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quinta-feira, 24 de setembro de 2026

VOCÊ SABIA? - Fauda

Da Conciliação ao Apoio Ferrenho a Israel, Série “Fauda” ou “Caos” em quinta temporada

Por Itanira Heineberg


Você Sabia que a  série "Fauda" regressa à Netflix após os ataques de 7 de outubro e torna-se campeã de audiência no Líbano, país com o qual Israel não mantém relacionamento diplomático: o show mais assistido na Netflix, noite após noite?

O mesmo sucesso está se repetindo na Jordânia, Marrocos, na Europa - a série vindo a ser a mais visitada em 43 países em um único dia.

E a mais vista em Israel.




Lior Raz, um dos criadores da série, diz à Netflix que espera que o público compreenda a importância da paz, a necessidade de pensar de outra forma e como a guerra está a destruir o mundo.

 

Logo no início de Fauda, nas primeiras temporadas, a série procurou retratar histórias humanas de ambos os lados do conflito israelo-palestiniano.

 

Já a nova temporada, criada por Avi Issacharoff e Lior Raz, decorre dois anos após os ataques de 7 de outubro de 2023, levados a cabo pelo grupo islamita Hamas no sul de Israel.

 

Acompanhamos a história de Doron Kavillio, comandante de uma unidade militar israelita de operações encobertas, perseguindo um operativo do Hamas que julgava ter morto.

Doron ruma também a Marselha, França, depois de descobrir que um velho amigo se lançou numa missão de vingança não autorizada.

Raz, que interpreta Doron, disse ao site oficial da Netflix que a quinta temporada "não é sobre tentar mostrar o que aconteceu".

 

"Trata-se de tentar contar uma história, de perceber como conseguiríamos inserir as nossas personagens nessas situações e nessa história que aconteceu de fato".

 

"Por isso, para nós, era importante ser muito rigorosos em relação ao que aconteceu na realidade, mas também colocar as nossas personagens nesta situação imprevisível".

 

Raz acrescentou que esperava que os espectadores percebessem "como a paz é importante, como temos de pensar de forma diferente e como a guerra está a destruir o mundo".

"Está a destruir a nossa região, está a destruir o nosso país e, seguramente, os países deles. Sabemos que as pessoas veem esta série em todo o mundo, no mundo árabe, em Israel, e verão que o preço da guerra é pesado e que precisamos ter esperança para resolver esta situação".

 

Os ataques do Hamas a Israel, a 7 de outubro, mataram cerca de 1.200 pessoas e outras 251 foram feitas reféns e levadas em péssimas condições e abusos para a Faixa de Gaza.

Enquanto a dor e as lágrimas inundavam drasticamente os israelenses e os judeus na Diáspora, o que se via nas ruas e avenidas das grandes capitais e cidades do mundo eram comemorações de alegria, gritos de vitória, apoio total às barbáries cometidas contra Israel e seu povo.

Algo inusitado e incompreensível para quem compreendia o que tinha realmente acontecido.

Em resposta, Israel iniciou uma campanha aérea contra Gaza e lançou, simultaneamente, uma invasão terrestre do território.

E para tentar esclarecer o mundo sobre o terrível e desumano atentado, o seriado  FAUDA alcançou algo muito desejado mas também talvez quase impossível:

Fazer com que  milhares de pessoas ao redor do mundo entendessem o dia 7 de outubro após quase 3 anos de desinformações, discussões e acusações falsas sobre o inaceitável massacre.

Os episódios 7 e 8 da quinta temporada trouxeram à tona o horror daquela manhã e a reação foi enorme: uma nota de 9,3 no IMDb e um dia apenas após seu lançamento na Netflix a série já figurava entre as 10 mais assistidas em 43 países.

Mas o fato mais impactante não está em nenhum ranking.

Está, sim, nas redes sociais, onde pessoas de diferentes países dizem, chocadas, que só agora entendem o que o Hamas fez naquele dia. Isto sim é surpreendente e significativo.

Porque quase 3 anos se passaram, com vídeos reais, depoimentos, assassinatos, sequestros, famílias destruídas e atrocidades filmadas pelos próprios terroristas, tudo lá desde o primeiro dia e mesmo assim milhões de pessoas deram suas opiniões, marcharam com cartazes, acusaram injustamente, condenaram Israel sem realmente entender o que havia acionado aquela guerra. Não tentaram descobrir o que a havia desencadeado.

Aí está algo surpreendente: uma história verdadeira contada numa série de televisão, acorda as multidões.

Valorizemos a intenção e força desta iniciativa, o poder de relatar fatos, a vontade de sacudir as multidões e fazê-las finalmente entender o que vivenciaram e não alcançaram perceber.

Esta notícia sobre o quase milagre de FAUDA, o realizar que o mundo, em seus cantos diversos aos poucos entenda o que está acontecendo, encheu-me de alegria, uma euforia inusitada, uma conquista da família, um sonho há muito esperado.

Mas artigos sobre Greta Thunberg e sua devoção cega ao movimento BDS, fotos da placa da  Rua Estado de Israel sendo substituída por placa Rua Palestina Livre, um ataque à mão armada a uma sinagoga no Canadá em Yom Kipur, me devolveram ao meu estado de ansiedade anterior.

Desde o nascimento de nossa primeira filha, tinha certeza que sua geração não passaria pelo que seus avós passaram na Alemanha de Hitler. E eis que vejo as cenas se repetirem, e o Brasil aderindo a elas com determinação e autoridade.

Lembrei então de um ditado ou provérbio, “count your blessings”, expressão muitas vezes por mim repetida em situações de crise aos meus filhos, netos e bisnetas: contar nossas bençãos.

Não procurar aquilo que nos falta, mas olhar e descobrir  o que está em nosso meio copo, apreciar as bênçãos recebidas até hoje, valorizá-las e por elas agradecer.

Assim refletindo, se FAUDA nos trouxe compreensão maior e mais verdadeira de nossa história e o apoio dos até então mal - informados sobre o terrível massacre de 7 de outubro, festejemos esta admirável conquista aspirando por mais FAUDAS, que mais encantamentos surjam a este povo que resistiu por 3 Mil anos e ainda está presente lutando com suas próprias iniciativas, fé e resiliência para entregar PAZ a Todos.

 

Palavras do Diretor de Fauda:

“Quero que o público estrangeiro olhe nos olhos do meu personagem e enxergue o que sentimos naqueles dias. Como eles se sentiriam se isso acontecesse em seus países? Quero que as pessoas abram os olhos... ”

 

Que alcancemos o reconhecimento desta luta, o reconhecimento deste Israel que nada mais almeja do que viver em paz no pequenino pedaço de terra que lhe foi oficialmente reconhecido pela ONU em 1948.




FONTES:

https://www.cmjornal.pt/tv-media/detalhe/nova-temporada-de-fauda-faz-reviver-o-dia-7-de-outubro-e-ja-e-a-mais-vista-em-israel-e-no-libano

https://veja.abril.com.br/cultura/serie-fauda-troca-conciliacao-por-apoio-ferrenho-a-israel-em-nova-temporada/

https://diariodeseries.com.br/fauda-5-temporada-guerra-israel-hamas/#google_vignette

https://www.bbc.com/portuguese/extra/IkTCzu5CAd/Israel_historico_fronteiras

ACONTECE: Sucot e os caminhos do momento

 

Fonte da imagem


Por Regina P Markus - 24/09/2025 - 13 Tishrei 5787


Sucot, lembrando os 40 anos no deserto. Caminhando sem conhecer o rumo, mas com  determinação e sem parar. Recebendo comida e sendo guiados ao longo do tempo. Chegar a um ponto em que tudo vai mudar e o futuro será uma promessa em forma de Leite e Mel. Na última segunda-feira foi Iom Kipur, e ao pôr do sol de amanhã, dia 25 de setembro, começa Sucot. Saímos de momentos muito pessoais para momentos coletivos. Deixamos de ser apenas indivíduos para sentir que pertencemos a um grupo, a um povo. E ao fazer esta transição, em muitos estudos ao longo dos séculos, encontramos o conceito de "povo entre as nações". 

A construção da Sucá já começou. Uma cabana decorada com frutos e bandeirinhas coloridas. Teto de palmas e três paredes. Uma mesa onde todos são convidados e são servidas comidas para todos os gostos, com respeito especial para quem não pode comer determinados alimentos. Sucot é uma festa inclusiva! 

Saltando para esta semana, fica a sensação de que estamos atravessando tempos tão nebulosos quanto os de tempestades no deserto. A areia sobe escondendo os fatos e criando imagens que acabam sendo confundidas com a realidade. A mídia controlada por grupos interessados cria versões incorretas dos fatos. A cada dia fica mais evidente que as pessoas de Gaza não encontram apoio dos dirigentes. Apesar dos milhões gastos, não há dinheiro para construir abrigos ou moradias temporárias, e estes foram incentivados a ocupar prédios danificados e inseguros. 

Esta semana também está em curso a 81.ª sessão da Assembleia Geral da ONU. O encerramento será dia 28 de setembro e para apimentar o encontro, em janeiro de 2027 deverá tomar posse um novo "Secretário Geral". Discorrer hoje sobre os discursos e reuniões paralelas seria parcial. Os discursos dos chefes de estado até hoje seguem o esperado, quer no que se refere aos problemas gerais de clima e economia e ao que se refere aos pontos específicos envolvendo o Oriente Médio e os Países do Golfo. Será que falar leva a ações? Entre no Blogger para ler o texto de Alex Pipkin, gaúcho, formado em administração e marketing pela UFRGS, empresário, que apresenta um dos melhores textos sobre o tema do antissemitismo. "O antissemitismo moderno dispensou a necessidade de inventar o crime do judeu. Basta-lhe apagar a atrocidade cometida contra ele, converter seu direito de defesa em culpa e transformar sua sobrevivência em acusação. É sempre a guerra dos verbos.".  Vale conferir o texto integral no nosso Blogger. 

Estando dentro de nossa suká sempre aberta para todos e para o futuro, termino mencionando um avanço muito importante na arte de navegar. A Marinha Israelense inicia operações com navios robóticos. Dispensam o pessoal embarcado e poderão agilizar as rotas comerciais. Não deixem de ler a matéria do Jerusalem Post.

Os 40 anos no deserto, há mais de 3000 anos, fizeram e continuam fazendo história.

Chag Sameach

Regina


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A GUERRA DOS VERBOS



Por Alex Pipkin, doutor em Administração e Consultor Empresarial

Israel combate duas guerras. Uma contra seus inimigos terroristas; outra contra quem conta a primeira.

7 de outubro. A fronteira violada, civis massacrados, famílias sequestradas, reféns arrastados para Gaza. Só então veio a guerra. A cronologia deveria ser banal, mas os fatos têm um defeito terrível quando se pretende fabricar uma narrativa. Eles preservam a autoria.

Descobriu-se, então, um método eficiente de mentir sem necessariamente falsificar fatos. Basta editar a causalidade.

Israel bombardeia, Israel mata, Israel destrói. Do outro lado, palestinos morrem, crianças sofrem, famílias fogem. O Hamas vai perdendo seus verbos até evaporar do texto. Sem sujeito, extingue-se a culpa.

A engrenagem informativa ajuda. Relatos produzidos dentro de Gaza atravessam fontes locais, organizações internacionais e redações até chegar ao público com uma assepsia que sua origem jamais autorizaria. Em junho de 2026, o USAID OIG, órgão independente de fiscalização da agência americana, informou que sua investigação já havia resultado no encaminhamento de 108 funcionários ou ex-funcionários da UNRWA por participação no 7 de outubro e/ou vínculos com a ala militar do Hamas.

A BBC exibiu um documentário sem informar que seu jovem narrador era filho de uma autoridade da administração do Hamas, omissão considerada materialmente enganosa pelo regulador britânico Ofcom. O New York Times colocou Mohammed al-Mutawaq na primeira página de 25 de julho de 2025 como o rosto da fome em Gaza. Posteriormente, acrescentou que o menino tinha problemas preexistentes que afetavam o cérebro e o desenvolvimento muscular. A informação capaz de alterar a leitura da fotografia chegou depois da fotografia.

A manchete chega hoje. O contexto amanhã. A correção depois. A indignação jamais se corrige.

Quando a omissão deixa de ser episódica, o problema já não cabe na desculpa do erro de edição. Quem escolhe o sujeito distribui responsabilidade. Quem o retira da frase distribui inocência.

António Guterres acaba de afirmar que jamais testemunhou, como secretário-geral da ONU, uma escala de mortes e destruição como em Gaza. Sob seu mandato, o mundo assistiu a pilhas de corpos, fome e desespero no Iêmen, na Etiópia, no Sudão e na Ucrânia, tragédias documentadas pela própria organização que ele comanda, (imagem acima). 

Não se trata de contabilidade de cadáveres, mas de contabilidade moral. Por que a memória do mundo adquire precisão cirúrgica e comoção seletiva quando Israel ocupa o banco dos réus?

Pode-se criticar Israel. Pode-se defender a autodeterminação e um Estado palestino. Mas desejar que Israel desapareça e batizar isso de “crítica” é o velho antissemitismo submetido a um banho semântico.

Estou cansado. E preocupado. Sou defensor da liberdade de expressão, inclusive quando ela protege ideias que desprezo. Mas liberdade não é salvo-conduto para incitar a eliminação violenta de Israel, perseguir ou expulsar judeus. Quando a retórica ultrapassa a opinião e entra no terreno do crime, não basta reprovar moralmente. A lei precisa ser aplicada.

Mudaram as redações, as universidades, os organismos internacionais e o vocabulário. O velho preconceito apenas contratou uma nova agência de relações públicas.

O antissemitismo moderno dispensou a necessidade de inventar o crime do judeu. Basta-lhe apagar a atrocidade cometida contra ele, converter seu direito de defesa em culpa e transformar sua sobrevivência em acusação. É sempre a guerra dos verbos.

O problema é que o verbo adulterado na manchete não termina na manchete.

Mais cedo ou mais tarde, encontra um judeu para culpar.

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quinta-feira, 17 de setembro de 2026

A mentira sobre os assentamentos israelenses

 


Indispensável artigo para The Spectactor da sempre brilhante Natasha Hausdorff, advogada britânica especializada em direito internacional, direito dos conflitos armados e questões de segurança nacional e minha fellow JDCorps (Jewish Diplomatic Corps),  flagship program do World Jewish Congress - representação máxima das comunidades judaicas em mais de 100 países.


A mentira sobre os assentamentos israelenses


Por Natasha Hausdorff


Há poucas expressões nas relações internacionais que sejam repetidas com maior confiança ou submetidas a menor escrutínio do que “assentamentos israelenses ilegais”. Ela aparece em resoluções da ONU, declarações de governos, relatórios de ONGs e boletins de notícias como se fosse um fato estabelecido. Acrescente as palavras “segundo o direito internacional” e, aparentemente, qualquer discussão adicional se torna desnecessária.


O problema não é apenas que isso seja retórica política disfarçada de direito, mas que, na verdade, é contrário ao verdadeiro direito internacional, quando devidamente aplicado. A afirmação baseia-se em uma série de proposições sobre as fronteiras de Israel, a natureza jurídica da ocupação e o significado de dispositivos da Quarta Convenção de Genebra — proposições que se consolidaram como ortodoxia por meio da repetição. Elas foram endossadas pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha, pelo Conselho de Segurança da ONU e por maiorias da Corte Internacional de Justiça (CIJ). Mas a repetição institucional não transforma um raciocínio jurídico defeituoso em direito.


Para compreender o problema, é preciso voltar no tempo. Após o colapso do Império Otomano, em 1922, a comunidade internacional estabeleceu o Mandato para a (região da) Palestina. O Mandato determinava expressamente a facilitação da imigração judaica e incentivava o “estreito assentamento dos judeus na terra”. Seja qual for a opinião política que se tenha hoje sobre o Mandato, esse era o marco jurídico internacional estabelecido para o território.


O argumento sobre os assentamentos parte da premissa anterior de que Israel é a potência ocupante em território estrangeiro.


Quando Israel se tornou um Estado independente, em 1948, outra regra universal tornou-se crucial: uti possidetis juris, uma expressão latina pouco atraente, mas com consequências significativas. Ela significa que, quando um novo Estado emerge de um território administrativo preexistente, ele, por padrão, herda as fronteiras daquele território como suas fronteiras internacionais.


A doutrina teve origem na América Latina e posteriormente foi aplicada durante a descolonização da África e da Ásia e à dissolução de Estados, incluindo a União Soviética e a Iugoslávia. Seu propósito é óbvio. A independência não pode resultar em um vácuo territorial no qual toda fronteira esteja novamente em disputa. Como a CIJ reconheceu, a regra proporciona estabilidade e segurança e impede disputas fratricidas pela terra.


No entanto, quando se trata de Israel, o entendimento predominante é simplesmente deixar de aplicar essa regra elementar, sem nenhuma razão discernível. Israel foi o único Estado a surgir, em 1948, do território remanescente do Mandato, a oeste do rio Jordão. Isso ocorreu depois da separação da Transjordânia do Mandato, para criar o Estado árabe da Jordânia (que também fazia parte da região da Palestina). O plano de partilha da ONU de 1947, que propunha um Estado árabe adicional no território, jamais foi implementado, pois foi rejeitado pelo lado árabe, que optou pela guerra.


A consequência é desconfortável para aqueles que começam a história jurídica de Israel em 1967, depois da Guerra dos Seis Dias. Aplicando a regra ordinária do uti possidetis, Israel assumiu as fronteiras do Mandato, as únicas linhas existentes no mapa. A Judeia e Samaria — posteriormente rebatizadas de Cisjordânia após sua tomada pela Jordânia — não se tornaram território soberano jordaniano simplesmente porque a Jordânia as ocupou entre 1948 e 1967. Tampouco as linhas de armistício de 1949 se tornaram fronteiras internacionais, como os próprios acordos de armistício deixaram explícito. Eram linhas militares de cessar-fogo, e Egito e Jordânia insistiam que elas jamais constituiriam algo além disso.


Isso é importante porque todo o argumento sobre os assentamentos parte da premissa anterior de que Israel é a potência ocupante em território soberano estrangeiro. Um Estado não pode ocupar seu próprio território soberano. A Crimeia ilustra o ponto: a ocupação russa não extingue o título ucraniano. Se as forças ucranianas recuperassem a Crimeia amanhã, a Ucrânia não se tornaria subitamente a potência ocupante apenas porque a Rússia controlou a península durante uma década. O título de soberania vem primeiro.


Em 2024, quando a CIJ afirmou, em uma opinião consultiva não vinculante repleta de imprecisões, que “a presença continuada de Israel no Território Palestino Ocupado é ilegal”, ela não tratou do uti possidetis, das fronteiras herdadas do Mandato nem das reivindicações concorrentes de soberania. Simplesmente presumiu a resposta para a questão territorial e, a partir dessa premissa, construiu suas conclusões jurídicas.


Mas suponhamos, para fins de argumentação, que deixemos tudo isso de lado e tratemos a Judeia e Samaria como território ocupado. Mesmo assim, o slogan “assentamentos ilegais” subverte o direito. A disposição invariavelmente invocada é o Artigo 49(6) da Quarta Convenção de Genebra:


“A Potência Ocupante não poderá deportar ou transferir partes de sua própria população civil para o território que ocupa.”


Isso é verdade até mesmo para estudiosos do mundo moderno de língua inglesa, cuja própria ignorância bíblica frequentemente os torna incapazes de compreender um passado não tão distante no qual não apenas a Bíblia, mas especialmente a versão King James, dominava todos os aspectos da sociedade.


A King James Version foi uma força singularmente unificadora no mundo anglo-americano durante mais de três séculos. Com exceções notáveis, como os católicos, ela era lida por conservadores e liberais; republicanos e democratas; anglicanos e não conformistas; metodistas e mórmons; colonos e súditos; homens e mulheres; brancos e negros; ricos e pobres; jovens e idosos. Ela oferecia um suprimento ilimitado de metáforas, arquétipos e advertências amplamente compreensíveis, que as pessoas utilizavam no espaço público para debater os acontecimentos de suas épocas e enfrentar as vicissitudes de suas vidas pessoais. Ela formava, para colocar de maneira simplista, um banco de memes que atravessava sem dificuldade divisões sociais, étnicas e políticas. Quando Abraham Lincoln, em seu Segundo Discurso de Posse, lembrou ao povo americano que “ai do mundo por causa das ofensas, pois é necessário que as ofensas venham; mas ai daquele homem por quem vem a ofensa”, ele podia presumir que todos compreendiam o que queria dizer.


Observe o que o artigo não diz: Ele não diz que civis de determinada nacionalidade ou etnia não podem viver em território ocupado. Ele regulamenta a conduta da potência ocupante: deportação ou transferência de população.


O contexto histórico do Artigo é importante. A disposição surgiu após os horrores da Segunda Guerra Mundial, quando populações foram deslocadas à força e potências ocupantes implantaram populações em territórios conquistados. Seu objetivo era impedir programas estatais de transferência populacional, e não criar territórios dos quais civis de determinada nacionalidade ou origem fossem proibidos de viver em razão de sua identidade. Judeus israelenses nunca foram deportados para a Judeia. Eles se mudam voluntariamente. Algumas comunidades são mais recentes. Outras representam o restabelecimento de comunidades judaicas, como Gush Etzion, cujos habitantes haviam sido anteriormente expulsos durante a ocupação jordaniana (de 1948 a 1967).


Há outro problema: a prática internacional. Em um estudo global sobre atividades de assentamento em territórios ocupados, o professor Eugene Kontorovich constatou que houve numerosos movimentos substanciais de populações civis em ocupações prolongadas — situações reais de transferência estatal nos termos do Artigo 49(6), em outras palavras — que não receberam nenhuma condenação internacional nem qualquer observação quanto à sua ilegalidade. Dois pesos e duas medidas vêm à mente. O norte de Chipre, o Saara Ocidental e outros territórios disputados ou ocupados envolveram o tipo de movimento demográfico que supostamente aciona esse Artigo.


Isso não significa que os abusos reais em outros lugares devam ser ignorados. Significa que o direito internacional não pode ser uma coisa para Israel e outra para todos os demais. Uma regra jurídica citada seletiva (e incorretamente) sempre que judeus constroem casas além de uma linha de armistício que não é e nunca foi uma fronteira não representa a aplicação da lei, mas sim uma postura política. Além disso, os Acordos de Oslo, que concederam aos palestinos autogoverno nas Áreas A e B da Cisjordânia, deixaram a Área C sob administração israelense e deliberadamente reservaram os assentamentos, as fronteiras e Jerusalém para negociações sobre o status final.


Há uma tentativa de encobrir as verdadeiras construções ilegais nesses territórios disputados pela Autoridade Palestina, muitas vezes realizadas com financiamento internacional, na Área C. Ed Miliband, em uma declaração na terça-feira repleta de falsidades, afirmou — ou, muito provavelmente, simplesmente repetiu — uma mentira sobre as comunidades beduínas da aldeia de Khan Al Ahmar. Ele afirmou que esses beduínos viviam naquela terra havia gerações. Fotografias aéreas que remontam à Luftwaffe desmentem essa afirmação. Na realidade, os beduínos de Khan al Ahmar e dos outros postos avançados ilegais na região, instalados ali como peões políticos, nunca fizeram eles próprios essa afirmação. Essa é a verdadeira construção ilegal em larga escala, motivada politicamente. Ela viola o direito internacional, os Acordos de Oslo e qualquer confiança que Israel possa ter de que futuros acordos que celebrar serão respeitados pela comunidade internacional.


As consequências vão muito além das disputas jurídicas. A expressão “assentamentos ilegais” está sendo cada vez mais usada para significar algo muito mais perturbador: que judeus não deveriam viver em determinados lugares porque são judeus. Considere o que está sendo exigido. Um futuro Estado palestino é rotineiramente imaginado como exigindo a remoção de centenas de milhares de judeus de suas casas. 


A presença judaica em Hebron, berço da civilização judaica, é inexplicavelmente apresentada como um crime internacional. O mesmo ocorre com o Bairro Judeu de Jerusalém ou com as comunidades judaicas restabelecidas depois que seus habitantes (judeus) foram expulsos.


O direito internacional não pode ser uma coisa para Israel e outra para todos os demais.


Nenhuma exigência semelhante seria tolerada em outro lugar. Reconheceríamos imediatamente a perversidade de afirmar que a paz entre dois povos exige que um território seja “limpo” de uma das etnias. No entanto, uma vez que a proposição é revestida da linguagem de “assentamentos” e “direito internacional”, os políticos a repetem.


As consequências afetam a Grã-Bretanha. Quando casas judaicas são descritas como inerentemente ilegais, empresas que atendem judeus passam a ser consideradas “cúmplices”, instituições de caridade que apoiam comunidades judaicas tornam-se suspeitas, judeus que compram imóveis supostamente passam a participar de um crime internacional; então o vocabulário se desloca sem esforço da diplomacia internacional para campanhas de exclusão dentro do próprio país. É assim que a instrumentalização do direito internacional contribui para o ódio aos judeus. Ela fornece aos preconceitos antigos uma aparência de respeitabilidade revestida de terminologia jurídica moderna. O judeu já não é simplesmente acusado de estar em algum lugar ao qual não pertence. Ele é um “colono ilegal”. Sua casa não é apenas indesejada; é um “crime de guerra”. A exclusão torna-se uma virtude.


Essa instrumentalização da lei também é desastrosa para a paz. A paz não será alcançada ensinando aos palestinos que toda casa judaica além de uma linha arbitrária de cessar-fogo é um crime, assim como não será alcançada fingindo que os judeus não têm história, direitos ou reivindicações legítimas sobre o território. As negociações exigem o reconhecimento de reivindicações que precisam ser conciliadas.


O direito internacional foi criado para fornecer regras por meio das quais as disputas pudessem ser resolvidas. Ele não foi criado para fornecer às campanhas políticas um vocabulário intimidatório. O ponto de partida deveria, portanto, ser a própria lei, aplicada de maneira consistente: o Mandato, o uti possidetis juris, o verdadeiro status das linhas de armistício de 1949, o texto da Convenção de Genebra, os acordos posteriores, incluindo os Acordos de Oslo, e a prática dos Estados em outras partes do mundo.


Faça-se isso, e a supostamente simples proposição de que “os assentamentos israelenses são ilegais segundo o direito internacional” torna-se incoerente. Talvez seja por isso que ela seja repetida com tanta insistência. É muito mais fácil fazer essa declaração vazia do que confrontar o que a lei realmente diz.


Artigo original em inglês: https://spectator.com/article/the-israeli-settlements-lie/


Pesquisa, tradução, adaptação, legendas e comentários: By@Krok

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ACONTECE: E chove...

Por Juliana Rehfeld



Acontece que tem chovido muito, ultrapassando médias e máximas históricas, até recebi uma figurinha que anexo aqui, mostrando como vista de um apartamento um parque, um barco, uma arca, e casais de animais subindo a rampa para entrar. Estamos assistindo a um dilúvio nestes dias terríveis, “Iamim Noraim”. E penso na coincidência de termos esta chuva justo ao lermos a Parashá Haazinu (Escutem”) - lindíssimo poema conhecido como Cântico de Moisés no finalzinho da Torá. Ele começa com: 


“Escutem, ó céus, e eu falarei;

e ouça a terra as palavras da minha boca.

Que minha instrução caia como a chuva,

que minha palavra flua como o orvalho;

como a chuva fina sobre a relva,

e como as gotas sobre a vegetação.”


Moisés, falando ora em nome Deus, ora em seu nome, em tom de despedida,  segundo Jonathan Sacks “expressa, em forma poética, a relação entre o Deus da justiça e o Seu povo, muitas vezes rebelde. A ideia central da canção reside na lógica da aliança, na qual uma das partes pode processar a outra pelo descumprimento dos deveres acordados na própria aliança. Esse tipo de processo (conhecido no hebraico bíblico como riv) é frequentemente mencionado pelos profetas posteriores, geralmente como uma acusação de Deus contra os israelitas, mas ocasionalmente como o oposto.” Há um movimento neste poema que nos lembrou, no grupo de estudos da Parashá, o movimento de “encolhimento" de Deus, o conceito judaico de צמצום (tzimtzum), o “encolhimento” ou “retração” de Deus para abrir espaço para a criação. Essa ideia é uma formulação posterior da Cabala, especialmente associada ao Isaac Luria (Ari), no século XVI. E a imagem é que o Ein Sof (o Deus infinito) “contrai” ou “retira” sua presença para que possa existir um espaço no qual o mundo criado — e, portanto, o ser humano — possa existir.

Então, em Haazinu, nas portas da entrada na Terra Prometida, e à beira de sua própria morte, Moisés invoca esta criação, o céu e a terra, como testemunhas do relato da história dos israelitas, onde aparece uma tensão entre a grandeza infinita de Deus e o espaço concedido à humanidade para escolher, agir e assumir responsabilidade. 

Tensão entre a Vontade e o Poder Divino e o Livre Arbítrio, a liberdade humana. 

E esta liberdade humana produziu até aqui uma longa história, repleta de guerras por alimento, depois, e até hoje, por territórios mas também repleta de descobertas e construções que nos permitiram crescer e multiplicarmo-nos e espalharmo-nos pelo planeta, e explorarmos para além dele; história também repleta de criações de arte em desenho, pintura, música, literatura que tanto vêm nos emocionando, a nossos antepassados e a nós, há milhares de anos. São legados, de geração em geração, “Le dor va dor”, que absorvemos e com os quais interagimos desde que começamos a respirar até o dia em que paramos de fazê-lo, por vontade divina, por parada na operação da fantástica máquina que somos. E por mais que tenhamos aprendido sobre esta máquina, a ponto de consertá-la de inúmeros defeitos e prolongar consideravelmente sua operação, não sabemos quando e de que forma ela, enfim, cessará de modo irreversível… 

A cada ano que vivemos somos gratos por isso, pelo que foi bom e produtivo, choramos pelo que não foi nada disso, pelas terríveis notícias que nos bombardeiam diariamente pelos nossos ultramodernos dispositivos, e nestes dias cada vez mais chuvosos pensamos no que fizemos e também no que não fizemos, e em como podemos, no ano que vem, se nele estivermos, fazer mais e melhor, para nós, nossa família e comunidade, e ״לכל יושבי תבל”, col ioshvei tevel, todos os habitantes do mundo. 

E se estas tão numerosas gotas que caem são de fato ensinamentos divinos, cada vez mais abundantes e críticos porque merecemos por termos errado muito, ou são cada vez mais abundantes porque nossas descobertas e engenhocas têm alterado as condições climáticas e a capacidade deste planeta de nos conter… 

E com estas reflexões, e orações, em jejum ou não, esperamos que ao som do último toque do shofar no Iom Kipur - “Neilá”, fechamento - os “portões celestiais” se fechem deixando-nos deste lado, em vida e que os portões do ano judaico de 5787 se abram e nos deixem adentrar um novo período repleto de oportunidades de continuar nossa história pessoal e a deste complexo mundo em que estamos. 

Shabat Shalom, 

Hatimá Tová (boa inscrição no livro da vida do próximo ano), 

Shaná Tová Umetuká (um ano bom e doce).

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Iachad (juntos - יחד) - por André Naves: Um ano Bom e Doce

 



Vamos conversar? Eu quero falar e escutar.... Aprender! O café tá quentinho e o bolo de fubá acabou de sair... Deixa eu aproveitar e perguntar uma coisa: será que o Judaísmo é só uma religião?

Juro que pergunto com todo o carinho e respeito de quem tá aqui na mesma mesa que vocês: será? Mesmo?

É que eu já ouvi uma vez que a palavra "hebreu" vem de Ivrit... "aquele que vai além do rio". Não sei se é verdade ou lenda, mas eu adoro acreditar que lendas são mais verdadeiras que as verdades... Eu sou um poeta dos símbolos, né?

Pensa comigo. Que boniteza! Além do rio... Não é chegar na outra margem. Não é desembarcar num ponto já marcado no mapa. Não é um lugar determinado. Não! Aquele que vai além do rio é aquele que Enxerga!

Percebe com a alma, com o coração!

Vai além do óbvio e vê aquilo que tá pra lá do visível. Lembram do Pequeno Príncipe? O essencial é invisível aos olhos... Judaísmo é Enxergar o Invisível!

Tinha um desenho antigamente. Não lembro em que canal passava... Será que era na Xuxa? No Sérgio Mallandro? Na Mara Maravilha? Era os ThunderCats. Lembram? Eles tinham uma "visão além do alcance"... Só eles viam! Coisas do Olho de Thundera!

Símbolos... Desenhos...

Guimarães Rosa também falava disso... Sertão... SER TÃO! Mergulhar dentro de si... A terceira margem do rio... Só quem vai além do rio consegue chegar na terceira margem!

E eu fico matutando: será que seu Rosa não foi, lá no fundo, um tanto inspirado por essa cultura, por essa tradição, por essa coragem para aprender a Enxergar? Vai saber… É desconfiança de poeta...

Mas se a gente escarafunchar um pouquinho mais, será que Minas não parece um tiquinho com Israel? Eu, pra ser bem sincero, acho que sim. Acho que até já falei aqui... Yiddishe mame... Mãe mineira! Todo mundo em volta da mesa, falando junto, brigando, se entendendo...

Generosidade! Fartura! Acolhimento! Tradição, de geração em geração… Festa!

Acho que é esse tempero, esse sabor, do Judaísmo que mais me alumbra: não é só religião. É cultura! É tradição! Tem sabor! Tem música! Tem poesia! A gente tá encarando de algo muito mais bonito, mais musical, mais materno.

É uma mãe que abraça quem tem a coragem de buscar entender, compreender, Enxergar... No fim, para mim a Torá não é só texto. É pensamento. É ato. É reflexão. É escolha.

Pensa numa coisa mais fascinante! Mendelssohn compôs uma sinfonia “Mar calmo, Viagem próspera”. Um pouquinho de humor judaico. Mar calmo não faz viagem próspera! Pelo contrário!

Ou seja, a gente precisa das dificuldades, dos obstáculos. Você já agradeceu a D´us por eles hoje? Já pediu Coragem e Sabedoria para poder superá-los? Para produzir uma pérola a partir deles?

No fim, o que importa é a coragem, a chutzpah... O milho que não passa pelo fogo nunca chega a pipoca. O barro que não passa pelo forno nunca chega a porcelana. O ouro só é depurado pelo fogo.

Judaísmo é esse lirismo de enxergar a beleza na dificuldade. De saber que a pérola só surge a partir do incômodo — daquele grão de areia que penetra no âmago da ostra e, com o tempo, vira brilho.

É saber que tentarão nos matar... Não conseguirão! Então a gente vai comer! We will dance again!

Judaísmo é religiosidade? Sim. Cultura? Também! Tradição? Mais ainda! Mas, acima de tudo, é a chutzpah — a coragem — de enxergar a Beleza na Vida!

Então um Ano Bom e Doce é mais do que um voto de felicidade. É um chamado: que a gente tenha a visão além do alcance. Que a gente vá além do rio. Que a gente enxergue beleza até onde ela parece impossível.

Shaná Tová uMetuká! Um ano bom e doce para todos nós.

André Naves Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Inclusão Social. Mestre em Economia Política. Comendador Cultural. Escritor e Professor. www.andrenaves.com | @andrenaves.def

 


quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Reino Unido impõe sanções a assentamentos israelenses

 



O Secretário de Relações Exteriores, Ed Miliband, anunciou um pacote de medidas voltadas contra Israel. As medidas visam especificamente o comércio com assentamentos israelenses na Cisjordânia e, por extensão, com Israel de modo geral. 


O anúncio de Miliband segue-se a apelos de ativistas trabalhistas - incluindo mais de 140 parlamentares do Partido Trabalhista - para proibir o comércio com assentamentos israelenses, com militantes preparando uma moção a ser apresentada na conferência do partido ainda este mês.


Ao mesmo tempo, a política de Miliband enfrentou oposição do grupo "Labour Friends of Israel" (Amigos Trabalhistas de Israel), que alertou que as medidas correm o risco de se tornar um "boicote de facto" a Israel.


Um argumento semelhante foi levantado pelo grupo "Conservative Friends of Israel" (Amigos Conservadores de Israel); seu presidente parlamentar, Greg Smith, classificou o dia de hoje como "um dia sombrio na história da política externa britânica" e alertou que "isso apenas jogará gasolina na fogueira do ódio antijudaico, que tem se espalhado em ritmo alarmante nos últimos anos".


Segundo o presidente Isaac Herzog, a política do Reino Unido é "um grave erro de cálculo, uma decisão que ficará do lado errado da história". Herzog também ressaltou que as sanções afetarão negativamente os próprios palestinos: "Isso prejudicará diretamente - infelizmente - os palestinos, privando-os de negócios e empregos."


Atualmente, cerca de 20.000 palestinos trabalham em diversas empresas israelenses na Cisjordânia, e as sanções afetarão diretamente o seu sustento.


As sanções de hoje marcam a oitava vez que o Reino Unido anuncia medidas punitivas contra Israel desde o início da guerra, desencadeada pela invasão e pelo massacre perpetrados pelo Hamas em 7 de outubro de 2023. Nenhuma medida comparável foi tomada pelo Reino Unido contra os palestinos no mesmo período. Com essa abordagem unilateral, a Grã-Bretanha compromete sua capacidade de atuar como um mediador imparcial em qualquer possível processo de paz entre Israel e os palestinos.


Contexto: Nos dias anteriores à sua eleição como líder trabalhista em julho, Burnham pediu "desculpas" publicamente pelo fato de o governo trabalhista (do qual ele não fazia parte) ter "errado" em relação a Gaza na resposta inicial ao massacre do Hamas em 7 de outubro.


Burnham criticou o governo Starmer - que estava deixando o cargo - por não ter pressionado Israel mais fortemente, nos primeiros dias da guerra, para que aceitasse um cessar-fogo. As duas questões que precipitaram disputas públicas entre Londres e Jerusalém foram as licitações para construção na área E1 e a situação humanitária em Gaza.


Quanto à área E1, o Reino Unido, juntamente com muitos governos aliados, alegou que o assentamento dividiria efetivamente a Cisjordânia em duas partes e impediria irreversivelmente o estabelecimento de um Estado palestino contíguo, alegações que não se sustentam empiricamente. A área E1 situa-se a oeste de Maaleh Adumim - localidade incluída no território israelense em todos os planos de paz propostos nas últimas três décadas -, e o corredor de terra restante tem cerca de 25 km de largura. A título de comparação, a inclusão de Tulkarem em um futuro Estado palestino - prevista em todos os planos de paz propostos - deixa o centro de Israel com um corredor de apenas 15 km, sem que ninguém alegue que isso divide o Estado em dois ou impede a continuidade territorial. Em segundo lugar, todas as propostas apresentadas desde o Plano de Partilha da ONU de 1947 (inclusive este) previram um Estado palestino com território não contíguo, tendo a Faixa de Gaza como um exclave.


Dados sobre a situação humanitária em Gaza, referentes apenas às últimas semanas, demonstraram de forma definitiva que não há escassez de alimentos ou suprimentos médicos. Alegações feitas no início desta semana pelo Ministro das Relações Exteriores, Miliband, em um vídeo nas redes sociais - no qual ele descreve ter tomado conhecimento, em uma reunião com ONGs, de restrições a suprimentos médicos -, foram refutadas por autoridades israelenses. Estas ressaltaram que não houve qualquer tipo de restrição a suprimentos médicos desde a entrada em vigor do cessar-fogo, há um ano; além disso, o Reino Unido é membro ativo do mecanismo CMCC, que supervisiona a transferência desses suprimentos.


Além dessas duas questões, a motivação principal para a reformulação da política britânica é a necessidade declarada de preservar a solução de dois Estados e de agir contra as partes que trabalham contra ela.


A proliferação dos chamados "postos avançados" (outposts) na Cisjordânia, especialmente após o massacre de 7 de outubro, parece ter o objetivo de tornar mais onerosas futuras retiradas israelenses do território. No entanto, não está totalmente claro como, na eventualidade de um tratado de paz, esses postos poderiam efetivamente cumprir esse propósito. Israel já se retirou de assentamentos muito maiores e mais populosos no passado - tanto no Sinai e em Gaza quanto no norte da Cisjordânia, em 2005. Além disso, nas negociações sobre o status final ao término do processo de Oslo, o país ofereceu retirar-se de assentamentos ainda maiores para viabilizar um acordo de paz baseado na solução de dois Estados; no entanto, essas retiradas nunca se concretizaram - não devido à oposição dos colonos, mas sim à rejeição palestina.


O argumento de que os assentamentos devem ser boicotados - sob a alegação de que qualquer reivindicação de que judeus vivam na Cisjordânia compromete a perspectiva de dois Estados - é substancialmente enfraquecido pela insistência em financiar a UNRWA, a agência da ONU voltada para os palestinos.


Uma agência que trata os palestinos que vivem na Cisjordânia ou em Gaza como “refugiados” do que hoje é Israel. No entanto, o apoio à UNRWA tornou-se um pilar central da posição deste governo sobre o conflito desde 2024.


Em vez de abordar a verdadeira razão pela qual uma solução de dois Estados não foi alcançada - ou seja, que em todas as oportunidades para estabelecer seu Estado, os palestinos rejeitaram a paz e buscaram o confronto violento - a reaproximação busca adotar uma postura firme contra uma causa imaginária para esse impasse. E, ao fazer isso, intencionalmente ou não, o governo está efetivamente recompensando o negacionismo e, implicitamente, premiando o ataque de 7 de outubro.


Comentaristas israelenses tendem a ver a anunciada medida britânica como uma dádiva para a direita e a extrema-direita na acirrada campanha eleitoral israelense, que antecede a primeira eleição geral desde o massacre de 7 de outubro, daqui a sete semanas. O impacto real na eleição provavelmente será limitado.


Mas reforçará dois importantes argumentos da direita, em um momento bastante delicado para os opositores israelenses do projeto de assentamentos. A questão da violência dos colonos na Cisjordânia começou a ganhar destaque na mídia israelense nas últimas semanas e colocou os colonos em desfavor da opinião pública. As medidas do Reino Unido contra todos os assentamentos - e especialmente a provável inclusão de Jerusalém Oriental no embargo comercial - efetivamente desfazem essa situação. Na medida em que a questão dos assentamentos se resume a gangues armadas que assediam pastores palestinos (e interferem nas operações das Forças de Defesa de Israel na Cisjordânia), ela se torna um tema de oposição para grande parte do centro político israelense. Se a questão for a de israelenses que vivem no que é considerado território soberano israelense na capital de Israel ou que fazem negócios com empresas que operam tanto no território israelense anterior a 1967 quanto nos assentamentos na Linha Verde, que serão anexados a Israel em qualquer plano de paz proposto, esse mesmo amplo centro político se posiciona do outro lado.


A conexão entre os assentamentos e a solução de dois Estados, ou entre os assentamentos e a guerra iniciada em 7 de outubro, não se manifesta internamente em Israel da mesma forma que parece se manifestar em Whitehall. A invasão de Israel e o pior massacre do povo judeu desde o Holocausto não ocorreram em uma região disputada e repleta de assentamentos. Ocorreram em Gaza, onde não havia presença militar israelense, nem um único assentamento ou colono desde 2005. A inevitável conclusão empírica dos israelenses é que, onde os colonos e as Forças de Defesa de Israel permaneceram, nenhum massacre ou invasão desse tipo ocorreu, e onde eles partiram, duas décadas de lançamento de foguetes culminaram no massacre de 7 de outubro e na longa guerra subsequente.


Em resposta às sanções do Reino Unido, é quase certo que o país será removido do Centro Internacional de Apoio a Gaza (ainda geralmente referido por seu antigo nome, CMCC), o órgão multinacional sediado em Kiryat Gat, Israel, que coordena os esforços de estabilização e ajuda humanitária em Gaza, em consonância com o cessar-fogo de outubro de 2025.


O CMCC é a organização internacional que supervisiona o fornecimento de ajuda humanitária à Faixa de Gaza, e sua equipe inclui pessoal civil e militar de diversos países, como Suíça, Japão, Austrália, Canadá, Egito, Jordânia, Emirados Árabes Unidos, Dinamarca, Chipre, Grécia, Nova Zelândia e outros.


Israel já expulsou anteriormente funcionários da Espanha e da Holanda por medidas diplomáticas menos extremas do que as anunciadas hoje em Londres, portanto, é improvável que Israel continue a hospedar o Reino Unido nas instalações.


A irritação de Israel com o Reino Unido em relação à participação específica no CMCC já havia sido acirrada no início da semana, quando o Secretário de Relações Exteriores, Miliband, fez alegações falsas sobre Israel estar bloqueando o fornecimento de suprimentos médicos para Gaza, apesar da participação ativa do Reino Unido nos grupos de trabalho relevantes do CMCC que supervisionam o fornecimento desses suprimentos.


Outras respostas diretas de Israel estão sendo consideradas em Jerusalém. Entre elas, o fechamento do consulado britânico em Jerusalém Oriental, que funciona como uma embaixada de fato junto à Autoridade Palestina, apesar de estar localizado fora de qualquer território governado pela AP. Para efeito de comparação, o Reino Unido não possui embaixada em Israel em Jerusalém, mas sim em Tel Aviv.


Israel também pode suspender a exportação de certos sistemas de armas para o Reino Unido. Atualmente, o Reino Unido adquire de Israel o Sistema de Proteção Ativa Trophy para seu tanque Challenger 3, sistemas de defesa antimíssil, tecnologia de guerra eletrônica e uma variedade de dispositivos não tripulados e autônomos.


Tanto o Reino Unido quanto Israel são participantes importantes no programa multinacional de desenvolvimento do caça F-35, e mesmo em medidas anteriores tomadas pelo Reino Unido contra Israel, a ação nesse tipo específico de cooperação em defesa foi limitada. Há rumores de que Israel poderia pedir aos EUA que considerassem o Reino Unido em violação de seus compromissos com o programa devido à limitada remoção das licenças de exportação de peças do F-35, embora não esteja claro se os EUA concordariam com isso.


Propostas mais extremas incluíram um apelo do líder do Otzma Yehudit, Itamar Ben-Gvir, para responder reconhecendo a soberania argentina sobre as Ilhas Malvinas (Falkland Islands). É muito improvável que essa retórica de linha dura seja adotada pelos tomadores de decisão em Jerusalém.


Por outro lado, a legislação interna dos EUA impõe limitações à realização de negócios com empresas que cooperam com boicotes a Israel. Essas normas variam de estado para estado, mas qualquer medida abrangente para proibir o comércio com empresas israelenses que atuam nos assentamentos (o que engloba a maioria das empresas israelenses, especialmente se Jerusalém Oriental for considerada um "assentamento") poderia ter implicações significativas para as empresas britânicas nos EUA, particularmente nos dois grandes estados da Flórida e do Texas.


Perspectivas futuras: É praticamente impossível distinguir produtos fabricados em Israel daqueles produzidos em assentamentos - independentemente de como estes sejam definidos - , uma vez que as cadeias de suprimentos normalmente envolvem atores de ambos os locais. Fazer essa distinção em relação a serviços é ainda mais difícil. Uma política que vá além do simbolismo levará inevitavelmente a uma redução do comércio com Israel como um todo; muitas empresas britânicas, buscando evitar problemas jurídicos, proteger-se-ão interrompendo negócios com o país.


Se o anúncio for puramente simbólico e, no final das contas, não tiver qualquer efeito sobre as relações comerciais com Israel, servirá apenas para intensificar a retórica contra o país e promover a demonização do direito de autodefesa de Israel, tratando-o como um ato criminoso. É precisamente essa retórica - e o ambiente permissivo que a acompanha - que tem andado lado a lado com o aumento drástico da violência e do assédio antissemitas enfrentados pela comunidade judaica britânica nos últimos três anos.


Embora essa medida possa parecer mais drástica do que outros anúncios feitos nos últimos três anos, ela dá continuidade a uma orientação consistente da política do Reino Unido desde a eclosão da guerra em 7 de outubro - uma orientação que busca limitar a capacidade de autodefesa de Israel e aproveitar a violência dos últimos três anos para consolidar ganhos políticos reais para os palestinos. É pouco provável que qualquer futuro governo israelense atribua um papel de destaque ao Reino Unido em um eventual processo de paz, caso este venha a ocorrer. Esse pronunciamento antecipado e a nova mudança de rumo - ocorridos um mês antes da eleição parcial em Holborn & St Pancras, onde uma cadeira do Partido Trabalhista está ameaçada pelo Partido Verde, que fez das críticas a Israel um ponto central de sua campanha - indicam como o novo governo busca incorporar posturas firmes contra Israel à sua atuação interna, em vez de correr o risco de perder mais votos para candidatos independentes ou do Partido Verde.


Fonte da matéria original aqui


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VOCÊ SABIA? - Karl Landsteiner, o Pai da Medicina Transfusional

 Por Itanira Heineberg






Você Sabia que antigamente as transfusões de sangue entre pessoas frequentemente causavam a morte dos pacientes?

E você sabia que foi Karl Landsteiner, cientista judeu, quem descobriu o sistema ABO de grupos sanguíneos em nos anos 1900 e 1901, o que tornou as transfusões de sangue seguras?


Pai da Medicina Transfusional

O experimento: Landsteiner misturou hemácias e soro de diferentes pessoas e percebeu que o sangue se aglutinava (grudava) em alguns casos.

O sistema ABO: Ele identificou três grupos iniciais (A, B e O). O quarto grupo (AB) foi descoberto logo depois com seus alunos.

Fator Rh: Em 1940, ele também ajudou a descobrir o fator Rh, completando a base da tipagem sanguínea moderna.

Em 1902, Alfred von Decastello, um dos colegas de Landsteiner, e seu aluno Adriano Sturli descobriram o quarto grupo sanguíneo, AB, que inclui os antígenos A e B nas hemácias, mas não possui anticorpos anti-A ou anti-B no plasma.

Essa descoberta completou o sistema de grupos sanguíneos ABO como o conhecemos hoje. Essa descoberta inovadora mudou o processo de transfusão de sangue, tornando-o muito menos arriscado ao garantir a compatibilidade entre doador e receptor. 


A primeira transfusão de sangue bem-sucedida foi realizada por Reuben Ottenberg, um médico judeu, utilizando o sistema de grupos sanguíneos ABO no Hospital Mount Sinai, em Nova York, em 1907.




Este hospital foi fundado em 1852 como The Jew’s Hospital, porque médicos judeus não conseguiam trabalhar nos outros hospitais por antissemitismo.

Posteriormente, o primeiro teste de tipagem sanguínea foi estabelecido em 1910, o que levou à criação de um serviço oficial de bancos de sangue na década de 1930.

As descobertas subsequentes de Landsteiner sobre o grupo sanguíneo 'AB' como receptor universal e o grupo sanguíneo 'O' como doador universal impactaram significativamente a área da medicina transfusional.

A identificação desses grupos explicou por que algumas transfusões eram bem-sucedidas enquanto outras falhavam: tipos sanguíneos incompatíveis podiam desencadear aglutinações.

Em 1930, Karl Landsteiner foi agraciado com o 'Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina' e foi chamado de 'Pai da Medicina Transfusional' devido aos seus trabalhos pioneiros.



Quem foi Karl Landsteiner, o biólogo judeu nascido na Áustria em 1868 e falecido em 1943, receptor do Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina em 1930 por suas descobertas?

Sua infância e educação moldaram significativamente sua carreira científica.

Karl Landsteiner foi um biólogo, médico e imunologista judeu austro-americano. Seu pai, Leopold Landsteiner, era um jornalista e editor proeminente, mas faleceu quando Karl tinha apenas seis anos de idade.

Filho único de uma próspera e influente família judia, Karl foi criado exclusivamente pela mãe Fanny, com ela mantendo um forte vínculo afetivo.

Aluno exemplar desde cedo, ingressou aos 12 anos na escola secundária (Staatsgymnasium) e, aos 17 anos (em 1885) entrou na Escola de Medicina da Universidade de Viena.

Landsteiner nasceu e cresceu no seio do judaísmo.

Em 1890, aos 22 anos, pouco antes de se formar em medicina, Karl Landsteiner e sua mãe se converteram oficialmente ao catolicismo romano, sendo ambos batizados na Igreja Católica.

Historiadores apontam que a conversão ocorreu principalmente devido ao crescente antissemitismo em Viena na época.

A mudança de religião facilitava a progressão em carreiras acadêmicas e médicas, que eram frequentemente obstaculizadas para cidadãos de origem judia no Império Austro-Húngaro.

Como podemos verificar não foi uma religião ou outra que levou a ciência a salvar vidas e mudar o conhecimento e possibilidades de usar e tratar o sangue humano, mas a integridade e amor à vida de um médico, Dr. Karl Landsteiner.



FONTES:

https://www.nobelprize.org/prizes/medicine/1930/landsteiner/biographical/

https://www.nobelprize.org/about/publications

https://www.rockefeller.edu/our-scientists/karl-landsteiner/2554-nobel-prize/

https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11458791/

https://circulatingnow.nlm.nih.gov/2013/08/09/the-blood-donor-evolution/

https://archives.med.nyu.edu/node/3582

https://transfusionregistry.org/history/

https://erytro.com.br/blog/historia-da-hemoterapia-no-mundo-e-no-brasil/