Eu adoro a Sabedoria de
nossa gente! Vocês sabem, né? Os conhecimentos que vão sendo legados, como
preciosidades sublimes, por uma oralidade popular. A gente ouve um dito e toda
a ciência do nosso cérebro começa a fazer sentido... Como eu nunca pensei nisso
antes?
Camarão que dorme a
onda leva! Dia da caça, dia do caçador! Passarinho que voa com morcego dorme de
cabeça pra baixo! Tanta filosofia que vai sendo transmitida... Tradição! É o
saber coletivo que ganha temperos individuais e volta para a brasa de um
banquete popular.
Eu sempre ouvia que o
sangue pretejava feito a terra. Em Jacareí a terra é escura, quase preta. Não é
igual aquela do Oeste, vermelha na cor e roxa no nome... Dizem que os
italianos, quando chegaram, chamaram aquela terra de “rossa”, e o caboclo
brasileiro ouviu, adaptou e, mesmo vendo a vermelhidão que tudo ficava, acabou
chamando-a de terra roxa...
Hospitalidade! Preferiu
chamar de roxo aquilo que sabia vermelho, ao invés de chamar seus convivas de
ignorantes...
E sabe o mais legal?
Tem coisas que só o Altíssimo explica! O sangue, quando envelhece, quando perde
oxigênio e frescor, vai roxiando... Vai pretejando! A terra que é escarlate,
mas tem nome de roxa é quase o sangue do mundo... Dependendo do lugar, é
vermelha! Dependendo do lugar, é roxa!
Aliás, dizem os sábios
que mal conhecem o alfabeto, que sempre que o sangue derrama na terra, ela
nunca esquece... Ela não esquece a morte e sempre celebra a vida! E sangue na
terra é o que? MORTE! ASSASSINATO!
A terra se lembra. E a Humanidade,
que no fim é terra, também. Ela morre um pouquinho...
Mas será que não tem
jeito de um assassinato cair no esquecimento? Se banhar no Lete... Dizem que tem
um ritual misterioso, indecifrável, que nem o rei Salomão, em toda sua
Sabedoria, pôde desvendar...
Imagine uma novilha
vermelha, com a pureza do alabastro. Suas cinzas, misturadas com água limpa e
cristalina, purificam aquele que tocou a morte. Uma impureza profunda, a mais
grave de todas, é lavada.
É daquelas coisas que
mal se explicam, apenas se sentem. Sabe um sonho? A gente acaba de acordar,
está tudo ali, na ponta da língua... Mas nenhuma palavra vem. Nada. E o sonho,
igual um rodamoinho de saci, vai desaparecendo...
É que o sagrado não
grita, ele sussurra seus segredos nos paradoxos. Lembra do mestre Ioda? Do
Mestre dos Magos? A charada pra eles era o ponto e a vírgula pra gente! E aqui que dá xeque-mate na gente: o
sacerdote, o homem puro que conduz o ritual para purificar o impuro, torna-se,
ele mesmo, impuro.
A pureza de um, para
existir, depende da impureza voluntária do outro. Que coisa mais linda! Que
coisa mais trágica!
Ligo a TV: mais um
assassinato. Uma jovem. Um nome, uma história, sonhos interrompidos a faca ou a
bala. Longe de mim. Não conhecia a vítima, nem o covarde assassino. Mas a
verdade da nossa unidade invisível, me bateu no peito: aquele sangue, derramado
a quilômetros de distância, também manchou as minhas mãos.
O assassinato nunca é
um ato individual. Ele é um rasgo no tecido da coletividade. Cada vida amputada
é uma profanação no corpo do povo. Pensa no ritual da vaca vermelha: a mancha nunca
desaparece; ela só é transferida.
O celebrante se
contamina para que o outro se purifique, mas a impureza da morte continua
circulando entre nós, o sangue que passamos de mão em mão. A comunidade nunca
sai ilesa. A humanidade nunca se limpa por completo de um mal tão profundo.
A lição da vaca
vermelha, penso eu, é a lição da responsabilidade coletiva!
Não existe problema delas.
A violência que atinge a periferia escurece o sol do bairro nobre. A bala que
cala uma voz empobrece o debate na universidade. O ato de matar não cria apenas
um morto e um assassino. Cria um povo de luto, uma terra que se lembra, uma
comunidade inteira que se torna, de certa forma, celebrante daquele ritual
sombrio.
A vida só se realiza na
convivência, na unidade coletiva. E a morte violenta, da mesma forma, é uma
ferida que só se sente na coletividade.
O que fazer, então, se
a mancha é indelével?
Nós nos tornamos os
celebrantes. Assumimos a impureza como nossa. Não nos isentamos, não apontamos
o dedo, não nos trancamos em nossas bolhas de pureza artificial. Pelo
contrário.
Aceitamos que, para
purificar o mundo, precisamos estar dispostos a nos "sujar" com a
realidade dele. Precisamos carregar um pouco da cinza, um pouco da dor, um
pouco da responsabilidade. É o nosso fardo e a nossa honra.
A vida é sagrada. A
esperança é sagrada. E a pureza não é um estado de ausência de manchas. É a
decisão diária e corajosa de segurar a mão do impuro e sussurrar: "Estamos
juntos nisso. Sua dor também é minha."
Que não nos enganemos.
A terra sempre se lembrará. Mas que ela se lembre não apenas do sangue
derramado, mas também dos celebrantes que, com as mãos marcadas pela cinza,
ousaram plantar uma semente de esperança em seu solo.
Sejamos puros. Não pela
isenção, mas pelo compromisso. JUNTOS!
André
Naves
Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Sociais, Inclusão
Social e em Economia Política.
www.andrenaves.com
Instagram: @andrenaves.def

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