Por Juliana Rehfeld
Esta semana, coincidências. Isso, em uma história de mais de 5700 anos, não é tão difícil assim de acontecer…
Em 27/jan - dia da lembrança do Holocausto - celebramos 81 anos da libertação do complexo de concentração e extermínio Auschwitz-Birkenau pelo exército “vermelho” (ucranianos!) revelando à humanidade quão desumano foi este período, até onde a desumanidade da humanidade pode chegar… embora este não tenha sido o primeiro campo libertado e relatos de violência extrema e abundante tivessem surgido nas notícias, foi a entrada neste complexo que trouxe a concretude da “fábrica de matança” nazista, “foi o ponto de virada moral e histórico, quando a negação deixou de ser plausível”. Trouxe imagens que, mesmo já repetidamente expostas desde então em prosa e vídeo, mais nos assombravam até hoje… ou, corrigindo, até 7 de outubro de 2023, quando eventos mais horríveis ainda foram filmados e exibidos com orgulho pelo Hamas.
Na véspera, em 26/jan, o último corpo de um refém israelense mantido em Gaza, identificado como o primeiro-sargento Ran Gvili, foi recuperado pelas Forças de Defesa de Israel e trazido de volta. Acabou uma guerra, encerramos um processo de luta que, no entanto, nunca terminará…
As datas ficam marcadas como fechamento de um pesadelo mas o luto, a dor da perda, nunca terminará. O assombro em relação ao que o ser humano é capaz de fazer persiste mas nos unimos, nós que somos parte desta história, por herança ou empatia, ou simplesmente consciência, e dizemos Nunca Mais! E por um tempo, acreditamos nisso!

Penso no que ambas as datas trazem com força que é o resgate de corpos. É fundamental, para todas as culturas, mas sobretudo para a judaica, concretizar estas mortes e resgatar os corpos. E assim honrar a vida dos mortos. No Holocausto isso evidentemente não foi possível, pela quantidade e pelo método das câmaras de gás e cremação, e isso foi tratado de modo magistral na construção desde 1953 do Museu Yad Vashem, no Monte da Recordação em Jerusalém. Há uma torre de 21 metros de altura lembrando as chaminés mas uma claraboia no alto faz entrar a luz que simboliza a teimosa esperança de que Nunca Mais. E uma pira eterna (Esh Tamid) localizada no centro da Sala da Memória queima em memória das vítimas do Holocausto. A pira eterna é sempre usada para simbolizar a eterna presença de Deus. E muitos se perguntam se ele estava presente no Holocausto enquanto muitos se perguntam onde estava o homem…

O museu e seu nome são uma belíssima e comovente tradução arquitetônica moderna de um versículo bíblico, Isaías. 56.5 -
וְנָתַתִּי לָהֶם בְּבֵיתִי וּבְחֹמֹתַי יָד וָשֵׁם טוֹב מִבָּנִים וּמִבָּנוֹת שֵׁם עוֹלָם אֶתֶּן־לוֹ אֲשֶׁר לֹא יִכָּרֵת
Venatatti lahem beveti uvchomotay yad vashem tov mibanim umivanot shem olam etten-lo asher lo yikkaret.
“Também lhes darei na minha casa e dentro dos meus muros um lugar e um nome, melhor do que o de filhos e filhas; um nome eterno darei a cada um deles, que nunca se apagará."
Nunca apagaremos o nome de quem foi morto no genocídio nazista, ou na barbárie de 7 de outubro e sua sequência.
Resgatar os corpos concretiza o “ninguém será deixado para trás”, que é uma obrigação moral, religiosa e nacional. O resgate de reféns é mandamento religioso (Pidyon Shvuyim), um enterro digno é dever sagrado (Kavod HaMet). Por isso para Israel, trocas desproporcionais são aceitáveis e há grande pressão pública por cada indivíduo.
O corpo não é um objeto descartável. Ele foi a “morada” de uma vida, de uma história, de uma neshamá.
Resgatar o corpo é afirmar: essa pessoa importa, até o fim.
Enterrar permite à família fazer shivá - os sete dias de despedida por toda a família, com a presença da comunidade, fazendo um fechamento, uma “cura” da dor com apoio da comunidade.
Então, resgatar o corpo de reféns mortos não é só um ato religioso ou político — é um ato civilizatório.
É afirmar que mesmo diante da barbárie, há limites que não aceitamos cruzar.
Em 26/jan o país inteiro acompanhou o caminho do caixão de Ran Gvili, que tinha só 24 anos e morreu em combate no próprio dia 7/outubro/23, desde a entrada a partir de Gaza até sua cidade onde foi enterrado. E o presidente Herzog pediu perdão à família, e às demais famílias de reféns e de mortos no fatídico dia 7 porque o governo não conseguiu protegê-los e mantê-los vivos. Netanyahu rezou o “Sheheianu”, celebrando que chegamos vivos para ver este “momento de fechamento”... ele que é formalmente acusado por muitos como o grande responsável pelo não preparo contra o ataque, pela demora e o fracasso nas negociações e no resultado final - vide vídeo de uma acusação formal na Knesset.
Se para nós - envolvidos na história por herança, empatia ou simplesmente consciência - libertar campos e resgatar corpos concretiza a violência que o povo judeu tem sofrido na modernidade, isso ainda não parece suficiente para uma opinião pública honesta, forjada por uma imprensa, ou mídia, perversa por desinformação, omissão e irresponsabilidade. E esta é a pior das coincidências… coincidem e se empilham os danos à verdade cometidos por essa mídia.
Ainda há meios de comunicação que põem em dúvida os fatos de 7 de outubro, ou que os minimizam em relação à resposta de Israel em Gaza. E há importantes meios de comunicação que foram esta semana incapazes de dizer que seis milhões de mortos no Holocausto eram judeus, disseram que eram pessoas, omitindo a principal razão por aquilo ter sido um genocídio, e ainda desinformando que de fato houve muitos mais mortos do que os seis milhões…
E onde estão as multidões que protestaram contra os ataques a civis palestinos em Gaza - por um exército em resposta a um atentado bárbaro e em cuidados busca por reféns - onde estão eles e elas quando o governo iraniano incentiva atirar na sua própria população que protesta por direitos de expressão e melhores condições de vida? Algumas informações mencionam 30 mil civis mortos! O silêncio das mídias e dos protetores dos direitos humanos está ensurdecedor.
E penso que nada mudará enquanto não esperarmos as tragédias acontecerem para aí perguntarmos onde estava Deus? Desinformação, omissão e silêncios seletivos são claros sinais de perseguição e desrespeito, racismo mesmo. E onde estão os homens, onde estamos nós, que não vemos e ouvimos estes sinais? E se os percebemos, o que fazemos com isso? É fundamental observar, vigiar e ao perceber, “botar a boca no trombone”! Há muitos veículos e instrumentos para isso. Vamos usar!
Shabat Shalom