| Ein Keren, Jerusalem |
Por Regina P Markus - 22 de janeiro de 2026
Israel, um país eterno
Estar em Israel no Natal de 2025 e nos primeiros 20 dias de 2026 foi uma experiência ímpar, mesmo para quem já visitou o país muitas vezes. Na viagem de ida aproveitei para reler a “Vida de Flavius Josefus”. Um relato autobiográfico escrito entre 94-99 EC (Era Comum) em resposta a duras críticas feitas ao livro “Antiguidades” (93-94 EC) e à pessoa de Flavius Josefus. FJ era um judeu da Tribo dos Levi, nascido em Jerusalém. Foi comandante das forças de Israel na Galileia e rendeu-se a Vespasiano (então comandante do Exército Romano do Oriente) em 67 EC. Quando Vespasiano tornou-se imperador, concedeu a liberdade ao Comandante em Chefe do Exército de Israel no Norte, e este adotou o nome de Flavius, nome de família de Vespasiano. Tornou-se romano, mas, ao escutar como a história dos judeus estava sendo relatada, escreveu sua versão. Foi uma boa introdução para o que encontrei nesta virada de ano, no século XXI.
Hoje, ainda há tempo e desejo de muitos para transformar resiliência em tolerância. Esta seria a fórmula mágica para evitar copiar os tempos de Flavius. Muito escutei falar sobre os quatro filhos citados na Hagadá de Pessach. O sábio (Rarram) que faz perguntas objetivas, o malvado (Rashá) que não adere aos princípios e contesta com veemência, o ingênuo (Tam) que faz perguntas básicas, deixando claro que não tem conhecimento e que não sabe perguntar (no hebraico a frase é traduzida literalmente). A este o caminho deve ser mostrado de forma a permitir a inclusão. Tempos de tolerância implicam em conseguir balancear as personalidades e trazer para o centro de decisão pessoas que atuem em busca da tolerância e convivência. Esta será a forma para que o terceiro Estado de Israel independente suplante este longo período de guerra.
Estar em Israel convivendo com família e amigos, morando alguns dias em Lares Estruturados para idosos e andando a pé, conversando com pessoas na rua e sofrendo as pressões e incertezas do dia-a-dia permitiram concluir que a tolerância está mais próxima do que imaginamos. No comércio e nos restaurantes há espaço para todos e mais do que em outras oportunidades. Sentei sem nenhuma restrição em restaurantes de diferentes origens. Os mais diferentes sabores e temperos podem ser encontrados lado a lado. E voltei a ficar encantada por encontrar doces sem açúcar em alguns restaurantes árabes. O mundo ocidental, que muito respeita a rotulagem, tornou a vida dos que não comem açúcar adicionado muito difícil. Sabores diferentes temperam a vida!
A guerra atual deixou muitas marcas, e a resiliência é uma delas. Vou aqui transformar esta palavra “filosófica” em algo muito tangível. Muitas pessoas trabalhavam o tempo todo com luvas pretas. E sobre estas colocavam luvas transparentes. À primeira vista pode parecer algo ligado à higiene, mas na realidade são pessoas que sofreram amputações e se adaptaram aos membros artificiais. Estas cenas também se repetem no convívio familiar e com amigos. Minha impressão é que esta guerra, que está sendo muito longa e que tem como objetivo o isolamento e a difamação, deixará como resultado uma sociedade que sabe superar as dificuldades. Muitos outros sinais que não deixavam esquecer o quanto os israelenses pagaram por estar sob ataque diário em todas as frentes. E o dia-a-dia continuava normalmente. Visitar locais históricos milenares e caminhar por rotas que fazem parte de nossa história foi um dos grandes prazeres desta viagem. Pouco turismo e o país em reconstrução. Os danos impingidos pelos inimigos não foram poucos nem aleatórios. E esta ideia eu não tinha tido na minha última visita em maio de 2025.
Nem precisei de muito para entender o porquê. Aquela viagem foi no período que muitos israelenses chamam de guerra dos 12 dias. Os 12 dias em que o Irã atacou Israel de forma precisa promovendo grandes destruições em locais de importância. Sim, isto foi em 2025! Foi quando Israel foi acusado e acusado e acusado... e o que mais me impressionou foi ver como a economia israelense reagiu.
🚀 Israel Tech 2025: um ano histórico de saídas, investimentos e inovação. O ecossistema de tecnologia israelense encerrou 2025 com números que reforçam seu papel como um dos mais dinâmicos e resilientes do mundo — mesmo em um cenário global desafiador.
🔹 Saída de empresas (Exits)
Saídas de empresas de tecnologia israelenses somaram US$ 17,7 bilhões, em 182 transações, superando 2024.
Destaque para 4 mega-aquisições acima de US$ 2 bilhões cada: Next, Melio, Sapiens e Verint.
Hoje muitos dizem: superamos e vencemos.
IMPRESSÕES DA VIAGEM
Estar no dia 24 de dezembro em Jerusalém permitiu sentir o respeito por todas as religiões. Na Cidade Velha, dentro das muralhas, há locais em que foram erguidas igrejas cristãs ao longo dos séculos. É construído um presépio e árvores de Natal para comemorar a data. Andamos por este bairro e seguimos para o Muro Ocidental, cruzando civilizações e muitos séculos. Terminar o dia na Biblioteca Nacional, onde pudemos acompanhar as muitas facetas judaicas.
Foi um grande privilégio ver os originais de Flavius Josefus.
Sentar e ler os procedimentos médicos de Rambam foi divino. Rambam (Rabi Moshe ben Maimon, Maimonides) nasceu em 30 de março de 1138 em Córdoba, Andaluzia, Reino Almorávida. A chegada dos cristãos obrigou judeus e mouros a fugirem para a África. Maimônides, filósofo e médico, estabeleceu-se no Egito. Foi um dos primeiros personagens da história a integrar a medicina e o judaísmo, difundindo a tese de que a saúde física é essencial para a vida religiosa. Escreveu o código da lei judaica “Mishne Torá”. Sentei-me mais de uma hora neste espaço tão rico que une duas de minhas paixões e saí com a confirmação de que no judaísmo a VIDA é o nosso bem mais precioso e que qualquer lei ou regra pode ser transgredida se for para salvar uma vida. Esta é uma biblioteca lúdica para crianças, visual para os amantes das artes e as visitas guiadas nos levam aos muitos mundos judaicos. Somando a isso, há uma arquitetura que permite ver Jerusalém de muitos ângulos.
Visitei muitos outros lugares pela primeira vez, em Jerusalém e em Israel. No futuro vou escrever um texto sobre o Museu Ralli em Cesareia. O filantropo Harry Recanati (1918-2011) e sua esposa Martine Weil Recanati fundaram uma rede de museus. Em todos estes museus a entrada é gratuita. O objetivo é que a condição econômica não seja um empecilho para usufruir de momentos de arte e cultura, contemplando arte moderna latino-americana, surrealismo e arte europeia dos séculos XVI a XVII. São cinco museus ao redor do mundo: Punta del Este (Uruguai, 1982), Santiago (Chile, 1992), Cesareia (dois museus, 1993, 2007) e Marbella (Espanha, 2000). A arquitetura dos museus é semelhante, privilegiando a entrada de luz ambiental. Os dois Rallis de Israel ficam na mesma plataforma de 40.000 m² olhando para o Mar Mediterrâneo. Recanati era o dono do Discount Bank, Israel, e sua esposa era médica, atendia a população menos favorecida. Quando estavam mais idosos, criaram uma Fundação que se tornou a curadora dos museus. O montante de recursos da Fundação e os Estatutos permitem que este seja o legado de um casal que dedicou grande parte de sua fortuna pessoal para "alimentar" pessoas com cultura e arte.
OLHEM ALGUMAS IMAGENS - Museus em Cesareia, Israel
Conviver com pessoas que imigraram da Ucrânia há mais de 20 anos e que agora trazem seus familiares foi uma outra experiência marcante. Como trazer familiares que lá ficaram? Qual a diferença entre trazer homens e mulheres? As casas que visitei estavam todas enfeitadas com árvores de Natal. Muito lindas, com toda a artesania russa. As pinturas e os presépios eram maravilhosos. Rostos com muita expressão e roupas costuradas com os detalhes das vestimentas russas. Apesar de já ter lido muito sobre o tema, estar com pessoas que acendem as velas de Shabat ao lado de árvores de Natal soou estranho. E lá veio a explicação. Por tantos anos a religião foi proibida na União Soviética, nas províncias que tinham um forte componente cristão eles passaram a usar estratégias que eram usadas pelos judeus locais para driblar as proibições. Assim, enfeitar árvores e ruas ganhou uma conotação cívica. Além disso, durante a imigração ucraniana vieram para Israel muitos que não tinham ascendência judaica. Pois é, os judeus e não judeus vindos de território ucraniano cujo idioma original era russo mantêm uma identidade que premia a diversidade.
Há muito a contar e muito a debater. Por hoje vou ficando por aqui, com uma sensação de ter feito um depoimento sobre fatos vividos e sobre impressões baseadas em conhecimento milenar.
Regina
Que prazer começar o dia lendo teu relato maravilhoso, passou por tudo e nos envolve desde todos os sentidos. Que boa forma de olhar para Israel dentro de esta continuidade de sucessos bem descrita! Parabens Re!
ResponderExcluirQue bom ler teu comentário Marcela. E aqui agradeço os papos da semana que ajudaram a finalizar este Acontece.
ExcluirÉ um deleite viajar com você pelo lugar mais debatido e observado do mundo e receber informações verídicas e fundamentais para quem quer conhecer Israel, a única democracia do Oriente Médio, o melting point da diversidade humana. Parabéns, Ita
ResponderExcluirOi Ita, que comentário legal. Eu agradeço a edição do texto!! Vc sempre cuidando de todos os detalhes de forma essencial!
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