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quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Iachad (juntos - יחד) - por André Naves: Escarlate

 



Eu adoro a Sabedoria de nossa gente! Vocês sabem, né? Os conhecimentos que vão sendo legados, como preciosidades sublimes, por uma oralidade popular. A gente ouve um dito e toda a ciência do nosso cérebro começa a fazer sentido... Como eu nunca pensei nisso antes?

Camarão que dorme a onda leva! Dia da caça, dia do caçador! Passarinho que voa com morcego dorme de cabeça pra baixo! Tanta filosofia que vai sendo transmitida... Tradição! É o saber coletivo que ganha temperos individuais e volta para a brasa de um banquete popular.

Eu sempre ouvia que o sangue pretejava feito a terra. Em Jacareí a terra é escura, quase preta. Não é igual aquela do Oeste, vermelha na cor e roxa no nome... Dizem que os italianos, quando chegaram, chamaram aquela terra de “rossa”, e o caboclo brasileiro ouviu, adaptou e, mesmo vendo a vermelhidão que tudo ficava, acabou chamando-a de terra roxa...

Hospitalidade! Preferiu chamar de roxo aquilo que sabia vermelho, ao invés de chamar seus convivas de ignorantes...

E sabe o mais legal? Tem coisas que só o Altíssimo explica! O sangue, quando envelhece, quando perde oxigênio e frescor, vai roxiando... Vai pretejando! A terra que é escarlate, mas tem nome de roxa é quase o sangue do mundo... Dependendo do lugar, é vermelha! Dependendo do lugar, é roxa!

Aliás, dizem os sábios que mal conhecem o alfabeto, que sempre que o sangue derrama na terra, ela nunca esquece... Ela não esquece a morte e sempre celebra a vida! E sangue na terra é o que? MORTE! ASSASSINATO!

A terra se lembra. E a Humanidade, que no fim é terra, também. Ela morre um pouquinho...

Mas será que não tem jeito de um assassinato cair no esquecimento? Se banhar no Lete... Dizem que tem um ritual misterioso, indecifrável, que nem o rei Salomão, em toda sua Sabedoria, pôde desvendar...

Imagine uma novilha vermelha, com a pureza do alabastro. Suas cinzas, misturadas com água limpa e cristalina, purificam aquele que tocou a morte. Uma impureza profunda, a mais grave de todas, é lavada.

É daquelas coisas que mal se explicam, apenas se sentem. Sabe um sonho? A gente acaba de acordar, está tudo ali, na ponta da língua... Mas nenhuma palavra vem. Nada. E o sonho, igual um rodamoinho de saci, vai desaparecendo...

É que o sagrado não grita, ele sussurra seus segredos nos paradoxos. Lembra do mestre Ioda? Do Mestre dos Magos? A charada pra eles era o ponto e a vírgula pra gente!  E aqui que dá xeque-mate na gente: o sacerdote, o homem puro que conduz o ritual para purificar o impuro, torna-se, ele mesmo, impuro.

A pureza de um, para existir, depende da impureza voluntária do outro. Que coisa mais linda! Que coisa mais trágica!

Ligo a TV: mais um assassinato. Uma jovem. Um nome, uma história, sonhos interrompidos a faca ou a bala. Longe de mim. Não conhecia a vítima, nem o covarde assassino. Mas a verdade da nossa unidade invisível, me bateu no peito: aquele sangue, derramado a quilômetros de distância, também manchou as minhas mãos.

O assassinato nunca é um ato individual. Ele é um rasgo no tecido da coletividade. Cada vida amputada é uma profanação no corpo do povo. Pensa no ritual da vaca vermelha: a mancha nunca desaparece; ela só é transferida.

O celebrante se contamina para que o outro se purifique, mas a impureza da morte continua circulando entre nós, o sangue que passamos de mão em mão. A comunidade nunca sai ilesa. A humanidade nunca se limpa por completo de um mal tão profundo.

A lição da vaca vermelha, penso eu, é a lição da responsabilidade coletiva!

Não existe problema delas. A violência que atinge a periferia escurece o sol do bairro nobre. A bala que cala uma voz empobrece o debate na universidade. O ato de matar não cria apenas um morto e um assassino. Cria um povo de luto, uma terra que se lembra, uma comunidade inteira que se torna, de certa forma, celebrante daquele ritual sombrio.

A vida só se realiza na convivência, na unidade coletiva. E a morte violenta, da mesma forma, é uma ferida que só se sente na coletividade.

O que fazer, então, se a mancha é indelével?

Nós nos tornamos os celebrantes. Assumimos a impureza como nossa. Não nos isentamos, não apontamos o dedo, não nos trancamos em nossas bolhas de pureza artificial. Pelo contrário.

Aceitamos que, para purificar o mundo, precisamos estar dispostos a nos "sujar" com a realidade dele. Precisamos carregar um pouco da cinza, um pouco da dor, um pouco da responsabilidade. É o nosso fardo e a nossa honra.

A vida é sagrada. A esperança é sagrada. E a pureza não é um estado de ausência de manchas. É a decisão diária e corajosa de segurar a mão do impuro e sussurrar: "Estamos juntos nisso. Sua dor também é minha."

Que não nos enganemos. A terra sempre se lembrará. Mas que ela se lembre não apenas do sangue derramado, mas também dos celebrantes que, com as mãos marcadas pela cinza, ousaram plantar uma semente de esperança em seu solo.

Sejamos puros. Não pela isenção, mas pelo compromisso. JUNTOS!


André Naves
Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Sociais, Inclusão Social e em Economia Política.
www.andrenaves.com
Instagram: @andrenaves.def

 

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