Por Juliana Rehfeld
Neste 5 de maio celebramos o Lag BaOmer, 18 do mês de Iyar. A palavra "Lag" é composta pelas letras hebraicas lamed (ל) e gimel (ג), que juntas possuem o valor numérico de 33. "Baomer" significa "do Omer", que é o período de contagem diária entre o segundo dia de Pêssach e e o feriado de Shavuot, ou seja, conecta a libertação física do Egito com a revelação espiritual da Torá no Monte Sinai. Contar é um mandamento, e uma preparação do espírito para, uma vez liberto, consolidar-se como povo e escolher tornar-se o povo da Torá.
Mas, ao longo da história esse período ganhou características de luto por causa de tragédias que, segundo a tradição, aconteceram nessa época, sendo a principal razão, vinda do Talmud: os 24 mil alunos de Rabbi Akiva teriam morrido numa epidemia “porque não demonstravam respeito uns pelos outros”
Ao longo dos séculos, especialmente em épocas de catástrofes judaicas, o Ômer foi sendo reinterpretado como o período de guerras, perseguições, massacres das Cruzadas, pogroms e até reflexões modernas após o Holocausto.
No entanto, Lag Ba Omer é uma pausa neste período de luto, que comemora a interrupção da morte dos discípulos de Rabbi Akiva, mas principalmente relembra Rabi Shimon bar Yochai. Ele viveu no segundo século da Era Comum, debruçou-se e ensinou principalmente sobre o versículo 19:18 do Levítico, da parashá Kedoshim - “… e amarás teu próximo como a ti mesmo” - que lemos há duas semanas… Ele foi o primeiro a ensinar publicamente a dimensão mística da Torá conhecida como a Cabala, e é o autor do texto clássico da Cabala, o Zohar. No dia de sua morte, Rabi Shimon instruiu seus discípulos a marcar a data como "o dia da minha alegria".
Esta alegria tem sido marcada tradicionalmente com fogueiras, passeios ao ar livre, muita música e dança, além de casamentos que são restritos no período do luto. As fogueiras representam a luz dos ensinamentos da Cabala e foram ficando tão grandiosas ao longo do tempo que chegaram a criar uma grande tragédia com um incêndio no monte Meron em 2021 . Desde então há restrições a essa celebração nesse local.
Há um contraste simbólico forte entre o luto do Ômer e a fogueira/luz de Lag BaOmer como se a tradição dissesse que mesmo dentro de uma época escura existem momentos de respiração, esperança e reconstrução. Em Israel hoje, muita gente associa isso à necessidade de reencontrar coesão nacional depois de trauma, guerra e polarização. Não necessariamente como “fim instantâneo” do conflito, mas como começo de recuperação.
O símbolo da luz em meio à escuridão é fortíssimo, podemos associá-lo ao próprio nascer de cada dia trazendo a perspectiva da continuidade da vida como na benção matinal se agradece a Deus que “Yotzer or u’vore choshech” - “Que forma a luz e cria a escuridão.” Nos dois momentos Deus está presente mas nem sempre o vemos… ao formar a luz Deus cria a escuridão, ou seja, um nos faz ver o outro, a percepção se dá em meio ao que estava escondido, o “insight”, a “caída da ficha” numa expressão antiga, do tempo do telefone público, se dá e nos dá a dimensão da escuridão que o envolvia.
A educação, o estudo, nos levam a um patamar a partir do qual entendemos que éramos ignorantes. E isso tudo nos permite e mais, nos impõe, a escolha: buscar continuamente a luz, ou organização, em meio ao desconhecido ou incompreensível.
E Lag BaOmer nos permite celebrar em meio ao luto, nos dá fôlego em meio ao desespero, nos permite reconhecer no mundo, e em nós, o que é bom e convive com o que é ruim, reconhecer que somos um só, em permanente movimento.
Shabat Shalom

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