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quinta-feira, 4 de junho de 2026

ACONTECE: Behaalotecha - a hora de sair e o período de ficar

 



“Nada de novo no front”, ou, nos fronts… uso aqui a mesma ironia do escritor alemão Erich Maria Remarque, autor do livro de 1929 de mesmo nome: ele trazia essa frase que era do sistema de comunicação da fronteira na primeira guerra mundial para lembrar que apesar desta informação na realidade muitos soldados eram feridos ou mortos… já então era comum apenas mencionar se houvesse algum fato muito relevante mas costumava-se banalizar as baixas, mortes eram números nem dignos de nota fora do dia-a-dia local…

Os fronts mudam, a tecnologia das batalhas evolui e, sim, felizmente há menos feridos ou mortes quando se trocam as baionetas nas trincheiras e artilharia da época pelos drones mesmo que explosivos, mas a nossa banalização das baixas à distância permanece, cansamo-nos de acompanhá-las. Elas continuam e não há nada de relevante nas frentes de negociação que as faça parar. 

Há negociações de todos os lados mas os combates continuam firmes…

Os dias estão particularmente difíceis para Netanyahu: pressão militar para debilitar o Hezbollah, pressão americana e de parte da população para cessar-fogo, pressão interna à coalizão devido à questão do alistamento dos ortodoxos, com provável antecipação das eleições, e pressão, ainda e sempre, pela investigação sobre as falhas de 7 de outubro. “Se correr o bicho pega, se ficar, o bicho come”.

Há várias conexões e paralelos entre o nosso momento e a parashá desta semana, Behaalotecha. Deus pede a Moisés que instrua o sacerdote Aarão a apontar para frente ao acender as luzes da Menorá, e nós precisamos que na escuridão das guerras sem fim as lideranças acendam luzes que acenem para um futuro de paz à nossa frente…

Parte fundamental da parashá é a nuvem divina que paira sobre o tabernáculo e que dita o ritmo da jornada pelo deserto. Esse ritmo é irregular e imprevisível e, para adequar-se, o povo precisa ficar alerta, preparado para sair ou para ficar por um tempo… nós precisamos, ao longo da nossa jornada, entender e prepararmo-nos para a hora de sair e para o período de ficar.

Na Parashá, apesar dos milagres, o povo reclama da alimentação e sente saudade do Egito. Entendemos que em momentos de pressão prolongada, as pessoas frequentemente se concentram no que falta e idealizam o passado. A parashá mostra que mesmo uma geração que presenciou eventos extraordinários não estava imune ao desânimo. Temos vivido décadas com avanços incríveis em todos os campos mas hoje frequentemente parecemos encurralados no que chamávamos de evolução ou progresso…

Na parashá, com as reclamações do povo e com críticas por parte de seus irmãos, Miriam e Aarão, Moisés fica sobrecarregado e pede ajuda a Deus, que então lhe ordena que escolha 70 anciãos para dividir consigo as responsabilidades da liderança… esta instância é a precursora do Sinédrio (o Sanhedrin), que só será estabelecido durante o período do Segundo Templo e dos Congressos e Parlamentos atuais... estas instituições que, se não ajudam e muitas vezes atrapalham os líderes na governança de seus países, são no entanto poderes fundamentais para buscar o equilíbrio de nossas frágeis democracias.

Por fim, em casa ou nas sinagogas estamos acendendo velas para mais um Cabalat Shabat, o recebimento do Shabat. Nesta ocasião acendemos apenas 2 velas. E por que 2? Para simbolizar os dois momentos em que são apresentados os dez mandamentos e que fazem referência ao Shabat: Zachor e Shamor.

Zachor (זכור) — “Lembra-te do dia de Shabat para santificá-lo” (Êxodo 20:8).

Shamor (שמור) — “Guarda o dia de Shabat para santificá-lo” (Deuteronômio 5:12).

Esta evolução é significativa - lembrar é importante mas é essencial agir, celebrar o Shabat parando as atividades sobretudo para refletir sobre a semana e se preparar para a próxima. 


Shabat Shalom

Juliana Rehfeld

VOCÊ SABIA? - O único país com mais judeus depois do que antes da guerra é muçulmano

 

Conheça a história da Albânia, do seu código de honra e dos muçulmanos que salvaram milhares de judeus do Holocausto.

Por Itanira Heineberg


Famílias albanesas, em sua maioria muçulmanas, acolheram em suas casas e protegeram milhares de refugiados de países como Alemanha e Áustria que fugiam da perseguição durante o Holocausto.

Você Sabia que a Albânia foi o país que apresentou o maior número de judeus em seu território ao final do Holocausto, ao contrário dos outros? Foi o único país em que isso aconteceu.

Hoje, seus cidadãos figuram entre os Justos entre as Nações no Jardim do Yad Vashem, o Centro Mundial da Memória do Holocausto em Jerusalém, Israel.

"Justos entre as Nações" é o título concedido pelo Museu do Holocausto - Yad Vashem - a não judeus que arriscaram suas vidas para salvar judeus durante o Holocausto. A Albânia é mundialmente reconhecida por este feito histórico, abrigando dezenas de homenageados e sendo o único país europeu com mais judeus após a guerra do que antes dela.


Berat, Albânia - família Frasheri, que salvou judeus da Iugoslávia.

Em 1945, a Albânia chegou ao fim da guerra com mais de 3 mil refugiados judeus em seu território. Como explicar este elevado número de sobreviventes ao final da guerra?

O que salvou estes indivíduos foi o código de honra denominado Besa, associado à tradicional solidariedade dos cidadãos albaneses.

Até então eu nunca havia ouvido falar deste código quase mágico, uma força potente que desafiou a intransigência, a dureza e a crueldade nazista.

Há anos convivo com famílias muçulmanas em nosso carinhoso grupo Família Abraâmica em São Paulo e nunca, em nenhuma apresentação, explicação ou aula este assunto foi aventado.

Nem nos livros de História, nem na literatura, nem no cinema.

Descobri com prazer o auspicioso conceito Besa.

Quem sabe ainda possamos reavivá-lo, difundí-lo, ensiná-lo ao mundo nestes tempos que vivemos, tempos de dor, ódio, guerras? Uma esperança brilha ao longe e hoje li que este código ainda está sendo observado na pobre e pequena Albânia de nossos dias. Recentemente, a Albânia recebeu e acolheu quatro mil afegãos fugindo das atrocidades do Talibã.

Falemos deste fenômeno Besa. Acredito que todos queiram conhecê-lo e talvez praticá-lo em suas vidas agora.

Besa é um código de honra cultural e ético tradicional albanês que dita que a casa de um homem pertence a um hóspede e a Deus, e que a hospitalidade sagrada exige a proteção da vida de qualquer pessoa que busque refúgio.

A maioria da população salvadora era muçulmana, mas o esforço envolveu cristãos e autoridades de todo o país. A Albânia não apenas protegeu sua pequena população de judeus nativos, como também acolheu centenas de refugiados que fugiram da Alemanha, Áustria e Iugoslávia.

Mais de 70 cidadãos albaneses foram oficialmente reconhecidos como "Justos entre as Nações" pelo Yad Vashem.




Este pequeno país montanhoso na costa sudeste da península balcânica tinha uma população de 803.000 habitantes. Destes, apenas duzentos eram judeus. Após a ascensão de Hitler ao poder em 1933, muitos judeus encontraram refúgio na Albânia. Não existem números exatos sobre a quantidade de judeus; no entanto, diferentes fontes estimam que entre 600 e 1.800 refugiados judeus entraram no país vindos da Alemanha, Áustria, Sérvia, Grécia e Iugoslávia, na esperança de seguir para a Terra de Israel ou outros locais de refúgio.

Existe uma lenda urbana que relata a passagem de Albert Einstein pelo país antes de se dirigir à Palestina, hoje Israel.

Após a ocupação alemã em 1943, a população albanesa, num ato extraordinário, recusou-se a cumprir as ordens dos ocupantes para entregar as listas de judeus residentes no país. Além disso, diversas agências governamentais forneceram a muitas famílias judias documentos falsos que lhes permitiram misturar-se com o resto da população. Os albaneses não só protegeram os seus cidadãos judeus, como também deram refúgio a refugiados judeus que tinham chegado à Albânia quando esta ainda estava sob domínio italiano, e que agora se viam ameaçados de deportação para campos de concentração.

A notável assistência prestada aos judeus baseava-se na Besa, um código de honra que ainda hoje serve como o mais alto código ético do país. Besa significa literalmente "cumprir a promessa". Quem age de acordo com a Besa é alguém que cumpre sua palavra, alguém em quem se pode confiar a própria vida e a de sua família.

A ajuda prestada tanto a judeus quanto a não judeus deve ser entendida como uma questão de honra nacional. Os albaneses se esforçavam para prestar auxílio; além disso, competiam entre si pelo privilégio de salvar judeus. Esses atos originavam-se da compaixão, da bondade e do desejo de ajudar os necessitados, mesmo aqueles de outra fé ou origem.

A Albânia, o único país europeu com maioria muçulmana, obteve sucesso onde outras nações europeias falharam. Quase todos os judeus que viviam dentro das fronteiras albanesas durante a ocupação alemã, tanto os de origem albanesa quanto os refugiados, foram salvos, com exceção de membros de uma única família. Impressionantemente, havia mais judeus na Albânia no final da guerra do que antes.


 Memorial do Holocausto no Grand Park da capital Tirana - 2020



FONTES:

https://wwv.yadvashem.org/yv/en/exhibitions/besa/index.asp

https://www.correiobraziliense.com.br/mundo/2023/07/5109352-os-muculmanos-que-salvaram-milhares-de-judeus-do-holocausto-por-um-codigo-de-honra.html