarra!
A especialidade dele era outra: roubar
pão de queijo... Quando o convidado dava uma bobeira, zaz! Ia lá e levava. Era
a coisa mais engraçada do mundo. E ninguém conseguia ficar bravo com o Feroz,
porque ele era tão brincalhão, tão gentil…
Sabe aquela carinha de piedade? De
bendito sois? Parecia desentendido... Até bobo... Pois é. Essa aparência escondia
uma inteligência intrínseca, uma habilidade de relacionamento tão grande que de
boba ela não tinha nada.
Bobo é um mundo que enxerga a gentileza
como idiotice!
Bobo é quem enxerga a humildade como
fraqueza!
O Feroz era assim... Deixou tantas boas
coisas…
Toda a gentileza dele, todos os
ensinamentos. Cachorro bom!
Pra quem torce o nariz, o Feroz também
ensinava. Tudo ensina! A convivência com o Feroz nos ensinou a ser pessoas
melhores. A amar os diferentes. O Feroz nos trouxe doçura — o sabor Feroz era
doce, era gostoso, era chocolate...
E a vida é assim, não? Um dia o Feroz
também virou estrela...
Ficou o ensino, a lição, a lembrança! Uma
lembrança que às vezes parece meio turva na memória, que dança com o tempo, que
se perde e se encontra nas areias dos desertos e dos oásis que vêm.
Uma lembrança que fica mais doce a cada
grão de areia que cai na ampulheta da existência...
Mas a luz — a luz da lembrança, a luz
da memória — continua... Continua a guiar a vida.
Iachad… Estar junto. Foi isso que o
Feroz ensinou sorrindo, latindo... A gente junto, em volta da mesma fogueira,
sentindo o mesmo calor, enxergando a mesma luz.
Feroz. Sabor Feroz. Sabor doce Feroz.
É uma estrela... Sempre... No Oriente!
Muito obrigado, Feroz.
André Naves Defensor
Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Inclusão Social. Mestre em
Economia Política. Comendador Cultural. Escritor e Professor. www.andrenaves.com | @andrenaves.def – Vice Presidente do Grupo Chaverim.














