“Nada de novo no front”, ou, nos fronts… uso aqui a mesma ironia do escritor alemão Erich Maria Remarque, autor do livro de 1929 de mesmo nome: ele trazia essa frase que era do sistema de comunicação da fronteira na primeira guerra mundial para lembrar que apesar desta informação na realidade muitos soldados eram feridos ou mortos… já então era comum apenas mencionar se houvesse algum fato muito relevante mas costumava-se banalizar as baixas, mortes eram números nem dignos de nota fora do dia-a-dia local…
Os fronts mudam, a tecnologia das batalhas evolui e, sim, felizmente há menos feridos ou mortes quando se trocam as baionetas nas trincheiras e artilharia da época pelos drones mesmo que explosivos, mas a nossa banalização das baixas à distância permanece, cansamo-nos de acompanhá-las. Elas continuam e não há nada de relevante nas frentes de negociação que as faça parar.
Há negociações de todos os lados mas os combates continuam firmes…
Os dias estão particularmente difíceis para Netanyahu: pressão militar para debilitar o Hezbollah, pressão americana e de parte da população para cessar-fogo, pressão interna à coalizão devido à questão do alistamento dos ortodoxos, com provável antecipação das eleições, e pressão, ainda e sempre, pela investigação sobre as falhas de 7 de outubro. “Se correr o bicho pega, se ficar, o bicho come”.
Há várias conexões e paralelos entre o nosso momento e a parashá desta semana, Behaalotecha. Deus pede a Moisés que instrua o sacerdote Aarão a apontar para frente ao acender as luzes da Menorá, e nós precisamos que na escuridão das guerras sem fim as lideranças acendam luzes que acenem para um futuro de paz à nossa frente…
Parte fundamental da parashá é a nuvem divina que paira sobre o tabernáculo e que dita o ritmo da jornada pelo deserto. Esse ritmo é irregular e imprevisível e, para adequar-se, o povo precisa ficar alerta, preparado para sair ou para ficar por um tempo… nós precisamos, ao longo da nossa jornada, entender e prepararmo-nos para a hora de sair e para o período de ficar.
Na Parashá, apesar dos milagres, o povo reclama da alimentação e sente saudade do Egito. Entendemos que em momentos de pressão prolongada, as pessoas frequentemente se concentram no que falta e idealizam o passado. A parashá mostra que mesmo uma geração que presenciou eventos extraordinários não estava imune ao desânimo. Temos vivido décadas com avanços incríveis em todos os campos mas hoje frequentemente parecemos encurralados no que chamávamos de evolução ou progresso…
Na parashá, com as reclamações do povo e com críticas por parte de seus irmãos, Miriam e Aarão, Moisés fica sobrecarregado e pede ajuda a Deus, que então lhe ordena que escolha 70 anciãos para dividir consigo as responsabilidades da liderança… esta instância é a precursora do Sinédrio (o Sanhedrin), que só será estabelecido durante o período do Segundo Templo e dos Congressos e Parlamentos atuais... estas instituições que, se não ajudam e muitas vezes atrapalham os líderes na governança de seus países, são no entanto poderes fundamentais para buscar o equilíbrio de nossas frágeis democracias.
Por fim, em casa ou nas sinagogas estamos acendendo velas para mais um Cabalat Shabat, o recebimento do Shabat. Nesta ocasião acendemos apenas 2 velas. E por que 2? Para simbolizar os dois momentos em que são apresentados os dez mandamentos e que fazem referência ao Shabat: Zachor e Shamor.
Zachor (זכור) — “Lembra-te do dia de Shabat para santificá-lo” (Êxodo 20:8).
Shamor (שמור) — “Guarda o dia de Shabat para santificá-lo” (Deuteronômio 5:12).
Esta evolução é significativa - lembrar é importante mas é essencial agir, celebrar o Shabat parando as atividades sobretudo para refletir sobre a semana e se preparar para a próxima.
Shabat Shalom
Juliana Rehfeld




