Nos últimos dias houve uma sobreposição interessante: uma tempestade de rara magnitude derrubou milhares de árvores e deixou mais de um milhão de imóveis de São Paulo sem energia; após a agora demonizada concessionária responsável ampliar a falta de luz de um dia para oito dias em muitas residências, no domingo iniciamos a celebração de Chanuka lembrando o malsucedido cerco do Império Selêucida aos Macabeus no segundo Templo de Jerusalém em 165 A.E.C., quando se deu o milagre do óleo - suficiente para um dia - que durou oito dias… Conosco hoje aconteceu o oposto de um milagre! Achei 13 antônimos para a palavra milagre, todos na linha da banalidade, normalidade chegando a desgraça e calamidade.
Quando em Bondi, na Austrália, se comemorava o milagre de 165 A.E.C, em 2025 pai e filho terroristas trouxeram a calamidade de - até agora - 16 mortos e mais de 40 feridos.
Vivemos cada vez mais tempos de desgraças do que de milagres…
As adversidades nos impedem de ver os milagres à nossa volta, se é que acontecem…
E tem sido em tempos de desgraças, de crises, que floresce o ódio, o culpar alguém pelo próprio infortúnio. Mas também tem havido ódio e cobiça em tempos de paz e prosperidade, a ambição e competição continuam alimentando almas pequenas mesmo que elas estejam se dando bem… é possível, e tem acontecido continuamente, criar-se em qualquer época e situação, teorias conspiratórias das quais dificilmente se escapa.
Como conta a Parashá desta semana, Mikets, já em tempos de “vacas gordas” quem tem sucesso, lidera, influencia, acaba incomodando por exercer esse controle, por “se sobressair”, como o fez José no Egito após interpretar os sonhos do faraó e propor estratégias de “poupança”, de prevenção contra os tempos de “vacas magras”, a fome e a escassez. Quando, após a morte do faraó amigo, um novo líder subiu ao trono, os hebreus já haviam se multiplicado e viviam bem em terras egípcias e temendo a força desta presença o novo faraó escravizou-os, perseguiu-os, levando-os a empreender o Êxodo…
Já mais recentemente na história, sofisticaram-se o ódio e a perseguição, travestindo-se de desprezo pela diferença, ímpeto de destruir o inferior, o impuro…
O que é único em todos os tempos e circunstâncias, é que o povo judeu seja ao mesmo tempo alvo de todas as teorias conspiratórias - a de sobressair-se e dominar, controlar, portanto, oprimir, como a de ser diferente, menor, não merecedor, justificando, no extremo, a sua própria eliminação.
Há tantos abrangentes e excelentes estudos sobre as bases do antissemitismo que nos ajudam a refletir e entender porque e como acontece e precisamos cada vez mais disso.
No nível não acadêmico uma ótima e interessante leitura é a potente provocação do comediante inglês David Baddiel - já escrevi aqui sobre ele - “Judeus não contam”, traduzido em 2022. Em tempos de grandes movimentos contra discriminação, contra o racismo, o antissemitismo não só não é incluído pelos “militantes” como, ao contrário, é reforçado, recrudesce!
É frustrante perceber que mesmo que expliquemos e entendamos o fenômeno, estamos sempre aquém dos instrumentos que nos defendam das desgraças, dos ataques que nos alcançam em todos os lugares e de todas as maneiras… não dá para descansar, para deixar de se preparar, de ficar alerta. Não dá para esperar milagres…
Shabat Shalom.

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