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terça-feira, 27 de janeiro de 2026

VOCÊ SABIA? - Uma gota, uma criança salva da assustadora poliomielite no século XX.

 

Por Itanira Heineberg





Você Sabia que Albert Sabin (1906–1993) foi um médico e pesquisador judeu que desenvolveu a vacina oral contra a poliomielite (paralisia infantil) na década de 1950, lançada nos anos 1960? E que, diferente da vacina injetável de Salk, a VOP (Vacina Oral Poliomielite), conhecida como "gotinha", é feita com vírus atenuado, facilitando a imunização em massa e erradicando a doença em quase todo o mundo?

No Brasil a versão oral contribuiu para a extinção total da doença.


Albert Sabin, médico judeu que erradicou a poliomielite com uma gota.


Sabin nasceu em uma família de judeus em 1906, na cidade de Białystok, então parte da Rússia (atualmente Polônia), e emigrou em 1921 para os Estados Unidos com sua família. Sabin estudou medicina na Universidade de Nova Iorque e desenvolveu um intenso interesse em pesquisa, especialmente na área de doenças infecciosas. Em 1931, completou o doutorado em medicina. Passou uma temporada trabalhando em Londres em 1934, como representante do Conselho Americano de Pesquisas. De volta aos Estados Unidos, tornou-se pesquisador do Instituto Rockfeller de Pesquisas Médicas. Nesse instituto, demonstrou o crescimento do vírus da poliomielite em tecidos humanos.

De posse de tantos conhecimentos e pesquisas e do trabalho de Jonas Salk em busca da cura para a poliomielite, Sabin dedicou-se com entusiasmo ao estudo da doença que assustava o século. E assim ele chegou a uma nova vacina, uma vacina oral, usando vírus enfraquecidos - o que permitiu criar imunidade intestinal e impedir a circulação do vírus. Como seu colega, Sabin procurou salvar vidas e melhorar os resultados na área de saúde nas comunidades do mundo.

A vacina oral de Sabin foi fundamental para reduzir drasticamente os casos de poliomielite, que em 1988 ainda somavam cerca de 350.000 casos anuais no mundo.

No Brasil, centenas de escolas, hospitais, clínicas e instituições brasileiras levam o seu nome. O cientista recebeu do governo brasileiro, em 1967, a Grã-Cruz do Mérito Nacional.

Abaixo temos o médico Albert Sabin em palestra no Instituto Fernandes Figueira – IFF/Fiocruz, durante visita ao Brasil no dia 28 de junho de 1961 — Foto: Arquivo Nacional



A ligação de Sabin com o Brasil vinha de duas décadas antes e havia sido coroada por um casamento. Desde que desenvolveu, em 1960, sua famosa vacina para combater a paralisia infantil, aplicada oralmente e por isso chamada popularmente de "gotinha", o cientista esteve no Brasil por diversas vezes ministrando palestras, oferecendo consultorias e contribuindo para os esforços de erradicação da doença. Em 1971, em uma festa em sua homenagem realizada no Rio, conheceu a brasileira Heloisa Dunshee de Abranches (1917-2016). Um ano depois, estavam casados.

Sabin faleceu em 1993, mas seu legado persiste como um dos pilares da saúde pública moderna e da erradicação de doenças.


Unidade Hospitalar Albert Sabin em Atibaia


Mais uma vez o Judaísmo se fez presente em sua constante preservação e apreço pela vida humana. Tanto Salk como Sabin, cientistas dedicados e desprendidos, abriram mão de lucros para que a vacina descoberta e eficaz, não patenteada, fosse produzida de forma econômica e distribuída de graça, mundialmente.

Assim como aconteceu no Brasil, tanto a vacina inativada de Jonas Salk como a atenuada de Albert Sabin contribuíram e seguem contribuindo para a erradicação do vírus causador da paralisia infantil em todo o mundo. Graças à vacinação, os casos de pólio reduziram 99% em todo o globo, caindo de 350 mil em 1988 para apenas 29 notificações em 2018.

Atualmente a doença permanece endêmica apenas no Afeganistão e no Paquistão. 



Em novembro de 2024, o Ministério da Saúde do Brasil oficializou a substituição da vacina oral poliomielite (VOP), conhecida popularmente como a "gotinha, pela Vacina Inativada Poliomielite (VIP), que é exclusivamente injetável.

Essa mudança marca o fim do uso da gotinha no Programa Nacional de Imunizações (PNI) para reforços e visa tornar a vacinação ainda mais segura e alinhada com as recomendações internacionais.

Aqui estão os detalhes principais da mudança:

O que mudou no esquema vacinal (2024)

Fim da Gotinha: A vacina VOP (atenuada) não é mais utilizada.

Apenas Injeção (VIP): A vacina utilizada agora é a VIP (inativada), composta por vírus mortos, sendo mais segura.

Novo Esquema: A vacinação contra a paralisia infantil é realizada apenas com a vacina injetável aos 2, 4 e 6 meses de vida, com um reforço injetável aos 15 meses.

Reforço de 4 anos: A dose de reforço que era aplicada aos 4 anos de idade com a gotinha foi retirada do calendário, pois o esquema de 3 doses + 1 reforço aos 15 meses é suficiente.

 

FONTES:

https://butantan.gov.br/butantan-educa/salk-x-sabin-conheca-a-corrida-cientifica-por-tras-das-duas-vacinas-que-derrotaram-a-paralisia-infantil

https://www.scielo.br/j/hcsm/a/9tFSfwSZjFX6NpSvxq9NZws/?format=html&lang=pt

https://bvsms.saude.gov.br/26-8-dia-do-nascimento-de-albert-sabin/

https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC8888238/

https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2020/07/10/como-sabin-foi-colaborar-na-erradicacao-da-polio-no-brasil-e-acabou-saindo-pela-porta-dos-fundos.ghtml

https://butantan.gov.br/butantan-educa/salk-x-sabin-conheca-a-corrida-cientifica-por-tras-das-duas-vacinas-que-derrotaram-a-paralisia-infantil


quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Iachad (juntos - יחד) - por André Naves: Andínia

 



Andínia, 1815

Soprava aquele vento gelado dos Andes. Dentro do Salão dos Espelhos do Palácio Imperial, o mundo era outro. Centenas de velas em candelabros de cristal, pelo teto e móveis. Comendador olhou para aquilo e pensou no perigo ardente...

As chamas, lágrimas de luz caótica e dançante, multiplicavam-se nas paredes espelhadas, criando um universo novo, ideal, belo e sem fronteiras. O sussurro de sedas e brocados, toaletes e fardões, os brindes, taças, sorrisos e a orquestra: valsa animada, meio samba, meio salsa, majestosa, um convite à ordem e à harmonia.

“Gente que festeja, não irrita...”, pensou com seus botões o Comendador...

Dava pra ver, através das cortinas entreabertas, a neve da cordilheira... Os Andes, os gigantes que nos protegem, as sentinelas sob um céu de Esperança.

Este seria o grande baile anual, o primeiro de uma Era de Ouro do Povo, que após tanta peregrinação estava firme no propósito de construir Andínia, aquela nação jovem, forjada no fogo do Propósito, da Disciplina e da Perseverança!

Afastados dos comensais dançantes, uma rodinha de celebridades conversava perto de um dos imensos afrescos que retratavam os passos daquela caminhada diaspórica milenar. Resolveu, o Comendador, se aproximar...  Era uma conversa filosófica entre o Conselheiro, a Cientista Markus e a Filósofa...

Debatiam toda aquela saga vitoriosa... Como um Povo conseguiria sair de um cativeiro, peregrinar pelo deserto, ser perseguido, exilado, mas terminar ali, naquele baile? Será que depois de tudo, a neve andina seria o descanso final, um local de Prosperidade e Paz?

O Comendador, homem tímido e ponderado, nem sabia o que, ou como, ou se, dizer... O Conselheiro parecia calcular o peso de cada palavra, sua mente focada nas estruturas mundanas que sustentavam — ou falhavam em sustentar — a nação. A Cientista, cujos olhos azuis se escondiam atrás das lentes escuras, representava o questionamento constante, a busca incansável pela verdade, fosse ela encontrada num microscópio ou num silogismo. E a Filósofa, então? Ela se impressionava com a diversidade do Povo que, unido e sem deixar ninguém para trás, conquistou tanto!

A Cientista, com seu olhar admirado com tudo ao redor, disse: "É fascinante!" "Todo este luxo, essa harmonia e beleza... É inevitável! Brotam-me questionamentos. Qual a verdadeira função disso tudo? É uma celebração da unidade ou uma anestesia coletiva para que esqueçamos o caos mundano?"

O Conselheiro ajeitou o monóculo, um gesto habitual. "Ambos! A liderança de uma nação nova precisa de símbolos. Este baile é a materialização da estabilidade que a gente sempre procurou. Cada passo da dança, cada norma, é um pequeno mandamento que reforça a ideia de uma sociedade coesa, unida. Somos um! No fim, é uma manifestação estética da Justiça e do Louvor: cada um em seu lugar, movendo-se em Harmonia."

O Comendador, que só observava, também deu seu pitaco. "Lá na minha terra, os antigos diziam: 'A festa pode ser vistosa, mas o que sustenta a casa não são os adornos, são os alicerces'. E os alicerces de uma nação, assim como os de um homem, não são visíveis..."

Na janela, ele apontou pra noite lá fora. "A beleza da noite não engrandece a existência da montanha. A montanha simplesmente é. Imponente. Sólida. Perene. Ela nos lembra da necessária Humildade diante do que é maior que nós. Assim também são os verdadeiros Mandamentos. Não os da etiqueta ou do baile, mas aqueles que D'us inscreveu na música do coração."

A Assistente antecipou o nem nascido Saint-Exupery: “O essencial é invisível...”. E continuou... "Uma bela metáfora, Comendador. Mas como essa 'música' se traduz em políticas públicas? Em tribunais justos? A justiça precisa de leis, de códigos, de estruturas. A integridade de uma nação depende de instituições íntegras, não de sentimentos."

"É aqui em que a ciência encontra a filosofia", interveio a Cientista. "Como podemos ter certeza de que todos ouvem a mesma música? A minha busca é por princípios universais, pelos Mandamentos! Quero uma moral que possa ser demonstrada, não apenas sentida. O que garante que a 'música' de um não seja o ruído de outro?"

“Assim como um rio ganha ao receber seus afluentes, o fogo das ideias ilumina mais quando se escuta.”

As pessoas dançando eram como a vida: alguns se moviam bem, com graça e precisão; outros, mais desajeitados; alguns dançavam para serem vistos, outros, para sentir a música; e havia aqueles que dançavam por puro amor à dança, ao encontro com o outro. Tinha aqueles ainda que não dançavam... Sorriam, comiam, bebiam e observavam!

"Estruturas... Princípios Universais... Todos vitais. São o mapa e a bússola. De que serve o melhor mapa se o viajante não sabe para onde vai? De que serve a bússola mais precisa se o coração do navegador aponta para o sul, mas seus atos o levam para o norte? Palavra não enche barriga, e promessa não assenta tijolo."

"São os nossos atos que dão forma e trazem luz ao nosso destino. Nossos atos, e não nossas palavras, mostram quais os valores que realmente importam. O homem que prega a paz, mas não estende a mão; a nação que escreve 'liberdade' em sua constituição, mas acorrenta seus cidadãos com a miséria... Ações gritam mais alto que discursos. É o ato, o gesto concreto, a escolha, que revela o verdadeiro caráter."

“Os Mandamentos Divinos não são um teto! São o chão sobre o qual nos erguemos. Eles não dão frutos sozinhos... É igualzinho à partitura de uma sinfonia! Numa gaveta, não é nada... É preciso de um músico a toque!”

“Verdade! São os atos, atos de pura intenção, que concretizam os mandamentos e trazem as Virtudes. A Justiça não é uma lei no papel; é o ato humano em busca da Autonomia. A Humildade não é uma palavra ao vento; é dar importância ao outro... A Integridade não se ganha com títulos; é uma decisão diária de se buscar ser um só, inteiriço."

De repente, o silêncio...

“Quem fala demais, dá bom dia a cavalo.”.

Entre tanta dança, a conversa deles também era um ballet. Uma dança de ideias, onde almas diferentes, com seus próprios ritmos e melodias, buscavam uma harmonia comum.

"No fim...", escutou-se, "o Iachad, essa unidade que buscamos, não é sobre todos marcharem no mesmo passo."

"Não...".

"É sobre todos ouvirem, cada um à sua maneira... É a música da dignidade, do respeito, da busca por algo maior. É a vibração que nos conecta, mesmo na diferença. É o reconhecimento de que, neste grande baile da existência, estamos todos, de alguma forma, de mãos dadas, mesmo que não nos toquemos."

Na noite andina, em que as estrelas são as guardiãs do mundo, escutou-se... "O baile um dia acaba. As velas se apagam. As fundações permanecem!”

“A Luz que realmente importa não é a das promessas, mas a dos nossos atos."

A orquestra voltou... Mais música no salão!

Um só Povo!

Iachad!



André Naves
Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Sociais, Inclusão Social e em Economia Política.
www.andrenaves.com
Instagram: @andrenaves.def

 

 


ACONTECE: Viajando em Eretz Israel

 
Ein Keren, Jerusalem 


Por Regina P Markus - 22 de janeiro de 2026

Israel, um país eterno

Estar em Israel no Natal de 2025 e nos primeiros 20 dias de 2026 foi uma experiência ímpar, mesmo para quem já visitou o país muitas vezes. Na viagem de ida aproveitei para reler a “Vida de Flavius Josefus”. Um relato autobiográfico escrito entre 94-99 EC (Era Comum) em resposta a duras críticas feitas ao livro “Antiguidades” (93-94 EC) e à pessoa de Flavius Josefus.  FJ era um judeu da Tribo dos Levi, nascido em Jerusalém. Foi comandante das forças de Israel na Galileia e rendeu-se a Vespasiano (então comandante do Exército Romano do Oriente) em 67 EC. Quando Vespasiano tornou-se imperador, concedeu a liberdade ao Comandante em Chefe do Exército de Israel no Norte, e este adotou o nome de Flavius, nome de família de Vespasiano. Tornou-se romano, mas, ao escutar como a história dos judeus estava sendo relatada, escreveu sua versão. Foi uma boa introdução para o que encontrei nesta virada de ano, no século XXI. 

Hoje, ainda há tempo e desejo de muitos para transformar resiliência em tolerância. Esta seria a fórmula mágica para evitar copiar os tempos de Flavius. Muito escutei falar sobre os quatro filhos citados na Hagadá de Pessach. O sábio (Rarram) que faz perguntas objetivas, o malvado (Rashá) que não adere aos princípios e contesta com veemência, o ingênuo (Tam) que faz perguntas básicas, deixando claro que não tem conhecimento e que não sabe perguntar (no hebraico a frase é traduzida literalmente). A este o caminho deve ser mostrado de forma a permitir a inclusão. Tempos de tolerância implicam em conseguir balancear as personalidades e trazer para o centro de decisão pessoas que atuem em busca da tolerância e convivência. Esta será a forma para que o terceiro Estado de Israel independente suplante este longo período de guerra.

Estar em Israel convivendo com família e amigos, morando alguns dias em Lares Estruturados para idosos e andando a pé, conversando com pessoas na rua e sofrendo as pressões e incertezas do dia-a-dia permitiram concluir que a tolerância está mais próxima do que imaginamos. No comércio e nos restaurantes há espaço para todos e mais do que em outras oportunidades. Sentei sem nenhuma restrição em restaurantes de diferentes origens. Os mais diferentes sabores e temperos podem ser encontrados lado a lado. E voltei a ficar encantada por encontrar doces sem açúcar em alguns restaurantes árabes. O mundo ocidental, que muito respeita a rotulagem, tornou a vida dos que não comem açúcar adicionado muito difícil. Sabores diferentes temperam a vida!
A guerra atual deixou muitas marcas, e a resiliência é uma delas. Vou aqui transformar esta palavra “filosófica” em algo muito tangível. Muitas pessoas trabalhavam o tempo todo com luvas pretas. E sobre estas colocavam luvas transparentes. À primeira vista pode parecer algo ligado à higiene, mas na realidade são pessoas que sofreram amputações e se adaptaram aos membros artificiais. Estas cenas também se repetem no convívio familiar e com amigos. Minha impressão é que esta guerra, que está sendo muito longa e que tem como objetivo o isolamento e a difamação, deixará como resultado uma sociedade que sabe superar as dificuldades. Muitos outros sinais que não deixavam esquecer o quanto os israelenses pagaram por estar sob ataque diário em todas as frentes. E o dia-a-dia continuava normalmente. Visitar locais históricos milenares e caminhar por rotas que fazem parte de nossa história foi um dos grandes prazeres desta viagem. Pouco turismo e o país em reconstrução. Os danos impingidos pelos inimigos não foram poucos nem aleatórios. E esta ideia eu não tinha tido na minha última visita em maio de 2025. 

Nem precisei de muito para entender o porquê. Aquela viagem foi no período que muitos israelenses chamam de guerra dos 12 dias. Os 12 dias em que o Irã atacou Israel de forma precisa promovendo grandes destruições em locais de importância. Sim, isto foi em 2025! Foi quando Israel foi acusado e acusado e acusado... e o que mais me impressionou foi ver como a economia israelense reagiu. 

🚀 Israel Tech 2025: um ano histórico de saídas, investimentos e inovação. O ecossistema de tecnologia israelense encerrou 2025 com números que reforçam seu papel como um dos mais dinâmicos e resilientes do mundo — mesmo em um cenário global desafiador. 

🔹 Saída de empresas (Exits)
Saídas de empresas de tecnologia israelenses somaram US$ 17,7 bilhões, em 182 transações, superando 2024.

Destaque para 4 mega-aquisições acima de US$ 2 bilhões cada: Next, Melio, Sapiens e Verint.






Hoje muitos dizem: superamos e vencemos. 

IMPRESSÕES DA VIAGEM


Estar no dia 24 de dezembro em Jerusalém permitiu sentir o respeito por todas as religiões. Na Cidade Velha, dentro das muralhas, há locais em que foram erguidas igrejas cristãs ao longo dos séculos. É construído um presépio e árvores de Natal para comemorar a data. Andamos por este bairro e seguimos para o Muro Ocidental, cruzando civilizações e muitos séculos. Terminar o dia na Biblioteca Nacional, onde pudemos acompanhar as muitas facetas judaicas.
Foi um grande privilégio ver os originais de Flavius Josefus. 
Sentar e ler os procedimentos médicos de Rambam foi divino. Rambam (Rabi Moshe ben Maimon, Maimonides) nasceu em 30 de março de 1138 em Córdoba, Andaluzia, Reino Almorávida. A chegada dos cristãos obrigou judeus e mouros a fugirem para a África. Maimônides, filósofo e médico, estabeleceu-se no Egito. Foi um dos primeiros personagens da história a integrar a medicina e o judaísmo, difundindo a tese de que a saúde física é essencial para a vida religiosa. Escreveu o código da lei judaica “Mishne Torá”. Sentei-me mais de uma hora neste espaço tão rico que une duas de minhas paixões e saí com a confirmação de que no judaísmo a VIDA é o nosso bem mais precioso e que qualquer lei ou regra pode ser transgredida se for para salvar uma vida. Esta é uma biblioteca lúdica para crianças, visual para os amantes das artes e as visitas guiadas nos levam aos muitos mundos judaicos. Somando a isso, há uma arquitetura que permite ver Jerusalém de muitos ângulos. 

Visitei muitos outros lugares pela primeira vez, em Jerusalém e em Israel. No futuro vou escrever um texto sobre o Museu Ralli em Cesareia. O filantropo Harry Recanati (1918-2011) e sua esposa Martine Weil Recanati fundaram uma rede de museus. Em todos estes museus a entrada é gratuita. O objetivo é que a condição econômica não seja um empecilho para usufruir de momentos de arte e cultura, contemplando arte moderna latino-americana, surrealismo e arte europeia dos séculos XVI a XVII. São cinco museus ao redor do mundo: Punta del Este (Uruguai, 1982), Santiago (Chile, 1992), Cesareia (dois museus, 1993, 2007) e Marbella (Espanha, 2000). A arquitetura dos museus é semelhante, privilegiando a entrada de luz ambiental. Os dois Rallis de Israel ficam na mesma plataforma de 40.000 m² olhando para o Mar Mediterrâneo. Recanati era o dono do Discount Bank, Israel, e sua esposa era médica, atendia a população menos favorecida. Quando estavam mais idosos, criaram uma Fundação que se tornou a curadora dos museus. O montante de recursos da Fundação e os Estatutos permitem que este seja o legado de um casal que dedicou grande parte de sua fortuna pessoal para "alimentar" pessoas com cultura e arte. 

OLHEM ALGUMAS IMAGENS - Museus em Cesareia, Israel

 








Conviver com pessoas que imigraram da Ucrânia há mais de 20 anos e que agora trazem seus familiares foi uma outra experiência marcante. Como trazer familiares que lá ficaram? Qual a diferença entre trazer homens e mulheres? As casas que visitei estavam todas enfeitadas com árvores de Natal. Muito lindas, com toda a artesania russa. As pinturas e os presépios eram maravilhosos. Rostos com muita expressão e roupas costuradas com os detalhes das vestimentas russas. Apesar de já ter lido muito sobre o tema, estar com pessoas que acendem as velas de Shabat ao lado de árvores de Natal soou estranho. E lá veio a explicação. Por tantos anos a religião foi proibida na União Soviética, nas províncias que tinham um forte componente cristão eles passaram a usar estratégias que eram usadas pelos judeus locais para driblar as proibições. Assim, enfeitar árvores e ruas ganhou uma conotação cívica. Além disso, durante a imigração ucraniana vieram para Israel muitos que não tinham ascendência judaica. Pois é, os judeus e não judeus vindos de território ucraniano cujo idioma original era russo mantêm uma identidade que premia a diversidade.


Há muito a contar e muito a debater. Por hoje vou ficando por aqui, com uma sensação de ter feito um depoimento sobre fatos vividos e sobre impressões baseadas em conhecimento milenar.

Regina



quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Iachad (juntos - יחד) - por André Naves: Meu Faraó e Eu

 


         Dia quente aqui. Um calor abafado, um Sol ardido... Sábado de manhã. 08:00. Difícil caminhar... Vou descendo a Caraíbas... Parece até um deserto. Eu ia usar de um clichê super comum e falar em “deserto escaldante”, mas gato escaldado tem medo de água fria...

         Meu objetivo é claro e conhecido: quero dar uma olhadela no Palmeiras. A Ana Rosa sempre comigo, me dando as mãos para todo trupicão que dou... Sol forte... Atrapalha a vista... Atrapalha as ideias... De repente, trupico em mim mesmo...

         Deserto... Eu, eu mesmo e mim... Agora, há apenas um deserto... O deserto... O azul esbranquiçado do céu me lembra um mergulho... O mergulho... Lá estava ele sentado. Trono. Faraó.

***

- Achei que o deserto era lá fora. Acontece que ele é aqui dentro. E você... sempre no trono.

- André, minha criança... Você sempre me chama e depois vem o espanto. Sabia que foi você quem me semeou, grão por grão, areia por areia. A cada pequena fuga da sua responsabilidade! Eu sou apenas o Imperador deste reino que você construiu. Ninguém mais! Sou o Imperador Sol.

- Será que fui eu ou os outros? E você?  Imperador... ou tirano? Sua voz é o grilhão que me aprisiona. A masmorra que me impede de... ser.

- Ser? E você não é? Suas ideias são como passarinhos que voam ao menor custo, ao menor sopro de vento. Lembra da juventude? Caótica e impulsiva, feito a pororoca...  Seus fogos poderiam ter incendiado o ninho. Mas, não fui eu quem construiu a gaiola dourada para proteger você de si mesmo. Você não me convidou? Você não me pôs no trono, desesperado por uma ordem, por um rumo? Eu não tomei este poder. Fui só a voz que disse "não", quando seu coração gritava "sim" para anarquia.

- Tá certo que eu... eu precisava de uma lei. Mas, repetindo Brecht, todo mundo chama o rio de violento, mas ninguém fala nada das margens que o oprimem...

- Poesia? Você vive no mundo da Lua! Eu sou a Lei. A luz que dá a vida!

- Mas também a que cega e queima...

- A sua vida, a estrutura, o respeito... acha que nasceram do caos, da algazarra? Não. Nasceram da ordem que impus. Olhe ao redor. Olhe para sua vida, para o que você construiu. Veja as bênçãos, não apenas as correntes. Eu afirmo, repetindo a tradição eterna: Quão lindas são suas tendas, Jacó! Quão belas são suas habitações, Israel! Você não enxerga a beleza da cidadela que ergueu por medo de admitir que precisou de um arquiteto!

- Mas a que preço? Versões e fatos. A lenda diz que sou um homem de sucesso. O fato é que sou um cativo em meu próprio palácio.

- Não existem fatos, apenas histórias. E você se apegou à história do prisioneiro porque ela é mais confortável. Ela livra você da responsabilidade suprema. A Liberdade, meu filho, não é a ausência de muros. É a coragem de assumir a autoria de cada tijolo. Você quer a Liberdade? Então aceite a Responsabilidade pela sua vida. Pare de lutar contra mim. Eu não sou seu inimigo. Sou sua fundação.

- Então... você nunca irá embora?

- Ir embora? Hahahaha! Eu sou a forma da sua alma. Sou os limites, bons e ruins. Sabe o grilo falante? Lembra do ratinho do Dumbo? Sou a prudência que te salvou e o medo que te paralisa. Sou a memória do seu pai, a sabedoria do seu avô, a disciplina de sua mãe... Você não pode me silenciar. Você aprende a dançar comigo.

- EU NÃO SEI DANÇAR!

- Até agora... Ninguém sabe nadar até a água bater na bunda... Só um passo de cada vez. Você precisou de mim para sobreviver à sua juventude. Agora, talvez precise de uma longa peregrinação neste deserto para entender minhas palavras. Para ver a beleza que pode nascer da aridez. Para encontrar a rosa nascida do lixo. Para olhar para trás, não com raiva, mas com gratidão.

- Obrigado... por me manter vivo. Por ter sido a sombra quando o meu Sol era forte demais.

- Agora você começou a entender, cabeçudo! Abençoe o passado para poder enxergar o futuro. O deserto ainda é longo, mas você não tá mais perdido nele. Você tá apenas... caminhando. E lembre-se sempre: é trupicando que a gente aprende a caminhar!

***

         No fim, o Faraó parecia muito comigo. Pudera... Ele era eu!

         Que voz importante a dele... Lógico que só faz sentido quando temperada pela conveniência do real, do concreto.

Era mais uma lição: quando ouvir e quando me pedir licença para seguir.

***

De repente, a luz do Faraó diminui, o trono se desfaz... O deserto recua.

O som de uma freada me traz de volta. A verdade é que nunca fui a lugar nenhum. Estou na esquina da Caraíbas com a Bartira. O sol ainda arde. Agora, não tenho mais um tirano, mas um companheiro de vida.

Ana Rosa segura minha mão com mais firmeza, como se soubesse que algo em mim acabou de mudar. Sempre muda... Continuo a descer a rua, um passo de cada vez.


André Naves
Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Sociais, Inclusão Social e em Economia Política.
www.andrenaves.com
Instagram: @andrenaves.def

 

 


VOCÊ SABIA? - A doença que paralisou a América

 

1952 - O ano em que os pais americanos desaprenderam a respirar

Por Itanira Heineberg


 

Você Sabia que em seu auge, no ano de 1952, a poliomielite matou mais de 3.100 americanos?

E que três anos depois, a doença mais temida do seu século foi derrotada com a vacina desenvolvida por Jonas Salk, um cientista judeu?


Primeiro caso é detectado nos anos 50

 

Naquele ano, cerca de 57 mil crianças americanas contraíram poliomielite.

Os parques silenciaram, as piscinas esvaziaram, os cinemas apagaram suas luzes por falta de público, as escolas despovoadas...


 

Dentro de casa, janelas fechadas, mães e pais tentavam erguer muralhas invisíveis contra um inimigo que chegava sem avisar — e que podia transformar um corpo infantil em um campo de batalha contra si mesmo.

 

 

Nos hospitais, fileiras de pulmões de aço compunham uma música mecânica e assombrosa.

Cilindros metálicos respiravam por crianças que já não conseguiam fazê-lo por conta própria.

Algumas sairiam dali.

Outras jamais deixariam aquela cápsula.


 

E enquanto o país inteiro prendia o fôlego, em um laboratório subterrâneo em Pittsburgh, Jonas Salk, um cientista generoso e despreendido, corria contra o tempo — e contra a morte.


 

Filho de imigrantes judeus russos, criado em um bairro modesto do Bronx, Salk cresceu ouvindo da mãe uma frase que moldaria sua vida:

“Você deve parecer que pertence, mesmo quando disserem que não.”

Ele foi o primeiro da família a entrar na universidade. Escolheu a ciência em vez da clínica.

“Por quê?”, perguntou a mãe.

“Porque não quero ajudar um paciente de cada vez”, respondeu. “Quero ajudar milhões.”

 

Em 1952, Salk ousou propor o impossível: uma vacina feita com o vírus morto.

Colegas desconfiavam. Alguns o chamavam de imprudente.

Mas Salk havia percebido um detalhe decisivo: as crianças que sobreviveram à pólio jamais adoeciam de novo. O corpo se lembrava do inimigo.

Se pudesse ensinar essa memória ao sistema imunológico — sem o risco da doença — talvez pudesse mudar o mundo.

Mas a teoria precisava de coragem. E coragem, às vezes, veste o rosto da loucura.

Em 2 de julho de 1953, Salk tomou uma decisão que hoje seria impensável: injetou a si mesmo com sua vacina experimental.

Depois, à esposa, Donna.

Depois, aos filhos — Peter, de 9 anos; Darrell, de 6; Jonathan, de 3.

Colegas murmuravam pelos corredores:

“Louco.”

“Gênio.”

“Ou os dois.”

 

Por semanas, ele observou seus filhos com o coração apertado.

Nenhuma febre. Nenhum sinal.

Apenas anticorpos.

Funcionara.

Mas três crianças eram uma gota num oceano.

Era preciso testar milhares.

 

E assim, em 26 de abril de 1954, na Escola Franklin Sherman, Virgínia, o pequeno Randy Kerr, 6 anos, arregaçou a manga e se tornou o primeiro voluntário do maior estudo médico da história.

 

A criança abaixo, aluno de uma Escola da Virgínia, não é Randy Kerr.


Depois dele, vieram 1,8 milhão de crianças — os “Polio Pioneers”, orgulhosos de seus distintivos.



Os pais assinavam formulários com mãos trêmulas. Igrejas faziam vigílias.

Um país inteiro esperava.

Salk, exausto, emagrecido, dormindo pouco, vivia atormentado:

E se tivesse cometido um erro irreparável?

Cada febre em qualquer criança do estudo parecia um golpe na sua consciência.

Então, 12 de abril de 1955 — exatamente dez anos após a morte de Franklin D. Roosevelt, o presidente americano que contraíra a doença aos 39 anos de vida  — os resultados foram anunciados:

“Seguro. Eficaz. Potente.”

O auditório explodiu.

Sinos tocaram em várias cidades.

Lojas fecharam espontaneamente.

Pais choraram abraçados aos filhos.

 

Horas depois, perguntaram a Salk quem detinha a patente.

Ele respondeu:

“O povo, eu diria. Sem patente. Como se pode patentear o sol?”

E com essa frase, ele abriu mão de uma fortuna incalculável — e entregou ao mundo sua arma contra o terror.

O efeito foi imediato:

– Em 1961, os casos caíram mais de 90%.

– Em 1979, a poliomielite foi eliminada nos EUA.

– Em 2023, persistia apenas em dois países.

– Cerca de 18 milhões de pessoas que teriam ficado paralisadas podem caminhar hoje.

– Centenas de milhares de vidas foram salvas.

Salk nunca recebeu o Prêmio Nobel.

Mas recebeu algo que poucos ganham: a visão de crianças correndo por parques onde antes só havia medo.

 

Quando perguntado o que queria escrito em sua lápide, respondeu:

 

“Preferia que ela ficasse em um parque. Onde brincam as crianças que não pegaram poliomielite. Isso é suficiente”

E assim, em um depósito em Atlanta, repousa hoje um dos últimos pulmões de aço — relíquia de um inimigo vencido.

Vencido porque um homem decidiu arriscar tudo — até a própria família — para proteger milhões de outras.

 

 

Ele poderia ter sido o cientista mais rico da história.

Preferiu ser algo infinitamente mais raro:

indispensável.

 

Da próxima vez que alguém disser que uma única pessoa não muda o mundo, conte sobre o verão de 1952, quando o medo encheu o ar… e sobre Jonas Salk, o homem que decidiu dar o sol à humanidade.



Seguindo a tradição judaica, observando um dos tripés da religião conhecido como Tikun Olam, Jonas Salk, o cientista abnegado de seu século, com atos de amor, compaixao e bondade, praticou justiça, caridade e a responsabilidade de ajudar os necessitados.


 


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FONTES:

https://archive-share.america.gov/pt-br/como-os-eua-venceram-a-polio/

https://www.fatosdesconhecidos.com.br/o-que-podemos-aprender-com-o-surto-de-poliomielite-dos-anos-1950/

https://hpcs.bvsalud.org/vhl/temas/historia-das-doencas/historia-da-poliomielite/

https://www.bbc.com/portuguese/articles/cg3q13v76n4o

https://www.livescience.com/48513-polio-vaccine-gallery.html