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quinta-feira, 10 de abril de 2025

ACONTECE: SHABAT HA GADOL - 18 meses - E Pessach Chegou


Por Regina P. Markus



Celebrar Pessach - a Festa da Liberdade, a Festa da Hagadah (História), a Festa das Famílias, a Festa das Comidas, a Festa das Reuniões. Em Israel é a chegada da Primavera! Esta data tem um significado importante também na Babilônia e na Europa, no Japão e na Índia. Chega a estação das flores, e é com flores que enfeitamos nossas mesas. Aqui no Brasil, aqui em São Paulo, são muitas as flores tradicionais desta época de outono. 

Seder quer dizer ordem. E Seder é o nome do jantar em que celebramos Pessach. Em família, em comunidade, com amigos. Um jantar ritual. As rezas, as comidas e os muitos detalhes que fazem esta noite tão especial.

MAS - MAS - MAS - este ano carregamos junto uma grande incógnita. Este ano sentimos no coração e alguns dos nossos na pele o que significa perder a liberdade. O que significa estar sob o regime do desconhecido e do medo. 

Chegamos nesta semana ao marco de ANO e MEIO - 18 meses. O dia 7 de outubro de 2023 está no calendário! E, este é o segundo Pessach de muitos reféns ainda nos túneis em Gaza. Cada dia sabemos algo novo e cada dia ficamos mais estarrecidos. E o que vemos entre os judeus é a incerteza trazer a separação. Podemos apontar pessoas, mas não devemos nunca fazer com que estes dedos apontados desqualifiquem o povo. O Povo Judeu que foi libertado do Egito e que chega a Canaã guiado por Moshé. Moshé o gago, o humilde. Moshé o que foi escolhido e o que dialogou com HaShem. E quando lemos a Hagadá, fica muito claro que a história e os rituais trazem Moshé o tempo todo em nossa presença, mas o nome Moshé não é pronunciado!

Nesta semana cheia de simbolismo, este é para mim o mais significativo. Aquele que guia e que orienta. Aquele que faz a diferença por gerações está nos corações e na mente. Não necessariamente nas palavras e nos comentários. 

Por que esta noite é diferente de todas as outras noites? Muitas são as respostas e a resposta tradicional, magnífica está na Hagadah - OLHEM! E aqui distingo algo que é o mais importante deste momento tradicional em todos os Sedarim - POR QUE? Perguntar! Esta é a base do judaísmo. Perguntar e obter diferentes respostas. Respostas que podem ser conflitantes, mas que merecem ser registradas para poderem ser discutidas ao longo dos séculos. Aqui, encontramos outra fonte muito importante, o Talmud, que é uma coletânea impressionante de perguntas e respostas.

Na Hagadah, fica evidente que por trás de Moshé e junto com HaShem fazem parte do Povo de Israel, do Povo Judeu, todos os tipos de pessoas, e todos são chamados de filhos  - o sábio (Chacham), o malvado (Rashá), o ingênuo (Tam) e aquele que não sabe perguntar (She'einó Yodea Lishol). 

Hoje assistimos ao conflito desencadeado pelo Hamas e pelas irmandades mulçumanas que professam um ódio declarado e alastrante ao Povo de Israel, ao Povo Judeu. Digo o conflito entre os judeus. Em Israel e na diáspora. Abrimos os jornais do dia-a-dia e vemos muitos judeus destilando gota a gota ou derrubando aos borborões pseudo fatos, ou fatos engenheirados de forma a difamar os judeus. Pois é, na Hagadá já encontramos este tipo de personalidade, o Rashá, aquele que desdenha da história e das tradições com uma atitude negativa e questionadora. 

Um bom exemplo é dado pela resposta que a ex-refém Liri Albag recebe ao culpar o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu por 7 de outubro. Não entro no mérito de sua opinião política. Todos têm direito a ter sua opinião e aqui não expresso a minha. Mas a resposta bem define o que vem acontecendo quando a História é Desdenhada. 

🧿 Liri Albag responde aos ataques contra ela:

“Li os comentários, li as ameaças que recebi, os xingamentos. E estou com medo. Não tenho medo dos comentários em si, nem de conhecer as pessoas que escreveram essas coisas para mim. Tenho medo do que nos tornamos”, disse ela. “Desejar que alguém seja preso? Eu não desejaria isso aos meus inimigos. Zombar do meu peso? Isso me lembra os terroristas que riam de mim, que faziam questão de me lembrar que eu era gorda. Me prometer morte e vingança? Deseje isso ao Hamas e aos nossos inimigos, não a mim”. Albag acrescentou: “Sim, todo o establishment de defesa, o Shin Bet, a inteligência militar, todos são culpados. Não se preocupe, eu disse isso diretamente a eles!”. Sobre a responsabilidade do Hamas, ela enfatizou. “É claro que, antes de tudo, o Hamas é o culpado pelo pesadelo que este país está vivendo. Não me esqueço dessa organização terrorista por um momento sequer, e eu, pessoalmente, quero me vingar dela. O Hamas é o inimigo! Não imaginei que receberia tais comentários das pessoas da nação de Israel. E sabe qual é a parte mais difícil? Essa divisão é pior que nossos inimigos. Não é assim que vencemos! Temos guerras mais importantes para lutar, há vidas humanas em jogo”. Fonte: Revista Bras.il a partir de Israel National News


PESSACH - HAGADAH

Contar a mesma história há milênios - e a cada ano introduzir uma modernidade! Há muitas pessoas que acharam necessário reescrever a Hagadah para que ela falasse ao seu tempo. E, a cada ano volto a Hagadot tradicionais, algumas sefaradis, outras ashkenazis, algumas mizrachis e outras etíopes. Apesar das diferentes origens e das separações destas populações ao longo dos milênios, a base da Hagadah é muito semelhante. E aí fica a dica para pesquisarem qual a origem deste livro de contos que singra os tempos.

Ter um passado é poder construir o futuro. E hoje, quando vamos mais uma vez ao cemitério levar para a sua última morada uma amiga de 95 anos que foi quem me trouxe para o nosso grupo há algumas décadas, sinto que todos os movimentos que aconteceram e que ainda vão acontecer servirão de tempero para o magnífico ato de estarmos juntos no Seder de Pessach.

Neste SHABAT ha GADOL - quando lermos a Parashat TSAV -  HaShem COMANDOU - e quando ao encerrarmos o serviço ao invés de separarmos o Sagrado do Profano, separaremos os Sagrado do Sagrado - O Shabat pelo Seder de Pessach!

Encerrando - contaremos os dois tempos que eternizam o Povo Judeu, o Povo de Israel. O tempo recorrente do Shabat - a nossa vida neste planeta Terra - e o tempo Eterno de Pessach - a vida do Povo Judeu ao longo dos milênios.

CHAG SAMEACH - Regina P Markus


FATOS E FITAS



Sebastián Basso, the lead prosecutor in the AMIA bombing case, has requested a national and international arrest warrant against Iranian Supreme Leader Ayatollah Ali Khamenei due to his direct involvement in the bombing of the Jewish community center in Buenos Aires in 1994, according to Argentinian daily Clarín on Wednesday.

In 1994, the Asociación Mutual Israelita Argentina Jewish community center was bombed, killing 85 and wounding 300. Hezbollah is believed to be behind the attack, with Iranian backing and support.

According to Basso, Khamenei “led the decision to carry out a bomb attack in Buenos Aires in July 1994 and issued executive order (fatwa) 39 to carry it out.”





quinta-feira, 1 de agosto de 2024

ACONTECE: A VIDA, NOSSO BEM MAIOR - Paris, Olimpo, Majdal Shams, Israel

por Regina P. Markus 


TODAS AS ROTINAS SÃO ROMPIDAS - e esta semana ia dedicar-me às Olimpíadas mas os fatos do dia a dia, fatos completamente fora da rotina, transformaram a última semana de julho em uma síntese do passado e uma incógnita do futuro. Atentado em Campo de Futebol em Aldeia Druza. Atentado originado pelo H4m4s direcionado à aldeia localizada em Israel! E a eliminação de dois proeminentes dirigentes das entidades que atendem ao Irã em ações de alta precisão em Beirute e Teerã. Acompanhem o texto e muitos dos links para informação no nosso Blogger. Boa Leitura!

Os acontecimentos tornaram cada dia um ponto especial, um momento de tensão e reflexão. Israel vem sendo atacado diariamente, no norte, no sul e até em Tel Aviv. Nesta semana uma aldeia druza foi brutalmente atacada. De forma pontual, com um foguete dirigido de forma precisa. 12 mini-futebolistas de 12 a 16 anos que estavam sentados à beira do campo de futebol foram mortos e muitos outros feridos. O projétil partiu do Líbano, de área dominada pelo Hezbollah. E na sequência foram mortos dois importantes líderes árabes. Em Beirute foi morto o chefe do Hezbollah, Fuad Shukr, e horas depois o dirigente do Hamas, Ismail Haniyeh, em Teerã.

Olimpíadas de Paris

Na sexta-feira, dia 26 de julho, o mundo apreciou a cerimônia de abertura das Olimpíadas de Paris. Abertura especial, fora de um Estadio Olímpico. Abertura em um desfile de barcos no Rio Sena. É tradicional que as aberturas sejam acompanhadas de um show pictórico. Imagens geradas pelas tecnologias mais modernas encantam espectadores do mundo inteiro. 

Este ano ao invés de entrada em um Estádio Olímpico, a abertura foi feita no Rio Sena. As imagens estonteantes que costumam iluminar a abertura olímpica foram substituídas pela cidade de Paris. A CIDADE LUZ. Cenários iconográficos que trazem mil memórias e desejos. Mas muitas das emissoras brasileiras e principalmente a de mais audiência focou em um barco com a bandeira de Israel sem participantes! Segundo os locutores, foram escondidos por medo de repetir o que ocorreu em 1972 (o massacre dos atletas israelenses que participavam das Olimpíadas). Olhando fotos encaminhadas por pessoas que estavam em Paris a imagem era outra... elas colocavam ON LINE e mostravam como a pequena delegação era aplaudida por um grupo que portava a bandeira israelense nas arquibancadas - e como era vaiada por pessoas que se identificavam com os grupos xyz H4mm4s, H3zb0l4h, H09t1s, etc. E a abertura seguia muito linda! O primeiro barco era o grego - afinal foi lá que nasceram as Olimpíadas - e o último era a seleção anfitriã. O final do desfile foi no Jardim do Trocadero que fica na margem direita do Rio Sena, do lado oposto da Torre Eiffel. Olhando a partir do Jardim, a célebre torre domina a paisagem! Sonhar é preciso! 

Bandeira azul e branca ao vento, na terra em que o judaísmo apresentado pela Torá e Talmud e vivido por milênios foi formalmente transformado em um religião. Por que? Napoleão em 1799 publicou um decreto proclamando a igualdade dos judeus na França. O decreto conhecido como "Decreto da Cidadania Judaica" estabeleceu a igualdade dos judeus franceses perante a lei e marcou um avanço importante no reconhecimento dos direitos civis. E, durante a semana, muitos episódios aconteceram.

Mas de repente a minha atenção foi tragada para o outro lado da VIDA - um objeto mortífero caiu em um campo de futebol na cidade de Majdal Shams nas Colinas de Golã, em Israel. Crianças que estavam realizando atividades na beira do campo foram atingidas. Começa o já conhecido ataque a Israel, os argumentos para culpar Israel por atacar seu próprio território são bizarros, mas muito aceitos por boa parte da população brasileira, que traz em seu legado histórico uma repulsa aos judeus. Esta repulsa recentemente se torna tão visível, que muitas vezes perguntam a judeus brasileiros imigrados da Europa, Países Árabes e África porque deixaram Israel. Ultimamente respondo: porque os romanos destruíram o país e o Templo de Jerusalém, levaram todos como escravos e criaram a Palestina. 

Majdal Shams é uma pequena cidade drusa estabelecida em 1595 pelo comandante Fakr-al-Din II, que foi incorporada a Israel após a Guerra dos Seis Dias em 1967. Segundo a Wikipédia há uma segunda versão, segundo a qual famílias drusas chegaram ao sopé do Monte Hermon no início do século 18. Esta versão foi publicada no Journal of the Institute of Muslim Minority Affairs 13.1 (1992):126 e não é de livre acesso. 

Para entendermos os dias de hoje, parei um pouco com meus olhares imediatos e fui atrás dos drusos. Sei que já publicamos algumas coisas, e até tenho um conhecido profissional que é de origem drusa, mas nada como refrescar a memória usando textos embasados em fatos: um artigo publicado no Scientific Research por Scarlett Marshal e colaboradores (2016). O trabalho compara biomarcadores genéticos presentes na atual população drusa com os resgatados de populações muito mais antigas. Os resultados apontam para uma ascêndencia armênia-turca. Os drusos formam um povo pequeno, que se caracteriza por manter sua identidade gênica através de casamentos dentro das comunidades. A religião drusa também é única e preservada pelos anciãos que conhecem as escrituras. Neste trabalho é citado que teve influências marcantes e reconhecíveis do islã ismaílico, judaísmo, zoroastrismo, hiduísmo, neo-platonismo e persa. 

No contexto do judaísmo é sempre preciso lembrar que o maior PROFETA DRUSO, ITRÓ, é o sogro de Moisés e sua história é contada na Torá. Para aumentar ainda mais o entrosamento, na parashá que leva o seu nome é citado que HaShem se dirige diretamente a Itró e que é ele que aconselha Moisés a criar a Assembléia do Anciãos, também chamada de Assembléia dos Sábios - a Knesset. Interessante que o mesmo tipo de Assembléia existe na organização drusa.

Há muito mais a citar sobre este povo que hoje integra o tecido da população israelense. Os drusos atualmente servem o exército de Israel e têm seus direitos históricos e religiosos respeitados, assim como todas as minorias israelenses. Têm representantes no parlamento (Knesset) e juízes, médicos, engenheiros e cientistas drusos atuam por todo o país como cidadãos israelenses. Em tempos de paz, os drusos tinham uma forma facilitada de cruzar a fronteira com o Líbano e a Síria para manter relações de parentesco e integridade do povo. 

Após o habitual disse que disse e ataques a Israel, a verdade começa a aflorar. No domingo, dia 28 de julho, foi realizado o enterro de 11 crianças. Até o momento o total de mortes relatadas são 14. Há feridos em estado grave e feridos em estado leve.

A foto abaixo ilustra o antes e o depois .... E o texto a seguir foi divulgado pelas autoridades drusas.


IN MEMORIAN ☪️Em nome de Alá, o Clemente, o Misericordioso

(E dê boas novas ao paciente que, quando o desastre os atinge, diz: "De fato, pertencemos a Alá, e de fato a Ele retornaremos)

Com grande tristeza e pesar, e com total aceitação e submissão à Sua vontade, Majdal Shams lamenta um grupo de suas melhores crianças e jovens.

Mártires e vítimas do bombardeio que teve como alvo Majdal Shams (o campo de futebol da cidade) no sábado, 27/07/24.

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E A SEMANA CONTINUA...

Nesta semana foram mortos dois líderes dos movimentos que negam o direito do Povo Judeu de existir e que apregoam que o objetivo final é a eliminação do Estado de Israel. Fuad Shukr (H3zb0l4h) em Dahieh, Beirute e Ismail Haniyeh (H4m4s) em Teerã. As reações ao redor do mundo estão em plena evolução. 

Ações foram pontuais, visando específicamente os dois responsáveis por mais diversos ataques a Israel e a judeus ao redor do mundo. Em Beirute um projétil atingiu exatamente o local de moradia em que estava Fuad Shukr e em Teerã um objeto explosivo foi emparedado no local onde estaria hospedado Isamil Haniyeh e foi detonado de longa distância quando se constatou que estava no local.
    Paro e olho para a parashá da semana, Matot. A última parashá do livro Bamidbar, Números. Aí está o último relato sobre os hebreus que saíram do Egito, guiados por Moshé e que vagaram durante 40 anos no deserto. Chegaram à margem oriental do Rio Jordão. Quem se aventurar no texto original verá grande semelhança com os dias de hoje. As diferenças entre as tribos de Israel afloram, regras de conduta são colocadas e a apreciação dos diferentes níveis de relacionamento, com o próprio eu, com a família, com o povo e com a humanidade são distinguidos. Muitos comentários de sábios ao longo da história esmiuçam estas incongruências, e chamam a atenção que a vida no aqui e agora tem que ser temperada com a vida ao longo do tempo. A dança com sujeitos de muitas gerações aponta atalhos e caminhos. "Le Dór vá Dór" - de geração em geração. No final deste post você pode ler a opinião da jornalista portuguesa Helena Ferro Gouveia publicado no X.  

Fincando o pé no HOJE - dia 1 de Agosto de 2024 - 26 de Tamuz de 5784

300 dias

 

Hoje completam 300 dias que os reféns levados para Gaza no dia 7 de outubro estão em cativeiro. Não sabemos quantos estão vivos, mas sabemos que a volta de todos para Israel é uma questão essencial para o mundo! Acredita-se que 111 dos 251 reféns sequestrados pelo Hamas em 7 de outubro de 2023 permanecem em Gaza, muitos deles presumilvemente estariam mortos (AFP).

Hoje a AFP divulgou mensagem do Presidente da França, Emanuel Macron. “Nossos pensamentos estão com os reféns mantidos por 300 dias pelo Hamas. A França continua trabalhando para sua libertação”, escreve Macron no X, em inglês e francês.

Mundo Judaico ON LINE
O presidente Isaac Herzog convoca os líderes mundiais a trabalharem para libertar os reféns enquanto Israel marca 300 dias desde o devastador ataque de 7 de outubro.

“Por 300 dias, nossos filhos e filhas, irmãos e irmãs, mães e pais, avós, têm definhado nas masmorras do Hamas em Gaza”, ele escreve.

“Cada segundo de cada minuto de cada hora desses 300 dias é um crime contra a humanidade. E a cada segundo que passa, a necessidade de trazê-los para casa se torna mais e mais urgente”, ele escreve. “A todos os líderes do mundo que desejam a paz em nossa região, eu digo claramente: ajudem-nos a trazer nossos reféns para casa — todos eles, jovens e velhos, homens e mulheres, judeus, muçulmanos e mais. Ajudem-nos a trazê-los para casa agora.” (Presidente Herzog).


Esperança, esperançar - HATIKVA 

Que as próximas semanas possam acontecer com mais leveza!

Regina P. Markus




Helena Ferro de Gouveia é uma analista protuguesa focada em Assuntos Internacionais e é  Consultora e Auditora de Defesa Nacional. Nasceu em Bissau e cresceu em Lisboa, tendo trabalhado por duas décadas como correspondente na Alemanha ( CNN Portugal).

Texto escrito em português de Portugal

E agora? 

Helena Ferro Gouveia

1. Os assassinatos selectivos em Beirute e Teerão podem ser lidos como dissuasão. Porquê? Em primeiro lugar porque mostram que Israel continua a ter um dos dos senão o melhor serviço de intelligence do mundo, em segundo porque tem a capacidade de efectuar este tipo de ataques com precisão. 

2. O Irão sabe agora que não há lugar seguro. Demore o que demorar, seja onde for.

3. Haverá uma resposta iraniana até porque Teerão foi humilhado em casa logo após a tomada de posse do presidente “moderado” ( não o é de todo, mas isso é assunto para outro post). Todavia Teerão sabe que Israel tem aliados externos e sobretudo sabe que Israel tem aliados internos no Irão: aqueles que querem acabar com a teocracia ( os iranianos seculares são amigos de Israel, conheço imensos ). Tenho dúvidas que uma grande “escalada” aconteça, importa lembrar os distraídos que  quem escalou foi o Irão e os seus proxys a 7.10. Nunca o esquecer. 

4. É um asneira sobejamente repetida que o “negociador” tenha sido morto. Quem conhece a biografia de Hanyieh sabe que ele é tudo menos um moderado ou um negociador. Quisesse o Hamas negociar ou estivesse preocupado com Gaza e o sofrimento dos palestinianos há muito que o teria feito. O lema do Hamas é “quanto pior para Israel ( com a ajuda dos idiotas úteis ocidentais ) melhor para o Hamas”.  A prazo veremos  a neutralização de Sinwar, que não haja dúvidas. 

5. Os ataques eram do conhecimento de Washington. Reitero o que aqui tenho dito: até se pode sentar o rato Mickey na Casa Branca que Israel será sempre um dos principais aliados dos EUA. 

6. Internamente esta dupla neutralização coloca Israel numa posição mais confortável para aceitar algumas das posições negociais do Hamas ( nomeadamente no que toca à troca de prisioneiros) o que poderá incrementar as hipóteses de se chegar a um acordo de cessar fogo ( apesar das palavras, para fora , do PM do Qatar). 

7. A Realpolitik e a força é a linguagem que o terrorismo entende. Só quando se demonstra que não se tem medo dele, se pode vence-lo. 

(esta é a minha leitura não teórico-académica, mas político-pragmática , admito que posso estar errada).


 

terça-feira, 5 de setembro de 2023

Acontece - 120 anos... e as Grandes Escolhas

A semana foi recheada de acontecimentos e todos permitiriam reflexões importantes. Em Israel ocorreu um conflito entre refugiados da Eritreia, que apoiam ou reprovam o governo de Isaias Afewerke que assumiu o cargo de presidente após a guerra da libertação em 1991. Estes refugiados chegaram em Israel pela fronteira com o Egito e foram recebidos por questão humanitária, visto que correm risco de vida se forem deportados para a Eritreia. Aqui vale lembrar que a Eritreia é banhada pelo Mar Vermelho está em frente ao Iêmen e à Arábia Saudita. 
Mas, estando no mês de Elul de um ano com tantos acontecimentos, é sempre bom voltarmos um olhar para a Torah e conhecer um pouco do texto que pode ser apreciado em diferentes contextos.

Por Regina P Markus


https://yedidyah.net/wp-content/uploads/2020/09/Moses-Atop-Mount-Nebo-Painting-The-Torah.jpg



Especialmente esta semana, em que serão lidas duas "prashiot": Nitzavim e Vaielêrr (Deuteronômio 30: 9-20 e 31: 1-30).
Moisés continua o seu discurso final. Todo o povo reunido escutando não apenas um resumo dos 4 livros anteriores, mas também um ordenação de leis e códigos de condutas. São as leis e regras divinas, as bençãos e as maldições ligadas a cada tipo de conduta. Do pessoal ao social, do cuidado com a natureza ao cuidado com a própria higiene. Regras que devem ser seguidas na Terra de Israel e também em outras terras quando lá estiver o Povo de Israel. Leis e regras que são universais e devem ser seguidas pelos judeus e pelos estrangeiros que habitarem entre eles. Ao longo de todo o livro de Devarim (Deutoronomio) é dado o direito de escolha e este direito culmina em 30:15-16, onde está escrito:


רְאֵ֨ה נָתַ֤תִּי לְפָנֶ֙יךָ֙ הַיּ֔וֹם אֶת־הַֽחַיִּ֖ים וְאֶת־הַטּ֑וֹב וְאֶת־הַמָּ֖וֶת וְאֶת־הָרָֽע׃ 


15: Hoje Coloco diante de vocês a vida, e o bem, a morte e o mal:



 אֲשֶׁ֨ר אָנֹכִ֣י מְצַוְּךָ֮ הַיּוֹם֒ לְאַהֲבָ֞ה אֶת־יְהֹוָ֤ה אֱלֹהֶ֙יךָ֙ לָלֶ֣כֶת בִּדְרָכָ֔יו וְלִשְׁמֹ֛ר מִצְוֺתָ֥יו וְחֻקֹּתָ֖יו וּמִשְׁפָּטָ֑יו וְחָיִ֣יתָ וְרָבִ֔יתָ וּבֵֽרַכְךָ֙ יְהֹוָ֣ה אֱלֹהֶ֔יךָ בָּאָ֕רֶץ אֲשֶׁר־אַתָּ֥ה בָא־שָׁ֖מָּה לְרִשְׁתָּֽהּ׃ 

 
16:  Porquanto Te ordeno hoje que ames ao Senhor teu Deus, que andes nos Seus caminhos, e que guardes os Seus mandamentos, e os Seus estatutos, e os Seus juízos, para que vivas, e te multipliques, e Adonai te abençoe na terra a qual entras para herdá-la. 

Este é um texto de mais de 3 milênios em que o poder de decisão é dado ao ser humano. O poder de decisão com conhecimento de qualificadores. Por que uso a palavra "qualificador"? Porque com mínimas exceções, que são bastante conhecidas nos nossos tempos, o judaísmo apresenta um sistema de mandamentos e estatutos, bem como uma jurisprudência baseada em "juízos" que dá flexibilidade ao arcabouço legal, permitindo que este se adapte aos tempos.

Muito escutamos a respeito da falta de constituição no Estado de Israel. A mesma forma de legislar é encontrada na Inglaterra. No Canadá, a constituição é do tipo consuetudinária porque inclui regras escritas bem como tradições e convenções não escritas. Mas, o que é importante em todo tipo de arcabouço legal é o direito à escolha, a capacidade do próprio individuo determinar o seu caminho.

Sabemos que muitas vezes são realizados atos involuntários ou mesmo escolhas que, baseadas nos fatos conhecidos na época, pareceram as mais justas e adequadas. Estando no mês de Elul, escutando o chamado do Shofar, temos um tempo de reflexão, que culminará em Yom Kipur, data em que a maioria dos judeus considera especial. Um momento pessoal e coletivo. Um dia que várias enquetes que indagavam o que estaria acontecendo daqui a 1000, 2000, 3000 anos apontaram o dia de Yom Kipur como uma data a ser mantida.

PODER DE DECISÃO - e consequências...

Vaielêrr (Deuteronômio 31: 1-30). Nesta porção é dito literalmente que os dias de Moshe chegaram ao fim. Aos 120 anos! Vejo muitos de meus amigos rirem destas afirmações exatas. Há dez anos teríamos muita dúvida da possibilidade de viver 120 anos! Hoje muitos cientistas já aceitam que este seria o "span-life" dos humanos.

Aqui vale a reflexão. Estamos chegando cada vez mais perto. Nós, das grandes cidades, conhecemos muitas pessoas nas faixas do 80 e 90 que têm vidas ativas tanto física como intelectualmente. E temos relatos de pessoas centenárias que têm capacidade cognitiva e motora normal.

Muitos acham que conhecem a receita, e alguns anos depois vemos que esta receita servia para alguns e não para outros. Todas as ômicas (genômica, proteômica, metabolômica) buscam explicações moleculares e marcadores que poderiam servir para prolongar a vida ativa. Estes marcadores não servem para todos. A diversidade e a individualidade ainda desafiam a nossa vontade de categorizar a pessoas.

E aqui voltamos ao texto da Torah, que faz a mesma viagem entre o indivíduo e o coletivo. Entre o judeu e o estrageiro. Entre diferentes povos e tipos de conduta. Saber que o coletivo não representa o individuo, mas que o individuo o deve respeitar, estando inserido ou não no coletivo, é a mensagem da semana.

Que possamos continuar com tranquilidade e amor neste percurso até chegar o Ano Novo!


quinta-feira, 31 de agosto de 2023

Acontece - E quando entrares na Terra (Ki Tavô)




ONTEM, HOJE e AMANHÃ

Por Regina P Markus

Este mês de Elul é o momento para refletir e preparar o futuro. A parashá desta semana Ki Tavô - Moshé discursa sobre a entrada na Terra do Leite e do Mel, na construção de uma CASA para o NOME e também sobre regras e maldições quando desvios forem feitos. A Terra será habitada pelo Povo de Israel, e também abrigará outros povos. Conflitos... chegamos aos dias de Hoje e sabemos dos conflitos por todos os meios de comunicação. Recentemente um representante da comunidade árabe-israelense que é membro da parlamento (Chaver Knesset) Ayman Odeh, líder do partido Hadash e líder da União de Partidos Árabes, deu declarações as quais o comentarista Marcos L. Susskind rebateu, escrevendo uma carta-resposta a seus posicionamentos. Este "Acontece" reproduz esta carta que esclarece pontos relevantes e faz um posicionamento claro sobre a soberania do único Estado Judeu na Terra. Lembrando que este estado é pluralista e que seus cidadãos não são necessariamente judeus, e que como cidadãos têm a prerrogativa de eleger representantes para o Parlamento.



CARTA ABERTA AO PARLAMENTAR Ayman Odeh
escrita por Marcos L. Susskind

























Debate e troca de idéias é a base para poder ter entendimento. Mas é preciso guardar os limites. Limites, regras e punições é o que a Torah continua colocando esta semana. Num momento de reflexão são colocadas punições, agora focando o povo. Muito difícil de ler e de transportar para os dias de hoje se quisermos seguir tudo ao pé da letra. Mas o Talmud, e depois os textos dos comentaristas e agora dos muitos doutos que escrevem sobre o tema, ensinam que a Torah pode ter vários níveis de leitura. Na semana anterior, comentei que o rompimento das regras e a sua relação com a Terra de Israel poderia ser encarado como prenúnico de exílio. Nesta semana, as formas de redenção não aparecem, vão ser explícitas apenas no 15o versículo da próxima parashá. Este é um preparo longo, pessoal que chegará nos Iamim Noraim e Iom Kipur. O indivíduo, de forma pessoal e coletiva, chega a seguir em Sucot quando todos juntos, sob cabanas que lembram o início, continuam mais um ano no traçado do tempo.

Assim, lembramos que esta newsletter tem como objetivo abrir uma ÁGORA, uma praça para o debate, como existiu na Esplanada dos Templos de Jerusalém, onde era possível escutar e debater.

Boa semana!
 

sexta-feira, 25 de agosto de 2023

Acontece - Mês de Elul - o último mês judaico - um tempo especial

Este é um mês em que as mentes e os corações olham o passado para construir o futuro. Elul, mês em que se escuta o Shofar, de forma a lembrar que há algo especial para chegar: O NOVO ANO. Um período que faz eco no judaísmo de todas as nominações e também nos judeus que não seguem religião. Um povo para o qual o tempo é algo importante. Este mês dançamos e escutamos o tempo passar e refletimos o que foi e o que virá. Como ilustração do texto, temos o Chazan da Comunidade Esh Tamid Daniel Markus tocando o Shofar em um pôr de sol especial em São Paulo. Um berrante que acorda e que embala, um som que faz lembrar e faz sonhar, um som que une o passado ao futuro, através das gerações.




Neste mês é lido o último livro da Torah - DEVARIM (Deuteronômio). O Livro é o Discurso que Moshé (Moisés) faz antes dos israelitas cruzarem o Rio Jordão e entrarem na Terra de Israel. Como sabemos, o líder que trouxe o povo do Egito até as margens do Jordão em uma viagem que durou 40 anos não cruza. Seu último discurso relembra a história e cria expõe regras de conduta que possam permitir a sobrevida até tempos que não se podia contar. 

Esta porção - Ki Tetsê (כִּי–תֵצֵא ) começa com a frase "Quando saíres à guerra contra teus inimigos" e então seguem 74 regras de conduta referentes a relacionamentos com "o outro", "a propriedade", "a natureza". Ao tratar dos relacionamentos entre pessoas, vai desde o inimigo que é capturado na guerra, passando pelas relações familiares com os bons e maus. Os comentários dos talmudistas e dos comentadores mais modernos trazem explicações muitas vezes conflitantes. Olhando com a perspectiva de nossos dias, vemos um mundo em que todas as interpretações chegam à tona. Um mundo difícil de se entender e coordenar, que mostra de forma aguda as várias arestas dos relacionamentos humanos e as dificuldades de encontro de linhas que mais parecem a definição pura e simples de linhas paralelas que aprendemos na escola "retas em um plano que estão sempre à mesma distância uma das outras". Retas que não se cruzam. Fazendo um jogo com as palavras "retas lembram correto; certo; direito", será que as duas retas estão certas? Seguem paralelas sem se encontrarem até o infinito? Usando o sistema das parábolas, midrashim, sabemos que não vivemos em um único "plano" e portanto a definição básica de "retas paralelas" deve ser amoldada a diferentes planos. É desta forma que todos os comentaristas, os sábios e os comuns, lançam luz a um texto que rompe os tempos. As retas se encontram... os planos se alternam... 

De todas as 74 regras vou comentar uma única conforme escutei e li em alguns posts esta semana; Rav Oury Cherki de um site conhecido como Shalom 39 (https://youtu.be/Px244R5-CPQ). É feita uma análise dos comentaristas Maimonides (Moshe ben Maimon - 1138-1204), Nachmanides (Moshe ben Nachman, 1194 - 1270) e Maaral de Praga (Judah Levy ben Bezalel, 1525-1609). 

Deuteronômio 22:6-7: "Quando encontrares algum ninho de ave diante de ti, pelo caminho, numa árvore ou no chão, com pintinhos ou ovos, e a mãe sobre os pintinhos ou sobre os ovos, não tomarás a mãe estando com os filhos. Mas deixarás ir livremente a mãe e os filhos poderá tomar para ti, a fim de que te seja bem e prolongues os teus dias".

A leitura deste texto pode ter uma visão humanitária e biológica levando em consideração o respeito à mãe e a necessidade de alimentos. Esta é a forma simples de avaliar o texto. Mas, olhando a simbologia da mãe que prepara o futuro, as mesmas palavras - "mãe sobre os filhos" é proferida por Jacob quando encontra Esaú. Mahahral de Praga, e a Mishná, trazem a interpretação misericordiosa, Nachmanides define a mãe como sendo a Scherriná (o próprio D'us na forma feminina), os filhotes, os filhos de Israel e o ninho a terra de Israel. E Rambam que acredita ser a Torah e Talmud não apenas registros históricos comentados, mas fonte de grandes princípios de pensamento, abre espaço para interpretações.

Rav Oury Cherki comenta que hoje podemos ampliar nossa forma de interpretar o que ocorre quando a Mãe se ausenta: o ovo representa a Torah escrita, os filhotes a Torah oral e os filhos a Cabala. Estes pontos podem também ser ligados aos tempos de distanciamento do ninho, aos tempos do exílio, que foram anunciados por Isaías quando a Scherriná não está presente. A Torah foi revelada após o Exílio no Egito, o Talmud Babilônico representa a Torá Oral e a Cabala foi escrita durante o Exílio de Edom, que inicia-se com a conquista dos romanos e termina com o estabelecimento do Estado de Israel no século XX.

E chegando ao século XXI, na semana em que lemos esta parashá, que necessita de tantas explicações para poder ser entendida ao longo dos anos, atrevo-me a dizer que estamos em outra encruzilhada. Em um momento no tempo em que as retas deixam de ser paralelas porque estamos mudando de plano. Isto acontece não apenas em relação ao Estado de Israel, mas em todo o mundo! 

Mas... e sempre tem um mas.... que pode trazer outros lados de um cubo, ou outros filtros para entender o que é a realidade, o ensinamento báscio da Torah, que baseia o futuro na capacidade de uma geração educar a próxima e permitir que valores verdadeiros possam ser transmitidos e adaptado aos tempos ainda é válido.

Que o som do Shofar seja um alerta para todos.

Regina P. Markus








quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

ACONTECE - Iniciando 2023 com novidades.

Iniciamos 2023 com uma nova sessão: ACONTECE!


Este será um espaço para continuarmos trazendo matérias assinadas por nossas editoras e por convidados, destacando fatos de momento e também contextualizando temas de relevância. O presente é tão fortuito - depende do que aconteceu e pavimenta o que acontecerá. No mundo do que aconteceu, há muitos fatos que o passado esconde ou revela; e são muito importantes para definir ações no presente. A EshTáNaMídia, iniciada em 2017, foi estruturada para mostrar fatos veiculados no dia-a-dia, mas também apresentar opiniões e comentários na sessão chamada EDITORIAL. Este ano, ela passa a ser conhecida como ACONTECE. A sessão continuará sendo assinada e revisada pelas editoras Juliana Rehfeld, Marcela Fejes e Regina P. Markus. Nesta nova fase, aumentaremos a contribuição dos membros de nossa comunidade. A sessão VOCÊ SABIA?, capitaneada por Itanira Heineberg, também poderá contar com novos colaboradores.


Relógio com Letras Hebraicas - Praga 

Vivemos tempos em que ACONTECER através de fatos e ideias é apenas uma questão de tempo e vontade pessoal. Se há dez anos esta parecia uma forma maravilhosa de entrarmos em contato com amigos, comunidades e colocarmos nossas opiniões à disposição do mundo, hoje sabemos que os mesmos meios podem ser usados para divulgar notícias falsas, criar propagandas enganosas e assim por diante.

A vida judaica é pontuada pela história dos judeus ao longo dos milênios começando pelos relatos da Torah, quando o povo judeu é constituído, e seguindo através de milênios de história. Espalhados pelos cinco continentes, guardando hábitos comuns e adquirindo hábitos e costumes de países e regiões em que viveram mais tempo, os judeus vão incorporando em seu calendário de memórias e comemorações novas datas a cada década.

Nesta década convivemos com os últimos sobreviventes do Holocausto. Uma simples questão de tempo. As crianças daquela época hoje chegaram aos noventa anos e alguns atingem os cem anos. Há grande preocupação em obter a história falada e os mais diferentes tipos de depoimentos podem ser encontrados em coleções em todo o mundo. Apesar da enorme destruição da vida judaica na Europa e de forma muito importante no Leste Europeu, ainda há edifícios e adornos de casas que registram as populações judaicas.

O leitor deve estar se perguntando: por que trazer este tema exatamente quando a coluna muda para o nome ACONTECE... para pontuar o presente. Para que o passado torne-se HISTÓRIA e, portanto possa fazer parte do presente, é preciso que seja conhecido formalmente e também que possa ser documentado.

Esta semana nos deparamos com dois fatos novos. O primeiro é que o tema HOLOCAUSTO passou a ser matéria regular nas escolas dos Emirados Árabes Unidos. Segundo notícia do StandWIthUs Brasil este evento acontece anos após a abertura do Museu do Holocausto. O conhecimento de fatos históricos por populações que não tiveram contato direto se dá pela educação informal, onde fatos são apresentados e documentados e também pela educação formal nas escolas. ACONTECE... baseado em fatos históricos e propagando estes para o futuro. Este fato novo, que visa aproximar povos através do conhecimento do passado, foi criticado pelo Hamas, movimento que nega a existência do Holocausto (The Algemeiner 11/01/2023; The Observatorial 10/01/2023, entre outros).

Negar a Shoá (Holocausto) é uma forma de apagar a história. Vale notar que no dia 4 de janeiro foi publicado um tuíte pelo prefeito da cidade de Lodz, na Polônia, apresentando objetos judaicos desenterrados de uma rua próxima ao Gueto de Lodz. Na eminência da remoção dos moradores do Gueto para os campos de extermínio, seus líderes enterraram os objetos judaicos para preservar a memória de uma vida plena que foi eliminada pelo Holocausto (Jewish Telegraphic Agency (JTA), 9/01/2023).


Objetos encontrados em 2023 próximo ao Gueto de Lodz - Polônia - tuíte do Prefeito de Lodz - Adam Pustelnik


Encerrando o ACONTECE, que é um presente ligado no tempo, queria deixar registrado o que é a JTA: uma agência que gera notícias do mundo judaico e de Israel para mídias de grande alcance. De acordo com a Wikipedia, A JTA foi fundada em 6 de fevereiro de 1917 por Jacob Landau em Hague, na Holanda. Eram coletadas notícias sobre comunidades judaicas ao redor do mundo e a atuação de soldados judeus durante a primeira guerra mundial. Em 1919 a agência mudou-se para Londres e em 1922, para Nova York. Em 1925, cerca de 400 jornais recebiam notícias da JTA. A história continua, e chegamos no dia de hoje com filiais por todo o mundo e também com uma parte das informações divulgadas de forma gratuita na INTERNET.

ACONTECE... ontem, hoje e amanhã. Se você tem algo a comentar, ou gostaria de ver divulgado um fato que está no nosso contexto, não deixe de encaminhar.

Aproveito para desejar, em meu nome e de toda a equipe ETNM, um 2023 maravilhoso!

Que possamos superar as dificuldades e curtir cada momento de realização. Tudo com muito amor e paz.

Regina P. Markus

quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

Editorial - SER JUDEU

 

Quem é judeu?

O que é ser judeu? O que quer dizer que somos judeus? O que vem a ser o judaísmo e os judeus? Afinal, o judaísmo é apenas um aspecto de nossas vidas? E por fim, acredito que o mais importante: quando você é chamado ou se reconhece como judeu, de que tipo de comunidade você deseja fazer parte (construir)?

Um poeta em idish escreveu: “...ser judeu é correr sempre para D-us, mesmo sendo alguém que foge dele; é esperar ouvir a trombeta de D-us em qualquer dia, mesmo sendo ateu. É esperar ouvir a trombeta do Mashiach em qualquer dia, mesmo que se seja ateu. Ser judeu significa não poder abandonar a D-us, mesmo que se queira; significa não conseguir deixar de (lhe) rezar para ele, mesmo depois de todas as orações, sejam estas as da noite e mesmo depois de todas as da tarde...”[1]

Há quem afirme que o sentimento de pertencimento do ser humano, do indivíduo a um grupo ou a uma comunidade, se constitui a partir de três aspectos principais: a pátria, a língua e seus costumes (cultura). No entanto, realmente, o que faz com que se pertença a uma nação? O que faz que um indivíduo tenha uma realidade autónoma na alma e na vida, mas se sinta integrado a um Povo? O que é que faz o indivíduo se sentir parte de seu povo?  O que é que faz não apenas que o seu Povo esteja à sua volta, mas também dentro de si mesmo? [2]

Todas são questões feitas por Martin Buber na década de 1920 e que ainda são válidas em nossos tempos e para o Estado de Israel. E ainda, acrescentaria, em vista aos acontecimentos das últimas semanas em Israel e no Mundo, aos ataques a minorias e à democracia. Tais fatos me trouxeram angústia sobre o papel das democracias na segurança, no que é “Ser Judeu”.

Qual é o preço de se viver em uma democracia e em uma sociedade diversa? Estamos dispostos a pagá-lo? Aqueles que estão no topo da cadeia destas sociedades se incomodam com os direitos das minorias? E as minorias em uma democracia devem se curvar à maioria? O que tem a ver democracia com a identidade coletiva e com a individual?  

Buber ainda nos conta, para explicar o sentimento de pertencimento, que o ser humano em seu processo de descoberta de seu mundo repete em um nível superior os mesmos processos desenvolvidos por uma criança ao longo de sua vida. Em primeiro lugar, percebe seu pequeno entorno, posteriormente de forma lenta e gradativa, seu EU.

Assim nos comportamos, ao longo de nossa jornada em nossas vidas, na compreensão de nossa relação com a comunidade em que atuamos. Nos descobrimos indivíduos autônomos, nos expressamos, experimentamos, nos integramos e desta forma podemos criar junto à nossa comunidade. Deste modo, descobrimos nosso entorno a partir dos aspectos emocionais e experiências pessoais, nos perguntamos quem somos e como nos inserimos na comunidade.

 

 

Martin Buber

 

Continua Buber, “não nos sentimos apenas indivíduos particulares, se não que cada um sente-se ser o Povo e sente em si mesmo o Povo” [3]. Deste modo, o passado judaico faz parte de nós, não nos compadecemos do sofrimento das gerações passadas, mas sim, conhecemos este sofrimento porque é nosso. Reconhecemos o sofrimento e, ao reconhecê-lo, buscamos corrigir o presente e garantir um futuro melhor às gerações vindouras.

O judaísmo é também, e não apenas, um conjunto de ideias básicas de disciplina para a alma e para o corpo, provando que não se termina aqui. A Torá marca uma jornada como bússola e um manual de instruções para nossas vidas pessoais e comunitária. O judaísmo é plural e ético ao considerar todas as opiniões e perguntas de gerações passadas, presentes e refletir o futuro... e aqueles que não compreendem e não aceitam esta realidade diversa, é porque não compreendem o judaísmo plenamente. “O judaísmo não é preto e branco. É um arco-íris de cores”.[4]

O ser judeu é uma multiplicidade de dimensões que incluem e vão além do nacional, do linguístico, do religioso e do ideológico. Se desdobra num fascinante conjunto cultural e social que, apesar da sua diversidade, apresenta características e valores comuns, constituindo e refletindo uma civilização.

Sim, como afirma Mordecai Kaplan, “o judaísmo como civilização é uma finalidade em si mesma”[5]. E o judaísmo como civilização floresce com os princípios de liberdade, igualdade e democracia, princípios que estão em nosso DNA como Povo.  Para mencionar apenas um exemplo: a garantia dos direitos das minorias. Em Pessach lembramos de quando éramos escravos e o respeito ao estrangeiro que vive entre nós.

A diversidade judaica é reconhecida por todos: há judeus europeus, asiáticos, árabes, africanos, brancos e negros. A multiplicidade faz parte de Israel, mesmo com seus desafios de convívio, o que demostra até hoje o desejo de estabelecer uma sociedade eclética. Numa grande parte, esta característica eclética é fruto da Lei de Retorno, vitória de netos(as) de judeus e de judeus conversos que foram aceitos de igual para igual, na fundação de princípios básicos de civilidade e convívio sociais.

E Israel, refletindo um sintoma mundial, não está imune ao vírus da intolerância e dos extremismos ideológicos que assolam o Mundo. Porque Israel, desde de sua criação, acolheu toda a diversidade judaica conhecida. Mas vale lembrar que não se trata de apoiar ou não o Estado Israel, isto não está em questão. Nosso apoio a Israel é incondicional. Se trata da defesa dos direitos e garantias individuais e coletivos de milhões de judeus, e de não transformar um Estado laico em teocrático.

Nossos sábios ensinam que “tal como os rostos dos seres humanos diferem uns dos outros, o mesmo acontece com as suas convicções, também são diferentes. E tal como você pode tolerar um rosto diferente do seu, deve respeitar as opiniões de pessoas que pensam de forma diferente de você.” [6]



Marcelo Cardoso



[1] Arn Tzeitlin - Poeta de língua idish de raiz chassídica (Rússia Branca 1889 - Nova York / 1973). Tradução livre realizada pelo autor do artigo.

[2]  Trecho retirado do artigo “El Judaísmo y Los Judíos”, Martin Buber (1923) do libro “Über das Judentum”.

[3] “El Judaísmo y La Humanidad”, Martin Buber (1923).

[4] Rabina Irina Gritsevskaya - Diretor da Midreshet Schechter Ucrânia

[5] Mordecai M. Kaplan, em “La Civilización de Israel em la Vida Moderna”, Israel 1944.

[6] Rabi de Kotzk – Lider do movimento chassídico Bilgoray, Polonia (1787/1859).

 

sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

Editorial - A FESTA DAS LUZES

 



Chegamos na última quinzena de dezembro e última quinzena de Kislev. No próximo domingo à noite, dia 25 de Kislev (18 de dezembro 2022), inicia-se a comemoração de Chanucá, a FESTA DAS LUZES. Também as cidades das Américas e da Europa se iluminam anunciando a chegada do Natal. Tempo de Luzes... Tempo de Liberdade... Tempo de Consagração.

Chanucá celebra "a conquista de Jerusalém pelos Macabeus e a consagração do Templo de Jerusalém após a vitória sobre os gregos". O fato histórico é verídico e coincide com as comemorações de Chanucá, mas o que realmente é lembrado em cada casa judaica é um "impossível" mais sutil.

A Judéia estava sob domínio grego e no ano 164 aEC (antes da era comum), Jerusalém foi reconquistada pelos judeus liderados por Yehuda ha Macabi. A dinastia dos Hasmonaim (חשמונאים) reinou até o ano de 37 aEC. Foi nesta época que se iniciou a diáspora judaica que durou dois mil anos até a fundação do moderno Estado de Israel. Vale lembrar que um pequeno grupo de judeus permaneceu em Israel durante toda a diáspora e que a volta de outros foi ocorrendo ao longo dos séculos. Mas foi o movimento sionista, iniciado no Leste Europeu em resposta às perseguições antissemitas nos territórios da Rússia czarista e fortalecido por Theodor Herzl, junto aos Congressos Sionistas Mundiais em resposta ao antissemitismo francês que degradou o Capitão Alfred Dreyfus, deportado para a Ilha do Diabo na América do Sul, que promoveram o restabelecimento do Estado de Israel.

Chanucá é chamada a Festa das Luzes porque nela é celebrada a iluminação do Templo de Jerusalém - manter uma chama acesa dentro do Templo era uma forma de consagração. Mas conta a história que os Macabeus encontraram óleo suficiente para manter uma chama acesa por apenas um ou dois dias. A chama foi acesa e durou 8 dias, o tempo suficiente para que mais óleo fosse produzido. Assim, em Chanucá celebra-se a luz. Não uma luz que cega e perturba, mas a luz de uma chama que aquece e permite que as formas reais mostrem suas sombras. Uma luz que guia. Lembrando fatos e celebrando o impossível, acendemos a Chanukiá, uma vela por noite. Contamos a história dos Macabeus em prosa, versos e canções. Ao longo dos séculos foram sendo criados costumes especiais - e um deles é rodar um pião em que, em cada um de seus quatro lados, está gravada uma letra que compõe a frase NESS GADOL HAIA SHAM (Grande Milagre Aconteceu Lá) (Nun נ; Guimel ג ; He ה ; Shinש ).  E se estivermos em Jerusalém?  A brincadeira é feita com um dado que substitui a palavra “Lá” por “Aqui”... e a letra Shin por Pei (פ).

E se passaram 127 anos entre os gregos e os romanos. Ao final desses 127 anos havia uma importante cisão entre os cidadãos da Judéia. A história contada por diferentes fontes traz informações díspares, confirmando que havia uma importante cisão. Os hasmoneus perderam o reino e a última batalha se deu nos anos de 73 e 74. Relatada pelo historiador da época, Flavius Joséfus, a última resistência localizou-se em Massada, um monte ao sul do Mar Morto cujo topo é uma plataforma e que abrigou as últimas famílias que tentaram reconquistar a Judéia.

Nos dias de hoje Chanucá é uma festa dos sonhos! Delícia de sonhos com chocolate ou creme! Estar em família e acender as velas é sempre muito especial. Comer o doce e abençoar a vida e o momento é delicioso. E olhar o futuro com a "História na Mão", como cantavam os versos de Geraldo Vandré, é necessário.

Desejamos a todos um Chag Sameach - com muitos sonhos e luzes - muitas luzes que não anulem o escuro e com muitos dias e noites pela frente.


Regina P. Markus