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quarta-feira, 5 de agosto de 2026

VOCÊ SABIA? - Sinagoga Basílica, uma joia arqueológica

 

Por Itanira Heineberg




A ALBÂNIA, um dos países mais pobres da Europa, uma democracia de pouco mais de 30 anos de existência, guarda em seu território uma joia judaica arqueológica de valor inestimável, bem zelada e preservada - mas de pouco conhecimento por parte de seus cidadãos.







Você Sabia que a Sinagoga-Basílica de Sarandë é um dos sítios arqueológicos mais fascinantes da Albânia, documentando a transição religiosa e cultural da região entre os séculos IV e VI?




Muito importante ressaltar que este complexo localizado no coração da cidade costeira de Sarandë (antiga Onchesmos) representa a primeira evidência arqueológica de uma comunidade judaica antiga na Albânia.



A história dos judeus no país remonta a cerca de 2.000 anos.

De acordo com o historiador Apostol Kotani (Albânia e os judeus), "Os judeus podem ter chegado pela primeira vez à Albânia já em 70 d.C. como prisioneiros em navios romanos que foram arrastados para a costa sul do país. Descendentes desses cativos construiriam a primeira sinagoga na cidade portuária do sul de Sarandë no século V.”


As maravilhas arqueológicas de Sarandë


Descoberta na década de 1980, escavada e restaurada no início dos anos 2000, a sinagoga de Sarandë data do século V e pertencia a uma comunidade próspera e proeminente, como indica sua localização no coração da cidade velha. Os visitantes podem agora admirar os mosaicos, incluindo uma menorá e o que parece ser a Arca da Aliança.

No século VI, a sinagoga foi transformada em basílica.

Os visitantes podem encontrar informações mais detalhadas e fotografias no Museu Arqueológico da cidade.



Vejamos agora o histórico do Sítio Arqueológico:

O monumento passou por fases distintas ao longo de sua existência:

Séculos II a IV (Origens): O local inicialmente abrigava residências privadas romanas, identificadas por fundações de vilas e mosaicos primitivos.

Século V (A Sinagoga): Uma próspera comunidade de judeus (que teriam chegado à costa albanesa por volta de 70 d.C.) construiu uma grande sinagoga. Esta fase continha várias salas decoradas com mosaicos que exibiam símbolos puramente judaicos, como a Menorá (candelabro de sete braços), o Shofar (chifre de carneiro) e o Etrog (fruta cítrica).

Século VI (Conversão em Basílica Cristã): Durante o Império Bizantino, a estrutura foi expandida e convertida em uma Basílica Paleocristã (igreja cristã primitiva). Novos mosaicos foram sobrepostos, retratando animais, árvores, vasos e representações bíblicas sem referências estritamente judaicas.

Destruição: Estima-se que o complexo foi totalmente destruído por invasões eslavas e bávaras entre os anos de 580 e 585 d.C.



Em 2003, uma cooperação internacional entre o Instituto de Arqueologia de Tirana e o Instituto de Arqueologia da Universidade Hebraica de Jerusalém retomou os trabalhos no local. Foi essa escavação conjunta que confirmou a identidade judaica do templo primitivo ao limpar os mosaicos enterrados.




Ao preparar nossa recente viagem à Albânia descobri a existência das ruínas desta sinagoga e estava ansiosa por visitar o sítio.

Mas desde o primeiro contato em terra firme, ouvia dizer que não havia sinagogas ou ruínas no país. O motorista de táxi, as moças e moços da recepção dos hotéis, nosso maravilhoso guia que nos acompanhou durante 6 dias, todos negavam a minha história.

Já no penúltimo dia, ou melhor, penúltima noite de nosso périplo pelo país, num momento de quase fúria, após um dia cansativo de muitas caminhadas e visitas a castelos e temperaturas de 42 graus, arrisquei a IA e descobri que estávamos perto do lugar sagrado, Sarandë, uma linda cidade.

Com muito sol, calor e alegria percorremos as ruas das ruínas, imaginando onde estaria a bimah, onde ficariam as pessoas durante as orações. Enfim, havíamos chegado ao lugar por nós tão esperado.

Queríamos desfrutar desta oportunidade de ver um pouco mais deste país,

Desta Albânia que protegeu seus judeus durante a Segunda Guerra Mundial com base no código de honra tradicional chamado besa.

O país foi um dos raros lugares na Europa onde a população judaica aumentou durante o Holocausto devido aos refugiados abrigados.





Hoje a população judaica no país reduziu-se a cem pessoas pois, com o fim do regime comunista, os judeus albaneses emigraram para Israel.




 

FONTES:

https://jguideeurope.org/en/region/albania/sarande/

https://www.bbc.com/portuguese/articles/cq5y9nr3n79o

https://blog.ehri-project.eu/2024/01/24/the-rescue-of-jews-in-albania/

IA



Iachad (juntos - יחד) - por André Naves: Bnei Anussim

 


Bnei Anussim

Saudades...

Saudades...

Saudades...

Pra última flor do Lácio, pro português quadradinho das gramáticas, saudade é um ente abstrato. Não existe o plural de saudade!

Que loucura isso! Não existe plural...

Justo as saudades! Quer coisa mais coletiva, mais ancestral, que isso? Nossas saudades...

Mas aqui é minha crônica! Linguagem do conforto, da fogueira, do café, do bolo de fubá...

Aqui as saudades são ancestrais. Vêm de antepassados e vão sendo construídas passo a passo, fagulha a fagulha... De geração em geração!

Acho que até fiquei um tiquinho confuso...

Claro que eu sou um indivíduo. Tenho minhas características únicas, cores e sons, luzes e trevas. Sou gente! Nada do que é humano me é estranho, dizem...

Mas foi o caminho de minha história que me trouxe até aqui.

Até aqui...

Eu sou fruto da união de algumas famílias. Quem não é, não é?

Os Naves, que vieram da Espanha. Aliás, bem pertinho de Oviedo ainda tem o vilarejo Naves. Interessante isso, né?

Porque os Naves... bem, eu não sei qual é o nome original, mas eram armadores. Originalmente, armadores. Construtores de caravelas. Desbravadores. Mas caíram nas tramas da inveja, da intriga! Massacrados! Aniquilados! Fogueiras da Inquisição. Fogueiras da destruição! Convertidos à força! Forçados... Expropriados... Degradados!

De descobridores a refugiados...

Essa fogueira começou numa tragédia, num massacre, mas terminou aqui, nessas reticências...

E tem o outro lado também... A outra turma! Meu outro eu! Os Logaldi Bartholomeu! Arberesh! Albaneses expulsos quando o Império Otomano dominou. Desembarcaram na Itália. Séculos se passaram... De repente, Brasil!

Do refúgio às reticências...

Minhas raízes! O italiano sempre foi o idioma de dominadores, de invasores! Nada como o doce som do Arberesch falado na Calábria!  Não tinha o sabor ancestral do raki... Era só um vinho importado, um modismo autoritário, sem tradição, sem vida, sem alma nem história!

Refugiados no Brasil!

Silva e Logaldi Bartholomeu. Brasil e Europa. Tudo se cruzou, se emaranhou, se amalgamou... Eis-me aqui! Das tragédias abrem-se as cortinas para o Futuro!

Promessa!

É uma enormidade de fatos e coincidências, desastres e delícias, de histórias que nos embalaram até essa letra! Esse "A"!

Já pensou se de repente um ancestral meu tivesse resolvido tomar outro caminho, outra escolha? E se ele tivesse morrido de morte matada? Ou de morte morrida? Ou se tivesse ganhado fortuna?

A história faz parte de quem eu sou. Faz parte dessas palavras que vocês estão lendo. De tudo o que falo, de tudo o que sei, de tudo o que sou...

Taí a beleza da vida! Esse é o milagre! O MILAGRE!

No fim, a gente é muito mais do que somente coletivo. A gente é histórico. É ancestral. A gente foi sendo construído, transmitido, aos poucos... Passo a passo... Tradição a tradição... De geração em geração!

Bnei Anussim... Filhos dos Forçados... Filhos da Força!

No fim, a gente é História, mas isso não é uma condenação. É uma promessa, uma possibilidade! Se somos frutos da nossa história, temos a possibilidade de quebrar ciclos. De começar do zero uma nova linhagem geracional. Mais limpa. Mais iluminada. Mais potente.

Um momento, uma tomada de decisão! Única! E, de repente, a gente tá com o timão da vida... Vontade, desejo e paixão! Crescer, caminhar, estar ao lado dos outros, perceber a comunidade. É isso que faz o que nós somos!

Responsabilidade...

É por isso que é melhor a gente não fugir das tragédias. Elas acontecem... Fazem parte desse mundo. E, acreditem, elas nos tornam pessoas melhores — comunidades melhores, pessoas históricas e coletivas, ancestrais e coletivas, melhores.

Pensa no paradoxo... Talvez a maior de todas as tragédias seja nunca ser purificado por uma tragédia. A ostra só produz pérolas quando incomodada pelo grão de areia...

Armadores ibéricos que construíam caravelas foram queimados nas fogueiras, enquanto os que restaram foram jogados no mar, para as Américas. Albaneses perseguidos por impérios atravessaram mares e montanhas e acabaram no Brasil. Nessas reticências...

A gente sente na pele o eco de fogueiras que nunca viu, mas que queimaram algo dentro de nós... Traumas históricos. Saudades ancestrais...

Mas olha... Eu acho que todos nós somos, de alguma forma, não importa se nossos ancestrais foram judeus ibéricos e albaneses, otomanos, africanos escravizados, indígenas massacrados, migrantes famintos... Todos nós somos filhos dos que foram forçados — pela história, pela tragédia, pela crueldade dos impérios e das inquisições de cada tempo.

E estamos aqui e agora, todos nós, portadores do mesmo tesouro, pescadores das mesmas pérolas, proprietários da mesma oportunidade: quebrar o ciclo. Começar de novo. Sob Aquela Luz que sempre continua brilhando. Silenciosa. Discreta.

Como a saudade que não tem plural no dicionário, mas que em nós se faz multidão, o todo é muito maior do que a soma das partes, juntos pelo amálgama do Amor.

Juntos por Amor!

Naves. Logaldi. Bartholomeu. Silva. Fogueiras. Caravelas. Oceanos. Pérolas. Brasil!

Tudo isso sou eu. Tudo isso somos nós.

Bnei Anussim.

Filhos dos Forçados...

Filhos da Força!

André Naves Defensor Público Federal. Escritor. Presidente do Chaverim (www.chaverim.org.br) www.andrenaves.com | Instagram: @andrenaves.def

 


quinta-feira, 30 de julho de 2026

ACONTECE: AMOR, AMAR, o sentimento que garante a longevidade

ACONTECE: AMOR, AMAR, o sentimento que garante a longevidade



Israel em São Paulo, Posts FB

Por Regina Pekelmann Markus

Esta foi uma semana de LUA CHEIA. Calor, vento, chuvas acontecendo em pleno inverno paulista. No calendário judaico, um calendário lunar, a lua cheia ocorre no dia 15 de cada mês. No sábado seguinte ao dia 15 de Av, sempre coincide com a leitura da parashá ÉKEV (עֵקֶב). No hemisfério norte é verão. Noites quentes que antecedem Rosh HaShaná (Cabeça do Ano), o início do calendário civil judaico. O dia 15 de Av é muito especial porque é o dia do AMOR, o dia da continuidade, o dia em que somar 1+1 com AMOR resulta em 3. E esta matemática especial, que foge à aritmética comum, encontra eco na Torá, entre sábios como Rashi (1040-1105) e Ramban (Nachmanides, 1194-1270), e também na ciência física (Albert Einstein, 1879-1955). Em 2026, presenciamos o funeral e sepultamento do senador republicano americano Lindsey Graham (28 e 29 de julho de 2026), após morte súbita em 11 de julho de 2026 aos 71 anos. E o Estado de Israel segue em direção à longevidade, batendo recordes em esportes, educação e em um padrão de convivência único. 

1+1 = 3 na Torá 

O início da Parashat Ékev descreve um pacto entre HaShem e um ser humano. O esforço humano (1) será abençoado (1) e o resultado será infinito (3). Nesta leitura, escutaremos Moshé relatar o recebimento dos Dez Mandamentos 40 anos depois. As primeiras tábuas foram feitas por HaShem (1); as segundas, uma obra conjunta. O material foi esculpido por Moshé e a escrita foi feita por HaShem. Os sábios chegam à conclusão de que unir o esforço humano ao divino é mais produtivo e nós comprovamos que é mais duradouro. A longevidade deste texto, aliada ao fato de manter uma ligação precisa com os dias de hoje, confere à Torá a dimensão do infinito, da eternidade. 

1+1 = 3 para os Sábios
(fonte: IA - texto RPM)
Rashi (Rabi Schlomo Yitzchaki)
Rashi nasceu em 1040 e faleceu em 1105 em Troyes, na França. Estudou durante a juventude na academias talmúdicas de Worms e Mainz, na Alemanha. Retornou a Troyes para fundar sua própria academia. 
Há muitos comentários de Rashi sobre esta parashá, mas no dia do AMOR, escolho a metáfora do contrato de casamento. As primeiras tábuas foram esculpidas e escritas por HaShem. O povo passivo. União pouco duradoura, sem futuro! Nas segundas tábuas, Moshé suou a camisa e trabalhou de fato, pois, após esculpir, subiu a montanha. A soma dos esforços de cada parceiro, recheada de AMOR, faz com que 1+1 resulte em 3. Notem que cada um colabora com o que sabe e com o que pode. O AMOR é o amálgama que une sem apagar a individualidade.   
Ramban (Rabi Moshe Ben Narrman, Narrmanides)
Ramban nasceu em Girona, na Catalunha, Espanha, 89 anos após a morte de Rashi (1194), e morreu na cidade de Akko (Acre, 1270), após ter ajudado a reconstruir a comunidade judaica de Jerusalém. Um dos trechos mais bonitos é o Kli Yakar - o valor do suor versus o presente. Ao ganhar as primeiras "Tábuas",  o homem não soube dar o devido valor ao presente. Mas, quando ocorre o trabalho conjunto, cria-se o conceito de Teshuvá. Um preparo para o dia de Yom Kipur. Teshuvá: saber olhar para o passado para construir um futuro infinito. A imperfeição é capaz de abrir espaço para o novo, para o imprevisto. 

1+1 = 3 para Albert Einstein

Hoje vou considerar que Albert Einstein dispensa apresentações! Vamos direto ao tema.
O conceito de que o todo é maior que as partes decorre do fato de que elementos básicos podem interagir, gerando um resultado inesperado. Duas partículas têm uma massa. Quando unidas, as partes da massa liberam uma quantidade colossal de energia. 
Einstein usou o mesmo conceito básico de Ékev na chamada "curvatura do espaço-tempo". Dizia que a luz das estrelas atrás do Sol chegaria à Terra mais lentamente quando o Sol estivesse à sua frente. A massa do Sol afetaria a trajetória da Luz. A comprovação deste fato ocorreu em Sobral, no Ceará, durante um eclipse total do Sol em 29 de maio de 1919. Comparando a luz destas estrelas à noite e no momento do eclipse, obtida por meio de fotografias de alta precisão feitas por astrônomos ingleses, comprovou-se que o desvio seguia a equação de Einstein. Há muitos artigos sobre o tema. Deixo alguns links [1, 2].

ESTA SEMANA em 2026

Um fato marcante foi o enterro do senador Lindsey Graham nos Estados Unidos da América. Amigo declarado e atuante de Israel e importante articulador internacional. Em 28 de julho, foi homenageado no Capitólio, antes do serviço fúnebre na Catedral Nacional de Washington. O primeiro-ministro de Israel e o presidente ucraniano viajaram aos Estados Unidos para prestar homenagem. O fato fala mais do que mil palavras.

No dia seguinte, foram feitas as homenagens póstumas no estado da Carolina do Sul, que Graham representou por mais de 20 anos. A última viagem oficial de Graham a Israel ocorreu em fevereiro de 2026. Esteve com o primeiro-ministro e o ministro das Relações Exteriores. Vale lembrar que, de Israel, voou diretamente para os Emirados Árabes Unidos e para a Arábia Saudita.

Incidentes durante o cortejo fúnebre mostram que há grupos organizados que querem eliminar o AMOR do futuro, assim como fizeram no passado recente. Mas, o nascimento de crianças ao redor do mundo, de pais que estiveram reféns e que sofreram meses e anos de tortura a partir de 7 de outubro de 2023, comprova que o AMOR cria o futuro!!!

E a revoada de pássaros no Vale do Hulle, no norte de Israel, mostra que migrações mantendo identidade são verdades da VIDA!







Shabat Shalom😍😍😍💞💞

Regina


  





terça-feira, 28 de julho de 2026

A indigeneidade judaica é uma realidade antropológica

 



Artigo de suma importância, para ler até o final e repassar à exaustão.

 

"Israel é a própria personificação da continuidade judaica, é a única nação na Terra que habita a mesma terra, carrega o mesmo nome fala a mesma línqua e adora o mesmo Deus que há 3.000 anos. Você cava o solo e encontra cerâmica da época davídica, moedas de Bar Kokhba e pergaminhos de 2.000 anos escritos em uma escrita notavelmente parecida com aquela que hoje anuncia sorvete na loja de doces da esquina." A observação capta algo extraordinário. Sob as ruas do Israel moderno estão os restos físicos da antiqa civilização judaica. Acima deles vive essa mesma civilização, transformada pela história mas inconfundivelmente contínua com suas oriqens. A língua evoluiu, mas continua sendo o hebraico. A capital continua sendo Jerusalém, os festivais continuam ligados à mesma paisagem. Ao longo de mais de três milênios de história, o fio que conecta o povo judeu à sua pátria nunca foi rompido.

 

A indigeneidade judaica é uma realidade antropológica

 

Pontos-chave:

* Indigeneidade é um conceito antropológico, não político. Diz respeito a onde a civilização de um povo se originou e se desenvolveu, e não a se ele detém poder atualmente ou passou por opressão.

* O povo judeu atende a todos os critérios substantivos de indigeneidade. História, arqueologia, língua, direito, cultura, memória coletiva e uma conexão duradoura com a Terra de Israel apontam todos para a mesma conclusão.

* Reconhecer a indigeneidade judaica restaura a precisão histórica. Coloca o povo judeu dentro do mesmo arcabouço antropológico aplicado a qualquer outro povo indígena e fornece o contexto adequado para compreender a identidade judaica e o sionismo.

 

*Introdução*

 

A questão da indigeneidade judaica na Terra de Israel tornou-se uma das controvérsias definidoras da experiência judaica moderna. Para alguns, a resposta é tão evidente que quase dispensa explicação. Para outros, reconhecer a indigeneidade judaica é visto como legitimar a autodeterminação judaica e, portanto, é rejeitado.

 

Isso é lamentável porque indigeneidade é, antes de tudo, um conceito antropológico. Ao longo do último meio século, no entanto, esse conceito foi cada vez mais politizado. Durante os movimentos de descolonização das décadas de 1960 e 1970, a indigeneidade passou a ser associada a um arcabouço ideológico mais amplo que dividia o mundo entre colonizadores e colonizados. Embora muitos povos indígenas tenham inegavelmente sofrido opressão, a submissão a outra nação não é o que torna um povo indígena. Essas são circunstâncias históricas compartilhadas por muitos povos indígenas, e não as características que os definem.

 

A distinção importa. Se a indigeneidade for compreendida através da lente da opressão, torna-se possível argumentar que um povo deixaria de ser indígena caso recuperasse a soberania ou exercesse poder político em sua pátria. Tal proposição é absurda. Realidades políticas mudam ao longo dos séculos. Os vínculos que unem um povo a uma terra, não.

 

Uma segunda equivocação é a ideia de que a indigeneidade se determina simplesmente por quem chegou primeiro a um lugar. A ideia parece intuitiva até que se examinem comunidades indígenas reais. Como observou o antropólogo Manvir Singh em seu ensaio de 2023, a cronologia não é capaz de explicar quem é ou não considerado indígena. Os primeiros habitantes permanentes da Islândia foram monges gaélicos, seguidos pelos vikings, mas nenhum dos dois grupos é normalmente descrito como indígena. Já os maasai são amplamente reconhecidos como indígenas, apesar de suas próprias tradições orais descreverem uma migração para o atual Quênia e Tanzânia há apenas alguns séculos. Ser o primeiro, embora às vezes relevante, não é condição necessária nem suficiente para a indigeneidade.

 

O que, então, distingue um povo indígena? A resposta não está na cronologia, mas na formação da identidade coletiva. Um povo indígena pode ser definido como um grupo cuja identidade coletiva começou em uma terra específica e que nela permaneceu enraizado — física, espiritual ou culturalmente. É seu lar e é onde se originou, desenvolveu e continuou fixado por meio de uma conexão com o ambiente e os recursos naturais, sistemas vivos, cultura e práticas como povo, independentemente de sua soberania na terra.

 

Essa compreensão reconhece que a indigeneidade sobrevive ao deslocamento. A história está repleta de exemplos de povos indígenas que passaram por conquista, exílio ou migração forçada e mantiveram laços duradouros com suas terras ancestrais. Ela também separa a indigeneidade dos arranjos políticos contemporâneos. A soberania pode ser conquistada, perdida e restaurada. A indigeneidade diz respeito à formação de um povo, não à natureza do Estado que o governa.

 

Essa compreensão também evita reduzir a identidade indígena apenas à genética. Estudos genéticos modernos demonstram consistentemente ancestralidade levantina compartilhada entre comunidades judaicas geograficamente dispersas. Esses achados não definem a judaicidade. Antes, corroboram o que a arqueologia, a história, a língua e a tradição judaica sustentam há milênios: que o povo judeu se originou na Terra de Israel.

 

A conversão tampouco é incompatível com a indigeneidade. Comunidades indígenas ao redor do mundo há muito possuem mecanismos pelos quais forasteiros se tornam membros do coletivo. As Nações Unidas reconhecem explicitamente que povos indígenas têm o direito de determinar sua própria composição. O povo judeu não é diferente. Ao longo da história, a lei judaica determinou a pertença, enquanto a conversão permitiu que aqueles que escolhem se unir ao povo judeu se tornem participantes plenos da civilização judaica.

 

*O arcabouço das Nações Unidas e o caso judaico*

 

As Nações Unidas fornecem um arcabouço útil para compreender a indigeneidade. Em vez de oferecer uma definição rígida, identificam sete critérios amplos que ajudam a avaliar reivindicações de status indígena. Ainda que uma dessas características seja problemática, o arcabouço permanece um meio valioso para avaliar a indigeneidade.

 

Medido por essas características, o povo judeu não é um caso ambíguo. Representa um dos exemplos mais claros de indigeneidade em todo o mundo. Isso expõe uma ironia gritante no coração das Nações Unidas: a organização desenvolveu um arcabouço que confirma o povo judeu como indígena da Terra de Israel, mas continua a apagar essa mesma verdade.

 

*Autoidentificação como povo indígena no plano individual e aceitação pela comunidade*

 

Historicamente, os judeus não se descreveram como indígenas. Isso, por vezes, é apresentado como evidência contra a indigeneidade judaica, mas o oposto é verdadeiro. A linguagem da indigeneidade é moderna; a civilização judaica é antiga. Muito antes de a antropologia ou o direito internacional existirem, os judeus já possuíam um vocabulário próprio para descrever a relação entre si e sua pátria. Falavam de Am Yisrael, o Povo de Israel; Eretz Yisrael, a Terra de Israel; Sião; Jerusalém; e Aliyah. Esses conceitos expressam precisamente a relação que a linguagem moderna da indigeneidade busca descrever.

 

Essa relação permanece central para a identidade judaica hoje. Pesquisas demonstram consistentemente que Israel ocupa um lugar central na identidade judaica na Diáspora. Um estudo constatou que 93% dos judeus britânicos afirmam que Israel faz parte de sua identidade judaica, enquanto uma pesquisa mais recente concluiu que 97% se sentem pessoalmente conectados aos acontecimentos no país. Isso não deve ser confundido com o difamatório mito antissemita da dupla lealdade. Judeus podem sentir profundo apego aos países onde vivem e ainda assim reconhecer Israel como a pátria do povo judeu.

 

Assim como muitos povos indígenas, os judeus determinam a pertença de acordo com suas próprias leis e tradições. Esses mecanismos existem não para excluir, mas para preservar a continuidade da comunidade ao longo das gerações.

 

*Continuidade histórica com sociedades pré-coloniais e/ou pré-colonizadoras*

 

A continuidade histórica está no cerne da indigeneidade. O caso judaico é excepcionalmente sólido. Apesar da destruição romana de Jerusalém e da repressão à Revolta de Bar Kokhba, a civilização judaica não desapareceu da Terra de Israel. A Galileia tornou-se o principal centro da vida judaica, onde a Mishná foi compilada por volta do ano 200 d.C. e o Talmude de Jerusalém concluído no século V. Comunidades judaicas continuaram a existir em Tiberíades, Safed, Hebron, Cesareia, Acre e na própria Jerusalém sob impérios sucessivos. A alegação de que a Terra de Israel foi esvaziada de judeus até o surgimento do sionismo moderno é um mito histórico.

 

O retorno judaico também não começou com o sionismo moderno. Judeus fizeram Aliyah ao longo dos séculos, incluindo a migração de centenas de rabinos franceses e ingleses em 1211, o retorno de judeus sefarditas após sua expulsão da Espanha e de Portugal, e migrações posteriores do Iêmen e da Etiópia. O sionismo moderno transformou o retorno judaico em um movimento nacional; não o inventou.

 

A própria Jerusalém ilustra melhor essa continuidade. Foi a capital dos antigos reinos judaicos, permaneceu o ponto focal da oração judaica durante o exílio e tornou-se a capital do Estado judaico restaurado. Sinagogas em todo o mundo voltam-se para Jerusalém, e todo Seder de Pessach termina com as palavras: "No próximo ano em Jerusalém". Por mais de dois mil anos, o exílio esticou, mas nunca rompeu, o vínculo entre o povo judeu e sua pátria.

 

*Forte relação com territórios ancestrais e recursos naturais*

 

Talvez nenhum critério capte melhor o significado da indigeneidade do que a relação de um povo com sua terra ancestral. O próprio calendário judaico reflete essa relação. Pessach, Shavuot e Sucot começaram todos como festivais agrícolas enraizados nas estações e colheitas da Terra de Israel, antes de se tornarem festivais de peregrinação centrados em Jerusalém. Tu BiShvat marca o ciclo agrícola da terra, enquanto Shmita, o ano sabático, determina que a própria terra descanse a cada sétimo ano.

 

A Terra de Israel permanece central na oração judaica e na memória coletiva. Judeus oram voltados para Jerusalém, continuam a orar por chuva de acordo com a estação chuvosa de Israel independentemente de onde vivam, e muitos escolhem ser enterrados em Israel ou com solo da Terra de Israel colocado em suas sepulturas. Da aliança com Abraão à moderna Declaração de Independência, a Terra de Israel permaneceu o centro físico e espiritual da civilização judaica por mais de três milênios.

 

*Sistemas sociais, econômicos ou políticos distintos*

 

O caso judaico é igualmente convincente quanto a instituições sociais, econômicas e políticas distintas. Socialmente, a civilização judaica há muito se organiza em torno dos conceitos de Kehilla (comunidade) e Kol Yisrael arevim zeh ba'zeh — todos os judeus são responsáveis uns pelos outros. Esse senso de responsabilidade mútua deu origem a instituições comunitárias duradouras, incluindo sinagogas, escolas, sociedades funerárias e organizações de assistência.

 

Economicamente, a civilização judaica desenvolveu uma ética distintiva centrada na tzedaká. Embora traduzida frequentemente como "caridade", suas raízes estão em tzedek — justiça. Leis bíblicas como pe'ah e a coleta dos restos da colheita exigiam que os agricultores deixassem parte de sua colheita para os necessitados, estabelecendo o entendimento de que apoiar os vulneráveis não era generosidade voluntária, mas uma obrigação comunitária baseada na justiça.

 

Politicamente, a Torá funcionou como a lei do povo judeu. Não era simplesmente uma coleção de ensinamentos religiosos, mas o arcabouço jurídico pelo qual a sociedade judaica se organizava. Ela regulava a autoridade política, estabelecia tribunais, governava propriedade, agricultura e comércio, e prescrevia as obrigações que uniam a sociedade judaica. Mesmo depois de perdida a soberania, comunidades judaicas em toda a Diáspora continuaram a se organizar em torno dessa tradição jurídica.

 

*Língua, cultura e crenças distintas*

 

O caso judaico é igualmente forte no que se refere a língua, cultura e crenças. Todas as três se desenvolveram juntas na Terra de Israel como parte de uma única civilização. O hebraico é o exemplo mais claro. Embora os judeus tenham desenvolvido posteriormente importantes línguas da Diáspora, como o iídiche, o ladino e o judeu-árabe, sua língua indígena sempre foi o hebraico. É a língua da Torá, da oração judaica e do estudo judaico. Poucos povos indígenas restauraram uma língua ancestral com tanto sucesso após séculos de dispersão.

 

A cultura judaica demonstra a mesma continuidade. Costumes como o brit milá, primeiro ordenado na Torá e praticado pelos antigos israelitas, permanecem entre as expressões mais universais da identidade judaica. O mikvê, prescrito na Torá e comprovado por mais de mil descobertas arqueológicas em toda a antiga Judeia, Galileia e Pereia, continua a desempenhar papel importante na vida judaica.

 

As crenças judaicas também refletem essa continuidade. Por milhares de anos, os judeus têm proclamado as palavras do Shemá: "Ouve, Israel: o Senhor é nosso Deus, o Senhor é Um". Ainda assim, a crença judaica não pode ser separada da Terra de Israel. YHWH é o Deus de Israel, o Deus nacional do povo judeu.

 

*Constituir grupos não dominantes da sociedade*

 

A única característica que deve ser rejeitada é a sugestão de que povos indígenas devam constituir um setor não dominante da sociedade. Isso não é porque não se aplique à experiência judaica, mas porque interpreta mal a própria indigeneidade. Se um povo indígena exerce ou não poder político atualmente nada diz sobre onde esse povo se originou ou onde sua civilização emergiu. A soberania pode ser perdida e recuperada. A indigeneidade, não.

 

De modo mais fundamental, definir os povos indígenas por sua marginalização política os despoja de sua agência. Reduz a indigeneidade a uma condição permanente de vitimização, em vez de reconhecer os povos indígenas como civilizações vivas capazes de exercer a autodeterminação e, quando possível, descolonizar-se.

 

A experiência judaica ilustra a falha desse critério. Como muitos povos indígenas, os judeus foram conquistados, despossuídos e dispersados. Diferentemente da maioria, conseguiram, ao final, restabelecer a soberania em parte de sua pátria ancestral. Essa conquista não tornou o povo judeu menos indígena. Demonstrou que a descolonização é possível.

 

*Determinação em manter e reproduzir seus ambientes e sistemas ancestrais como povos e comunidades distintos*

 

Poucos povos demonstram isso com mais clareza do que os judeus. Ao longo de quase dois mil anos de exílio, a civilização judaica continuou a reproduzir os sistemas que surgiram pela primeira vez na Terra de Israel.

 

O calendário hebraico talvez seja o exemplo mais claro. Mais do que um simples meio de marcar o tempo, ele reproduz a civilização judaica através das gerações. Enraizado nos ritmos agrícolas da Terra de Israel, continua a determinar os festivais judaicos, Bar e Bat Mitzvot, yahrzeits e, hoje, até mesmo as comemorações nacionais de Israel.

 

A sinagoga fornece outro exemplo notável. Originalmente estabelecida como beit knesset, a casa de assembleia, seu principal propósito era a leitura pública e o ensino da Torá, garantindo que cada geração herdasse a lei do povo judeu. Hoje, judeus em todo o mundo ainda leem a mesma parashá semanal, completando a Torá a cada ano em um ciclo que perdura há séculos.

 

Essa continuidade se estendeu além das instituições. Judeus continuaram a celebrar os antigos festivais enraizados na Terra de Israel, a circuncidar seus filhos, a observar práticas como o mikvê e a preservar costumes que refletiam suas origens. Mesmo durante o Holocausto, sobreviventes recordavam eventos de acordo com o calendário hebraico, e alguns continuaram a observar o Yom Kipur apesar de condições inimagináveis.

 

Aplicado de maneira consistente, o próprio arcabouço das Nações Unidas reconhece o povo judeu como indígena da Terra de Israel. A dificuldade não reside na evidência, mas na falta de disposição de muitos na comunidade internacional em aceitar aonde essa evidência leva.

 

*Por que a indigeneidade judaica importa*

 

O propósito de reconhecer a indigeneidade judaica não é vencer uma disputa política. É descrever o povo judeu com precisão. Durante muito tempo, a identidade judaica foi compreendida principalmente por meio da religião, da perseguição ou do moderno conflito árabe-israelense. Cada um desses aspectos faz parte da história judaica, mas nenhum explica de onde o povo judeu veio ou o que somos. A indigeneidade explica.

 

Compreender-nos como um povo indígena restaura a história judaica a seus fundamentos apropriados. O Orgulho Judaico começa com os judeus reivindicando o direito de definir a si mesmos, em vez de aceitar definições impostas de fora. A indigeneidade oferece um arcabouço pelo qual podemos contar nossa própria história usando os mesmos conceitos antropológicos aplicados a qualquer outro povo. Lembra-nos de que não somos apenas adeptos de uma religião, mas um povo cuja civilização emergiu em uma pátria específica.

 

Reconhecer a indigeneidade judaica também recoloca a história judaica dentro da história humana mais ampla. Com muita frequência, os judeus são tratados como se existissem fora dos conceitos usados para compreender qualquer outro povo. Não é assim. Como outros povos indígenas, temos uma pátria ancestral, uma língua indígena, uma civilização compartilhada e uma identidade coletiva duradoura.

 

Isso também transforma a maneira como o sionismo é compreendido. Em vez de vê-lo apenas pelo prisma do nacionalismo europeu do século XIX ou da geopolítica contemporânea, a indigeneidade judaica revela o sionismo pelo que ele fundamentalmente é: o movimento pelo qual um povo indígena restaurou a autodeterminação em sua pátria ancestral após séculos de conquista, exílio e dispersão. Na linguagem de hoje, representa um dos exemplos mais bem-sucedidos de descolonização indígena da história.

 

Como observou Charles Krauthammer: "Israel é a própria personificação da continuidade judaica: é a única nação na Terra que habita a mesma terra, carrega o mesmo nome, fala a mesma língua e adora o mesmo Deus que há 3.000 anos. Você cava o solo e encontra cerâmica da época davídica, moedas de Bar Kokhba e pergaminhos de 2.000 anos escritos em uma escrita notavelmente parecida com aquela que hoje anuncia sorvete na loja de doces da esquina."

 

A observação capta algo extraordinário. Sob as ruas do Israel moderno estão os restos físicos da antiga civilização judaica. Acima deles vive essa mesma civilização, transformada pela história, mas inconfundivelmente contínua com suas origens. A língua evoluiu, mas continua sendo o hebraico. A capital continua sendo Jerusalém. Os festivais continuam ligados à mesma paisagem. Ao longo de mais de três milênios de história, o fio que conecta o povo judeu à sua pátria nunca foi rompido.

 

Reconhecer essa continuidade não politiza a história judaica. Despolitiza-a, ao devolver a discussão aos fundamentos históricos e antropológicos sobre os quais a história sempre repousou. A história judaica é uma história indígena. E sempre foi.

 

Fonte: https://honestreporting.com/jewish-indigeneity-is-an-anthropological-reality/

 

Pesquisa, tradução, adaptação, legendas e comentários: By@Krok


quinta-feira, 23 de julho de 2026

ACONTECE: País avança para trás

 Por Juliana Rehfeld




País avança para trás 

Estamos em Tisha beAv, 9 do mês Av, a data que concentra as maiores tragédias para o  povo judeu, pelas quais se entra em luto. A Mishná (Tratado Ta’anit 4:6) cita cinco calamidades principais ocorridas nesse dia, e a tradição posteriormente associou diversos outros acontecimentos históricos à mesma data.     

- O pecado dos espiões que Moisés enviou para descobrir como era Canaã e cujo relato pessimista de 10 entre os 12 que foram resultou na demora de 40 anos no deserto e consequente morte de toda uma geração.

-  Destruição do Primeiro Templo em 586 a.e.c. Jerusalém e o Templo de Salomão, por Nabucodonosor II, iniciando o exílio babilônico. 

- Destruição do Segundo Templo em 70 d.e.c. pelo romano Tito durante a Grande Revolta Judaica. Deu início ao longo período de dispersão. 

- Queda da fortaleza de Betar em 135 d.e.c., último grande reduto da revolta de Bar Kochba contra Roma na qual milhares de judeus morreram.

- Jerusalém foi devastada pelos romanos e transformada na colônia romana de Aelia Capitolina, com proibição em grande parte da presença judaica.

Ao longo dos séculos, a tradição também relacionou ao 9 de Av diversos episódios marcantes da história judaica, entre eles:

* 1290 – Expulsão dos judeus da Inglaterra por ordem do rei Eduardo I da Inglaterra. 

* 1492 – Entrada em vigor do Decreto de Alhambra, que expulsou os judeus da Espanha sob os Reis Católicos, Fernando II de Aragão e Isabel I de Castela. 

Por isso, o 9 de Av tornou-se um dia que simboliza não apenas a destruição dos Templos, mas todas as grandes rupturas nacionais do povo judeu: perda da soberania, exílio, perseguições e dispersão.    

Talvez a reflexão mais frequente neste dia em nosso tempo é a de que será que faz sentido lembrar todas essas as tragédias quando hoje temos de volta a “Terra Prometida” e afinal a dispersão do povo é uma decisão individual nossa? E uma frequente resposta é a de que desse dia de maior escuridão poderá surgir a redenção, razão pela qual Tishá BeAv é também entendido como um convite à reconstrução espiritual e nacional. Não se trata apenas de recordar perdas, mas de reconhecer a capacidade de sobrevivência e renovação do povo judeu, que afinal construiu e administra um país pujante e contemporâneo, cuja população segue crescendo e produzindo grandes contribuições à humanidade…

Mas os sábios do Talmud ensinam que o Segundo Templo foi destruído por causa do sinat chinam — o ódio infundado entre judeus. E essa mensagem ganha especial relevância no Israel contemporâneo, onde as profundas e concretas divisões entre religiosos e seculares, direita e esquerda, e diferentes setores da sociedade, e têm sido motivo de preocupação constante, pior, motivo, na minha opinião, e não só na minha, de perda (recuperável?) de valores essenciais do judaísmo… 

A divisão foi escancarada nas 5 eleições entre abril de 2019 e novembro de 2022, em plena pandemia… 2023 começou com gigantes manifestações contra a chamada “reforma judiciária” de 4 de janeiro que pretendeu reduzir o poder da Suprema Corte, o que, num país sem uma constituição única nem uma segunda câmara legislativa, colocaria em risco a separação de poderes e a proteção das minorias. Esta mega discussão que, provavelmente logo se encaminharia a mais uma quebra da coalizão e traria mais um eleição, foi brutalmente interrompida por 7 de outubro de 2023. E a sociedade se calou, se desesperou e seu foco mudou. E novas manifestações voltaram às ruas.

A atual composição da coalizão que governa o país, com grande peso da extrema direita e da ultra ortodoxia, tem empurrado esta contemporânea democracia para trás! 

Às vésperas de uma nova eleição em 27/10 próximo e antes da unânime auto dissolução em 17/07,  houve uma maratona de votações nos últimos dias, um rolo compressor, antes que venha a nova realidade prevista nas pesquisas: Bloco da oposição: cerca de 61–62 cadeiras, suficiente para uma maioria mínima na Knesset; Bloco pró-Netanyahu: cerca de 48–49 cadeiras; Partidos árabes e outros não alinhados: aproximadamente 10–11 cadeiras, que podem ser decisivos dependendo das negociações. 

Em resumo, as principais vitórias legislativas dos partidos ultraortodoxos antes das eleições foram: 

1. a suspensão prática das sanções e prisões para muitos jovens haredim que não se apresentam ao serviço militar;

2. a ampliação da possibilidade de programas universitários separados por gênero;

3. o reconhecimento, em lei, do estudo da Torá como um valor fundamental do Estado. 

Além disso, foi aprovada uma decisão do gabinete de segurança (Security Cabinet), seguida da aprovação de recursos orçamentários pela coalizão, para financiar uma nova expansão de assentamentos na Cisjordânia. A medida prevê cerca de 34 novos assentamentos, mas, com eles, o número de assentamentos iniciados ou autorizados durante o atual mandato do governo chega a 103.

Há mais, mas paro por aqui… e pergunto, neste 9 de Av, para onde “avança” esta contemporânea, diversa e pujante democracia?

Shabat Shalom