Andínia,
1815
Soprava
aquele vento gelado dos Andes. Dentro do Salão dos Espelhos do Palácio Imperial,
o mundo era outro. Centenas de velas em candelabros de cristal, pelo teto e
móveis. Comendador olhou para aquilo e pensou no perigo ardente...
As
chamas, lágrimas de luz caótica e dançante, multiplicavam-se nas paredes
espelhadas, criando um universo novo, ideal, belo e sem fronteiras. O sussurro
de sedas e brocados, toaletes e fardões, os brindes, taças, sorrisos e a
orquestra: valsa animada, meio samba, meio salsa, majestosa, um convite à ordem
e à harmonia.
“Gente
que festeja, não irrita...”, pensou com seus botões o Comendador...
Dava
pra ver, através das cortinas entreabertas, a neve da cordilheira... Os Andes, os
gigantes que nos protegem, as sentinelas sob um céu de Esperança.
Este
seria o grande baile anual, o primeiro de uma Era de Ouro do Povo, que após
tanta peregrinação estava firme no propósito de construir Andínia, aquela nação
jovem, forjada no fogo do Propósito, da Disciplina e da Perseverança!
Afastados
dos comensais dançantes, uma rodinha de celebridades conversava perto de um dos
imensos afrescos que retratavam os passos daquela caminhada diaspórica milenar.
Resolveu, o Comendador, se aproximar... Era
uma conversa filosófica entre o Conselheiro, a Cientista Markus e a Filósofa...
Debatiam
toda aquela saga vitoriosa... Como um Povo conseguiria sair de um cativeiro, peregrinar
pelo deserto, ser perseguido, exilado, mas terminar ali, naquele baile? Será
que depois de tudo, a neve andina seria o descanso final, um local de
Prosperidade e Paz?
O
Comendador, homem tímido e ponderado, nem sabia o que, ou como, ou se,
dizer... O Conselheiro parecia calcular o peso de cada palavra, sua mente
focada nas estruturas mundanas que sustentavam — ou falhavam em sustentar — a
nação. A Cientista, cujos olhos azuis se escondiam atrás das lentes escuras, representava
o questionamento constante, a busca incansável pela verdade, fosse ela
encontrada num microscópio ou num silogismo. E a Filósofa, então? Ela se
impressionava com a diversidade do Povo que, unido e sem deixar ninguém para
trás, conquistou tanto!
A
Cientista, com seu olhar admirado com tudo ao redor, disse: "É fascinante!"
"Todo este luxo, essa harmonia e beleza... É inevitável! Brotam-me
questionamentos. Qual a verdadeira função disso tudo? É uma celebração da
unidade ou uma anestesia coletiva para que esqueçamos o caos mundano?"
O
Conselheiro ajeitou o monóculo, um gesto habitual. "Ambos! A liderança de
uma nação nova precisa de símbolos. Este baile é a materialização da
estabilidade que a gente sempre procurou. Cada passo da dança, cada norma, é um
pequeno mandamento que reforça a ideia de uma sociedade coesa, unida. Somos um!
No fim, é uma manifestação estética da Justiça e do Louvor: cada um em seu
lugar, movendo-se em Harmonia."
O
Comendador, que só observava, também deu seu pitaco. "Lá na minha terra,
os antigos diziam: 'A festa pode ser vistosa, mas o que sustenta a casa não são
os adornos, são os alicerces'. E os alicerces de uma nação, assim como os de um
homem, não são visíveis..."
Na
janela, ele apontou pra noite lá fora. "A beleza da noite não engrandece a
existência da montanha. A montanha simplesmente é. Imponente. Sólida.
Perene. Ela nos lembra da necessária Humildade diante do que é maior que nós.
Assim também são os verdadeiros Mandamentos. Não os da etiqueta ou do baile,
mas aqueles que D'us inscreveu na música do coração."
A
Assistente antecipou o nem nascido Saint-Exupery: “O essencial é invisível...”.
E continuou... "Uma bela metáfora, Comendador. Mas como essa 'música' se
traduz em políticas públicas? Em tribunais justos? A justiça precisa de leis,
de códigos, de estruturas. A integridade de uma nação depende de instituições
íntegras, não de sentimentos."
"É
aqui em que a ciência encontra a filosofia", interveio a Cientista.
"Como podemos ter certeza de que todos ouvem a mesma música? A minha busca
é por princípios universais, pelos Mandamentos! Quero uma moral que possa ser
demonstrada, não apenas sentida. O que garante que a 'música' de um não seja o
ruído de outro?"
“Assim
como um rio ganha ao receber seus afluentes, o fogo das ideias ilumina mais
quando se escuta.”
As
pessoas dançando eram como a vida: alguns se moviam bem, com graça e precisão;
outros, mais desajeitados; alguns dançavam para serem vistos, outros, para
sentir a música; e havia aqueles que dançavam por puro amor à dança, ao
encontro com o outro. Tinha aqueles ainda que não dançavam... Sorriam, comiam,
bebiam e observavam!
"Estruturas...
Princípios Universais... Todos vitais. São o mapa e a bússola. De que serve o
melhor mapa se o viajante não sabe para onde vai? De que serve a bússola mais
precisa se o coração do navegador aponta para o sul, mas seus atos o levam para
o norte? Palavra não enche barriga, e promessa não assenta tijolo."
"São
os nossos atos que dão forma e trazem luz ao nosso destino. Nossos atos, e não
nossas palavras, mostram quais os valores que realmente importam. O homem que
prega a paz, mas não estende a mão; a nação que escreve 'liberdade' em sua
constituição, mas acorrenta seus cidadãos com a miséria... Ações gritam mais
alto que discursos. É o ato, o gesto concreto, a escolha, que revela o
verdadeiro caráter."
“Os
Mandamentos Divinos não são um teto! São o chão sobre o qual nos erguemos. Eles
não dão frutos sozinhos... É igualzinho à partitura de uma sinfonia! Numa
gaveta, não é nada... É preciso de um músico a toque!”
“Verdade!
São os atos, atos de pura intenção, que concretizam os mandamentos e trazem as Virtudes.
A Justiça não é uma lei no papel; é o ato humano em busca da Autonomia. A Humildade
não é uma palavra ao vento; é dar importância ao outro... A Integridade não se
ganha com títulos; é uma decisão diária de se buscar ser um só,
inteiriço."
De
repente, o silêncio...
“Quem
fala demais, dá bom dia a cavalo.”.
Entre
tanta dança, a conversa deles também era um ballet. Uma dança de ideias, onde
almas diferentes, com seus próprios ritmos e melodias, buscavam uma harmonia
comum.
"No
fim...", escutou-se, "o Iachad, essa unidade que buscamos, não é
sobre todos marcharem no mesmo passo."
"Não...".
"É
sobre todos ouvirem, cada um à sua maneira... É a música da dignidade, do
respeito, da busca por algo maior. É a vibração que nos conecta, mesmo na
diferença. É o reconhecimento de que, neste grande baile da existência, estamos
todos, de alguma forma, de mãos dadas, mesmo que não nos toquemos."
Na
noite andina, em que as estrelas são as guardiãs do mundo, escutou-se...
"O baile um dia acaba. As velas se apagam. As fundações permanecem!”
“A
Luz que realmente importa não é a das promessas, mas a dos nossos atos."
A
orquestra voltou... Mais música no salão!
Um
só Povo!
Iachad!
André Naves
Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Sociais, Inclusão
Social e em Economia Política.
www.andrenaves.com
Instagram: @andrenaves.def

André, este texto tem a minha cara. Amo voar para lugares nunca dantes navegados e dançar diferentes ritmos e músicas. E é essa vontade de ver os diferentes nuances de um mesmo momento, ou de uma mesma música que permite alargar os horizontes. O Povo Judeu é assim, tão diverso e ao mesmo tempo tão identificável! Abração e Feliz 2026
ResponderExcluirOi Regina! Muitíssimo obrigado! Fico extremamente feliz que você tenha gostado!
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