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quinta-feira, 3 de abril de 2025

Iachad (juntos - יחד) - por André Naves: Perseverança

 


Perseverança

         No mundo da literatura tem uma lenda tão asquerosa que me arrepia sempre que penso nela. Camões sofreu um naufrágio (na verdade, ele tripulava um barco que foi devorado pelo mar)...

Naquele clima de barata-voa, no corre-corre do “deusnosacuda”, ele correu para salvar “Os Lusíadas”, e deixou sua “amada” Dinamene, uma Alfonsina ancestral, ter como tumba a pacífica imensidão azul...

         Se essa história torta sobreviveu a todos os cataclismas, ainda hoje sendo contada de boca em boca, é que muita gente acredita que essa incivilidade traiçoeira seja um ato de heroísmo travestido.

Eu, tão ufanista como qualquer Policarpo, sempre admiro as vantagens brasileiras, desde suas raízes também lusitanas. Admirar Camões já é pedir demais!

         Sabe, não me importa que o cidadão escreva os maiores tesouros da última flor... Ele é um lixo de ser humano! Pelo menos ele perdeu um olho na confusão... Camões, o caolho d’Os Lusíadas, que deixou a covardia vencer e perdeu o mais valioso tesouro...

         Mas a gente nunca pode desistir de buscar o entendimento... Lixo também aduba!

Ao que parece, ele se arrependeu. A partir daquilo, sua pena começou a homenagear o Amor. Igual um lobo, uivando para a Lua, ele parece, nos versos dos sonetos, procurar o olhar de sua Dinamene... Olhar submerso, salgado... Lágrimas e mar... Quanto do sal que tempera o mar são lágrimas portuguesas?

         Se pelo menos o tempo voltasse... Mas ele é implacável! Tão grande Amor para tão curta vida! Séculos depois, um outro poeta português, esse sim, enorme em honra e sensibilidade, parecia dialogar com Camões, perguntando:  “Valeu a pena?”...

         Soneto 29 de Camões. De verdade! Nunca li nada tão lindo! O tema é conhecido... Jacó trabalhava para Labão. Amava Raquel. Depois de sete anos, Labão o fez casar com Lia... E Jacó perseverou por outros 7 anos buscando os favores de Raquel, e dizendo que, feliz, ainda trabalharia mais sete se “Para tão longo amor, (não fora) tão curta a vida!”

         Camões, o caolho arrependido! Daria tudo para voltar no dia fatal. Lá seria perdido o maior poema épico ocidental desde a Antiguidade! Os argonautas se perderiam nas brumas do olvido... O velho do Restelo se calaria... O gigante Adamastor ruiria...

         Nesse dia, Dinamene, como uma Raquel, como uma matriarca amorosa e bela, perdoaria... O perdão de quem enxerga.

         No fim, ela teria essa beleza da mulher...

Perseverança e perdão!

André Naves
Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Sociais, Inclusão Social – FDUSP. Mestre em Economia Política - PUC/SP. Cientista Político - Hillsdale College. Doutor em Economia - Princeton University.  Comendador Cultural. Escritor e Professor.

www.andrenaves.com 

Instagram: @andrenaves.def

 


ACONTECE: Hillel

 

Antes de visitarmos os fatos e discussões mais recentes em Israel, abaixo, quero falar brevemente do que faz a diferença aqui fora do país: ontem foi lançado o ramo São Paulo da Fundação internacional HILLEL, organização universitária judaica. Estabelecida em 1923 em Illinois por Benjamim Frankel, ela cresceu e se expandiu para 80 localidades nos Estados Unidos e mais 16 países em 4 continentes no mundo. No Brasil há 20 anos está no Rio de Janeiro e, agora (só agora!), chegou a São Paulo. O que ela promove? Informação e oportunidades de estudo, incluindo bolsas, viagens guiadas a Israel, eventos de intercâmbio e comemorações das festas judaicas… mas em resumo, e sobretudo, CONEXÃO de jovens judeus com o judaísmo, com Israel e entre eles e elas. Fiquei impressionada com a “vibração” que senti nesta instituição que afinal é canal fundamental de entrada, de alimentação das nossas instituições que há muito, eu sinto, carecem desta energia para se manterem vivas e atuantes. Nestes tempos de antissemitismo Xe de crescente e complexo isto se torna mais importante ainda. E, com isto em mente, a fundação convidou para o lançamento ontem seu xará, Hillel Neuer. 

Este é um obstinado e brilhante ativista que comanda o UN Watch, ONG que monitora a Comissão de Direitos Humanos da ONU, e seus movimentos. Há 30 anos ele vem denunciando ações, resoluções e informações antissemitas em tribunas sempre hostis que tentam continuamente, mas com pouco sucesso,  calá-lo. Eu já escrevi sobre ele aqui, e na Internet há muito material sobre sua luta, seus discursos e ações. A atual difícil batalha - expressa no abaixo-assinado neste link - é contra a reeleição, para a presidência da Comissão, da Francesca Albanese, que é expressa e publicamente antissemita.

O que ele trouxe de novo agora é que eles tiveram acesso a documentos de  comunicação interna do Hamas, da Jihad Islâmica e da UNRWA - Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Próximo Oriente - surpreendentes mas reais, material explosivo a ser denunciado a imprensa global … ele disse: “já estamos sendo acusados de inventar calúnias junto com o governo americano e o Mossad, mas agora temos como mostrar a fonte que são de autoria desses mesmos! “. Vamos aguardar alguns dias para o lançamento desta divulgação, vou trazer informações aqui neste espaço…

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Enquanto ressoam sirenes e bombardeios, Israel se debate com o dilema estratégico: o que vem a seguir em Gaza? Acesse aqui o link de um podcast que analisa as opções a serem avaliadas das medidas que Israel pode tomar e suas respectivas consequências. O link é para YouTube onde você pode selecionar a legenda que preferir.


E agora acabou de ser publicado Relatório das IDF sobre 7 de Outubro de 2023

Extraído de I24 News


Um ano e meio após o massacre, os investigadores do IDF entregaram o relatório às famílias enlutadas.

Um relatório militar israelense divulgado nesta quinta-feira à noite revela os detalhes arrepiantes do massacre que ocorreu durante o festival Nova em 7 de outubro, destacando uma série de falhas operacionais e de comunicação que levaram a uma das piores tragédias da história recente de Israel.

A inesperada chegada dos terroristas: de acordo com o relatório, um grupo de 100 terroristas da unidade Nukhba chegou ao local devido a um erro de navegação, desviando-se de sua rota inicial. Esse "erro" se mostraria mortal para centenas de participantes do festival.


Uma linha do tempo aterradora, o massacre ocorreu em varias etapas:

7:00 - início dos primeiros tiros

8:30 - o grupo Nokhba começa a cercar o local

9:15 - terroristas entram no perímetro do festival 

10:10 - partida de alguns terroristas

11:30 - chegada das forças israelenses no local


Custo humano medonho: 378 civis e membros das forças de segurança assassinados, 44 pessoas sequestradas, 16 policiais, 16 soldados e 2 agentes da Shin Bet mortos


Um modelo 3D da área de Nova preparado por investigadores do IDF como parte de uma investigação sobre o massacre de 7 de outubro:

https://x.com/i24NEWS_EN/status/1907828293660991841?ref_src=twsrc%5Etfw%7Ctwcamp%5Etweetembed%7Ctwterm%5E1907828293660991841%7Ctwgr%5E%7Ctwcon%5Es1_c10&ref_url=about%3Ablank


As principais conclusões do relatório são chocantes. A IDF reconhece uma falha esmagadora na coordenação entre os diferentes serviços de segurança. O festival foi aprovado por todos os níveis envolvidos, incluindo o exército e a polícia, sem consulta direta dos comandantes no local. Um ponto crítico: nenhum oficial de ligação das IDF estava presente no posto de comando avançado, impossibilitando a comunicação rápida e eficaz.

De acordo com o relatório, um grupo de 100 terroristas da unidade Nukhba chegou ao local devido a um erro de navegação, desviando-se de sua rota inicial. Esse "erro" se mostraria mortal para centenas de participantes do festival.


Erros fatais de julgamento 


A sede na região de Gaza subestimou seriamente a situação, estimando que 90% dos participantes conseguiram escapar sem serem feridos. Essa avaliação errônea levou a não enviar reforços imediatamente, deixando os participantes para se defenderem contra os terroristas.

O relatório da IDF representa um doloroso exercício de transparência, reconhecendo as falhas sistêmicas que permitiram tal massacre. Destaca a necessidade de uma revisão completa dos protocolos de comunicação e resposta a emergências.

Um memorial permanente no local de Reim agora comemora este dia trágico, um lembrete constante do terrível preço pago naquele dia.


Juliana Rehfeld

quinta-feira, 27 de março de 2025

ACONTECE: 7/10/23 - 27/03/25 - O que aprendemos sobre o HAMAS?


Por Regina P Markus

De 2023 a 2025 - entendendo o que ACONTECE
                     

538 dias transcorridos desde a invasão da região fronteira à Faixa de Gaza e do Festival de Música NOVA no deserto do Neguev. Reféns ainda estão sendo mantidos em condições xyz. Histórias de terror são relatadas pelas pessoas que voltaram. Relatos impressionantes que mostram uma resiliência psicológica e biológica. Superaram o que parece ser impossível e passam a desenvolver atividades de rotina que dignificam a humanidade e também reportar o que passou com o propósito imediato de que os demais sejam liberados.

E uma guerra tão longa, com tantas fake news, parece ir perdendo o interesse da grande mídia. 

E.... ACONTECE UM FATO NOVO! - 

                                  UM FATO QUE VAI ALÉM DA IMAGINAÇÃO.

A figura acima procura ilustrar! Na faixa de Gaza estão ocorrendo passeatas de muçulmanos que NÃO apoiam o HAMAS. Ao contrário das manifestações anteriores, onde todos vinham com rostos cobertos e com faixas para fácil identificação política. AGORA todos os rostos estão à mostra e os líderes falam diretamente à mídia. As falas são em árabe, e já vêm traduzidas para o hebraico. 

CONVERSANDO hoje, quinta-feira, com pessoas em Israel, todos diziam que além dos ataques dos HOUTIS (Iêmen), que estão sendo divulgados por todas as mídias, inclusive pelos jornais, rádios, TVs e mídias eletrônicas brasileiras, aconteceram ataques vindos da Faixa de Gaza. Enviam mísseis, drones e outros mortíferos para as cidades ao sul de Israel e também miram Tel Aviv. A pergunta trivial seria: como ainda têm tantos armamentos? Mas, ao ficar sabendo de onde partiram os ataques, perguntei - o que têm estas localidades de especial para servirem de plataforma de lançamento? E a resposta foi surpreendente. Estão lançando ataques a partir de localidades em que seriam feitas as próximas passeatas contra o HAMAS. 

Quero deixar claro que este é um papo - e uma conjectura. Mas, em vista de tudo que ocorreu a partir do 7 de outubro, não posso deixar de acatar a lógica. Israel tem o objetivo de acabar com a capacidade bélica do Hamas. E, se as passeatas saíssem... 

O outro lado do mundo... Brasil! Ontem uma comissão de avaliação entrevistou alunos na Feira Brasileira de Ciências e Engenharia para selecionar participantes do Curso de Verão do Instituto Weizmann de Israel na cidade de Rehovot. A qualidade dos trabalhos e a capacidade de jovens (18-19 anos) de se expressarem em inglês e debaterem temas de ponta dá uma enorme satisfação. Fica evidente que o trabalho realizado por mais de cem anos, quando foram introduzidas as bases para a pesquisa científica, estão presentes. Muitos destes jovens já receberam prêmios internacionais e têm um "drive" para a busca de conhecimento que vale acompanhar. A divulgação dos resultados será na semana que vem, quando disponibilizaremos para os nossos leitores os dados dos premiados.

FECHANDO... esta semana  saiu uma outra informação bombástica publicada na Newsweek: "Columbia Activists Had Prior Knowledge of Oct. 7, Bombshell Lawsuit Claims". A noticia foi divulgada a seguir por vários meios de comunicação, inclusive a Globo News. 

Um dos pontos-chave a ser avaliados em Israel é como os preparativos de 7 de outubro passaram despercebidos. Agora são levantados vários indícios que poderiam ter sido levados em consideração. Mas havia na população israelense que vive na fronteira de Gaza um legítimo e efetivo "querer" acolher a todos. Assim, o número de trabalhadores que cruzavam a fronteira era importante, assim como o de doentes que recebiam tratamento em Israel. Um outro contingente era de alunos que estudavam em Universidades e Colégios Técnicos israelenses. Ouvir a voz dos sobreviventes  é um testemunho desta realidade. Por outro lado, para que o fato pudesse ser internacionalizado, era necessário ter cidadãos de outros países envolvidos - e aí surge a NOVA.

Ao iniciarmos a leitura de Vaicrá, o terceiro livro da Torá, e tendo percorrido quase 540 dias deste embate de Israel com grupos terroristas que vêm sendo desmascarados inclusive pelos seus conterrâneos, temos grande confiança nos ensinamentos que levamos de geração em geração - Dór va Dór.

Am Israel Chai



quarta-feira, 26 de março de 2025

Você Sabia? - O Talmud

 

TALMUD, תַּלְמוּד,

 'Se a Torá é a pedra fundamental do judaísmo, o Talmud é seu pilar..."

Por Itanira Heineberg



Você sabia que o Talmud (Estudo), a base da existência judaica, por esta razão queimado na praça Campo dei Fiori em Roma, a mesma onde queimaram Giordano Bruno em 1600, é lido em muitas partes do mundo, e estudado com reverência e entusiasmo nas escolas da Coreia do Sul?




Além de pessoas, livros e Torás, o Santo Ofício queimou o Talmud no Campo de Fiori em 9 de setembro de 1553, o primeiro dia do feriado do ano novo judaico, Rosh Hashanah.

 

Como aconteceu a coletânea do Talmud:

Os textos da Tradição Oral começaram a ser compilados aos poucos. Primeiro, reuniu-se uma coletânea de estudos concisos, escritos em hebraico, sobre inúmeras leis e sobre a sabedoria judaica, a Mishnah.

A Mishnah evoluiu, os dados aumentaram muito e finalmente compilou-se o Talmud propriamente dito.

O Talmud tem dois componentes principais: a Mishná, um livro sobre a lei judaica, escrito em hebraico, e a Guemará, comentário e elucidação do primeiro, escrita no jargão hebraico-aramaico.

Seus ensinamentos foram reunidos em duas grandes coleções, o Talmud de Jerusalém, que contém os ensinamentos dos rabinos na Terra de Israel, e o Talmud da Babilônia, que apresenta os ensinamentos dos rabinos da Babilônia.

Essas duas obras estão escritas no dialeto aramaico, com letras do alfabeto hebraico e, geralmente, não trazem vogais, pontos de interrogação, pontos finais ou exclamação.



As tradições do Talmud foram passadas de geração em geração. Assim, de Moisés à Josué, e, de lá para os líderes e sábios de cada geração.



 

Senti grande alegria e surpresa ao descobrir que escolas da Coreia do Sul incluem o estudo do Talmud em seus currículos. Embora o Talmud seja um texto sagrado do judaísmo, os coreanos têm demonstrado um grande interesse pelo seu conteúdo e pela sua abordagem única de ensino.


Biblioteca Coex Starfield em Seul inexplicavelmente decorou suas prateleiras com cópias do Talmud Babilônico.


E quais são as razões para o ensino do Talmud aos alunos da Coreia do Sul?

1. *Desenvolvimento crítico do pensamento*: O Talmud é conhecido por sua abordagem dialética e questionadora, que encoraja os estudantes a pensar de forma crítica e a desenvolver suas habilidades de resolução de problemas.

2. *Aprendizado baseado em discussões*: O Talmud é estudado em grupos, com os estudantes discutindo e debatendo os textos. Essa abordagem promove a colaboração, a comunicação eficaz e a resolução de conflitos.




3. *Desenvolvimento da ética e da moral*: O Talmud contém ensinamentos sobre ética, moral e valores que são essenciais para o desenvolvimento de cidadãos responsáveis e éticos.

4. *Preparação para os exames*: O estudo do Talmud ajuda os estudantes a desenvolver habilidades de análise, crítica e resolução de problemas, que são essenciais para os exames coreanos.

Algumas escolas da Coreia do Sul têm incluído o Talmud em seus currículos como uma forma de:

- *Aulas de ética*: O Talmud é usado para ensinar ética, moral e valores.

- *Aulas de pensamento crítico*: O Talmud é usado para desenvolver habilidades de pensamento crítico e resolução de problemas.

- *Aulas de estudos judaicos*: O Talmud é usado para ensinar sobre a história, a cultura e a religião judaica.

É importante notar que o estudo do Talmud nas escolas da Coreia do Sul não é necessariamente relacionado à religião, mas sim à sua abordagem única de ensino e ao seu conteúdo ético e moral.




Por que a Tradição Oral foi escrita?

O povo judeu sofreu muitas perseguições, físicas e espirituais. Muitos foram aqueles que não somente quiseram aniquilar o povo judeu fisicamente, mas, também procuraram destruir toda a sua cultura.

Os sábios viram que era arriscado manter este conhecimento como uma tradição exclusivamente oral. Portanto, para evitar a perda deste conteúdo, eles compilaram todos os ensinamentos em escritos.

A tradução do Talmud para o coreano, um projeto ambicioso iniciado na década de 1990, foi liderada pelo rabino coreano, Rabbi David Kim, um especialista em estudos judaicos e hebraicos.

Este trabalho foi realizado em colaboração com a Universidade de Seul e a Universidade Hebraica de Jerusalém.

 

A tradução do Talmud para o coreano tem sido muito bem recebida na Coreia do Sul, onde há um grande interesse pelo judaísmo e pela cultura judaica. A tradução tem sido usada em escolas, universidades e comunidades judaicas em todo o país.

Clique aqui para assistir a um pequeno vídeo sobre o Talmud e apreciação dos jovens coreanos ao estudo desta Obra.


FONTES:

 

Meta AI

https://www.ihu.unisinos.br/categorias/171-noticias-2013/517114-estudo-iluminado-sobre-o-humano

https://ensina.rtp.pt/artigo/condenacao-a-morte-de-giordano-bruno-em-roma/

https://www.morasha.com.br/historia-judaica-na-antiguidade/a-queima-do-talmud.html

https://blog.sejacontraste.com/talmud/#Algumas_historias_Talmudicas

https://www.morasha.com.br/leis-costumes-e-tradicoes/o-que-e-o-talmud.html


sexta-feira, 21 de março de 2025

ACONTECE: Felicidade?

 

Por Juliana Rehfeld


Esta foi uma semana de retrocessos que não queríamos ter que presenciar. Depois de nos alegrarmos e celebrarmos em Purim, e enquanto relíamos a parashá Ki Tissá e relembrávamos o compromisso que fizemos com as dez leis básicas e a conquista da condução de Deus a caminho da Terra prometida, estava voltando a se definir um desacordo entre os negociadores por Israel e pelo Hamas. O sonho que vínhamos sonhando nas semanas passadas, de retorno dos reféns que não nos devolveram e de uma merecida calmaria na terra prometida, desenhava-se um novo desacordo, um encontro de políticas espúrias e ódio continuado; Israel e Hamas voltaram à guerra, voltaram os bombardeios, não teremos ninguém devolvido, e voltou a extrema direita ao governo. 

Situação essa que se anunciava mas, mesmo assim, uma “ducha de água fria” na esperança da grande maioria do mundo, que veio, aos poucos, ouvindo relatos aterradores… Há também uma guerra de versões na mídia sobre isso, mas prevalece em mim esta sensação de misto de profunda tristeza e preocupação com quem ainda não está em casa e sobre como estará quando, e se, voltar, com ao mesmo tempo, uma profunda decepção e vergonha pela complicada engrenagem política a que seres humanos chegaram. Essa engrenagem que os impede cada vez mais de voltarem a ser humanos, de voltarem a ter empatia com o sofrimento e voltarem a buscar a paz.

Minha sensação inclui ao mesmo tempo um enorme cansaço e falta de energia de ler e ouvir as inúmeras notícias sobre o assunto que trocam acusações, reaprofundam as diferenças, desconstroem pontes levantadas a duras penas e fazem esperanças desabarem no abismo que existe no meio do caminho.  

Voltaram os números de vítimas declaradas pelo famoso Ministério da Saúde de Gaza, voltaram as sirenes, a corrida aos abrigos por toda Israel e mísseis ao centro do país, voltando Ben Gvir. Todo o circo de horrores.

Ontem, como uma triste ironia, foi divulgado o relatório sobre a Felicidade Mundial em 2024. Na semana passada mostramos um ranking errado mas demos a fonte. Hoje, direto do relatório de quem coleta os dados e produz as análises e o ranking, o Centro de Pesquisas sobre Bem Estar da Universidade de Oxford, incluímos o ranking certo de Israel e o que melhorou e piorou




Parece estranho falar em felicidade em um mundo tão machucado por desentendimentos, guerras e violência de maneira geral, e especialmente em Israel, país tão cercado por inimigos, em alerta constante e recentemente, ferido nas entranhas desde 7 de outubro de 2023. Imaginei a princípio que os sorrisos “fake” ou a crescente alienação das redes sociais fossem participar das conclusões de tal pesquisa, mas não!

O quesito no qual a avaliação do Centro focou este ano para atribuir “felicidade” é o impacto do cuidado e compartilhamento na felicidade das pessoas - o cuidado é “duplamente abençoado”, abençoa tanto quem oferece como quem recebe. E o relatório foi investigar isso! E analisou o compartilhamento de refeições, o compartilhamento do lar, a importância das conexões sociais, do apoio ao outro, da confiança mútua e finalmente, do ato de doar dinheiro ou de ser voluntário … como tudo isso traz e proporciona felicidade… 

Acho que no nível de desconfiança e descrença que muitos de nós pelo mundo estamos, apenas conhecer este relatório já traz felicidade..

Uma percepção clara que nós temos disso é nossa atividade comunitária, ela, de maneira geral nos faz bem e, com certeza, compartilharmos momentos muito tristes, como os que estamos passando esta semana, nos ajuda a enfrentá-los, torna-os mais leves para cada um de nós.  

É possível ser feliz em um mundo difícil, em retrocesso, cheio de violência? Parece, dizem análises acadêmicas, que sim - se não nos isolarmos, se cuidarmos uns dos outros, se compartilharmos alegrias e, sobretudo, as tristezas…as pesquisas confirmam.

Shabat Shalom!

quinta-feira, 20 de março de 2025

‘Mitzvá Legal’ - Beber até cair

 

Beber até Cair

Por Angelina Mariz de Oliveira


Uma famosa marchinha de Carnaval de 1959 já anunciava a ameaça de beber até não conseguir continuar em pé. Várias outras canções brasileiras têm a famosa frase ‘beber até cair’, normalmente por desilusão amorosa.

A ingestão de álcool é vista na cultura ocidental como algo necessário à alegria, ou para consolar. É elemento indispensável para festas, casamentos, jantares, churrascos etc. No Judaísmo também é essencial o álcool – vinho, vodca etc. - no brit milá, no bar mitzvá, no kidush, e, principalmente, em Purim.

Mas nem sempre o consumo regular de álcool fez parte da cultura Judaica. O texto “Drinking on Purim”, de Josh Finkelstein, traz diversas fontes judaicas, que debatem sobre essa questão (publicado pelo site Sefaria https://www.sefaria.org/sheets/470604.41?lang=bi). A Torá é rica em exemplos de situações reprováveis decorrentes da embriaguez.

Logo no Capítulo 9 de Bereshit lemos sobre um Noah desgostoso com a destruição do mundo, embriagado e nú perante sua família. Algumas gerações depois, as filhas de Lot vão embriagá-lo para ter relações sexuais e engravidar do pai (Bereshit 19:33).

Itzchak também é levado à embriaguez por seu filho Iaacov. Com isso, não consegue diferenciar o filho caçula de Esaú, seu irmão mais velho (Bereshit 27:25).

Séculos depois, após a fuga do Faraó, os hebreus estão aos pés do Monte Sinai, onde contribuíram e trabalharam para construir o Mishcan. Logo no serviço de inauguração, os dois filhos mais velhos de Aharon, recém-ungidos como cohanim, são fulminados por um raio Divino.

Após o choque, Deus ensina diretamente a Aharon que durante os serviços no Mishcan não deve ser tomado vinho, nem qualquer tipo de ‘bebida forte’, com teor alcoólico (Vaikrá 10:9).

Desde então, o vinho seria usado apenas para ser derramado nas oferendas.

A repreensão ao uso abusivo de álcool também é condenada em diversos trechos do Tanach. Por exemplo, quando o profeta Eli repreende Channah, pensando que ela estava embriagada (Samuel I 1:14); e as advertências de Isaías contra o “orgulho dos bêbados de Efraim” (Isaías 28:1-8):

“Estes também erraram por causa do vinho e se desviaram por causa do vinho forte; sacerdotes e profetas erraram por causa do vinho forte, eles se corromperam por causa do vinho; eles se desviaram por causa do vinho forte, eles erraram contra o vidente, eles fizeram a justiça tropeçar”.

Com tantas advertências, recriminações e tristes consequências, de onde vem a ideia de que o vinho e outras bebidas alcoólicas são necessárias e recomendáveis para as comemorações?

Moisés, na própria Torá, estabelece que anualmente os hebreus deveriam ir ao Mishcan com suas famílias, para celebrar a produção agropecuária (Devarim 14:26):

“Comerás os dízimos do teu cereal novo, do teu vinho novo, do teu azeite, e das primícias dos teus rebanhos, na presença do teu Deus, no lugar que [Deus] escolher para estabelecer o nome divino, para que aprendas a reverenciar o teu Deus para sempre.

Se a distância for muito grande para você, se você não puder transportá-los, porque o lugar onde seu Deus escolheu para estabelecer o nome divino está longe de você e porque seu Deus o abençoou você pode convertê los em dinheiro. Embrulhe o dinheiro e leve-o com você para o lugar que seu Deus escolheu, e gaste o dinheiro em qualquer coisa que você queira — gado, ovelhas, vinho ou outra bebida inebriante, ou qualquer coisa que você desejar. E você festejará ali, na presença do seu Deus, e se alegrará com a sua casa”.

Também encontramos inúmeras passagens do Tanach que exaltam a alegria e a benção de ter vinho. No Salmo 104 lemos: “(...) o vinho que alegra os corações dos homens”.

Mas a elevação do vinho ao centro destacado das comemorações vai aparecer no exílio na Babilônia, durante o domínio persa de Achashverosh. Este imperador tinha em sua rotina os famosos e típicos ‘banquetes de vinho’ – mishtê haiain, como lemos na Meguilá Esther.

A palavra hebraica ‘mishtê’ costuma ser traduzida como ‘banquete’, mas também significa ‘bebida forte’, com teor alcoólico. Ela tem a mesma raiz do verbo beber (lishtot). Ou seja, é uma celebração essencialmente relacionada à ingestão de álcool.

E esse hábito será adotado pelos judeus. Após a vitória contra Haman, Mordechai envia cartas para todas as comunidades judaicas espalhadas pelo império persa, determinando que Purim seja comemorado por todos, anualmente, e que “deveriam observá-los como dias de festa (iemei mishtê) e alegria (vesimshá), e como uma ocasião para enviar presentes uns aos outros e presentes aos pobres”.

Surgiu então a vinculação de Purim ao consumo de álcool como elemento provocador da alegria. Foram criados rituais e celebrações, que acabaram se transformando em tradição.

Assim, as regras da Torá e Profetas que restringem o uso do álcool foram mitigadas em Purim, para incluir os banquetes de vinho persas. O Talmude, no Tratado de Meguilá, nos conta que Rava, rabino que viveu na Babilônia no século IV da EC, disse: “Uma pessoa é obrigada a ficar embriagada em Purim até que esteja tão embriagada que não saiba distinguir entre o amaldiçoado Haman e o abençoado Mordechai” (Talmud Bavli, Meguilah, 7b).

Existem diversas explicações dos motivos teológicos e místicos para a pessoa ficar tão embriagada, a ponto de não conseguir raciocinar em Purim. Mas vamos dirigir nosso estudo, inspirados pela Torá, pelas consequências na busca de tamanho descontrole.

O Judaísmo do Templo não admitia ingestão de vinho e outras bebidas durante os serviços religiosos, por ser um mandamento de Deus, para evitar atos impensados e inapropriados, que podiam levar à morte. No Judaísmo rabínico o álcool também não será admitido nas tefilot, nas rezas. Porém, no Kidush e na Havdalá, nas celebrações, e em Purim, o vinho e outras bebidas passam a ser elemento central, com forte teor simbólico.

Contudo, sempre esteve presente a preocupação com o uso abusivo do álcool e suas consequências. Nesse mesmo Tratado de Meguilá, logo depois da forte e polêmica afirmação de Rava (Rabino Abba ben Iossef bar Hama), lemos:

“Rabba (bar Nahmani) e Rabi Zeira prepararam uma festa de Purim um com o outro, e ficaram embriagados a ponto de Rabba se levantar e massacrar Rabi Zeira. No dia seguinte, quando ele ficou sóbrio e percebeu o que tinha feito, Rabba pediu misericórdia a Deus e o reanimou. No ano seguinte, Rabba disse a Rabi Zeira: Que o Mestre venha e preparemos a festa de Purim um com o outro. Ele disse a ele: Milagres não acontecem a cada hora, e eu não quero passar por essa experiência novamente”.

Na Idade Média, de modo geral Maimônides será crítico ao alcoolismo. Ele escreveu na Mishnê Torá (1180):

“Quem se embriaga é um pecador, é vergonhoso e perderá sua sabedoria. Se ele se embriaga diante das pessoas comuns, ele profana o Nome de Deus. É proibido beber até mesmo uma pequena quantidade de vinho nas horas da tarde, a menos que seja tomado junto com comida. Bebida que é tomada junto com comida não é intoxicante. Somente vinho que é tomado após a refeição deve ser evitado (...) Ele deve beber vinho até ficar embriagado e adormecer em estupor”.

Porém, quando se trata de Purim, Rambam vai comentar a Meguilá Esther, e conclui que se embriagar em Purim é uma mitzvá, mas que está restrita ao contexto das refeições diurnas de 14 de Adar. E mesmo assim, em acompanhamento das refeições, seguidas de um breve sono.

No século XVI, Rosh vai escrever sobre a obrigação de se embriagar em Purim: “não significa ficar bêbado, pois a embriaguez é uma proibição definitiva, e não há pecado maior do que ela, pois leva ao adultério, assassinato e outros pecados. Em vez disso, deve-se beber um pouco mais do que o normal” (Orach Chaim 695 1:1).

Na mesma época, Rabbi Meiri segui a mesma linha de pensamento, defendendo o uso responsável do álcool em Purim; ao comentar a Meguilá 7b ele defende que “A pessoa é obrigada a aumentar sua alegria neste dia por meio de comida e bebida até que não lhe falte nada. No entanto, não somos ordenados a ficar bêbados e nos degradar devido a essa alegria, pois não fomos ordenados na "alegria" da devassidão e do absurdo, mas sim na alegria do prazer que leva a amar a Deus e a agradecer a Ele pelos milagres que ele fez por nós”.

Também em nossos dias encontramos orientações rabínicas de consumo moderado de álcool em Purim. Por exemplo:

“Se alguém sabe que beber muito vinho faz com que chore e fique deprimido, ou causa dores de cabeça, é preferível que cumpra a mitzvá bebendo um pouco mais do que o normal. Isso ocorre porque o objetivo principal da mitzvá é ser feliz, e se beber deixa alguém triste, ele prejudica a mitzvá... Se alguém sabe que quando fica bêbado fica selvagem e machuca os outros, ou acaba chafurdando em seu próprio vômito e se degradando em público, ele não deve ficar bêbado. Em vez disso, ele deve cumprir a mitzvá bebendo mais do que o normal [...]” (Peninei Halakhah, Zemanim 16:11:4).

E ainda:

“Assim, mesmo de acordo com o Shulchan Aruch, esta mitzvá não se aplica em casos de perigo de vida. De fato, Rav Mordechai Eliyahu e Rav Avigdor Neventzall (citados em Mikra'ei Kodesh, Hilchot Purim, Milu'im, cap. 13, n. 5, de Rav Moshe Harari) proíbem soldados israelenses de ficarem bêbados se tiverem acesso a armas de fogo. É óbvio que, da mesma forma, quem estiver dirigindo após o Seudat Purim deve se abster de beber. Além disso, também é óbvio que é proibido oferecer bebidas alcoólicas a alguém que planeja dirigir em Purim” (Gray Matter IV, Family and Community Matters, The Orthodox Union's Policy Statement on Adolescents Drinking on Purim 7).

Apesar desse debate milenar, e das prudentes recomendações, são comuns na noite de Purim, ou em datas próximas, comemorações com bebidas alcoólicas à vontade, o conhecido ‘open bar’. Em todas as linhas judaicas serão encontrados grupos celebrando Purim de acordo com as palavras talmúdicas de Rava, de 17 séculos atrás.

Essas práticas de uso abusivo das bebidas fortes podem ser fonte de acidentes, violência e abusos. Exatamente como descrito na Torá.

Por isso existem diversas normas no Sistema Jurídico Brasileiro punindo a embriaguez. As normas preveem punição mesmo para um consumo pequeno ou baixo de bebida alcoólica:

Código Penal/1940: “Art. 28 - Não excluem a imputabilidade penal: (...) II - a embriaguez, voluntária ou culposa, pelo álcool ou substância de efeitos análogos”. Por essa norma, o fato da pessoa estar alcoolizada não é justificativa para a prática de crimes e violências.

Estatuto da Criança e do Adolescente/1990: “Art. 81. É proibida a venda à criança ou ao adolescente de: (...) II - bebidas alcoólicas; Art. 243. Vender, fornecer, servir, ministrar ou entregar, ainda que gratuitamente, de qualquer forma, a criança ou a adolescente, bebida alcoólica ou, sem justa causa, outros produtos cujos componentes possam causar dependência física ou psíquica: Pena - detenção de 2 (dois) a 4 (quatro) anos, e multa, se o fato não constitui crime mais grave”. Com esse comando busca-se proteger os menores de idade, inclusive para casos de acesso de menores a bebidas alcoólicas em festas familiares.

Código de Trânsito Brasileiro/1997: “Art. 165. Dirigir sob a influência de álcool ou de qualquer outra substância psicoativa que determine dependência: Infração - gravíssima; Penalidade - multa (dez vezes) e suspensão do direito de dirigir por 12 (doze) meses. Penalidade - multa (dez vezes) e suspensão do direito de dirigir por 12 (doze) meses. Parágrafo único. Aplica-se em dobro a multa prevista no caput em caso de reincidência no período de até 12 (doze) meses; Art. 302. Praticar homicídio culposo na direção de veículo automotor. Penas - reclusão, de cinco a oito anos, e suspensão ou proibição do direito de se obter a permissão ou a habilitação para dirigir veículo automotor. Art. 306. Conduzir veículo automotor com capacidade psicomotora alterada em razão da influência de álcool ou de outra substância psicoativa que determine dependência: Penas - detenção, de seis meses a três anos, multa e suspensão ou proibição de se obter a permissão ou a habilitação para dirigir veículo automotor”.

A legislação brasileira não é rigorosa nas punições de violências relacionadas ao uso de álcool, mesmo que em pequenas quantidades. O que de certa forma contribui para a sensação de impunidade.

Já que o legislador é leniente, cabe á sociedade civil, e às comunidades judaicas, se perguntarem que tipo de educação estímulo e exemplo estamos dando para os jovens. Será que a famosa frase de Rava, sempre lembrada e citada, é a forma judaica mais adequada de comemorar Purim? E a crítica à Rava trazida pelo Talmude logo após sua polêmica fala, seguida de inúmeras orientações rabínicas ao longo dos séculos?

Além dessas questões, o Judaísmo Liberal reconhece o perigo da ingestão abusiva de álcool, que pode levar a um quadro de descontrole, o alcoolismo. Nesse sentido, apesar de ser uma doença, ainda assim existem as responsabilidades da pessoa afetada, a primeira delas é a de procurar tratamento e cuidados.

Talvez desde já possamos iniciar campanhas, atividades e arrecadações para que as próximas celebrações de Purim tenham menos influências dos persas de Achashverosh, e mais consciência das advertências da Torá, e das recomendações de nossos Sábios.

quarta-feira, 19 de março de 2025

Iachad (juntos - יחד) - por André Naves: Milagres

 



          Eu já contei pra vocês, mas não custa repetir, que as caminhadas são parte da minha vida. Nelas que eu proseio com D´us, penso, organizo as minhas pendengas da mente... É caminhando que eu me entendo comigo mesmo e com Ele!

          Dia desses, lá na esquina da Diana com a Palestra Itália, eu reparei em algo que sempre esteve lá, mas eu nunca tinha enxergado! Sabe quando a gente se acostuma com a paisagem, e em vez de descobrir o extraordinário no ordinário, a gente faz justo o contrário? A gente se acostuma... Vira rotina... A gente diminui tudo de mais extraordinário em algo simplesmente comum... Ordinário!

          Pois bem... Eu tava lá: esquina da Diana com a Palestra, esperando o sinalzinho verde para atravessar... Olhei para o lado e pronto! SESC Pompeia em toda sua solidez modernista. Eu fiquei até com vergonha...

          É que eu adoro o Sesc. Sempre vou lá. Teatro, exposições, shows... Tem vez que eu vou até lá só para dar uma volta... Fiquei envergonhado mesmo: como que eu sempre via mas nunca enxergava? Aquele edifício da Lina é um marco modernista. Como eu podia ignorar? Que caminhada era essa que fechava meu entendimento?

          Justo eu que admirava tanto aqueles traços, tão brutais e humanos? Tão imprevisíveis como a gente? O concreto era a carne! O vermelho, o sangue! O povo, o espírito!

          E enquanto no passo a passo de pura reflexão, percebi os milagres da vida que passam escondidos no batidão do corre! A tradição que, de geração em geração, foi sendo construída, não sem obstáculos e dificuldades, até se materializar no gênio de uma imigrante, de uma pessoa extremamente humana como todos nós, cheia de acertos e defeitos!

Ela fugiu pra cá, veio beber da Luz, estava enojada com as trevas miseráveis do Velho Mundo! Veio para cá, contra todos os dramas da vida, e aqui construiu Beleza! A Beleza!

E, para trás, somos frutos de gerações... Não somente um “eu”, mas sim um “nós”! Sorrisos, contentamentos e bençãos!

Esse, os Milagres cotidianos!

André Naves
Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Sociais, Inclusão Social – FDUSP. Mestre em Economia Política - PUC/SP. Cientista Político - Hillsdale College. Doutor em Economia - Princeton University.  Comendador Cultural. Escritor e Professor.

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Instagram: @andrenaves.def