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quinta-feira, 19 de março de 2026

Acontece: Os judeus brasileiros atuando

ACONTECE: Os judeus brasileiros acompanhando a Guerra no Oriente Médio

Regina P. Markus - 18/03/2026




1 – BATE-PAPO - VOZES DO AGORA





Este foi um encontro memorável. Ana Beatriz Pedrosa Alkimin, brasileira, judia e negra é uma importante “ativista” de direitos humanos. Coloco a palavra “ativista” entre aspas porque Ana desenvolve uma atividade baseada em dados, leis e regras das Nações Unidas e suas subsidiárias e de muitos países. Um dos temas que foca é discriminação e, segundo o meu entendimento, considera o antissemitismo como uma forma de discriminação. É pedagoga formada pela USP com muitos estudos no exterior. Sua fala focou na apresentação de dados. 

Mahsima Nadim é persa, iraniana. Morou em Teerã até 2023, quando imigrou para o Brasil. Sua imagem no palco chamava atenção pelo cuidado pessoal, elegância e tranquilidade. Com uma voz calma, relatou fatos de sua vida que levaram muitas das presentes às lágrimas. Viveu no Irã antes da chegada dos aiatolás, em 1979. Tinha uma família estruturada, com posses, frequentava escola, festas e gostava de ler e conversar. Tinha pouco ou nenhum contato com muçulmanos, e a maioria dos habitantes eram zoroastras. Uma religião da antiguidade que era professada no Império Persa. Uma religião que admitia a diversidade. Por isso, tantos grupos étnicos diferentes moravam na Pérsia com liberdade para manterem tradições e costumes. Mahsima discorreu sobre a passagem de um regime de liberdade para um regime de autoritarismo imposto por um grupo minoritário que obrigou a conversão dos habitantes do Irã. Em 1979 a chegada do grupo islâmico liderado pelo Aiatolá Khomeini impôs a adoção do islamismo xiita e mudou completamente o modo de vida da população. A morte e a tortura viraram rotina e as mulheres foram obrigadas a usar vestimentas que escondem sua identidade. Mahsima conta que sua família ainda mora em Teerã, e apresenta um irmão recém-chegado ao país. Vale buscar conhecer melhor esta linda e elegante mulher. Fiquei muito impressionada quando falou sobre a origem da palavra Irã. Eu imaginava que o nome Pérsia havia sido substituído por volta de 1979, mas Mahsima explicitamente conta que este foi o nome dado pelo último Xá (imperador).
Ao assumir o trono em 1925, o monarca era oficialmente conhecido como Xá da Pérsia. Dez anos após, 1935, Reza Shah Pahlavi determinou que a comunidade internacional passasse a usar o nome Irã. Pérsia é um nome grego que foi usado por séculos para designar o Grande Império do Oriente. Os habitantes locais já chamavam suas terras de Irã ou Irani. O nome deriva de Ariana e a tradução seria Terra dos Arianos. O termo Pérsia refere-se a uma etnia específica e o termo Irã a todas as etnias que habitam a vasta região. Foi interessante ver a reação da plateia. Alguns poucos, mas perceptíveis, momentos de silêncio e a seguir uma linda salva de palmas. Era como se todas estivessem aprendendo algo novo. 
A mulher teve um papel importante no Irã. Tadj ol-Molouk (esposa do primeiro Xá e mãe do último) foi uma figura revolucionária. Ela foi a primeira rainha na história do Irã a aparecer em público sem véu. Em 1936, compareceu a uma cerimônia de formatura com suas filhas, todas com os rostos descobertos. Isso causou choque na sociedade conservadora da época e representou um grande símbolo do "Novo Irã" que seu marido desejava construir. Ela não era apenas uma figura cerimonial. Tadj ol-Molouk era conhecida por sua forte personalidade e influência sobre seu marido, Reza Shah. Após a abdicação e o exílio dele em 1941, ela permaneceu uma figura central na corte, frequentemente aconselhando seu filho, Mohammad Reza Pahlavi, durante os primeiros e instáveis anos de seu reinado. Curiosamente, ela também pertencia à família Ayromlou (o mesmo clã de sua sogra). Essa família fazia parte dos "imigrantes do Cáucaso", que eram muito leais à coroa e ocupavam altos cargos no exército, o que ajudou a consolidar o poder da dinastia Pahlavi em seus primórdios. 

(O texto acima foi construído com auxílio de inteligência artificial para não incorrer em erros de interpretação e datas.)

Ela falou muito sobre os tempos atuais, o que é ver a morte de 40.000 pessoas em um só dia e não viver dia algum sem que pessoas sejam mortas. Como muitas mulheres, foi presa por problemas de vestimentas, e com a gentileza que caracterizou sua fala, expressou o estranhamento do apoio de uma parte importante de brasileiros a este regime ditatorial e violento. Foi memorável e o mais interessante foi unir cultura, educação e registro de dados confiáveis. As falas de Ana Beatriz e Mahsima foram muito diferentes, mas ambas deixam uma mensagem comum: a educação de um conglomerado humano é feita não apenas por métodos formais, mas também pela vivência e por dirigentes que respeitam a diversidade.

A fala de Carol Maluf foi em um tom alto, de revolta e de muita intensidade. Carol imigrou do Líbano no início da década de 1980, ainda criança. Também trouxe muitos fatos interessantes. Conta que não tinha vontade alguma de falar sobre o Oriente Médio nas escolas em que estudou. Os brasileiros consideravam todos os que vinham daquela região “turquinhos”. E ela cansou de contar que no Líbano a maioria da população era de cristãos maronitas seguida por cristãos grego-ortodoxos e melquitas. Curdos, armênios, assírios, caldeus e judeus. A população mulçumana era, em sua maioria, sunita. Os judeus habitavam o Líbano desde os tempos bíblicos. Chama atenção que na época dos mamelucos (1250-1557) os judeus eram considerados um povo protegido (dhimmis). Gozavam de liberdade cultural e religiosa e contribuíam de forma significativa com a economia do império. O desconhecimento sobre a história do Líbano era tão grande que professores em um colégio de primeira linha em São Paulo estranhavam que ela não falasse árabe. E a jovem se cansou de dar explicações e passou 30 anos sem falar sobre o Oriente Médio. Há três anos, após a invasão do Hezbollah no sul do Líbano, passou a dar palestras e se manifestar de forma proativa.

“Excesso de informação e informações erradas. Algumas são desinformações básicas – Israel invadiu o Líbano – mas Israel vem ajudar a guerra civil! A Guerra civil é interna – entre os civis libaneses.”

Há uma grande confusão por causa dos direitos dos cristãos. Havia um pacto entre os povos libaneses de que o presidente seria cristão maronita, o vice-presidente seria muçulmano, o primeiro-ministro sunita e o chefe da câmara xiita. A inversão da população desde a década de 80, quando se diz que era invasão de Israel, nada mais é que a invasão de Yasser Arafat, um estudante de esquerda que fomentava movimentos estudantis. Arafat é preso e expulso do Egito. Vai para a Jordânia, onde cria a Organização de Libertação da Palestina. É um movimento paramilitar terrorista. A Jordânia se recusa a permitir que fiquem em solo jordaniano e aloca a OLP nos territórios da Samaria e Judeia. Carol segue com uma força incrível comentando os tempos de hoje no Líbano e enfatizando que as relações entre o Líbano e Israel precisam ser avaliadas no contexto libanês e não no contexto da mídia internacional.
Mona Dorf finaliza a noitada, chamando a atenção para o fato de que este foi um momento especial, um momento de mulheres que pertencem ao mundo e que na calada do dia a dia transformam. E a plateia aplaudia e continuava sentada, respirando! O ar entra e sai, e é hora de voltar à realidade.

2 – RUN 4 THEIR LIVES




O movimento Run for Their Lives (R4TL) teve início pouco depois dos ataques de 7 de outubro de 2023 contra Israel. Foi fundado por um grupo de israelenses que viviam na região da Baía de São Francisco, na Califórnia. Foi criado como uma forma de canalizar a frustração e não esquecer os que foram feitos reféns em Gaza pelo Hamas. O movimento foi criado em parceria com o Fórum de Reféns e Famílias Desaparecidas. O que começou como um grupo de corrida local rapidamente se tornou uma iniciativa internacional de base, com mais de 200 grupos em todo o mundo. 
O movimento consiste em caminhadas ou corridas semanais — geralmente aos domingos — e é descrito como um esforço humanitário apolítico que envolve participantes judeus e não judeus. 

Em todo o mundo os participantes utilizavam o mesmo slogan: #BringThemHomeNow. 
O grupo de São Paulo é liderado pelas irmãs Betty Grobman e Cintia Grobman Amato. Ativistas entusiastas que lideram caminhadas por muitos parques de São Paulo. A primeira atividade foi em novembro de 2024 e quatro pessoas fizeram uma caminhada no Parque do Povo.

Eu passei a participar das atividades em 2024 e lá tive o prazer de encontrar Itanira e Johny. Caminhadas energizantes, que algumas vezes foram acompanhadas pelas redes sociais.

Neste mês de março foi realizada a última caminhada em todo o mundo. Foram mais de 200 cidades que agradeceram a volta de todos os reféns. Como dizem nossos livros e também nossos sábios e também nossa cultura – nunca deixamos o passado para trás, por mais doloroso que seja, porque a lembrança do passado é essencial para que a VIDA possa ser transmitida de geração em geração. Caminhamos no Jardim da Luz, iniciando no portão em frente à Estação da Luz. Local onde desembarcou a maioria dos judeus que chegavam no porto de Santos. Muitos dos que estavam caminhando contavam a história de seus antepassados que lá chegavam. Imaginem homens mulheres e algumas vezes famílias chegando num país completamente diferente e que precisavam de um repouso. Nossa comunidade, ao longo dos milênios, sempre procurou prover o necessário. E assim surgiu um abrigo na Rua da Graça, 160, onde poderiam descansar por uma ou algumas noites. Conta a inteligência artificial do Google que “A Sinagoga da Rua da Graça, oficialmente conhecida como Sinagoga Kehilat Israel, é a sinagoga mais antiga do estado de São Paulo, fundada em 1912 por imigrantes judeus vindos da Bessarábia. Ela hoje abriga o Memorial da Imigração Judaica e do Holocausto."

Caminhamos até o Memorial e lá cantamos, escutamos e brindamos o sucesso da volta de todos que foram sequestrados e feitos reféns. Vivos e mortos. Lembramos dos que se recuperaram e superaram e daqueles que ainda estão no processo. Lembramos dos grandes avanços feitos em tecnologias que permitiram recuperação física e mental. E do carinho que envolve os que se juntam. Entregamos ao Memorial toda a memorabília usada nas caminhadas que integrarão o acervo do memorial  na área dedicada ao 07/10, como plaquinhas, faixas, cartazes, bandeiras, pulseiras e as fotos dos 2 anos de todas as caminhadas. Brindamos e rezamos. Os risos de alguns se misturavam com as lágrimas de outros. Eu tinha a sensação de que a emoção era a mesma, era genuína e intensa e as demonstrações evidenciavam as diferenças individuais. E aquele grupo de união, de dignidade, era composto de judeus de diferentes origens e notações e também não judeus. Tinha até duas senhoras que caminharam e ficaram muito tocadas ao ver imagens do Holocausto! Caminhar pela Dignidade – e pela possibilidade de criar um ambiente diverso para aproximar os diferentes. 


Betty e Cintia estão puxando o cordão para a próxima etapa!!! Vamos nessa!




"Os Filhos de Breves", lá no Marajó, registram este dia 18 de Março, Dia Nacional da Imigração Judaica, tocando Hatikva, o Hino de Israel.

Video cedido pela Professora Iria Chocron, moradora do Marajó e pesquisadora da presença judaica no Norte do Brasil, desde o início do século 18.

Regina Pekelmann Markus - 18/03/2026





4 comentários:

  1. Um superaconteceu Regina! Quanta força mostrando injustiças no mundo e como isto se compartilha nos diversos paises… a injustiça w a luta contra ela…

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    1. Obrigada Marcela - esta semana foi um trabalho conjunto. O foco foi mostrar a história vista por pessoas que moram no Brasil.

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  2. Ita Hei- Com o dom da palavra, conhecimento dos fatos e respeito pela verdade, Regina nos leva através da história, sempre nos ensinando e nos situando na atualidade em que vivemos.
    Excelente texto, parabéns.

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  3. Oi Ita, apreciei o comentário. Quero entender como pessoas que moram no Brasil veem a situação. Cada individuo é importante

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