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quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Iachad (juntos - יחד) - por André Naves: Meu Faraó e Eu

 


         Dia quente aqui. Um calor abafado, um Sol ardido... Sábado de manhã. 08:00. Difícil caminhar... Vou descendo a Caraíbas... Parece até um deserto. Eu ia usar de um clichê super comum e falar em “deserto escaldante”, mas gato escaldado tem medo de água fria...

         Meu objetivo é claro e conhecido: quero dar uma olhadela no Palmeiras. A Ana Rosa sempre comigo, me dando as mãos para todo trupicão que dou... Sol forte... Atrapalha a vista... Atrapalha as ideias... De repente, trupico em mim mesmo...

         Deserto... Eu, eu mesmo e mim... Agora, há apenas um deserto... O deserto... O azul esbranquiçado do céu me lembra um mergulho... O mergulho... Lá estava ele sentado. Trono. Faraó.

***

- Achei que o deserto era lá fora. Acontece que ele é aqui dentro. E você... sempre no trono.

- André, minha criança... Você sempre me chama e depois vem o espanto. Sabia que foi você quem me semeou, grão por grão, areia por areia. A cada pequena fuga da sua responsabilidade! Eu sou apenas o Imperador deste reino que você construiu. Ninguém mais! Sou o Imperador Sol.

- Será que fui eu ou os outros? E você?  Imperador... ou tirano? Sua voz é o grilhão que me aprisiona. A masmorra que me impede de... ser.

- Ser? E você não é? Suas ideias são como passarinhos que voam ao menor custo, ao menor sopro de vento. Lembra da juventude? Caótica e impulsiva, feito a pororoca...  Seus fogos poderiam ter incendiado o ninho. Mas, não fui eu quem construiu a gaiola dourada para proteger você de si mesmo. Você não me convidou? Você não me pôs no trono, desesperado por uma ordem, por um rumo? Eu não tomei este poder. Fui só a voz que disse "não", quando seu coração gritava "sim" para anarquia.

- Tá certo que eu... eu precisava de uma lei. Mas, repetindo Brecht, todo mundo chama o rio de violento, mas ninguém fala nada das margens que o oprimem...

- Poesia? Você vive no mundo da Lua! Eu sou a Lei. A luz que dá a vida!

- Mas também a que cega e queima...

- A sua vida, a estrutura, o respeito... acha que nasceram do caos, da algazarra? Não. Nasceram da ordem que impus. Olhe ao redor. Olhe para sua vida, para o que você construiu. Veja as bênçãos, não apenas as correntes. Eu afirmo, repetindo a tradição eterna: Quão lindas são suas tendas, Jacó! Quão belas são suas habitações, Israel! Você não enxerga a beleza da cidadela que ergueu por medo de admitir que precisou de um arquiteto!

- Mas a que preço? Versões e fatos. A lenda diz que sou um homem de sucesso. O fato é que sou um cativo em meu próprio palácio.

- Não existem fatos, apenas histórias. E você se apegou à história do prisioneiro porque ela é mais confortável. Ela livra você da responsabilidade suprema. A Liberdade, meu filho, não é a ausência de muros. É a coragem de assumir a autoria de cada tijolo. Você quer a Liberdade? Então aceite a Responsabilidade pela sua vida. Pare de lutar contra mim. Eu não sou seu inimigo. Sou sua fundação.

- Então... você nunca irá embora?

- Ir embora? Hahahaha! Eu sou a forma da sua alma. Sou os limites, bons e ruins. Sabe o grilo falante? Lembra do ratinho do Dumbo? Sou a prudência que te salvou e o medo que te paralisa. Sou a memória do seu pai, a sabedoria do seu avô, a disciplina de sua mãe... Você não pode me silenciar. Você aprende a dançar comigo.

- EU NÃO SEI DANÇAR!

- Até agora... Ninguém sabe nadar até a água bater na bunda... Só um passo de cada vez. Você precisou de mim para sobreviver à sua juventude. Agora, talvez precise de uma longa peregrinação neste deserto para entender minhas palavras. Para ver a beleza que pode nascer da aridez. Para encontrar a rosa nascida do lixo. Para olhar para trás, não com raiva, mas com gratidão.

- Obrigado... por me manter vivo. Por ter sido a sombra quando o meu Sol era forte demais.

- Agora você começou a entender, cabeçudo! Abençoe o passado para poder enxergar o futuro. O deserto ainda é longo, mas você não tá mais perdido nele. Você tá apenas... caminhando. E lembre-se sempre: é trupicando que a gente aprende a caminhar!

***

         No fim, o Faraó parecia muito comigo. Pudera... Ele era eu!

         Que voz importante a dele... Lógico que só faz sentido quando temperada pela conveniência do real, do concreto.

Era mais uma lição: quando ouvir e quando me pedir licença para seguir.

***

De repente, a luz do Faraó diminui, o trono se desfaz... O deserto recua.

O som de uma freada me traz de volta. A verdade é que nunca fui a lugar nenhum. Estou na esquina da Caraíbas com a Bartira. O sol ainda arde. Agora, não tenho mais um tirano, mas um companheiro de vida.

Ana Rosa segura minha mão com mais firmeza, como se soubesse que algo em mim acabou de mudar. Sempre muda... Continuo a descer a rua, um passo de cada vez.


André Naves
Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Sociais, Inclusão Social e em Economia Política.
www.andrenaves.com
Instagram: @andrenaves.def

 

 


VOCÊ SABIA? - A doença que paralisou a América

 

1952 - O ano em que os pais americanos desaprenderam a respirar

Por Itanira Heineberg


 

Você Sabia que em seu auge, no ano de 1952, a poliomielite matou mais de 3.100 americanos?

E que três anos depois, a doença mais temida do seu século foi derrotada com a vacina desenvolvida por Jonas Salk, um cientista judeu?


Primeiro caso é detectado nos anos 50

 

Naquele ano, cerca de 57 mil crianças americanas contraíram poliomielite.

Os parques silenciaram, as piscinas esvaziaram, os cinemas apagaram suas luzes por falta de público, as escolas despovoadas...


 

Dentro de casa, janelas fechadas, mães e pais tentavam erguer muralhas invisíveis contra um inimigo que chegava sem avisar — e que podia transformar um corpo infantil em um campo de batalha contra si mesmo.

 

 

Nos hospitais, fileiras de pulmões de aço compunham uma música mecânica e assombrosa.

Cilindros metálicos respiravam por crianças que já não conseguiam fazê-lo por conta própria.

Algumas sairiam dali.

Outras jamais deixariam aquela cápsula.


 

E enquanto o país inteiro prendia o fôlego, em um laboratório subterrâneo em Pittsburgh, Jonas Salk, um cientista generoso e despreendido, corria contra o tempo — e contra a morte.


 

Filho de imigrantes judeus russos, criado em um bairro modesto do Bronx, Salk cresceu ouvindo da mãe uma frase que moldaria sua vida:

“Você deve parecer que pertence, mesmo quando disserem que não.”

Ele foi o primeiro da família a entrar na universidade. Escolheu a ciência em vez da clínica.

“Por quê?”, perguntou a mãe.

“Porque não quero ajudar um paciente de cada vez”, respondeu. “Quero ajudar milhões.”

 

Em 1952, Salk ousou propor o impossível: uma vacina feita com o vírus morto.

Colegas desconfiavam. Alguns o chamavam de imprudente.

Mas Salk havia percebido um detalhe decisivo: as crianças que sobreviveram à pólio jamais adoeciam de novo. O corpo se lembrava do inimigo.

Se pudesse ensinar essa memória ao sistema imunológico — sem o risco da doença — talvez pudesse mudar o mundo.

Mas a teoria precisava de coragem. E coragem, às vezes, veste o rosto da loucura.

Em 2 de julho de 1953, Salk tomou uma decisão que hoje seria impensável: injetou a si mesmo com sua vacina experimental.

Depois, à esposa, Donna.

Depois, aos filhos — Peter, de 9 anos; Darrell, de 6; Jonathan, de 3.

Colegas murmuravam pelos corredores:

“Louco.”

“Gênio.”

“Ou os dois.”

 

Por semanas, ele observou seus filhos com o coração apertado.

Nenhuma febre. Nenhum sinal.

Apenas anticorpos.

Funcionara.

Mas três crianças eram uma gota num oceano.

Era preciso testar milhares.

 

E assim, em 26 de abril de 1954, na Escola Franklin Sherman, Virgínia, o pequeno Randy Kerr, 6 anos, arregaçou a manga e se tornou o primeiro voluntário do maior estudo médico da história.

 

A criança abaixo, aluno de uma Escola da Virgínia, não é Randy Kerr.


Depois dele, vieram 1,8 milhão de crianças — os “Polio Pioneers”, orgulhosos de seus distintivos.



Os pais assinavam formulários com mãos trêmulas. Igrejas faziam vigílias.

Um país inteiro esperava.

Salk, exausto, emagrecido, dormindo pouco, vivia atormentado:

E se tivesse cometido um erro irreparável?

Cada febre em qualquer criança do estudo parecia um golpe na sua consciência.

Então, 12 de abril de 1955 — exatamente dez anos após a morte de Franklin D. Roosevelt, o presidente americano que contraíra a doença aos 39 anos de vida  — os resultados foram anunciados:

“Seguro. Eficaz. Potente.”

O auditório explodiu.

Sinos tocaram em várias cidades.

Lojas fecharam espontaneamente.

Pais choraram abraçados aos filhos.

 

Horas depois, perguntaram a Salk quem detinha a patente.

Ele respondeu:

“O povo, eu diria. Sem patente. Como se pode patentear o sol?”

E com essa frase, ele abriu mão de uma fortuna incalculável — e entregou ao mundo sua arma contra o terror.

O efeito foi imediato:

– Em 1961, os casos caíram mais de 90%.

– Em 1979, a poliomielite foi eliminada nos EUA.

– Em 2023, persistia apenas em dois países.

– Cerca de 18 milhões de pessoas que teriam ficado paralisadas podem caminhar hoje.

– Centenas de milhares de vidas foram salvas.

Salk nunca recebeu o Prêmio Nobel.

Mas recebeu algo que poucos ganham: a visão de crianças correndo por parques onde antes só havia medo.

 

Quando perguntado o que queria escrito em sua lápide, respondeu:

 

“Preferia que ela ficasse em um parque. Onde brincam as crianças que não pegaram poliomielite. Isso é suficiente”

E assim, em um depósito em Atlanta, repousa hoje um dos últimos pulmões de aço — relíquia de um inimigo vencido.

Vencido porque um homem decidiu arriscar tudo — até a própria família — para proteger milhões de outras.

 

 

Ele poderia ter sido o cientista mais rico da história.

Preferiu ser algo infinitamente mais raro:

indispensável.

 

Da próxima vez que alguém disser que uma única pessoa não muda o mundo, conte sobre o verão de 1952, quando o medo encheu o ar… e sobre Jonas Salk, o homem que decidiu dar o sol à humanidade.



Seguindo a tradição judaica, observando um dos tripés da religião conhecido como Tikun Olam, Jonas Salk, o cientista abnegado de seu século, com atos de amor, compaixao e bondade, praticou justiça, caridade e a responsabilidade de ajudar os necessitados.


 


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FONTES:

https://archive-share.america.gov/pt-br/como-os-eua-venceram-a-polio/

https://www.fatosdesconhecidos.com.br/o-que-podemos-aprender-com-o-surto-de-poliomielite-dos-anos-1950/

https://hpcs.bvsalud.org/vhl/temas/historia-das-doencas/historia-da-poliomielite/

https://www.bbc.com/portuguese/articles/cg3q13v76n4o

https://www.livescience.com/48513-polio-vaccine-gallery.html