Por Juliana Rehfeld
Novamente entramos naquela situação em que o tempo parece parar: a guerra em curso entre EUA e Israel de um lado e Irã do outro, que envolve 11 países entre direta, indiretamente e em nível político militar, muda de tom, tem altos e baixos em termos do preço do petróleo e das baixas propriamente ditas, e segue sem cessar; dormimos e acordamos com ela. A rigor, israelenses nem dormem …
O que pareceu ser uma guerra relâmpago, com vitória estrondosa como a operação de 12 dias do ano passado, acabou se complicando…
Mas o que se repete agora é a reverberação, na imprensa e nas redes sociais, que acusa Israel e EUA pela iniciativa e força, mas não critica o regime iraniano pelo que ele sempre foi: ditatorial e sanguinário. Não se ouvem, como não se ouviram nos últimos quase cinquenta anos, os brados pelo desrespeito dos aiatolás aos direitos humanos. O permanente discurso de dois pesos e duas medidas é exaustivo e deprimente…
Trazemos aqui várias falas de iranianos, libaneses e ativistas por direitos humanos que mostram o que está em jogo e provam a legalidade dos dos ataques contra o Irã, vídeos esses que nunca são mostrados ou cujos argumentos nunca atingem as telas da Globo, da Band, as ondas das rádios mais ouvidas…
Mas de fato o tempo não está parado. A ONU continua trabalhando para votar resoluções que aprofundam injustiças ao invés de moções que ajudem de fato a corrigi-las: ontem foi novamente marcado, em 25 de março, o Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravidão e do Tráfico Transatlântico de Escravos. Justo. Criado em sequência às Conferências em Durban, sobretudo a de 2001, na qual participaram 160 países e houve consenso para a Declaração e Programa de Ação que denunciou o racismo e a xenofobia, confirmou a escravidão como grande crime contra a humanidade e previu ações de educação e de reparação que se desenrolam até hoje. Justo.
Em 2001 Israel e EUA se retiraram de Durban antes da declaração denunciando o posicionamento de equiparação do sionismo ao racismo, várias declarações antissemitas e hostilidade contra o país judeu. As ações afirmativas contra a escravidão e contra o racismo ainda não resultaram em justiça para os afetados, até nossos dias ainda há muito que “consertar”… mas uma coisa não mudou, ou piorou: o antissemitismo e a particular obsessão em hostilizar Israel. Neste 25/3/26, conforme publicado pela Agência Brasil de notícias, a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou uma resolução, proposta por Gana, que “reconhece o tráfico transatlântico de africanos escravizados como o mais grave crime contra a humanidade já cometido”.
Desta vez 123 países foram a favor, sobretudo os africanos e os BRICS, 52 países se abstiveram, na maioria os europeus e Canadá, Japão e Austrália, e apenas 3 votaram contra: EUA, Argentina e Israel. Foi a primeira vez que o adjetivo “mais grave” foi agregado à expressão “crime contra a humanidade”. É sutil a diferença, não? Passou despercebida? NÃO. Os tempos mudaram!
A maioria das abstenções e o voto contra dos EUA refletiram discordâncias quanto à magnitude das medidas de reparação propostas mas o voto da Argentina e de Israel foi indignação pela proporção do julgamento. Comparar tragédias e crimes exige estômago e paciência, não deveria ser necessário fazê-lo, mas a dosimetria de penas no judiciário é obrigada a entrar em detalhes. Mas, como qualquer horror pode superar a sistemática máquina assassina nazista? Mesmo o horrendo 7 de outubro foi equiparado por alguns mas negado pela maioria!
Infelizmente, mas obrigatoriamente, mais uma votação isola Israel e “dá pano pra manga” para as próximas manifestações antissemitas, para longas hipócritas falas de jornalistas mal intencionados, ou apressados e superficiais…
Aconteceu e continua acontecendo. Desnecessário repetir que precisamos redobrar a “educação “ de quem “tropeça desavisadamente” nas notícias que aparecem na mídia e totalmente desconhece, por falta de acesso, as que não aparecem…
Parece, mas o tempo não para.
Shabat Shalom

Excelente reflexão! Atual, real e para compartilhar!!
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