Beber até Cair
Por Angelina Mariz de Oliveira
Uma famosa marchinha de Carnaval de 1959 já anunciava a
ameaça de beber até não conseguir continuar em pé. Várias outras canções
brasileiras têm a famosa frase ‘beber até cair’, normalmente por desilusão
amorosa.
A ingestão de álcool é vista na cultura ocidental como
algo necessário à alegria, ou para consolar. É elemento indispensável para
festas, casamentos, jantares, churrascos etc. No Judaísmo também é essencial o
álcool – vinho, vodca etc. - no brit milá, no bar mitzvá, no kidush, e,
principalmente, em Purim.
Mas nem sempre o consumo regular de álcool fez parte da
cultura Judaica. O texto “Drinking on Purim”, de Josh Finkelstein, traz
diversas fontes judaicas, que debatem sobre essa questão (publicado pelo site
Sefaria https://www.sefaria.org/sheets/470604.41?lang=bi). A Torá é rica em
exemplos de situações reprováveis decorrentes da embriaguez.
Logo no Capítulo 9 de Bereshit lemos sobre um Noah
desgostoso com a destruição do mundo, embriagado e nú perante sua família.
Algumas gerações depois, as filhas de Lot vão embriagá-lo para ter relações
sexuais e engravidar do pai (Bereshit 19:33).
Itzchak também é levado à embriaguez por seu filho
Iaacov. Com isso, não consegue diferenciar o filho caçula de Esaú, seu irmão
mais velho (Bereshit 27:25).
Séculos depois, após a fuga do Faraó, os hebreus estão
aos pés do Monte Sinai, onde contribuíram e trabalharam para construir o
Mishcan. Logo no serviço de inauguração, os dois filhos mais velhos de Aharon,
recém-ungidos como cohanim, são fulminados por um raio Divino.
Após o choque, Deus ensina diretamente a Aharon que
durante os serviços no Mishcan não deve ser tomado vinho, nem qualquer tipo de
‘bebida forte’, com teor alcoólico (Vaikrá 10:9).
Desde então, o vinho seria usado apenas para ser
derramado nas oferendas.
A repreensão ao uso abusivo de álcool também é condenada
em diversos trechos do Tanach. Por exemplo, quando o profeta Eli repreende
Channah, pensando que ela estava embriagada (Samuel I 1:14); e as advertências
de Isaías contra o “orgulho dos bêbados de Efraim” (Isaías 28:1-8):
“Estes também erraram por
causa do vinho e se desviaram por causa do vinho forte; sacerdotes e profetas
erraram por causa do vinho forte, eles se corromperam por causa do vinho; eles
se desviaram por causa do vinho forte, eles erraram contra o vidente, eles
fizeram a justiça tropeçar”.
Com tantas advertências, recriminações e tristes
consequências, de onde vem a ideia de que o vinho e outras bebidas alcoólicas
são necessárias e recomendáveis para as comemorações?
Moisés, na própria Torá, estabelece que anualmente os
hebreus deveriam ir ao Mishcan com suas famílias, para celebrar a produção
agropecuária (Devarim 14:26):
“Comerás os dízimos do teu
cereal novo, do teu vinho novo, do teu azeite, e das primícias dos teus
rebanhos, na presença do teu Deus, no lugar que [Deus] escolher para
estabelecer o nome divino, para que aprendas a reverenciar o teu Deus para
sempre.
Se a distância for muito
grande para você, se você não puder transportá-los, porque o lugar onde seu
Deus escolheu para estabelecer o nome divino está longe de você e porque seu
Deus o abençoou você pode convertê los em dinheiro. Embrulhe o dinheiro e leve-o
com você para o lugar que seu Deus escolheu, e gaste o dinheiro em qualquer
coisa que você queira — gado, ovelhas, vinho ou outra bebida inebriante, ou
qualquer coisa que você desejar. E você festejará ali, na presença do seu Deus,
e se alegrará com a sua casa”.
Também encontramos inúmeras passagens do Tanach que
exaltam a alegria e a benção de ter vinho. No Salmo 104 lemos: “(...) o vinho
que alegra os corações dos homens”.
Mas a elevação do vinho ao centro destacado das
comemorações vai aparecer no exílio na Babilônia, durante o domínio persa de
Achashverosh. Este imperador tinha em sua rotina os famosos e típicos
‘banquetes de vinho’ – mishtê haiain, como lemos na Meguilá Esther.
A palavra hebraica ‘mishtê’ costuma ser traduzida como
‘banquete’, mas também significa ‘bebida forte’, com teor alcoólico. Ela tem a
mesma raiz do verbo beber (lishtot). Ou seja, é uma celebração essencialmente
relacionada à ingestão de álcool.
E esse hábito será adotado pelos judeus. Após a vitória
contra Haman, Mordechai envia cartas para todas as comunidades judaicas
espalhadas pelo império persa, determinando que Purim seja comemorado por
todos, anualmente, e que “deveriam observá-los como dias de festa (iemei
mishtê) e alegria (vesimshá), e como uma ocasião para enviar presentes uns aos
outros e presentes aos pobres”.
Surgiu então a vinculação de Purim ao consumo de álcool
como elemento provocador da alegria. Foram criados rituais e celebrações, que
acabaram se transformando em tradição.
Assim, as regras da Torá e Profetas que restringem o uso
do álcool foram mitigadas em Purim, para incluir os banquetes de vinho persas.
O Talmude, no Tratado de Meguilá, nos conta que Rava, rabino que viveu na
Babilônia no século IV da EC, disse: “Uma pessoa é obrigada a ficar embriagada
em Purim até que esteja tão embriagada que não saiba distinguir entre o
amaldiçoado Haman e o abençoado Mordechai” (Talmud Bavli, Meguilah, 7b).
Existem diversas explicações dos motivos teológicos e
místicos para a pessoa ficar tão embriagada, a ponto de não conseguir
raciocinar em Purim. Mas vamos dirigir nosso estudo, inspirados pela Torá,
pelas consequências na busca de tamanho descontrole.
O Judaísmo do Templo não admitia ingestão de vinho e
outras bebidas durante os serviços religiosos, por ser um mandamento de Deus,
para evitar atos impensados e inapropriados, que podiam levar à morte. No
Judaísmo rabínico o álcool também não será admitido nas tefilot, nas rezas.
Porém, no Kidush e na Havdalá, nas celebrações, e em Purim, o vinho e outras
bebidas passam a ser elemento central, com forte teor simbólico.
Contudo, sempre esteve presente a preocupação com o uso
abusivo do álcool e suas consequências. Nesse mesmo Tratado de Meguilá, logo
depois da forte e polêmica afirmação de Rava (Rabino Abba ben Iossef bar Hama),
lemos:
“Rabba (bar Nahmani) e Rabi Zeira prepararam uma festa de
Purim um com o outro, e ficaram embriagados a ponto de Rabba se levantar e
massacrar Rabi Zeira. No dia seguinte, quando ele ficou sóbrio e percebeu o que
tinha feito, Rabba pediu misericórdia a Deus e o reanimou. No ano seguinte,
Rabba disse a Rabi Zeira: Que o Mestre venha e preparemos a festa de Purim um
com o outro. Ele disse a ele: Milagres não acontecem a cada hora, e eu não
quero passar por essa experiência novamente”.
Na Idade Média, de modo geral Maimônides será crítico ao
alcoolismo. Ele escreveu na Mishnê Torá (1180):
“Quem se embriaga é um pecador, é vergonhoso e perderá
sua sabedoria. Se ele se embriaga diante das pessoas comuns, ele profana o Nome
de Deus. É proibido beber até mesmo uma pequena quantidade de vinho nas horas
da tarde, a menos que seja tomado junto com comida. Bebida que é tomada junto
com comida não é intoxicante. Somente vinho que é tomado após a refeição deve
ser evitado (...) Ele deve beber vinho até ficar embriagado e adormecer em
estupor”.
Porém, quando se trata de Purim, Rambam vai comentar a
Meguilá Esther, e conclui que se embriagar em Purim é uma mitzvá, mas que está
restrita ao contexto das refeições diurnas de 14 de Adar. E mesmo assim, em
acompanhamento das refeições, seguidas de um breve sono.
No século XVI, Rosh vai escrever sobre a obrigação de se
embriagar em Purim: “não significa ficar bêbado, pois a embriaguez é uma
proibição definitiva, e não há pecado maior do que ela, pois leva ao adultério,
assassinato e outros pecados. Em vez disso, deve-se beber um pouco mais do que
o normal” (Orach Chaim 695 1:1).
Na mesma época, Rabbi Meiri segui a mesma linha de
pensamento, defendendo o uso responsável do álcool em Purim; ao comentar a
Meguilá 7b ele defende que “A pessoa é obrigada a aumentar sua alegria neste
dia por meio de comida e bebida até que não lhe falte nada. No entanto, não
somos ordenados a ficar bêbados e nos degradar devido a essa alegria, pois não
fomos ordenados na "alegria" da devassidão e do absurdo, mas sim na
alegria do prazer que leva a amar a Deus e a agradecer a Ele pelos milagres que
ele fez por nós”.
Também em nossos dias encontramos orientações rabínicas
de consumo moderado de álcool em Purim. Por exemplo:
“Se alguém sabe que beber muito vinho faz com que chore e
fique deprimido, ou causa dores de cabeça, é preferível que cumpra a mitzvá
bebendo um pouco mais do que o normal. Isso ocorre porque o objetivo principal
da mitzvá é ser feliz, e se beber deixa alguém triste, ele prejudica a
mitzvá... Se alguém sabe que quando fica bêbado fica selvagem e machuca os
outros, ou acaba chafurdando em seu próprio vômito e se degradando em público,
ele não deve ficar bêbado. Em vez disso, ele deve cumprir a mitzvá bebendo mais
do que o normal [...]” (Peninei Halakhah, Zemanim 16:11:4).
E ainda:
“Assim, mesmo de acordo com o Shulchan Aruch, esta mitzvá
não se aplica em casos de perigo de vida. De fato, Rav Mordechai Eliyahu e Rav
Avigdor Neventzall (citados em Mikra'ei Kodesh, Hilchot Purim, Milu'im, cap.
13, n. 5, de Rav Moshe Harari) proíbem soldados israelenses de ficarem bêbados
se tiverem acesso a armas de fogo. É óbvio que, da mesma forma, quem estiver
dirigindo após o Seudat Purim deve se abster de beber. Além disso, também é
óbvio que é proibido oferecer bebidas alcoólicas a alguém que planeja dirigir
em Purim” (Gray Matter IV, Family and Community Matters, The Orthodox Union's
Policy Statement on Adolescents Drinking on Purim 7).
Apesar desse debate milenar, e das prudentes
recomendações, são comuns na noite de Purim, ou em datas próximas, comemorações
com bebidas alcoólicas à vontade, o conhecido ‘open bar’. Em todas as linhas
judaicas serão encontrados grupos celebrando Purim de acordo com as palavras
talmúdicas de Rava, de 17 séculos atrás.
Essas práticas de uso abusivo das bebidas fortes podem
ser fonte de acidentes, violência e abusos. Exatamente como descrito na Torá.
Por isso existem diversas normas no Sistema Jurídico
Brasileiro punindo a embriaguez. As normas preveem punição mesmo para um
consumo pequeno ou baixo de bebida alcoólica:
Código Penal/1940:
“Art. 28 - Não excluem a imputabilidade penal: (...) II - a embriaguez,
voluntária ou culposa, pelo álcool ou substância de efeitos análogos”. Por essa
norma, o fato da pessoa estar alcoolizada não é justificativa para a prática de
crimes e violências.
Estatuto da Criança e do Adolescente/1990:
“Art. 81. É proibida a venda à criança ou ao adolescente de: (...) II - bebidas
alcoólicas; Art. 243. Vender, fornecer, servir, ministrar ou entregar, ainda
que gratuitamente, de qualquer forma, a criança ou a adolescente, bebida
alcoólica ou, sem justa causa, outros produtos cujos componentes possam causar
dependência física ou psíquica: Pena - detenção de 2 (dois) a 4 (quatro) anos,
e multa, se o fato não constitui crime mais grave”. Com esse comando busca-se
proteger os menores de idade, inclusive para casos de acesso de menores a
bebidas alcoólicas em festas familiares.
Código de Trânsito Brasileiro/1997:
“Art. 165. Dirigir sob a influência de álcool ou de qualquer outra substância
psicoativa que determine dependência: Infração - gravíssima; Penalidade - multa
(dez vezes) e suspensão do direito de dirigir por 12 (doze) meses. Penalidade -
multa (dez vezes) e suspensão do direito de dirigir por 12 (doze) meses.
Parágrafo único. Aplica-se em dobro a multa prevista no caput em caso de
reincidência no período de até 12 (doze) meses; Art. 302. Praticar homicídio
culposo na direção de veículo automotor. Penas - reclusão, de cinco a oito
anos, e suspensão ou proibição do direito de se obter a permissão ou a
habilitação para dirigir veículo automotor. Art. 306. Conduzir veículo
automotor com capacidade psicomotora alterada em razão da influência de álcool
ou de outra substância psicoativa que determine dependência: Penas - detenção,
de seis meses a três anos, multa e suspensão ou proibição de se obter a
permissão ou a habilitação para dirigir veículo automotor”.
A legislação brasileira não é rigorosa nas punições de
violências relacionadas ao uso de álcool, mesmo que em pequenas quantidades. O
que de certa forma contribui para a sensação de impunidade.
Já que o legislador é leniente, cabe á sociedade civil, e
às comunidades judaicas, se perguntarem que tipo de educação estímulo e exemplo
estamos dando para os jovens. Será que a famosa frase de Rava, sempre lembrada
e citada, é a forma judaica mais adequada de comemorar Purim? E a crítica à
Rava trazida pelo Talmude logo após sua polêmica fala, seguida de inúmeras
orientações rabínicas ao longo dos séculos?
Além dessas questões, o Judaísmo Liberal reconhece o
perigo da ingestão abusiva de álcool, que pode levar a um quadro de
descontrole, o alcoolismo. Nesse sentido, apesar de ser uma doença, ainda assim
existem as responsabilidades da pessoa afetada, a primeira delas é a de
procurar tratamento e cuidados.
Talvez desde já possamos iniciar campanhas, atividades e
arrecadações para que as próximas celebrações de Purim tenham menos influências
dos persas de Achashverosh, e mais consciência das advertências da Torá, e das
recomendações de nossos Sábios.