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quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Acontece: A Alegria da Torá

A Alegria da Torá - Simchat (simrrat) Torá - 5786 - 2025

Por Regina P. Markus

Erev Simchat Torá - Dois anos que mudaram o mundo



Estamos em 5786 (ה'תשפ"ו). Escrevo no dia 15 de Tishrei, o dia da Lua Cheia, quando começa Simchat Torá. Esta semana Israel recebeu os 20 reféns que ainda estavam vivos, depois de 738 dias de cativeiro. As imagens da chegada são tocantes; muitos choravam e muitos sorriam. Um estado de êxtase percorreu os 5 rincões do planeta. Falar sobre as reações e as ações é necessário porque esta semana não apenas será lembrada por Am Israel, mas também por toda a humanidade. Nomes como o do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, do Primeiro-Ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e do presidente do Egito, Abdel Fattah El-Sissi, entre os muitos que citaremos, marcam a história. E quero deixar aqui registradas falas de pessoas comuns que, a partir de países árabes parcialmente libertos do jugo "horror", abrem o véu dos que apoiam Israel. Atitude corajosa, que revela a grande vontade de viver em um país que respeita a individualidade, que pode gerar conflitos, mas se une de forma magnífica quando é chamado.

Olhando os números. Muito é falado sobre guematriot, a forma como a Cabalá lê os números.  5786 (ה'תשפ"ו) é um número especial. 

  • ת (Tav): 400, ש (Shin): 300, פ (Pei): 80, ו (Vav): 6. 
  • Somando 400+300+80+6 = 786. 
  • O 'ה (Hei') seguido de apóstrofe é 5000. 786+5000 = 5786
  • Portanto, a soma das letras corresponde ao numeral do ano! 
  • Ao longo dos séculos, este número foi mencionado por muitos estudiosos e curiosos. Este era considerado um ano da virada. Um ano em que muito poderia acontecer. O ano mal começou e nós vivemos acontecimentos inesquecíveis. Tenho dificuldade de classificar como mais importante um ou outro fato. Tem uns que completam um ciclo e outros que abrem perspectivas. Os pontos positivos se sobressaem a ponto de nossos jornais terem dedicado suas primeiras páginas a relatar a libertação dos reféns.

Ao redor do mundo, a grande corrente de esperança estava unida. Atrasos e contrariedades cercaram aqueles momentos. A liberação  foi gota a gota, imagens do momento de transferência foram ocultadas, mas finalmente vimos o encontro com amigos e familiares. Emocionante!!! Os membros do Hamas e da Jihad Islâmica filmaram a morte de famílias gazanenses no próprio local de entrega de reféns. A novidade é que, desta vez, a imprensa deu mais foco à libertação e ao encontro. 

A chegada dos irmãos Cunio provocou uma sensação de incredulidade. Em segundos, um dos irmãos abraça e levanta a esposa. Todos ficamos estupefatos com a força de homens que, há dias, estavam esqueléticos e cavando a própria cova. Evyatar David, após ser obrigado a cavar sua própria cova, chega a Israel. São imagens que não podem ser negadas, e aí vem a pergunta: como? 





Vamos juntos mergulhar no aqui e agora e no lado místico e eterno do judaísmo. Há relatos talmúdicos repetidos por vários rabinos nesta noite de Erev (véspera). A Simchat Torá conta que muitas pessoas idosas ou doentes, ao longo da história, homens e mulheres, carregavam e dançavam com um Sefer Torá para comemorar o final da leitura anual, seguido do início da leitura anual. Quando eram perguntados qual o motivo deste milagre, a resposta ao longo dos séculos era sempre muito parecida e dizia que naquele dia letras da Torá se despregavam e subiam aos céus. Não apenas as letras subiam, mas pessoas podiam ser energizadas também. 

A chamada "energia sobrehumana" também encontra explicações na fisiologia. Ao entrar em condições mentais especiais, o corpo responde como um todo, transferindo energia que seria consumida para as mais diferentes funções para exercer algo que é relevante no momento. E os músculos ganham a força sobrehumana.

Foram momentos muito especiais em que a bênção do Aqui e Agora pavimentando o Amanhã ganha um sabor todo especial. "Bendito sejas Tu, Adonai nosso Rei, que nos criou, nos sustentou e nos fez chegar a este momento." Os comentários gerais eram que nunca esta bênção pareceu tão significativa. E minha experiência pessoal foi acrescida do encontro com o sobrevivente do Holocausto, Joshua Strul, conhecido por muitas aparições e por um trabalho excepcional com jovens brasileiros. Ele comentou: nós rezamos juntos a mesma bênção ao sairmos do Campo de Concentração Nazista. Repetindo o que todos falam e que traduz a verdade do momento, quando os judeus foram liberados dos campos de concentração nazistas, não tinham para onde voltar. Hoje voltam para sua pátria, para Eretz Israel, que lutou em sete frentes e derrotou os movimentos terroristas. 

Há algumas semanas escrevíamos sobre Trump e os movimentos para transformar as forças e riquezas dos países árabes e de Israel em um polo de negociação. Negócios e não diplomacia. Comprar e vender. Valorar e precificar. O valor absoluto é relativizado para que o bem ou o conhecimento possam ser compartilhados por muitos. Não impedir a apropriação por ideologismos ou por vontade de dominar.

O que vimos foi a reunião de Sharm el-Sheikh no Egito. Foi tudo perfeito? Óbvio que não. Uma das decepções que tive foi, após acompanhar a visita de Trump a Jerusalém e ver o esforço feito para que o primeiro-ministro de Israel estivesse presente em Sharm el-Sheik, notar a sua ausência. Em um jantar de família, no dia 13 de outubro, comentei sobre o convite em cima da hora, mas no dia seguinte vi que tal fato não aconteceu. Os jornais mostraram que o presidente da Turquia soube do fato quando já estava voando para o Egito. Após informar que deixaria de aparecer, foi solicitado ao primeiro-ministro de Israel que não comparecesse.

Problemas existem e devem ser solucionados. A reunião geral e as reuniões paralelas foram muito interessantes e trouxeram um hiato de esperança. Neste mesmo dia encontramos alguns relatos surpreendentes. 

E chegou o dia de Simchat Tora! Uma comemoração incrível no local onde foi o festival NOVA em 7 de outubro de 2023. Danças e cantos e muita alegria unindo o fim da leitura da Torá com o seu início. Unindo o passado ao futuro.

Algo não cala. A força dos números! Foram 738 dias entre aquele ataque hediondo e a libertação dos reféns. 7+3+8 = 18!!! VIDA!!! 

AM ISRAEL CHAI (RAI) VEKAIAM - O POVO DE ISRAEL VIVE E VIVERÁ! 

Aroveitemos estes dias de alegria e criemos um futuro baseado na ESPERANÇA.

Regina
15/10/2025





 

sexta-feira, 26 de abril de 2024

Diário de Guerra - 5 - Por Vivian Hamermesz Schlesinger





DEUS TEM UM PLANO God has a plan. Desde que você leu essa frase em um poster, há 35 dias, ela está sempre te desafiando. Quando você a esquece, ela volta a se colocar na tua frente, pairando a um metro e meio do chão. Uma frase que sorri, à espera da tua concordância.

Você sabia que não deveria ir lá. Visitar um lugar onde houve um massacre, para quê? Seria um desrespeito. Uma atitude parente daquela que se vê em acidentes de automóvel, onde os abutres voyeurs se acotovelam, obscenos. Você sabia que isso não se faz. Como você poderia honrar essas 364 almas que com certeza ainda estão lá, à espera de um milagre? Você decidiu que não iria. E foi.

Se um israelense quer ir lá, ver esse lugar de perto, ele tem todo direito, mas você? Você veio do Brasil para fazer trabalho voluntário, não para colecionar horrores para contar na volta. E mesmo assim você foi.

Se o Claudio não fosse, você não iria. Se ele não aprovasse, você saberia que é errado. Ele tem a bússola moral sempre firme, sempre aponta o norte. Ele não disse não. E você, já na defensiva, pensou, seja como for, vamos dividir isso também. Depois de 55 anos juntos, tudo tem de ser dividido. E vocês foram.

Tua amiga Liza queria muito ir. Chamou Shir, um amigo que esteve lá no dia. Ele virá encontrar vocês, quer contar.

God has a plan. Um campo de papoulas vermelhas. Margaridinhas amarelas em tufos, aqui e ali. À nossa frente, um eucalipto já sem cor jaz sobre a grama bem verde, o tronco levitando, desafiando a gravidade. Nem o eucalipto quis viver depois do que viu. Mais ao longe, na direção de Gaza, colinas suaves, poucas árvores. Havia chovido muito, a estrada de terra tinha sulcos largos e profundos, como se um trator pesado tivesse ido e vindo várias vezes por ali. Perdido. À esquerda, a uns 100 metros, via-se pequenos grupos de pessoas ao redor do que pareciam ser árvores jovens, ainda sem folhas. Em toda parte, bandeiras de Israel atadas entre duas árvores, insufladas pelo vento, prontas para zarpar. Velas presas a barcos ancorados ao solo. Lama cor de sangue.

Meu nome é Shir, ele diz, com um sorriso tímido que nunca sai do rosto. Shir, em hebraico, quer dizer música ou poesia. Shir, você estava aqui naquele dia? Sim, sou produtor musical (nome é destino), vim para a festa naquele dia em um grupo de 8 amigos. Você se esforça para se concentrar nele, porque o que de longe pareciam árvores são, na verdade, hastes verticais com uma foto grande de cada um dos 364 assassinados ali. Você sabe que a hora que começar a olhar essas fotos, uma a uma, e ler o que as famílias e amigos escreveram, os poemas, bilhetes de amor, de despedida, de saudades, você não verá mais nada.

Quando começaram as sirenes muitas pessoas se deitaram no chão, com as mãos sobre a cabeça, esperando que os mísseis parassem bem rápido. Eu tentava acalmar quem podia, já já chega o exército, já vamos acabar com isso...Era difícil, porque poucos minutos antes estávamos dançando, ouvindo música, felizes por estar na natureza.

Ele não fala nada sobre os terroristas atirando em todas as direções, correndo atrás de quem tentava escapar. Dá um fast forward. Muitos estavam tentando ir embora em seus carros, escolhi ficar. Os que não tinham carro, telefonavam para suas famílias nos kibutzim e em Sderot, pedindo para ir buscá-los, sem saber que o horror grassava lá também. Os que atendiam, não acreditavam, pensavam que era uma brincadeira. (Imagine. Seu filho sai com seus melhores 7 amigos para passar a noite em uma festa no campo, um lugar famoso pela beleza – até finais de ano de Jardim da Infância são festejados lá. Sua maior preocupação? Filho, não beba demais! Às 7 horas da manhã do dia seguinte, você recebe um chamado desesperado, dizendo que os terroristas estão aqui, estão atirando em nós – como? Terroristas em Israel? Um ou dois em um ataque pontual, isso conhecemos, mas dezenas, centenas deles, em solo israelense? Atirando nos jovens, lançando RPG’s sobre seus carros, para emboscá-los? Isso nunca aconteceu. E eis que.)

Vi as pessoas tentando se esconder em banheiros químicos, debaixo do bar, atrás das geladeiras. Decidi levar 3 feridos no meu carro a um hospital. Após algumas dezenas de metros, os terroristas vieram correndo pela estrada, atirando na nossa direção. Comecei a rezar o Shema (a reza mais importante do judaísmo, “Escuta,ó Israel, o Eterno é nosso Deus, o Eterno é um.”, que se diz todos os dias e quando se está diante da morte). Virei o carro, dirigi na direção oposta, consegui chegar ao kibutz Be’eri. Jamais poderia imaginar... uma cena daquelas. Corpos, partes de corpos, casas queimando, casas bombardeadas, em alguns casos só uma parede em pé. Fugi de lá com os feridos ainda no carro, bem rápido até Re’im. Lá também estava caótico, mas pude deixá-los até que fosse possível chegar a um hospital. Voltei para a estrada e pouco à frente vi os terroristas atirando nas pernas das pessoas dentro dos carros, e em seguida ateando fogo. (A voz não treme, mas a mão direita, em forma de viseira, vai várias vezes à testa, como se houvesse sol, mas era um dia frio e de chuva fina. Não é o sol que ele não quer ver, é a escuridão. Nenhum menino de 24 anos deveria ter essas memórias.)

Minha gasolina acabou. Zero. Larguei o carro. Cresci nessa região, conheço tudo. Fui andando, me escondendo pelos arbustos. Ouvia as armas automáticas perto de mim, sabia que eram os terroristas. No exército não usamos armas automáticas. Pensava em meu avô, sobrevivente (do Holocausto), foi partisan nos bosques na Polônia. Na minha fuga, conversava com ele. Em nenhum momento conseguia acreditar que estava vivo. Continuei andando até chegar em casa.

(Nada sobre as horas seguintes, os dias seguintes. Fast forward). Fomos em 8, voltamos em 8. Tivemos sorte. Histórias horríveis. Rafaela, minha amiga brasileira, foi à festa com seu namorado. Voltou sozinha. Ela sobreviveu porque escondeu-se com ele sob uma pilha de corpos em um banheiro químico. Ele a protegeu com seu corpo. Eles o encontraram. Assassinaram. Ela conta que todo o tempo em que ficou ali, imóvel, ouvia os terroristas cantando cada vez que matavam alguém.

Enquanto ele conta, muita gente foi se aproximando para ouvi-lo. Fazem perguntas, ele responde, a mão furtivamente protegendo o olhar. Não terminou. Estamos vivos. A vida tem algo que nos empurra, levanta, reconstrói. Vamos continuar. Nossa luz permanece. O sorriso tímido se acentua, como se de repente se desse conta do que acaba de dizer. Um silêncio emocionado de um segundo dura minutos. Uma senhora muito idosa aproxima-se, com a voz trêmula agradece a Shir por ter contado tudo isso. Ele, ainda mais acanhado, confessa que nunca havia contado para estranhos. Você finalmente para de brigar consigo mesma, entendeu porque tinha de vir. Uma última pergunta, Shir: se você pudesse dizer algo aos judeus no Brasil, o que diria? Ato contínuo: Venham para Israel.

Você agradeceu, abraçou, fotografou. Enquanto se afastam, você volta o olhar a um abrigo antimíssil, dirige-se a ele. Caiado recentemente, milhares de buracos de metralhadora completamente visíveis, feito uma teia fantasma. Em azul, grafitado, Am Israel hai (o povo de Israel vive). Você entra. Não há porta, é um espaço de 2 por 3 metros. Ali, como em outros semelhantes, até 30 pessoas tentaram se proteger, e foram chacinadas. No chão, velas, algumas apagadas, outras acesas, em desordem. Nas paredes, também caiadas, recados: meu coração está com você. Saudades. Tenha paz. Não há placa explicativa, a dor é mais do que concreta.

Você sai. O ar cinza de chuva fina traz uma memória que não é sua. Você nunca esteve em Auschwitz, nem Majdanek, nem Bergen-Belsen, mas sua alma, sim. Você já decidiu que nunca pisaria na Polônia, porque lá estaria andando sobre cinzas. Mas sabe que precisa ir, precisa levar os netos brasileiros e os israelenses. Todos têm de saber de onde vieram. E aí está você, no campo da festa Nova. Das 3500 pessoas que vieram para celebrar o bem, 240 foram raptadas e 364 assassinadas. Mas você não se sente pisando em cinzas, sente-se abraçando todos eles, e suas mães, seus pais, filhos. Confesse: ao chegar lá ainda duvidava que seria capaz de se emocionar só por estar lá. E agora você precisa gravar uma mensagem para o grupo da família. Logo você, que tanto evita pieguice, precisa confessar para seus filhos, nora, genro, cunhados, irmã, netos... que sim, vir aqui te dobrou. Ninguém aqui está mencionando a tortura, os requintes sub-humanos e tudo mais que sabemos. Só estamos falando com os que foram silenciados. Na gravação, entrecortada pela voz que revela o que você não quer dizer, ouve-se ao fundo as explosões. Você está ao lado de Gaza, ao lado da guerra, e no entanto, está em paz. Mais segura do que na Avenida Paulista. Ao menos, se você morrer aqui, saberá porquê. Não será por um celular.

Enquanto você grava a mensagem, caminha a esmo e agora encontra-se frente a uma muralha. Um ferro-velho vertical de carros calcinados. Quem tentou fugir de carro foi metralhado e incinerado dentro dele. Centenas de esqueletos de aço, empilhados. Uma muralha de ferrugem. Cena do apocalipse. Serão enterrados. Não foi possível remover todos os restos humanos de todos eles, então pela lei judaica, têm que ser enterrados. Nunca o termo cemitério de automóveis teve tal peso em almas.

Hora da despedida. Vá e pare em cada uma das ‘árvores jovens’. Encare: são 364 posters sobre hastes de metro e meio de altura. Na base de cada um, um círculo de grama, flores, pedras. Túmulos provisórios. Os posters sorriem. Lior Kipnis, 27. Enormes olhos cor de mel. “Adorou Morro de São Paulo”. Eviatar Nakmolis, 65. Boné de baseball e sorriso. “Tocava violino para os netos.” Maayan Tomayev, 18. Feições de bebê, cílios enormes. “Queria ser chef de cozinha.” Natalia Idan, 71. Sorriso asiático. “Fugiu da Rússia há 30 anos, veio à festa com a neta.” Parynia Tansa-arg, 26. Óculos sérios, dentes perfeitos. “Deixou filhos e esposa na Indonésia.” Mohammed Ibrahim, 19. Bronzeado, uniforme impecável. “Capitão no exército de Israel.” Efrat Kirst, 68. Bigodes fartos, cabelo grisalho em rabo de cavalo, camiseta de rock. “Ativista pró-palestinos.” Sheli Madmoni, 25. Olhos boreais, inescapáveis. “God has a plan.”



quinta-feira, 18 de abril de 2024

Diário de Guerra - 4 - Por Vivian Hamermesz Schlesinger

 


1.                 A PEQUENA ROMI E SUA BEBÊ

Vocês querem ver a delegacia de Sderot? A pergunta de Liza me pega de surpresa. Delegacia...? Ah, sim, mas... há algo ali para se ver? Sim! Olugar onde tudo aconteceu! Quando escolhemos fazer o trabalho voluntário nas fábricas em Sderot, a 1.5 km da fronteira com Gaza, não foi pensando no que havia ocorrido na cidade e sim na falta de mão de obra, já que a população da área próxima à fronteira foi levada às regiões mais centrais, mais seguras (o mesmo foi feito com a população no Norte, para protegê-los dos mísseis do Hizbollah). Mas Sderot é a “capital mundial dos abrigos antibombas”. Desde a Intifada no ano 2000, milhares de mísseis foram lançados de Gaza diariamente. Ao soar o tzeva adom (literalmente “cor vermelha”), você tem 15 segundos para chegar ao abrigo. Se você tem 3 anos, ou 83, tem os mesmos 15 segundos. Toda casa ou apartamento tem o quarto seguro. Lojas, mercados, pontos de ônibus, vestiários ao lado das piscinas dos parques comunitários, todos são antibombas. A delegacia de polícia foi construída como uma fortaleza, para resistir a um ataque de mísseis e muito mais. Segurança. Segurança ficou na outra margem do rio de sangue de 7 de outubro. Com a invasão dos terroristas, os abrigos transformaram-se em armadilhas funestas. Na delegacia, a história foi diferente, por isso Liza insistiu que visitássemos. Relutantes, concordamos. Despedimo-nos de nossos novos amigos. É nosso último dia como voluntários na fábrica de embalagens de papelão, onde conhecemos Liza. Ela nasceu no Uzbequistão, de onde seus pais, médicos, precisaram fugir do antissemitismo com seus 5 filhos. Nos entendemos desde o primeiro dia: ela precisava falar, eu precisava ouvir. Marcelo, nosso chefe, também já no dia em que começamos quis contar a história de Dolev, seu genro que está refém em Gaza há 5 meses, e eu quis muito ouvir. Agora, após 3 semanas, Dolev é parte de nossa família. A dor é um vínculo poderoso. Liza pediu a Marcelo autorização para sair da fábrica por uma hora para nos levar à delegacia. Nem precisou explicar muito, só disse, eles não sabem. Ele respondeu com um lento piscar de olhos, sim. Do distrito industrial até a entrada de Sderot foram poucos minutos. Os guardas não chegaram a parar nosso carro, só olharam firmemente para cada um de nós enquanto passamos bem devagar pelo checkpoint. São jovens de almas antigas, sorriem com um discreto aceno de cabeça. Mais uma presença do que propriamente uma barreira. Nesse momento, presença já é muito. Funcionando na cidade, por enquanto, só duas ou três lojas, um posto de gasolina, nenhum restaurante. Tudo fecha antes das15h. A noite é um assombro. Liza, que vive em Sderot, está desde 8 de outubro morando com sua família em Tel Aviv, a70 km, em um apartamento alugado pelo governo. Vai e volta todos os dias para trabalhar. Preciso ficar uns dias em Sderot, limpar minha casa - saímos às pressas, está imunda. Mas ainda não consigo dormir aqui sozinha.

 



2.                  

Ao desavisado não dá a impressão de cidade fantasma. A avenida de entrada da cidade é larga, com curvas suaves, canteiros delineados, bancos coloridos. A catástrofe está nos detalhes: um outdoor com furos do tamanho de laranjas, uma lona azul cobrindo de cima a baixo a lateral de um prédio de 6 andares, um ponto de ônibus sinalizado apenas por um cartaz escrito a mão. Pontos de ônibus em Israel normalmente têm banco para sentar, telhado, e muitos, até uma prateleira de livros para que você não fique entediado enquanto espera o ônibus. Nesse aqui, só um frágil poste e o cartaz pendurado. Você vê, e a calculadora de pequenos lutos vai somando. Seguindo pela avenida nas pracinhas ajardinadas vimos brinquedos de playground em formato de lagarta, casinha de bonecas, cabana da floresta – tudo muito colorido, enorme. De concreto. Abrigo, diz Liza, apontando para eles. Só 15 segundos entre brincar e morrer. Ela começa a falar sem parar. A delegacia, um beduíno, um Groteio... Estou confusa, mas não interrompo. A tensão aumenta no seu tom de voz, cada vez tem mais dificuldade para encontrar as palavras em inglês. Claudio, focado na direção, irritado. Sua linguagem corporal pede silêncio, mas Liza, do banco de trás, não percebe. Paira, invisível, o que estamos prestes a descobrir. Já me acostumei ao fato que tudo pode acontecer, inclusive nada, como diz Houellebecq. Mas meu coração soca o peito em ritmo de funk. Mais algumas quadras e à esquerda surge uma larga praça de terra. Estacionamos em frente. Não consigo parar de olhar para a praça. Paisagem lunar. Restos de tijolos, pedras de concreto de todos os tamanhos, grades de janela empilhadas em uma torre torta. Vêm à minha mente as fotos dos destroços das Torres Gêmeas, particularmente uma onde se vê parte do esqueleto de aço retorcido, pontas de 6 metros projetando-se do solo em ângulo, um bombeiro em pé, atolado, diminuto por comparação. De repente entendi que eu estava olhando para os restos mortais de uma demolição.No fundo do terreno, a uns 30 metros, uma escavadeira descomunal abocanha partes irreconhecíveis das ruínas e as cospe em uma vala. Não escuto o barulho da escavadeira, nem qualquer outro. Sem minha permissão, meu cérebro bloqueia o som para organizar as imagens: ali jaz a delegacia de polícia. Os escombros, já bastante reduzidos, recompõem-se na equação da morte: 7/10 é 11/9. Só então me dou conta dos automóveis passando apressados, como todo israelense ao volante. Ao nosso lado, jovens sentados na grama escutam, sérios, um policial fardado, camisa azul clara com os vincos intactos, em pé à frente do grupo. O rosto anguloso, bronzeado, a postura ereta, mais juventude do que sugere a cabeça grisalha. Os gestos são precisos, econômicos. Quando se vira para apontar esse e aquele lado da avenida, percebe-se a arma, perfeitamente ajustada ao cinto, discreta, mas pronta. Nos aproximamos para ouvi-lo. Ele fala baixo, voz firme, em um hebraico rápido mas claro. Entendo boa parte....todos eles idosos, no ponto de ônibus enquanto o motorista da van que os levaria ao Mar Morto trocava o pneu. Mortos à queima-roupa. Os terroristas voltaram para se certificar que estavam, cada velhinho de 90 anos (faz uma pausa, inspira visivelmente, e continua) morto mesmo. Por via das dúvidas, outra rajada à queima-roupa. O motorista escondeu-se mas foi localizado, atiraram nele também. Fingiu-se de morto. Correram para suas SUV’s e seguiram por esta avenida. Ali – aponta para a esquina - depararam-se com uma família que tentava fugir em seu carro. Dagan, o pai, foi morto imediatamente. Odaya, sua esposa, conseguiu dirigir alguns metros até que Amer, beduíno de 25 anos que trabalhava em Sderot, tomou a direção para ajudar Odaya. Ao se aproximarem da delegacia, Amer e Odaya foram mortos com uma rajada de metralhadora. Duas crianças estavam escondidas no chão do carro, não foram vistas. Ao menos o demônio não é onisciente. Sabemos mais do que gostaríamos do que teriam feito com as crianças caso as tivessem encontrado. Atirando sem parar, os terroristas conseguiram invadir a delegacia. Yair, policial que tentava bloquear a passagem dos terroristas, ouviu uma criança gritando dentro do carro. Correu, abriu a porta e deparou-se com Romi, de 6 anos. Você é de Israel?, ela perguntou aos berros, entre lágrimas. Sou de Israel, minha querida, venha comigo, ele respondeu enquanto a tirava do carro. Mas eu tenho a bebê aqui! Só então Yair viu a pequena Lia, de 3 anos, encolhida entre os bancos, escondida pela irmã ‘grande’. Yair tirou as duas e debaixo de muito fogo – você acredita em milagres? – levou-as até um jipe blindado. Fazia uns 10 graus e ventava bastante ali onde estávamos em pé, ouvindo. Eu tinha mais um casaco no carro mas não podia perder nem uma frase. O policial falava, e um rapaz traduzia ao inglês para os moços reunidos a seus pés. Percebi um mural muito colorido ao lado da praça. No canto esquerdo, a bandeira de Israel, a da Polícia e a de Sderot. Ao centro, um prédio  imponente, de dois andares – só podia ser a delegacia. A técnica de perspectiva primária dava um ar juvenil ao desenho, mas nem por isso menos instigante. Acima, como que surgindo do prédio, uma Torá maior que a própria construção, de onde saíam letras hebraicas em azul e branco em direção ao céu, um alef aqui, um lamed ali, outras mais. Lembrei-me que 7 de outubro era Simhat Torá - literalmente “Alegria da Torá”, em que celebra-se o término da leitura anual da Torá. O Povo do Livro comemora com muita alegria, canto e dança o fim da leitura do Livro, e já começa a reler, No começo criou Deus o céu e a terra... A caminho da sinagoga para essa festa, naquela manhã, dezenas de pessoas foram assassinadas. Muitos tinham armas em casa, mas quem leva uma arma à sinagoga? Lá espera-se encontrar Deus, não terroristas endemoniados. No mural, o céu está azul, mas há duas nuvens densas que crescem do solo para o alto – as nuvens da guerra. No centro, o horizonte está em fogo. Por pouco não vi um tanque que torpedeia a delegacia. Tanque? Isso eu só iria entender mais tarde, mas estava tudo ali. Dezenas de terroristas chegavam em SUV’s, armados para a guerra, atirando em tudo que se mexia. Mais de 20 já estavam dentro do prédio. Alguns policiais conseguiram subir ao telhado, de onde foram resgatados por bombeiros. Do lado de fora, policiais e civis juntaram-se na luta. Naor, 66 anos, ex-membro da SWAT israelense, pediu a um policial que lhe emprestasse sua arma, o que obviamente o rapaz recusou. O policial virou-se para socorrer um ferido e largou a arma por um momento. Naor a agarrou, correu para dentro do edifício em frente à delegacia, subiu 3 andares e da janela de um banheiro, mirou e eliminou vários terroristas. Mas eles eram muitos. Entocaiados dentro da delegacia e com visão privilegiada da rua, continuavam o massacre. Foi ficando claro que não seria possível removê-los de lá sem um alto custo em vidas. O Comando Central deu a ordem: demolir a delegacia. Seria preciso um tanque para isso. Assim se fez.

 



3.                  

O tanque no mural. A paisagem lunar. Os escombros. Estava tudo ali, tudo que havia sido. O pior do relato estava por vir. Ao remover os escombros, foram encontrados os corpos de 26 terroristas com armamento pesado, munição para vários dias, comida, água, mapas precisos. Sderot era apenas a primeira parada. Pretendiam invadir Israel até o Norte. Vieram preparados para isso, só não esperavam essa resistência. Em poucas horas o exército e a força policial do Sul de Israel organizaram o bloqueio de todos os cruzamentos nas estradas. Nenhum terrorista conseguiu furar o bloqueio. A batalha de Sderot foi sua última parada. Enquanto eu finalmente entendia a importância dessa batalha, me vinham à mente as cenas que aconteceram nessas mesmas horas, em locais próximos a Sderot. Milhares de terroristas incineravam, estupravam, torturavam, degolavam e explodiam os moradores do kibutzim e os jovens no festival Nova. Quem estava em Sderot não tinha ideia disso, e vice-versa. Se ouvissem, não acreditariam. Quando a palestra terminou fomos conversar com o policial. Somos do Brasil, obrigada pelo relato, sou escritora e quero escrever o que aconteceu aqui. Ele sorriu, estendeu a mão, Sabatai Grabartzik, muito prazer. (Por sorte Lula ainda não havia proferido suas profundas reflexões acerca de Hitler, a Shoah e a guerra em Gaza. Depois desse pronunciamento grotesco, a palavra ‘Brasil’ passou a ser recebidade forma bem diferente.) Precisamos sim que vocês contem; no sprimeiros dias da guerra vieram jornalistas do mundo todo, mas agora a história não vende mais jornais. Essa guerra só pode ser entendida se o mundo souber como isso começou! Trocamos números de whatsapp, ele prometeu enviar informações atualizadas sempre que possível, e tem cumprido; eu prometi contar, e aqui estamos. Caminhamos de volta para o carro, cada um com seu silêncio. Liza provavelmente repassava os novos detalhes do que já sabia. Para Claudio e eu, era uma revelação arrasadora. Não o sacrifício – palavra fora de moda - dos 20 policiais e 50 civis que caíram nessa batalha. Isso é heroísmo – também fora de moda, a palavra e o ato – que conhecemos há milênios.O que nos golpeou naquele dia, ouvindo o policial Sabatai Grabartzik, foi perceber que estivemos de olhos vendados a alguns passos do abismo. Foi a arma secreta de Israel que nos afastou do abismo. A imensa coragem da pequena Romi para salvar “sua” bebê, essa arma não pode ser roubada nem copiada. Ou ela existe, ou. Falar em “bem” e “mal” também não se usa mais, então me ajudem a encontrar a palavra justa para descrever essa luta. Como escreveu o jornalista MazFriedman, a verdade de uma dada época já existe antes que seja visível para a maioria de nós.







quinta-feira, 11 de abril de 2024

Diário de Guerra - 3 - Por Vivian Hamermesz Schlesinger

 


1.

Levante a mão quem sabe onde fica o Daguestão. Não sabem? Nem eu sabia, até ontem. Não podemos mais rir dos americanos por não saberem geografia, estamos no mesmo barco furado.

Daguestão fica ao sul da Rússia, muito próximo à cultura persa, separado do Irã apenas pelo Azerbaijão. Alex, nosso novo supervisor na fábrica de sacos plásticos, é do Daguestão. Loiro, alto, poucas palavras. Domina várias máquinas, processos, montagens, embalagens. Caminha entre uma máquina e outra como um cowboy entre cavalos: afaga brevemente seus flancos sem se deter, guiado por seus apitos e sopros. Ao deparar-se com uma bobina defeituosa que iria descartar, aceita a contragosto a sugestão do engenheiro para substituir uma peça e evitar a perda do material. A contrariedade é passageira, concentra-se sobre o próximo passo. Mostra-nos como proceder com os sacos plásticos que saem rápido da máquina, eu devo alisá-los para tirar bolhas de ar enquanto Claudio dobra e empacota. Entre um engenheiro e uma bióloga provavelmente daríamos conta, mas Alex não consegue se afastar. A cada três ou quatro pacotes, dá um “descanso” ao Claudio e faz o serviço ele mesmo. Estamos em três fazendo o serviço de um. Se eles estão felizes, nós estamos felizes. 

Após uma hora, Alex decreta intervalo. Nós dois, calouros, declinamos - nem começamos a nos cansar. Ele insiste, hora de fumar. Mas não fumamos... (quem perguntou?) A sala do café, um espaço sem janelas e sem espaço é também a sala do fumante. Sem perder o charme de saloon, obriga-nos a tomar café instantâneo. Para meu paladar, um Nespresso nível 15. Olho em volta, a probabilidade de encontrar adoçante ali é menor do que encontrar um pinguim. Açúcar? Sim, Alex, obrigada! Sentamo-nos ao redor de uma mesa cansada de guerra. Alex me oferece a melhor cadeira (a única com 4 pernas completas). Cowboy e gentil. Agora vem o cigarro. Meus pulmões ficam encantados. Não poderia imaginar que ainda existe fumar em ambiente fechado. Por sorte usei a bombinha de asma preventivamente antes de sair do hotel. Ou. 

Alex tem forte sotaque russo no hebraico, por isso perguntei-lhe de onde é. De Sderot! Como se não houvesse outra possibilidade. Perante minha surpresa, explicou, impaciente, ah, vim do Daguestão, em 1992, aos 8 anos. E sempre viveu em Sderot? Morei um tempo em Kfar Saba, com minha namorada. Ah, Kfar Saba conhecemos bem, minha filha morou lá por anos. Eu pergunto. Ele responde, olhando para o Claudio. Pergunta de onde somos, e ao ouvir a palavra mágica – Brasil - anima-se: rollesgracie! Say what? Claudio e eu nos entreolhamos, isso é russo? Hebraico? Ele repete separando as sílabas, rolles-gra-cie! Uma palavra me soa familiar, gracie. Tenho uma epifania (não subestime o valor da epifania para um surdo): Gracie, jiu-jitsu?, pergunto. Ele abre um enorme sorriso (para o Claudio, porque obviamente isso não é conversa de mulher) e desfia um relato multimídia (voz e mãos) sobre as várias vitórias de um Rose Gracie. Eu ouvia “Rose”, pensava que fosse uma mulher e que Alex estava trocando os pronomes. (Dr. Google explica: “Rose” é “Rolles” Gracie, um homem.) O fato de não sabermos nada sobre os Gracie foi um incentivo: em uma mistura de hebraico, inglês e russo, durante dois longos cigarros aprendemos tudo sobre os golpes, idades, estilos do que certamente para ele é a família mais importante do Brasil.

Dois intervalos mais tarde (e outros tantos cafés e cigarros), soubemos que o horário de trabalho é das 6 da manhã às 6 da noite. O salário mínimo é de cerca de R$ 45,00 por hora. Trabalhar 12 horas por dia somaria pouco mais de R$ 10,000.00 ao fim do mês. Saúde e educação, aqui, são 100% públicos. Comida é mais cara do que no Brasil; moradia, depende. Não sobra muito. Mas a economia é tão pujante, nas cidades e estradas os guindastes, esguios, altíssimos, iluminados feito dinossauros fluorescentes, tão numerosos; constrói-se, reforma-se, informatiza-se tanto, em todo lugar, que a sensação é de otimismo. Alex vive em Sderot, ao lado de Gaza, apesar de todos os riscos, e sonha em mudar para Kfar Saba, mais ao centro do país, mais longe das fronteiras, mais bonita também. Ele tem um futuro pelo qual trabalhar das 6 às 6. Nietzsche nunca entenderia Alex.

Mas precisamos falar das meninas.


2.

E por falar em futuro. Ein lanu eretz acheret (não temos outro país), era o lema dos manifestantes que até 7 de outubro protestavam, intensos, pacíficos e organizados, metade a favor e metade contra a reforma judicial proposta por Netanyahu. No dia 7 de outubro, poucas horas após o início do massacre perpetrado pelo Hamas, as metades desapareceram. Em seu lugar, um só coração. O lema agora é Be iachad nenatzeach (juntos venceremos). Está em todo lugar: nas fachadas dos arranha-céus, nos para-brisas dos carros, nos comerciais de margarina, de seguro contra acidentes, celular, cílios postiços. Juntos venceremos. O israelense não tem outro país. Estou começando a ter dúvida se algum judeu tem. Ontem, por exemplo, mais um judeu francês foi assassinado em Paris por um amigo de infância, muçulmano, pelo crime de ser judeu. O amigo, informado pela mídia dos últimos meses, decidiu que sua missão era matar judeus, a começar por aquele mais próximo. Assassinatos como esse acontecem na França há anos, mas desde outubro, quase diariamente. Em Arraial d’Ajuda uma mulher entra em uma loja, destrói objetos e agride a dona pelo crime de ser judia. Na Etiópia, Lula, após estudar, refletir e se aconselhar com as melhores cabeças do Brasil como sempre faz, conclui que as ações de Israel nessa guerra são comparáveis às de Hitler. Que futuro Lula desenha para os judeus brasileiros?


3.

Por ora, estamos no presente. Hoje, em uma fábrica de peças plásticas usadas em máquinas da agropecuária. Julie tirou um dia de folga para nos acompanhar, então somos três voluntários. Recepção triplamente calorosa. Fomos instalados em uma sala onde já estavam trabalhando 8 moças, a maioria bem mais jovem do que nós. Cada uma sentada à sua bancada, montando ou embalando kits de peças coloridas. Ao Claudio disseram para trabalhar em uma máquina simples, encaixando tubo azul no tubo preto (ou era o contrário?) com um gesto rápido de alavanca. Em poucos minutos ele dominou o processo e otimizou a linha de montagem. Antes do almoço já havia encaixado mais de 1000 duplas. Nossas companheiras de sala logo se apresentam: à minha direita, Yelena, Irina e Anna; à minha esquerda, Maria, Marina e Marita.

Mais atrás, Mashka e Maryusia. Acho que Claudio nem chegou a perceber que eram nomes diferentes.

Julie montava kits e embalava. Quando souberam que ela é médica aproveitaram para fazer consultas ali mesmo, de suas bancadas ao outro lado da sala onde Julie trabalhava em pé. Quantas injeções de cortisona posso tomar para dor nas pernas? Fisioterapia ajuda mesmo, ou é só enrolação? E essa manchinha, aqui no meu pescoço, olha, o que você acha, preciso me preocupar? Por sorte não ficaram à vontade demais. Pudor não é um atributo israelense. Enquanto isso, conforme me explicaram: com um gesto quase obsceno, lubrificava a parte interna de uma pecinha de borracha preta, da forma de um mamilo. Inseria os lubrificados em um saquinho plástico previamente etiquetado com código de barras e tentava adivinhar para que serviam. Claudio me disse que seguramente eram para irrigação, agricultura. Para mim, são mamilos.

Minha atenção se voltava a cada momento às conversas em russo salpicado de hebraico. Russas, sim, mas de onde?, pergunto a elas. Cazaquistão, Uzbequistão, Geórgia... São muitas Rússias. Sempre surpresas pela minha curiosidade em saber de onde, exatamente, vieram, uma delas responde, Ptrpvlvskmtchaka. Assim. Na lata. Quem mandou perguntar? Anoto discretamente no celular as muitas consoantes e raras vogais que consegui distinguir - lição de casa. Com um sorriso compreensivo, ela aponta o lado esquerdo do teto, lá, lá, perto do Japão, panymaiesh (entende)? Ah! Costa leste da Rússia! À noite, no hotel, caço as outras letras no Google: Petropavlovsk-Kamtchaka, cidade à beira do Pacífico cercada por vulcões tão altos que não há um ponto na cidade de onde se aviste o horizonte. Um tanto claustrofóbico. Mas não foi por isso que emigraram. Foi pelo velho e insidioso antissemitismo. Agora rejuvenescido. A cidade é geograficamente mais próxima a San Francisco e seus bondes do que a Moscou e os chazinhos de Putin. Não gosta dos chazinhos? Melhor sair, pé ante pé, a não ser que tenha a coragem de Navalny.

Ainda precisamos falar das meninas.


4.

Minhas colegas de trabalho estão perfeitamente adaptadas à vida em Israel, a supor pela tranquilidade nas chamadas de vídeo com as filhas e netas. Enquanto trabalham, os celulares não param. Falam russo, as filhas respondem em hebraico, como na casa de qualquer imigrante. Elas, a geração que veio, ainda tem um pé lá; a nova já tem ambos aqui, não quer saber de lá. A próxima geração sim, vai querer saber tudo sobre suas origens. Chapeuzinho Vermelho, não sua mãe, visita a vovó na floresta para ouvir as histórias da família.

Tenho me espantado com a frequência em que as pessoas chamam umas às outras pelo celular a qualquer horário, seja em casa, na rua, ou em cima de uma bike. Mundos líquidos. Começamos a nos dar conta disso, Claudio e eu, há alguns anos, com nossos netos israelenses. Mas achamos que era o preço da independência: os pais não podem estar perto fisicamente, então se falam em vídeochamadas muitas vezes por dia. Mas agora vejo que não se restringe a crianças, nem a Israel, é universal. Mais desafiador é manter-se em contato sem perder a autonomia. Daniela, minha neta de 11 anos, sabe o que quer, quando quer, e como conseguir o que quer sem causar marola. Só um pouquinho, às vezes. Hoje queria fazer cookies e enfeitar com glacê. Entre discussões com o pai, a mãe, e até o avô para definir quem vai misturar, quem vai preparar o glacê, quem vai limpar a sujeira, Daniela conseguiu exatamente o que queria: uma bela fornada de cookies muito gostosos no formato de estrelinhas e círculos, vários tamanhos. Só o glacê não funcionou. Com tantos adultos tentando salvar o glacê, Daniela se safou da limpeza. Danadinha. Mas quem pode brigar com esse rostinho? Ainda mais com o biscoitinho ficando muito bom – e ela nunca havia feito!

Algumas coisas independem de geração ou geografia. A mãe judia, por exemplo. Nossas amigas não param de nos oferecer bolo, sanduíches, café, chá. Quer um pedaço? O bolo está ótimo! Não, obrigado, acabamos de tomar café da manhã (quase verdade). Certeza? É muito bom, veja! Não, obrigada, mesmo, estamos... e antes de eu terminar a frase, surge, entre eu e os mamilos de borracha, um pratinho com uma generosa fatia de bolo. E chá, você quer? Não, eu... Mas é chá verde, russo, tome... Não, muito obrigada (desastrada como sou, nada impossível entornar o chá sobre os mamilos lubrificados). Bobagem, lá está um copo térmico com chá russo. Ótimo, aliás. Dali a pouco passa por nós outra moça e deposita em nossas bancadas balas russas de limão, morango, menta. Iguaizinhas às nossas balas brasileiras, mas o cirílico na embalagem empresta um certo mistério.

Quando não estão conversando, estão ouvindo notícias – em russo. Aqui há vários canais de TV russos, tanto em TV aberta quanto a cabo, e suponho que haja ainda mais estações de rádio. Então escutamos notícias também. Um “Netanyahu” aqui, outro “hatufim” (sequestrados) ali, e já sabemos do que falam. Sobre a bancada, o trabalho: o presente, para que haja um futuro. No rádio, os vários futuros possíveis. No coração, um intenso desejo de paz e a profunda consciência do seu custo. Si vis pacem, para bellum: se desejas a paz, prepara-te para a guerra.

E ainda precisamos falar das meninas.


5.

Entre uma boquinha e outra, chega a hora do almoço. Convidam-nos a subir ao refeitório, onde a refeição que escolhemos logo que chegamos já está esperando por nós. A comida é encomendada a um restaurante caseiro ali próximo. Não tenho certeza quais eram as opções, porque ao ouvir schnitzel, eu já disse sim. Zero espírito de aventura. Sem luxo, porções muito generosas, a conversa super animada – entre elas, em russo, claro. Não interrompemos, é evidente que têm muito para contar umas às outras. Claudio me diz, ela está contando do sobrinho, que ia a um casamento mas não foi... Me espanto: desde quando você sabe russo? Não sei russo, é ficção. A atmosfera é propícia. Estamos cercados de nomes de personagens de Tolstoy, Babel, Solzhenitsyn. De vez em quando ainda entra um Grisha procurando uma ferramenta, ou Dmitri, com uma pergunta para Maryusia, ou um Ivan, para dizer algo que não entendi, mas que faz todas sorrirem. Sorrio também. Quem resiste? Para o almoço, cada uma trouxe algo para compartilhar: uns tomates, uma salada x, uma garrafa de vinho. Oferecem, insistem, respondo – enfática, dessa vez – não posso tomar álcool, obrigada. Mas isso não é álcool, é vinho!

Todas trabalham 12 horas por dia. As idades variam entre quarenta e pouco, já mães e avós, até setenta e pouco. Nos dias em que estivemos lá, não vimos mau humor, não havia clima de guerra. Se soasse o tzeva adom, cor vermelha, teríamos 15 segundos até chegar ao abrigo. Ou. Nenhuma vez se falou a palavra guerra sem que a palavra paz viesse em seguida. Mas não nos enganemos: são duas guerras, uma para trazer de volta todos os reféns, vivos ou mortos, ou mortos vivos, #bringthemhomenow!, e outra para mudar o paradigma Hamas ataca/Israel se defende/o mundo grita resposta desproporcional/Israel recua/Hamas ataca... O novo paradigma termina no grito do mundo. Pode gritar. O pedigree nazista do Hamas e Hizbollah casa como uma luva com a mão quase nuclear do Irã. Recuar agora é exatamente o que Chamberlain fez em 1938 com Hitler, e todos sabemos como isso acabou.


6.

Logo depois do almoço no nosso último dia naquela fábrica, entra Lolla, nossa supervisora, e entrega o celular ao Claudio, uma ligação para você. Ele hesita, mas pega o celular. Sabe que virá um enorme desafio: uma conversa ao telefone em hebraico. Quando começa a agradecer duas, três vezes, e dizer que foi uma alegria para nós, não, obrigado, não é necessário reembolsarem nossa gasolina, entendo que é Lev (diretamente de Anna Karenina!), o diretor da empresa a quem tínhamos conhecido no primeiro dia. Claudio se emociona mas o hebraico flui muito claro. Ao desligar, me conta que de fato era Lev, ele, por sua vez muito emocionado, agradecendo a nossa presença. Tenho certeza que não se trata de quantos kits conseguimos adiantar, ou quantos mamilos (sim, meu lado bióloga estava certo, eram peças para ordenha mecânica) eu pude preparar. Apesar de mediterrâneo, o israelense não demonstra emoção facilmente, uma vantagem evolutiva desenvolvida nos setenta anos de existência do país. Também não é afeito a convenções de etiqueta nem formalidades. Se Lev se deu ao trabalho de nos telefonar é porque realmente quis. De nossa parte, sentimos que quem dá de si sempre sai com mais do que quando entrou. Não tem sido nenhum sacrifício, não estamos no fogo cruzado, só depositamos uma gota no oceano da força desse país para que possamos nos sentir fortes no nosso.

Mas ainda não falamos das meninas. É agora, ou será tarde demais. Calculo que sejam mais de 20 meninas entre os 230 sequestrados, que ainda estão nas garras do demônio. Não é mais segredo, se é que foi, de que forma são torturadas, todos os dias, há 141 dias infernais, várias vezes por dia. Só por milagre alguma delas pode não ter engravidado. Não as conheço, mas penso nelas há 141 dias, então sim, as conheço. Elas habitam meus pesadelos. Não consigo evitar pensar: como posso enviar algum consolo? Grávidas, sozinhas, ameaçadas a ponta de faca pela pior forma de podridão humana. O que será delas? Se estão vivas, vão receber ajuda médica para dar à luz? Esses demônios vão libertá-las? Se forem libertadas, o que será desses filhos concebidos no inferno? Kafka teria a resposta. Em 2014, quando 276 meninas foram raptadas pelo Boko Haram na Nigéria, lindinha Michelle Obama, “ultrajada e de coração partido,” manifestou-se: vejo nessas meninas minhas próprias filhas! Nas meninas raptadas no 7 de outubro Michelle Obama não viu nada, nem suas filhas, nem filhas de ninguém. Nem mesmo as viu. Mas eu sim as vejo. Nada posso fazer fora enxergá-las, sentir sua dor. Talvez a dor partilhada seja menor. Quem sabe o efeito borboleta tenha força para trazê-las de volta para casa. Vejo nessas meninas as filhas de todos nós.

quinta-feira, 4 de abril de 2024

Diário de Guerra - 2 - Por Vivian Hamermesz Schlesinger




1. 

Chegamos na quarta-feira. Não fossem as fotos dos sequestrados ao longo da passarela de chegada ao aeroporto, você pensaria que são tempos normais. Muita gente viajando, lojas abertas, trânsito quase como São Paulo. No caminho para a casa da Julie, bandeiras. Muitas. Enormes. Janelas, varandas, fachadas dos prédios ultra-high-tech, bandeiras penduradas na vertical, de dois andares de altura. De oito. De dezoito. Nas pontes, fotos: um filho, um irmão, uma avó. Há 121 dias, sequestrados, não se sabe se estão vivos, ou se já estavam mortos quando foram levados, porque aqueles selvagens tiveram esse requinte de bestialidade: levaram reféns vivos, mortos, e até partes de corpos. A cabeça de um menino foi colocada à venda em Gaza por 10 mil dólares. Por falta de mercado, ficou no freezer de um restaurante até ser encontrada pelos soldados israelenses. Mas não há como a vida para lembrar-nos de viver. Ao ver nossos netos, minha filha, meu genro, levando vida normal, trabalhando, jogando basquete ou hipnotizados no tik-tok - tanto faz - qualquer sinal de normalidade é uma alegria. Conversamos, rimos, eles ainda falam com carinho dos dias que passaram no Brasil há pouco tempo. Surpresa gostosa: estão em contato com os amigos do Alef, a escola que frequentaram enquanto estavam em São Paulo. Noam, quase 14, quer ir para o Brasil, ir à escola. Você quer ir às aulas? – me espantei. Não, vovó, quero ver meus amigos! Ah, entendi. Vida. Daniela me mostra o último skincare que ela absolutamente precisa comprar para sobreviver. Um concealer. Para conceal (esconder) o quê?, penso, mas não digo. Seria um absurdo uma avó que não entendesse que aos quase 12 anos aquele concealer é indispensável. Mesmo sem ele, ela segue feliz. Uma adolescente normal a mais no mundo. Com Noam acabamos falando de escola, daí para História, da matéria para o professor que ele parece adorar. Estudaram a Revolução Francesa recentemente, Noam tem perguntas ótimas. Já gostei do professor. Não dita a lição como está no livro, fala sem parar sobre muitas coisas e para a aula no momento do gancho – quando vai falar quem venceu entre Napoleão e a Prússia, diz, “na próxima aula vocês saberão!” – genial, o cara. Claro que os meninos poderiam simplesmente google it, mas ouvir desse professor é muito mais interessante. Uma joia dessas a gente encontra poucas vezes na vida. Isso foi na quarta, logo após a chegada, direto do aeroporto. Então viemos para o hotel tentar dormir um pouco. O dia seguinte seria cheio de desafios. 


2. 

Na quinta fomos para Sderot, cidade ao lado de Gaza a 80 km de onde estamos, para trabalhar na fábrica à qual fomos designados pelo grupo que organiza voluntários. Existem dezenas de grupos; esse se propõe a ajudar as fábricas no sul, na fronteira com Gaza, e no norte, fronteira com o Líbano. Escolhemos o sul. Sderot é a cidade mais bombardeada pelo Hamas há muitos anos. Muita gente que trabalha lá vivia, até 7 de outubro, nos arredores, nos kibutzim que foram destruídos. Parte dos sobreviventes estão realocados em hotéis ou apartamentos no país todo, por conta do governo. Somando os realocados do sul e do norte (bombardeados pelo Hizbollah) são cerca de 100 mil pessoas. No hotel em que estamos há dezenas de famílias com crianças, cãezinhos, bebês aprendendo a andar, idosos e seus andadores. Ciclo de vida completo. Ao chegar à fábrica de embalagens de papelão fomos apresentados a Marcelo Garzon, diretor de produção. Abriu enorme sorriso quando soube que somos do Brasil: ele é argentino, casado com uma brasileira, em Israel há décadas. Fez questão de falar todo o português que sabia até a hora do almoço. À tarde, só hebraico. Ninguém é de ferro. Mostrou-nos como destacar de uma folha de papelão a embalagem pré-picotada, uma pilha aqui, outra ali, etc. Mãos à obra. QI de 60 bastaria para isso, mas alguém tem que fazer esse trabalho. Dos 50 funcionários, só 20 estão trabalhando. Os outros? Convocados, ou realocados para longe, ou sem condições de trabalhar. No questions asked. E eu, que tinha pena de motorista de uber no trânsito de São Paulo, repenso. 


3. 

Marcelo perguntou porque viemos a Israel, explicamos que temos filha e netos aqui, e que viemos para trabalhar. Outro sorriso sincero. Ato contínuo, o esposo de minha filha, meu genro, está sequestrado em Gaza. E também sua irmã e o namorado da irmã. Meu coração dispara. Você me contaria mais, quando ver tempo? Claro, quero muito contar, é importante que saibam. Digo-lhe que sou escritora, quero registrar tudo. Após uma ou duas horas fomos promovidos para outras operações em uma máquina que corta folhas enormes de papelão triplo nas dimensões programadas. Claudio e Marcelo, de um lado, alimentam a máquina, eu, de outro, retiro os pedaços e rapidamente separo os grandes à esquerda, os menores à direita. Pouco a pouco crescem duas pilhas de papelão até a minha altura (não é muito, verdade). Trabalho braçal e o fora-de-moda prazer de ver resultados concretos. Ali se produzem caixas para material de limpeza, para peças de máquinas, para pão. Fico imaginando essas caixas cheias de pães, o cheiro aconchegante de pão fresquinho subindo feito trepadeira memória adentro. Claudio me diz que o número de pedidos de embalagens é um dos indicadores do ritmo da economia. Então estamos contribuindo para esse ritmo de alguma forma. Elizabeta se aproxima e com um sorriso, se apresenta. Sabia que era russa antes mesmo dela começar a falar. Configuração sólida, cabelos pretos em duas trancinhas finas, olhos verde azulados, mãos rechonchudas, lisas, sem marcas da idade. Eu diria uns 30 anos, mas pelo andar, mais. Me pergunta diretamente em hebraico se estou de visita. Forte sotaque russo. Explico no meu hebraico capenga que estamos sim visitando mas também trabalhando, mitnadvim (voluntários), etc. Mais um sorriso abraço. Pergunto-lhe de onde ela é, responde em inglês que é da Rússia. De onde na Rússia, insisto? Nossa, nunca me perguntaram isso. Uzbequistão – já ouviu falar? Claro, sei exatamente onde fica (quase começo a contar que acabo de voltar a 1920 com Isaac Babel e a Cavalaria Vermelha, viajando pela guerra russo-polonesa, mas me detenho a tempo). Aí, as trocas necessárias, a moeda mais valiosa para qualquer mãe. Ela: tenho um filho de 8 anos (que fala inglês bem!) e uma filha de 22; eu: wow, você não parece ter idade para isso!, ah, eu tenho 4 netos, quase-15, 14, 13, 12... Estico meu braço para cima em 4 alturas para dar uma ideia melhor. Elizabeta mora ali perto, mas está alocada em Tel Aviv. Viaja 3 horas por dia para não parar de trabalhar. É evidente que adora o que faz. Conversa com Marcelo, seu chefe, de igual para igual, brigam amigavelmente, ela mais mandona do que ele. Tudo na santa paz. Ela me mostra o que vamos fazer agora com o papelão que a máquina cospe com velocidade. Aprendo rápido, também. Pergunto a Elizabeta se voluntários chegando, entrando e saindo, como nós, mais ajudam ou atrapalham. Ajudam muito! Muita gente não voltou! Sobem as sobrancelhas numa expressão de preciso desenhar? 


4. 

Claudio é levado por Marcelo para outro lado. Sou entregue a Sanar, um rapaz da Eritreia muito alto, bonito, sisudo. Me explica como colar a aba direita de uma caixa ao lado esquerdo. Mostra bem, usa poucas palavras – em hebraico, claro – mas olhando para mim. Se posso ver sua boca, meio caminho andado. Somando meu hebraico (30%) e audição (10%), subtraindo o barulho da fábrica (80%), estou no vermelho. Tento tirar a diferença com um sorriso. Funciona! Sanar sorri de volta, me deixa sozinha com a missão da cola. Mais duas pilhas completadas. 


5. 

Nos chamam para almoçar. Subimos com Sanar e seu colega, outros funcionários russos, uma garota etíope, linda, com um turbante alto acentuando o oval perfeito do rosto. O refeitório é uma sala bem simples, mesas, bancos, água, um suco misterioso. A garota árabe que nos serve é uma simpatia; a comida – shnitzel, o prato nacional (peito de frango à milanesa) – salada, batata, etc., tudo ótimo. Sentam-se à mesa conosco dois homens da nossa idade, apresentam se. Que fazem vocês aqui?, perguntam. Explicamos, isso, aquilo. Nossa vez de perguntar a eles o que fazem: são amigos. Aposentados, ambos com 72 anos. Moram longe. Uma vez por semana viajam a Sderot fazer trabalho voluntário. Fico pensando quantos de nós, no Brasil, se disporiam a dirigir 3 horas, uma vez por semana, para ajudar uma região de enchente, por exemplo? Digamos menos, dirigir 30 minutos. Nem precisa ser uma catástrofe nacional. Sei de gente que vive em Moema que não usa canudos de plástico e que entende de arte conceitual, mas que se recusa a levar o lixo do apartamento até a garagem. Que bom que não há guerra no Brasil. Os grupos de voluntários que se organizaram aqui a partir de 7 de outubro não foram iniciativas do governo. Não foram editais do BNDES, não têm subsídio. Foram pessoas que puseram o whatsapp para fazer o que ele faz de melhor. Há gente trabalhando em fábricas, como nós. Há gente na agricultura, dirigindo tratores, colhendo morangos, programando irrigadores. Outros organizam festas de aniversário para as crianças deslocadas. Mutirões de médicos atendem as famílias nos hotéis. A secretária na clínica onde Julie trabalha, toda quinta-feira, depois de um dia normal de trabalho, faz fornadas de doces para vender. O dinheiro vai para as famílias dos reféns. A tsedaká, caridade, é um dos maiores valores no judaísmo. Segundo aprendi, há 3 níveis: o primeiro, onde quem dá conhece quem recebe e vice-versa. O segundo, onde quem recebe não sabe de onde veio a ajuda. E o terceiro, mais elevado, onde quem dá não conhece quem irá receber, e vice-versa. Essa senhora não conhece as pessoas que recebem esse dinheiro, nem eles a ela. Mas no coração, em um país tão pequeno, sinto que todos conhecem os reféns. Eu mesma já sei os nomes de vários deles e suas histórias, e desde 7 de outubro são esses rostos que vejo antes de adormecer. 


6. 

Enquanto saímos do refeitório, penso como seria bom que cada ignorante que fala do “apartheid em Israel” pudesse almoçar ali ao menos uma vez na vida. Estávamos sentados nos mesmos bancos, o diretor, 3 operários, uma secretária, voluntários, muçulmanos, russos ortodoxos, judeus, beduínos. Todos comemos a mesma comida, falamos do trânsito e do shnitzel. Ali não há guerra, muito menos apartheid. Trabalhamos até as 16 horas, o horário normal da fábrica (eu estava bem cansada, mas fica entre nós – afinal, tenho uma reputação a zelar). Antes de sair, perguntei a Marcelo quando poderíamos conversar, ele quis imediatamente. Sentamo-nos do lado de fora da fábrica, fiz uma pergunta ou duas e ele começou a contar. O Claudio gravava, eu tremia de frio (12 graus) e, ao longo do relato, de horror. 


7. 

Me chamo Marcelo Ariel Garzon, sou argentino, casado com Debora Finger, brasileira de São Paulo, vivemos aqui no kibutz Gvulot desde 1977. Temos 3 filhas: Sigal, de 36 anos, Mor, 32, e Tomm, de 31. Temos 8 netos, 4 de Sigal, 2 de Mor e 2 de Tomm. No dia 7 de outubro, às 6:30 da manhã fomos acordados por mísseis vindo de Gaza, mas logo vimos que era algo muito mais potente. Imediatamente ligamos para Sigal, que mora no kibutz Nir Oz, a 1 km da fronteira. Ela estava grávida de 38 semanas. Disse que estava dentro do mamad (quarto seguro) com as 3 crianças. Sigal ficou nesse quarto, de cerca de 9 metros quadrados, por 9 horas e meia no escuro total, sem comida, sem água, com as 3 crianças, em um esforço brutal para mantê-las em silêncio. Os terroristas o tempo todo rondavam a casa, atiravam, iam e voltavam, tentando forçar a entrada no mamad, mas por sorte esse tinha um trinco por dentro. Esses quartos protegidos são obrigatórios em toda construção em Israel, mas até 7 de outubro eram pensados como defesa anti-mísseis. Não havia necessidade de se trancar por dentro. Terroristas nas casas eram impensáveis. Só não eram para o demônio. Enquanto isto, Dolev, esposo de Sigal, que é enfermeiro voluntário da Escudo Vermelho de David (como a Cruz Vermelha, mas de Israel), saiu do mamad para prestar socorro aos que estavam defendendo o kibutz. Uma catástrofe. Tiroteios, atiravam bombas contra as casas e metralhavam o que sobrava. Ateavam fogo às casas onde havia pessoas trancadas para obrigá-las a sair. Se saíssem, eram metralhadas ou raptadas, ou ambos. Dezenas não chegaram a sair, pais e mães morreram queimados junto com seus filhos. Em algumas casas onde entraram, amarraram as famílias, torturaram crianças e pais e depois os assassinavam. (Não se sabe se havia um protocolo: deviam torturar pais diante das crianças? ou vice-versa? Instruções para estuprar, e a quem estuprar – as meninas que vigiavam a entrada dos kibutzim, isso havia; números precisos de quantas pessoas havia em cada casa, para garantir que não escapasse ninguém, também; instruções para atirar nas pernas de quem estivesse dentro de carros e em seguida atear fogo aos carros, tudo isso estava especificado nas instruções encontradas nos bolsos de terroristas mortos. Mas o detalhe de pais ou filhos primeiro, isso faltou. O demônio improvisa.) Mas a essa altura Sigal ainda não sabia disso, e por sorte, não poderia imaginar. Seu medo, além de todos os outros, era de entrar em trabalho de parto. Um pequeno milagre permitiu que isso não acontecesse. Sigal também não sabia que Dolev havia sido sequestrado, junto com sua irmã, Arbel, e o namorado de Arbel, Ariel. Dolev e Sigal namoram desde a sexta série, quando ambos tinham 12 anos. Nunca se separaram. Dolev foi criado para doar-se, por isso após colocar sua família dentro do mamad, não pensaria em fazer algo que não fosse dar socorro aos outros. De Arbel e de Ariel recebemos um pequeno sinal de vida, mas isso faz 5 semanas. (não me atrevi a perguntar que tipo de sinal, qualquer tipo pareceria pouco demais a essa altura). No dia seguinte ao massacre Sigal e as crianças foram levados para Eilat, e lá, 9 dias mais tarde, ela deu à luz a uma nenê saudável. Dolev, que deveria ser o primeiro a segurá-la, o primeiro a sorrir-lhe, não estava. Não está. Aron, o filho de 3 anos, todos os dias pega seu celular de brinquedo e chama, Aba, aba, eifo atá? Lama atá lo bá? (Papai, papai, onde você está? Por que você não vem?) 


8. 

A região onde ocorreu o massacre é rural, não há cidades. Cerca de 30% da produção agrícola de Israel vem dessa área. Conheço bem muitos desses israelenses. Eles eram pacifistas militantes, que buscavam palestinos na fronteira de Gaza, pacientes de doenças crônicas ou terminais, levavam-nos aos hospitais em Tel Aviv, esperavam que recebessem seu tratamento (gratuito, diga-se de passagem) e os levavam de volta. Esses mesmos pacifistas foram incinerados naquele dia. Havia hospitais em Gaza, claro, inclusive receberam bilhões – isso, BI-lhões de dólares – que foram transformados em túneis, mísseis, armamento e jaulas para reféns. Enquanto em Gaza se construía uma cidadela do horror embaixo da terra, protegida por hospitais e escolas, do lado de cá da fronteira, movidos pela crença de que quem tem o que perder não irá se explodir e nem aos outros, Israel empregou quase 20 mil palestinos que vinham de Gaza todos os dias para trabalhar na região. Após o ataque, nas roupas dos terroristas foram encontradas até croquis das casas dos judeus, desenhados para facilitar o massacre. Dizemos em alto e bom som que nem todo palestino é terrorista. Mas de onde vieram essas plantas? As câmeras dos kibutzim mostram que no dia 7 de outubro, após os ataques iniciais, chegaram dezenas de SUV’s de Gaza, lotadas de gente de todas as idades. Corriam para saquear as casas. Nem mesmo um velho de bengala privou-se desse deleite. Está ali, tudo gravado. Ele é civil? Ou é terrorista? Ou depende do contexto? 


9. 

Marcelo nos conduz até a cerca externa da fábrica, onde há um banner enorme com 3 fotos: Dolev, sua irmã Arbel, e Ariel, namorado de Arbel. Lindos, sorridentes, o rosto iluminado. Eles estão aqui comigo desde 8 de outubro. Não podemos esquecer que ainda há 136 reféns, muitos deles arrancados de suas camas. Bebês, adolescentes, uma idosa de 85 anos. (Vivos? Quem sabe?, penso). Sabe-se que enquanto alguns saqueavam as casas, outros arrastavam feridos e mortos para suas caminhonetes. Para serem desfilados em Gaza perante uma horda sub humana, sob gritos de vitória e de louvor a Alá. Tudo gravado. Tudo orgulhosamente exibido pelas próprias bestas ensandecidas. O demônio baba. O que podemos fazer para ajudar, pergunto. Israel quer viver em paz. O mundo precisa saber, e não negar, o que houve aqui. Depois de quase 80 anos do que se passou, parece que o mundo não deu voltas. É preciso aprender. Saber que o que aconteceu aqui pode acontecer em outros lugares, que não se enganem. Nesse momento ele muda de expressão. Menos freio, o olhar passa a deslizar em vez de saltar. A voz flui sem medir as palavras. Uma das coisas que admiro é o Universo. Gosto de olhar as estrelas, o céu, e sempre digo que há tanto para aprender, tantos lugares para se chegar. Creio que a humanidade tem valores que precisa levar a outros lugares, a outros mundos. Não conheço nenhuma religião em que esteja escrito que devemos matar, assassinar, queimar, violar. Esses terroristas tomam a religião para outro lado, completamente. As religiões dizem que devemos formar famílias, devemos nos amar, devemos receber o outro como ele é, não importa que cor de olhos tenha, não importa que cor de pele tenha, não importa nada. Somos humanos. Todos temos ossos, carne, sangue. Espero que apareça um líder – não um Messias, nada sobrenatural, apenas um líder que saiba levar as pessoas para outro lugar, com muito mais valor à vida. Sigal, Dolev, Arbel e Ariel estão comigo desde aquele momento. 

quinta-feira, 28 de março de 2024

Diário de Guerra - 1 - Por Vivian Hamermesz Schlesinger




1.

Alguém devia ter caluniado Josef K., porque ao acordar, certa manhã, recebeu aviso de que seria julgado por cometer genocídio sem que tivesse feito alguma coisa de mal. Atordoado, vestiu-se e foi ao fórum para descobrir onde estava o engano. Depois de atravessar um túnel escuro, labiríntico, cheio de armadilhas explosivas, encontrou uma carta assinada em código com a chancela da África do Sul. Nela também se via o brasão da Coreia do Norte, do Irã, da China e outros brasões menores, inclusive um do Brasil. Josef K. finalmente decifrou o engano: o datilógrafo, no lugar da palavra “agressor”, escrevera “vítima”, e vice-versa.

Diferentemente do Josef K. de O processo, de Kafka, esse nosso Josef K. empenhou-se em uma luta de morte e conseguiu, a enorme custo pessoal, ganhar algum tempo de sossego para continuar a se defender (enquanto não chega outra acusação invertendo vítima e algoz). Kafka morreu há 100 anos e nos deixou de herança a certeza de que a realidade é absurda e que o absurdo é real. Verdade hoje, como há 100 anos.

 

2.

Enquanto isto, Claudio e eu estamos nos acostumando a essa vida de operário de fábrica: dirigir uma hora e meia para chegar ao trabalho, dobrar milhares de sacos plásticos, montar centenas de caixas de papelão, intervalo, mais sacos plásticos ou caixas, almoço, tarde igual à manhã. Na fábrica de sacos plásticos nos colocaram juntos para fazer o trabalho que normalmente seria feito por uma pessoa só. Acho que ficaram com dó dos velhinhos... mas já que essa é a missão, dobramos plásticos como eles nunca foram dobrados, com precisão milimétrica de um casal com TOC. A diversão ficou por conta do esforço em adivinhar os comandos em russo na máquina. Russo? Exato. Desde 1989 imigraram para Israel quase um milhão e meio de cidadãos da União Soviética (devem ter se entediado daquela vida segura, da liberdade, da fartura). Hoje, um em cada quatro israelenses é ucraniano ou russo da Geórgia, do Uzbequistão, da Bielorússia. Na brincadeira, dizemos que a segunda língua mais falada em Israel é o hebraico.

Na fábrica de embalagens plásticas em que trabalhamos esses dias, não vimos nem um funcionário que não fosse russo. Boris, nosso supervisor, é um dos mais jovens, com cerca de 40 anos. Vários parecem ter nossa idade (70), e operam máquinas sofisticadas, carregam caixas pesadas, falam pouco, trabalham muito. Bem diferente da fábrica de papelão, que fica a poucas quadras de distância. Lá, operários mais jovens, de vários continentes, parecem mais soltos. Os africanos são os mais amistosos, falam sem parar, seja com a gente ou com outros, seja por celular - 100% do tempo entubados em fones de ouvido. Zuma, minha jovem chefe etíope, trabalha por uma hora ou menos, aí circula, conversa com um, com outro, sempre rindo, sempre o brilho no olhar e a música no andar. Será que é a essa herança que devemos nossa decantada simpatia brasileira? Será que há um gene para simpatia? E nesse caso, podemos replicá-lo?

 

3.

Em russo, árabe, hebraico ou amharic, sei que ontem o grande assunto era Eden Golan. Não conhece? Nem eu conhecia... mas agora sei que é a artista escolhida para representar Israel no Eurovision, concurso musical anual, este ano em Malmö, Suécia. Eden Golan tem 20 anos, é alta, magérrima, olhos quase orientais e longos cabelos em vários tons de rosa. Ela nasceu em Israel, cresceu na Rússia, faz parte de uma banda de garotas. Tem respostas ingênuas a perguntas óbvias sobre ter medo do palco, sobre quando começou a cantar (todos começamos a cantar na infância, não?), sobre como concilia estudos e vida arkstica (como se fosse possível).

É uma garota normal que canta bem, talvez muito bem. Como qualquer garota da sua idade, deveria ter liberdade para escolher seu caminho, apresentar-se aonde quer que seu talento a levasse. Mas assim como Josef K., Eden está descobrindo que a realidade é absurda. Que há grupos políticos na Suécia, Finlândia e outros países que querem impedir que ela, ou qualquer artista israelense, participe do Eurovision. Isso porque ela e sua música com certeza são culpadas da guerra em Gaza. Do que será que eles têm medo? Que ela conquiste, com sua ingenuidade, seu olhar de dois mundos, a simpatia daqueles que a virem como ela é, e não como um símbolo? Não sei se Eden é uma das favoritas, não ligo a mínima para Eurovision, mas se for para cancelar países em um evento artístico por seus atos políticos, acho que só sobram Monaco e Lichtenstein. Se sobrarem.

 

4.

A tentativa de cancelar Eden Golan é uma maneira de impor a discussão sobre a guerra em cada mesa de restaurante, mas o israelense lida com isso de outra forma. Não se sente a guerra.

Trabalha-se, vai-se ao cinema, os shoppings estão cheios. No trânsito, os israelenses brigam, ultrapassam pela direita, xingam com as mãos. Vida normal. Os moradores das cidades do sul e do norte, deslocados para locais mais seguros, estão começando a voltar para suas casas. É difícil explicar este país a alguém que nunca esteve aqui. A filha universitária de um senhor sequestrado está em semana de provas. Ela está estudando. Levanta-se todos os dias na hora certa, prepara seu lanche, vai às aulas, paga suas contas, presta os exames. Com certeza chora em alguns momentos, liga e desliga a TV com raiva e esperança, mas a vida? Essa não para.

Passado o choque do massacre (a raiva ainda não passou, nem vai) comecei a pensar em como seriam as relações entre israelenses judeus e israelenses árabes após a guerra. Cerca de 2 milhões de árabes têm cidadania israelense, vivem e trabalham em Israel, pagam impostos, usufruem do sistema de saúde e de educação, votam livremente (há vários membros do Parlamento que são árabes), como qualquer outro israelense. Dos enfermeiros, aqui, 55% são árabes; dos médicos, são 40%, para citar só um campo de atividade. Não são obrigados a servir o exército – os homens judeus sim, são, por 32 meses, e mulheres judias, por 24) – mas há milhares de árabes israelenses que se apresentam espontaneamente para o serviço militar.

Mas.

7 de outubro divide o tempo em um antes e um depois. E confiança só existe se for de duas mãos. Como vai ficar isso? Por enquanto, não se vê mudança: no shopping que mais frequento, 100% classe média, judeus e árabes estão convivendo pacificamente. Praticamente todas as vendedoras na Zara são árabes, e no mínimo 50% dos consumidores, também. Sentamo-nos lado a lado (e na cultura mediterrânea, lado a lado é quase coxa com coxa) nos cafés, nos parques, compramos os mesmos esmaltes, moletons, brincos.

Mas.

 

5.

Os árabes falam árabe entre si, hebraico com os outros. Aqui se aprende árabe na escola.

Noam, meu neto de quase 14 anos, que tem enorme facilidade para línguas, está aprendendo a escrever árabe. Fica exasperado com as múltiplas formas de uma mesma letra, dependendo se está no meio ou no fim da palavra, etc. Mas gosta. Vai falar mais essa, além do hebraico, português (a mãe é brasileira), castelhano (o pai é argentino), inglês (aprendeu sozinho jogando videogame). Não haverá barreira de idioma entre judeus e árabes em Israel. A barreira, se houver, será de outra natureza. O árabe israelense, ao menos em tese, aceita a existência do Estado de Israel. Não canta a o mantra assassino “from the river to the sea...” Ele sabe que Israel fica precisamente entre o river e o sea, e que para o Estado Palestino incluir essa área, Israel teria o destino de Atlântida. Isso sim, genocídio. Podemos ficar tranquilos que o árabe israelense prefira viver como está? No dia a dia do israelense, a pergunta parece já estar respondida.

A triste piada é que todos já devem ter visto jornalistas perguntando a manifestantes nas demonstrações pró-Hamas (pois é, pró-terroristas - a realidade é absurda) em Londres, Paris, São Paulo, de que river e de que sea se fala. Invariavelmente, a resposta é a cara de ué dos entrevistados. “Black sea...?” “Pacific...?” Dã.

 

6.

Na fábrica de plásticos nosso trabalho ontem era dobrar sacos grandes que saem rápido e com um suspiro de uma máquina, um material muito liso e transparente. A cada 50 suspiros, dobramos o conjunto em 3 partes, repetimos a operação para mais 50, e a 4 mãos inserimos os 100 em um envelope plástico de medidas perfeitas. Aí fechamos e transferimos cada pacote para uma caixa do tamanho de uma casa de bonecas, life-size. A cada 3 minutos sai um conjunto de 50 sacos, então ao final de algumas horas, a casa de bonecas vai se enchendo, e nós, idem. Mas compromisso é compromisso. Suspira daqui, suspira dali, eu sonhando com uma coca light, e eis que toca um alarme inconfundível: mísseis. Tzeva adom, cor vermelha. Esse é o nome do alarme. Estávamos a poucos passos do quarto anti-misseis, então não houve a menor dúvida, fomos sem correr, com calma e celular em punho, junto com mais 6 russos e 2 russas para dentro. O chefe – fica imediatamente claro quem é o chefe nessas horas – fechou a porta, e começamos a olhar uns aos outros, esperando o sinal para sairmos. Silêncio. O “domo de ferro”, um equipamento de alta tecnologia, detecta ao longe quando um míssil é disparado na direção de Israel e automaticamente dispara contra-mísseis para destruir o que vem, ainda no ar. Há uma explosão (que eu pensei que fosse audível, mas nem sempre é), míssil inimigo é destruído por contra-míssil, fragmentos caem ao solo, ou sobre as casas, ou a qualquer coisa que por azar estiver bem ali. Tudo muito simples.

Not.

Cada disparo desses custa milhões. O “domo de ferro” é um dos maiores símbolos do valor que Israel dá à vida. Golda Meir dizia que só teremos paz com os árabes o dia em que eles amarem seus filhos mais do que odeiam os nossos. Israel usa o armamento para proteger a população. O Hamas usa a população para proteger o armamento.

Pensei que ficaríamos ali dentro um bom tempo. Passados uns dois minutos, eu me preparava para fazer um selfie de nós dois (ok, parece brega, e é, em parte), e começa um diálogo rápido em russo. Adivinhei: Vamos, vamos, se não vai virar um balagan (bagunça, em hebraico – com essa palavra deduzi o resto). O chefe, que por seus modos me lembrava Vronsky, amante de Anna Karenina, achou ótima ideia, abriu o abrigo e saímos como se nada tivesse acontecido. De fato, nada aconteceu. O míssil provavelmente caiu em algum campo. Mais tarde soubemos pela minha filha que deveríamos ter ficado ali no mínimo 10 minutos, até que todos os eventuais fragmentos caíssem. Mas a população de Sderot está ao lado de Gaza, tem 15 segundos para se abrigar. Há 8 ou 10 anos eles são bombardeados diariamente. Tzeva adom faz parte da rotina.

Nada de pânico, nem um café depois, nada. Vida que segue.

Ah, o abrigo? De fora parece um banheiro químico obeso, mas com travas tipo cofre de banco na porta. Por dentro, limpíssimo, iluminado, equipamento para ventilação, uma cápsula perfeita para viagem no tempo. O selfie que eu ia tirar não era completamente inútil, eu queria avisar a família que estávamos bem. Todos têm um aplicativo no celular, no qual você seleciona as cidades que interessam, e toda vez que tocar o alarme em uma delas, ele tocará também no seu celular. Mas tudo voltou ao normal em poucos minutos. Logo depois, Boris, nosso supervisor, passou por cada um para saber se estava tudo bem, sem drama. Comparado ao tiroteio na minha rua, em São Paulo, há duas semanas, onde 2 pilantras tentaram assaltar uma mulher e tiveram a ingrata surpresa de escolher uma delegada... ela se defendeu muito bem, os dois acabaram no chão, um baleado mas vivo, o outro desmoralizado. Foi muito mais emocionante.

Em poucos minutos havia 15 viaturas no local. Quando nos dizem que somos corajosos de vir a Israel durante uma guerra, sempre respondo que coragem é morar em São Paulo, no Rio, no Arraial d’Ajuda...

 

7.

Emily voltou. Liguei a TV e lá estava ela. Ruivinha, pele muito clara, olhos meigos, distantes. O sorriso é contido. Enquanto seu pai conversa com a jornalista, Emily olha para o chão ou para o pai, mas se lhe fazem perguntas, ela se volta diretamente à pessoa e responde, sorrindo ao final de cada frase. A voz é contida. As mãos, muito comportadas para uma menina de 9 anos.

Sabemos que ela mudou. Ela gostava de cantar e dançar com sua amiga Hila, mas no dia 7 de outubro Emily, Hila, e Raani, mãe de Hila, foram sequestradas. Emily e Hila foram devolvidas.

Raani, ainda não. Enquanto estavam reféns, Raani cuidou das duas, rasgou um pedaço de sua roupa para poder banhar as meninas quando e onde era possível. Cortou-lhes o cabelo, para facilitar o cuidado. Foi uma mãe para Emily, mas não está com ela agora.

Raani foi a terceira mãe de Emily. Sua mãe biológica, Liat, e Thomas, seu pai, viviam em cidades diferentes quando ela nasceu. Quando Emily tinha 2 anos, Liat foi diagnosticada com câncer, então mudou-se para o kibut Be’eri, onde Thomas vivia, para que a criança pudesse se acostumar ao pai quando a mãe não estivesse mais. De fato, poucos meses mais tarde Liat faleceu. Thomas e Narkis, sua ex-esposa, criaram Emily. No dia 7 de outubro, Emily não estava em casa, dormia na casa de Hila; Narkis foi assassinada em casa pelos terroristas.

Enquanto refém, Emily era levada para esconderijos diferentes a cada poucos dias, obrigada a ficar em silêncio, sob a mira de uma faca. Em alguns momentos, havia até 8 homens lhe ameaçando. Após 50 dias ela foi devolvida, junto com Hila. Thomas pesava 65kg até 7 de outubro, pesa 52kg desde então. Ele temia que sua filha estivesse muito decepcionada por ele não ter conseguido protegê-la, mas quando finalmente pôde vê-la, soube que ela imaginou que ele também tivesse sido assassinado. Enquanto era arrastada para Gaza, ela havia visto dezenas de corpos. Seu tempo, enquanto presa pelo Hamas, foi de luto pelo pai. O pai, por sua vez, de início recebeu a notícia que Emily havia morrido, o que lhe deu um certo alívio: ele não conseguia enfrentar as possibilidades, se ela estivesse viva nas mãos desses demônios. Mas quando descobriu que ela estava viva, sua alma encheu-se de alegria. No dia 25 de novembro, aniversário da minha filha, Emily foi devolvida. Lembro-me de não conseguir conter as lágrimas ao vê-la “abraçada” pelos funcionários da Cruz Vermelha, esses parasitas hipócritas. Durante os 50 dias de seu cativeiro não tiveram sequer a dignidade de exigir que o Hamas lhes deixassem ver os reféns. E agora, perante as câmeras, faziam esse teatro. Se Emily sobreviveu, assim como os outros, não foi graças a Cruz Vermelha, e sim apesar dela. Emily gostava de cantar e dançar, seu coraçãozinho de 9 anos teve corda para 50 dias. Por enquanto ela ainda fala baixo, às vezes sussurra sem necessidade. Verifica várias vezes se a casa está bem trancada. Usa nome de alimentos que não gosta para indicar palavras inomináveis: terroristas são azeitonas. Gaza é a caixa. 50 dias foi um ano. Mas ela voltou, ela os derrotou. O demônio não pode com um anjo.


Vivian Schlesinger nasceu em São Paulo. É bióloga, trabalhou na área até 2009, e desde então dedica-se principalmente à literatura. É escritora (Papaya na madrugada, Dobra Editorial, 2011 - poemas); seus poemas e ensaios têm sido premiados e publicados em antologias no Brasil e no exterior. É tradutora técnica e literária, colaboradora de jornais como o Web Mosaica, a Tribuna Judaica, e o Jornal Rascunho. É maratonista e avó.