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quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Iachad (juntos - יחד) - por André Naves: Aos olhos meus...

 



          Dizem que em Portugal, o filme “Psicose” se chama “O Filho que era a Mãe”. Piada de mau gosto, tá na cara. Lá ele se chama “Psico”. Aliás, falando em Hitchcock, o “Festim Diabólico” é uma tradução brasileira muito mais carnavalesca que a portuguesa “Corda”... No original, o filme se chama “Rope”...

          Diriam os italianos, “traduttore, traditore”...

          A Bárbara Heliodora, quando traduzia “O Mercador de Veneza” de Shakespere, estudava a cultura e o idioma do Vêneto, ainda que os originais da peça fossem ingleses... Ela aprendeu usos, costumes, palavras do dialeto...

Tudo para traduzir...

          Dan Stulbach falou, inclusive, que só um judeu poderia dar um tempero especial no Shylock... Conhecer os pequenos gestos, as risadas, as mãos, o andar, dava um sabor especial pra peça...

          É que cada um de nós já vem de fábrica com uma série de características. Essas, inclusive, vão se incrementando com o nosso caminhar. Sabe, ganhando mais sabor, mais tempero, mais vida...

          Pensa numa comida bem aconchegante. Aquela da sua vó... “Cê” acha que o tempero dela veio da noite pro dia? Foi uma vida inteira de tentativa e erro. Alguns acertos e muitos enganos! Mas depois de tanto tempo, de tanto erro e de tanta delícia, um sabor único e especial vai surgindo. Só ela, depois de tanto caminhar, depois de reforçar as características do caminho, consegue fazer assim...

          Ou seja, pra cozinhar, pra traduzir, pra escrever, pra rezar, pra viver... A gente precisa viver! Caminhar! Só assim os melhores temperos vão sendo colocados na nossa mochila, e os piores vão sendo despejados. Cada indivíduo com sua individualidade, ao longo do caminho!

          É como dizem: o erro é o ensaio do acerto! É assim que nossa individualidade vai se aprimorando!

          Agora, pensa numa coisa legal! É essa: pra gente conseguir ser a melhor versão da gente, é necessário olhar para o Outro! Alteridade!

          Não sou a Bárbara Heliodora, mas vou tentar traduzir isso: O INDIVÍDUO SÓ SE REALIZA NA COLETIVIDADE. É que todos nós temos vantagens e limitações: a limitação do outro se completa na nossa vantagem, e vice-versa. Ao mesmo tempo, convivendo, assistindo à vida e aos exemplos, vamos, aos poucos, ganhando novos sabores na nossa essência.

          Egoísmo é o contrário disso.

Quando a gente rompe os laços coletivos e sociais, a gente cai no poço sem fundo da solidão. A gente vai se seduzindo com nossos próprios vícios. A gente termina na armadilha da idolatria. Ídolos de barro ou de ouro: todos desviam nosso olhar do que importa de verdade! A gente termina pior, menos interessante, menos complexo, mais frágil! Na sarjeta! Imundo!

Mas é aí que mora o mistério: será que a coletividade é só a soma dos indivíduos, ou ela é algo maior? Sabe quando a soma das partes ainda não é tão grande e especial como o todo? Eu acho que a coletividade é assim: maior que a soma dos indivíduos!

Mas sem indivíduo não tem coletividade! Sem diversidade, sem pluralidade, a gente não tem nada. Pra ser coletivo, tem de ser diverso! Ou seja, a coletividade, que exalta o indivíduo, é o contrário do coletivismo, que esmaga a individualidade...

No coletivismo “Narciso acha feio o que não é espelho”! Narciso é o ídolo de Narciso!

Essa é a nossa responsabilidade individual! A gente, enquanto pessoa que é, não fica à toa, sendo manipulado pelo coletivo. Pelo contrário, a cada momento a gente tem de escolher e decidir quais dos nossos valores fortalecer. É assim que o indivíduo molda a coletividade, ao mesmo tempo em que é moldado por ela.

E nesse baile da vida, em que os indivíduos atravessam caminhos e são atravessados por eles, em que eles dão tempero à coletividade enquanto ganham novos sabores dela, é nesse baile que a música Divina toca e as lágrimas sempre vêm antes e depois dos risos!

É nesse baile, ouvindo essa música, atravessando os caminhos da vida e sendo atravessado por eles, que escrevo essas pequenas crônicas.

Na verdade, não eu... Nós... Juntos... Mas aos olhos meus...

André Naves
Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Sociais e Inclusão Social. Comendador Cultural. Escritor e Professor.
www.andrenaves.com | Instagram: @andrenaves.def

 

         

 


ACONTECE: Naftali Bennett: Venceremos – Vencemos


Por Regina P Markus

A person in a suit

AI-generated content may be incorrect.


Na noite de 26 de novembro de 2025, no auditório Marc Chagal da Hebraica, tive a oportunidade de estar com o ex-primeiro-ministro de Israel, Naftali Bennett. A atividade foi patrocinada também pelo Beit Halocheim, Universidade de Haifa e as lideranças judaicas no Brasil e em São Paulo. Avi Gelberg apresentou ambas as instituições. Acompanharam toda a sessão dois israelenses que são atendidos pelo Beit Halocheim: uma moça nos seus 20 e poucos anos que fez reconhecimento de corpos - as marcas foram deixadas e ela busca as melhores formas para encarar o futuro, sem ter imagens vívidas e desconcertantes do passado; e um rapaz, que assim chamo por ser muito jovem e ter uma atuação entusiasmada. Foi comandante em Gaza, muito jovem viu seus companheiros serem mortos e feridos. Voltou ao local de batalha várias vezes, até que foi ferido a tiros e agredido. Foi tratado no Beit Halochem, mas com sua personalidade pró-ativa, assim que se sentiu melhor, e mesmo sem alta, fugiu e voltou à batalha. O rosto é sereno, mas disse que naquele momento era muito necessário estar com os companheiros. Um comandante. A reunião continuou e quando Bennett falava dos dois presentes, que ele havia encontrado aqui no Brasil, pediu uma salva de palmas. Comentou que não ia contar nada que eles já tivessem falado, mas acrescentou algo importante. O comandante jovem estava cursando a Universidade de Haifa quando foi chamado. Seu interesse era em inovação e inteligência artificial. No ano passado, pediu uma entrevista com Bennett e este, ao ver o seu CV, apressou-se em atender. Qual não foi sua surpresa quando, em vez de solicitar fundos ou auxílio para continuar sua carreira como inovador, disse que estava redirecionando sua vida, ao menos por agora, para melhorar e percepção do mundo sobre Israel. Queria entrar em contato com judeus e não judeus de outros países para melhorar a percepção do que é o Estado de Israel. Neste momento, Bennett inicia a sua fala com o mote: “em 2023, 2024 dizia que venceríamos e em 2025 digo que vencemos”.

A vitória militar é evidente, mas disse que as guerras não são vencidas pelas vitórias militares, estas muitas vezes podem ser um tiro pela culatra! O que aconteceu? Fez parte dos muitos que apontaram a lentidão com que as autoridades e forças armadas responderam ao ataque de 7 de outubro. Neste dia ocorreram 4 “pogroms”. Kibutz Kfar Aza, kibutz Be’eri, kibutz Nir Oz e o Festival Nova. Houve uma falha muito grande e não foi pior porque o país reagiu de forma rápida e decisiva.

Jovens, dos 20 aos 60, do norte ao sul, cidadãos israelenses (judeus, árabes, drusos, etc.) foram os responsáveis pela vitória. Conforme começou a relatar aquela manhã (6h25min) em que o alerta foi dado no país inteiro, lembrei do que aconteceu à minha volta. Mas, quero relatar o que escutei de Bennett e que não foi diferente do que vivi naquela manhã. Em todo o país, soldados que estavam de folga, ou reserva (miluim), ou pessoas que teriam alguma possibilidade de ajudar organizaram-se rapidamente. Seguir para a frente de batalha, organizar formas de enviar suprimentos para as regiões atingidas, iniciar um processo de recepção para os desabrigados, órfãos, feridos etc. Vi no nicho do movimento de escoteiros todo um processo de fazer acolhimento com reuniões, brincadeiras e ... Bennett disse que no dia 8 de outubro tinha a certeza de que venceríamos e que hoje tem a certeza de que vencemos.

E lá estava o ex-Primeiro-Ministro, Naftali Bennett, que renunciou ao gabinete quando foi rompida a união de partidos que sustentava o seu governo. Críticas à parte, hoje estamos no momento propício para uma nova era, em que será possível olhar o Estado de Israel e não apenas cada nicho. Olhar o coletivo sem desprezar o indivíduo.

Recebemos esta semana os restos mortais de Dror Or z’l, responsável pela cozinha e queijeiro do kibutz Be’eri. Morto no próprio 7 de outubro, junto com sua esposa. Seu corpo foi levado para Nuseirat, em Gaza, pela Jihad islâmica palestina e sua morte informada em 2 de maio de 2024. Lendo com atenção a frase fica evidente o que Bennett analisou com muita ênfase: os grupos que querem a destruição da atual nação judaica se prepararam com afinco para obter o êxito. O preparo envolveu não apenas ações de sabotagem militar, como também o preparo da opinião pública internacional para calar-se frente ao pogrom de 7 de outubro de 2023.

Como dizia Rav Kook a respeito da Parashá Vaietzei (Ele saiu) que representa sair no sentido de mudar. Mudar fisicamente, mudar de atitude ou mesmo ir atravessando os tempos e os dias. De acordo com o Talmud (Berachot 26b), os Avot (antepassados) instituíram as três orações diárias: Abraão — Shacharit, a oração da manhã, iniciando o processo. O primeiro patricarca. Isaac — Minchah, a oração da tarde. Escolhendo, com o auxílio de sua esposa, Rivka (Rebeca) quem seria o próximo patriarca. Jacob — Ma'ariv, a oração da noite, encerrando o ciclo dos patriarcas. Um ciclo composto por 3 estágios!

Falando em ciclos, a história registra três ciclos em que Jerusalém foi capital de nações soberanas. Os dois primeiros foram na época do primeiro e segundo Templos e seu fim estava ligado com desentendimento na Casa de Israel. O terceiro período é o que estamos vivendo. Observamos que desentendimentos internos podem ser a causa de derrotas, e que união do povo é a razão de vitórias. Como bem enfatizou Bennet, foi o povo que, independente de autoridades atuais, desencadeou um processo de resiliência e soberania. Juntando o ciclo dos patriarcas, com o ciclo dos reinados, podemos deduzir que estamos entrando em uma nova era. Em uma era em que o Povo Judeu e o Povo de Israel seguirão de forma conjunta a busca da eternidade.

Para subsidiar esta afirmação que faz parte de uma previsão ou de um sonho, hoje está acontecendo o repatriamento de um grupo de habitantes da Índia conhecidos como Bnei Menashe. A publicação online de responsabilidade da Revista Brasil.Il relata que:

“O governo de Israel aprovou um plano para trazer os últimos 6.000 membros da “tribo perdida” de Menashe para Israel em cinco anos. Embora cerca de 5.000 Bnei Menashe vivam atualmente em Israel, tendo chegado aos poucos nos últimos 20 anos, eles têm tido grande dificuldade em trazer o restante da comunidade, que está nos estados indianos de Mizoram e Manipur. O plano permitirá que cerca de 1.200 imigrantes cheguem até o final de 2026.” Serão alocados em regiões onde já existem conterrâneos e o projeto prevê cursos de hebraico em ulpans bem como a integração ao judaísmo.

A volta de muitos dos que se perderam em tempos remotos e durante a inquisição é a demonstração que estamos unidos por ideias que podem sobreviver e brotar porque pertencem a uma árvore de raízes fortes.

 

AM ISRAEL CHAI VEKAIAM. Povo de Israel vive eternamente.

 

Regina P. Markus

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

ACONTECE: Esperança e construção falam mais alto que barulho autoritário

 

Esperança e construção falam mais alto que barulho autoritário 




Esta semana foi mais uma repleta de acontecimentos, globais e locais. Foi histórica (diferente, não mais do mesmo) a votação na reunião de segunda-feira do Conselho de Segurança da ONU quando foi aprovada a resolução americana para estabilização de Gaza por 13 votos a favor e duas abstenções: Rússia e China. O poder de veto não foi utilizado. 

Ou seja, foi endossado o “abrangente plano para o fim do conflito em Gaza”, foi acolhido o estabelecimento do Conselho de Paz, e este foi autorizado, junto com os países-membros, a trabalhar para criar, em Gaza, uma Força Internacional de Estabilização. Foi autorizada também a criação de um Comitê Executivo Palestino para gerir a governança cotidiana da Faixa de Gaza. 

De maneira inédita, esta resolução fornece uma estrutura e um mecanismo para uma possível paz, mas é claro que sua eficácia depende fortemente do compromisso e da cooperação de várias partes interessadas, o que permanece altamente incerto.

Quem não estava lá? O Hamas que até agora não só não entregou suas armas como garante que não irá fazê-lo. Há notícias contraditórias sobre a posição da população de Gaza: há muitos relatos na imprensa israelense, quase nada na mídia geral e, menos ainda, aqui no Brasil, de numerosas e visíveis execuções, pelo Hamas, de civis “por terem sido informantes ou colaboradores do inimigo”; mas há estatísticas produzidas por um tal de “Centro Palestino de Pesquisa Política e de Opinião Pública” que afirma que ”mais de 50% dos gazenses apoiam a condução do Hamas na guerra e se opõem a qualquer tentativa de desmantelar ou desarmar a organização.” 

Mais que isso, diz que “44% dos gazenses e 59% dos árabes de Judéia e Samaria afirmam que a decisão do Hamas de lançar o ataque de 7 de outubro foi a correta”. 

E um veículo como o Wall Street Journal replica esta pesquisa, isto é, a legitima. Assim como a própria ONU tantas vezes reproduziu números de mortos na guerra criados pelo Ministério da Saúde de Gaza, números repetidos continuamente pela mídia, gravados na mente de tantos, e que ela própria, ONU, teve de corrigir e justificar porque eram falhos. Falhas quantidades e classificação civis X terroristas, mulheres e crianças X combatentes, falhas fontes de bombardeios IDF X mísseis palestinos errados, e assim por diante… Mesmo assim, mesmo que técnica e juridicamente a etiqueta de genocídio absolutamente não se aplique, são números assustadores de mortos, feridos, desabrigados, famintos, registros que nunca se apagarão da história de Israel. E, tenho certeza, terão impactos no próprio comportamento futuro das forças de defesa de Israel, nas responsabilizações, nas próximas gerações de soldados. E, espero, otimista que estou à luz da nova resolução n. 2803 da ONU, números que já têm impacto nos próximos passos a caminho da construção de uma paz na região. 

Apesar desta mancha no seu diário, o Estado de Israel deve, e acredito que vai, “sanear o terreno, descartar resíduos contaminantes, lamber as feridas”, e seguir em frente para esta tão esperada paz. 

Foi com esta perspectiva que André Lajst, diretor do StandWithUs Brasil iniciou sua fala na Conversa sobre o Mundo na Faculdade de Direito da USP, ao mesmo tempo que o Conselho de Segurança da ONU votava para esta paz. 

Mas André praticamente não mais conseguiu se fazer ouvir até que a “conversa” fosse encerrada por impossibilidade de continuar: manifestantes ruidosos, de diferentes idades, “estudantes” e ativistas, com bandeiras e cartazes, brutal e autoritariamente, se revezaram emitindo slogans como “genocidas”, “nazistas” e declamaram o já batido “Palestina livre, do Rio ao mar”. Há um vídeo do dia seguinte, no qual André diz, e eu concordo, que “foi mais uma prova de que estas pessoas não estão interessadas em ouvir, debater, buscar soluções” para o futuro. Estive lá e a sensação de frustração por não conseguir impedir que atrapalhassem, por não ser ouvida em tentativa de conversa lateral, e finalmente, pelo fato de que não havia segurança para a continuidade da conversa, única forma legítima de seguir em frente. Como cidadãos que se dizem democráticos, progressistas, pela liberdade de expressão, podem defender este comportamento? Quem, numa Universidade decente pode defender este tipo de comportamento? 

E no entanto manchetes posteriores, maliciosa e mentirosamente construídas, enganam o leitor desavisado e apressado, como o são a maioria dos leitores de já há algum tempo…

Concluindo: é fundamental fazer o dever de casa, assumir erros de modo transparente, e assumir compromisso de construção de um futuro compartilhado. MAS, é missão contínua explicar, educar, denunciar à sociedade desinformada, a manipulação e deturpação de fatos, fazendo-se ouvir por cima do barulho e do desrespeito. 

E, é muito importante dar uma chance à esperança nas novas participações de países árabes no plano de paz, na nova resolução, nas novas gerações! 

Bom feriado e Shabat Shalom.

Juliana Rehfeld



terça-feira, 18 de novembro de 2025

Iachad (juntos - יחד) - por André Naves: É preciso sonhar!

 


Minha vida é tipo um relógio. Sabe desses, de ponteiro, já precisando de corda? Devagar... Quase parando... Contam que lá em Konigsberg a turma acertava o relógio pela rotina do Kant. Se algum incauto quiser acertar os ponteiros de acordo com a minha rotina vai dar com os burros n´água, né?

Não que eu não goste dela. Pelo contrário! Aprecio muito a segurança, a previsibilidade e o conforto de um dia-a-dia certo. Eu até faço agenda. Marco tudo certinho nela. Faço planos. Mas é como dizem, né? Quando fazemos planos, D´us ri!

Sabiam que meu irmão é monge budista? Ele sempre fala que devemos ser flexíveis igual o bambuzal, que se dobra e acaba domando a vontade da ventania numa dança de beleza suprema. Bambu não é inflexível igual o violento jatobá, que, apesar de imponente e vigoroso, acaba sendo violentado pela tempestade...

D´us deve olhar para o jatobá, todo cheio de planos e certezas, e rir. Já para o bambu, deve mandar um arco-íris depois da chuva brava: esse Me entendeu! O planejamento deve existir, mas a flexibilidade para se adaptar aos ventos do novo, também!

Então... Como eu tava falando... A Ana Rosa me leva pra fazer compras toda sexta de manhã... Na verdade, às vezes é na quarta, às vezes, na hora do almoço... Lembra do bambu? Então? A gente também dança e doma o vento aqui: “Sim Senhora!”. É sempre no Sonda! Toda vez. Aquele do SESC Pompeia, conhece? Às vezes é naquele do Parque da Água Branca...

Entrando no mercado tem uma lotérica. Sempre cheia. Fila. Cada um querendo sua fezinha. A Mega nem precisa ser a da Virada. Nem acumulada precisa tá. Sempre cheia. Fila. Eu até acho que ninguém é louco de acreditar, de verdade mesmo, que vai ganhar. Mas cada jogo é um sonho.

Ninguém tá, na real mesmo, apostando nada. Tá todo mundo comprando um tostãozinho de sonho...

Cada papeletinha daquela preenchida é um ato de diálogo com o Divino. Ali, naquela fila, de conversas e esperanças divididas, as grandes Leis se manifestam de um jeito curioso. Nada a ver com a lei da gravidade ou da termodinâmica, mas com a lei espiritual da semeadura e da colheita, da obediência e da desobediência.

A gente é ensinado que a bênção vem da obediência ao trabalho duro, à rotina, ao esforço diário. Será mesmo que é isso? A gente não passa de mascate das boas ações? E a aposta? Seria ela uma pequena desobediência, um atalho para escapar da lógica da semeadura? Ou seria, ao contrário, o ato mais profundo de obediência a uma lei ainda maior: a de que somos seres de Esperança, Sonho e Partilha?

É que na fila toda vez tem alguém que fala da casa que vai dar pra mãe, da viagem pra Disney que vai levar a filha, do churrasco que vai fazer quando ganhar... É bem legal!

Basta dar uma olhada nos rostos. É a responsabilidade social. Sabe aquele senhor de mãos calejadas, será que ele sonha com um iate? Duvido... Acho que ele sonha, de verdade mesmo, em pagar o tratamento da esposa, em dar uma casa para a filha. A moça de uniforme sonha em abrir uma creche na vila...

Teve uma vez que eu tava em Jacareí. Lá também. Supermercado Shibata, lotérica, a coisa toda... Era época da Mega da Virada. Minha mãe pediu pra que a Ana Rosa e eu ficássemos na fila enquanto ela fazia compra. Papo vai, papo vem, fui convidado para o churrasco da vitória lá em São Silvestre. Eu nunca tinha visto o cara na vida!

O sonho do prêmio é a expressão ética mais profunda da Humanidade que foi feita à imagem e semelhança do Altíssimo: o desejo de cuidar. A gente sonha em ganhar para, finalmente, ter a liberdade de ser responsável por quem amamos, pela nossa comunidade.

É a busca da liberdade para cuidar, não a liberdade de não se importar. É o sonho de ser o bambu que, forte em sua flexibilidade, protege os brotos da ventania.

O sonho da loteria é a Humanidade no Sagrado... Buscamos a liberdade da necessidade, mas o que faríamos com ela? Construiríamos muros mais altos ou pontes mais largas? O caipira, com aquela sabedoria da terra, diria que "dinheiro na mão é vendaval". Pode tanto erguer um celeiro quanto destelhar uma casa.

A gente tem de escolher... SER ESCOLHIDO!

E eu ainda acho que cada apostador aposta, mesmo que sem saber, na bondade do seu próprio coração. É a fé de que, se a bênção vier, ele saberá ser a bênção para outros. Ninguém tá ali só tentando a sorte. Tá todo mundo ensaiando para o Milagre.

É que a bênção não é o prêmio! É a coragem de sonhar! É a coragem de partilhar! Mas sempre tem o outro lado da moeda, o lado escuro da Lua: uns chamam de maldição... E qual é? Não é perder a Mega da Virada! É viver num mundo mesquinho e solitário... Um mundo que te faz ter certeza que uma aposta é a única saída.

Meu irmão, o monge, ia dizer verdadeira liberdade é não precisar do prêmio, é encontrar paz entendendo que ele vale nada... E ele tá certo!

Mas ao ver a senhora de cabelos brancos e chinelos havaianas na fila, acho que D'us vê o tamanho do universo que cabe num pedacinho de papel...

E talvez, só talvez, Ele esteja sonhando junto.

André Naves
Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Sociais e Inclusão Social. Comendador Cultural. Escritor e Professor.
www.andrenaves.com | Instagram: @andrenaves.def

 


segunda-feira, 17 de novembro de 2025

VOCÊ SABIA? - Hospital judaico na Ucrânia

 

HOSPITAL JUDAICO

Programa de Reconstrução da Ucrânia com a assistência do Banco Europeu de Investimento.

Por Itanira Heineberg



Você Sabia que o edifício do Hospital Judaico, um monumento arquitetônico que  tem salvo milhares de vidas nos últimos duzentos anos, está sendo restaurado em Odessa?

A Ucrânia realizou uma restauração histórica do Hospital Judaico de Odessa, uma das instituições médicas mais antigas da Europa Oriental, fundada há mais de dois séculos.




Este hospital foi fundado em 1800, como uma pequena instituição com apenas seis leitos e 240 judeus vivendo na cidade.

Em 1829, a comunidade transferiu o hospital para o prédio atual.

Em 1894, a instituição havia crescido para 230 leitos e estava aberta a todos os que precisavam, independentemente de religião ou nacionalidade.

Porém, durante os pogroms de 1905, um divisor de águas na história do hospital aconteceu.

Um enorme acampamento foi montado no pátio da instituição, fornecendo ajuda a cerca de 50.000 vítimas. Mesmo em condições difíceis, sob pressão das autoridades e dificuldades financeiras, o hospital continuou a funcionar.

Veio então período soviético, e em 1922 o nome foi alterado para "Hospital do Povo Soviético" e as condições se deterioraram: falta de pessoal, superlotação e fuga de especialistas. As doações privadas foram interrompidas.

Somente na década de 1970 começou uma fase de recuperação. O nome histórico foi restaurado, novos departamentos de endocrinologia, neurologia e traumatologia foram abertos e a instituição voltou a ocupar uma posição central no sistema regional de saúde.

Falemos agora da obra de restauração.

O trabalho  se concentra no edifício cirúrgico do início do século XX, projetado pelo arquiteto Tropyansky em 1900 e declarado um edifício protegido. O projeto implementado faz parte do programa de reconstrução da Ucrânia com a assistência do Banco Europeu de Investimento.




O icônico pavilhão cirúrgico do Hospital Judaico em Odessa — um marco arquitetônico reconhecido e um dos edifícios mais marcantes do histórico complexo médico da cidade — é objeto de uma grande restauração. As obras estão sendo realizadas no âmbito do Programa de Recuperação da Ucrânia, segundo um relatório do Conselho Municipal de Odesa.

Este projeto visa restaurar plenamente a integridade arquitetônica e a funcionalidade do edifício, combinando preservação histórica com padrões médicos modernos. A restauração inclui a substituição do telhado, o reparo das fachadas e portões originais, a instalação de corrimãos decorativos de ferro forjado na varanda e aprimoramento do local com iluminação atualizada.

A restauração ainda inclui o reforço de edifícios em risco de desabamento bem como a substituição de pisos. Nas etapas seguintes, serão instalados equipamentos médicos modernos, um sistema de aquecimento central será estabelecido e a acessibilidade para pessoas com deficiência será restaurada. O prédio restaurado incluirá um departamento de reabilitação com unidades de fisioterapia.

No interior, o pavilhão será totalmente reformado para atender às necessidades médicas contemporâneas. Isso inclui a instalação de painéis de parede especializados, uma reforma completa dos sistemas internos de utilidades e a introdução de equipamentos cirúrgicos de última geração.

Paralelamente, uma modernização em larga escala da infraestrutura de aquecimento do hospital está em andamento. Isso inclui a instalação de uma sala modular de caldeiras para melhorar a eficiência energética e garantir aquecimento confiável durante os meses de inverno.




Construído mais tarde, entre 1896 e 1898, o pavilhão cirúrgico foi erguido utilizando o mais recente planejamento arquitetônico da época. O estilo distinto do edifício combina elementos renascentistas florentinos retrospectivos com toques de design gótico, tornando-o um exemplo de destaque da arquitetura hospitalar do início do século XX na Ucrânia.

É reconfortante perceber que em tempos de guerra, dor e destruição, um projeto de tamanha grandeza aconteça. Este esforço de restauração além de ser um passo relevante para preservar o patrimônio arquitetônico de Odessa, ao modernizar suas instalações de saúde demonstra preocupação com seus pacientes, uma preocupação humana voltada para melhor acolher e atender ao público.





quinta-feira, 13 de novembro de 2025

ACONTECE: Viajando rumo ao desconhecido


Por Regina P. Markus


Esta semana estou imersa no mundo da ciência. Comunicação e controle da informação que fazem com que o cérebro e o corpo possam funcionar de forma coordenada. Receber, processar e retornar informações que possam manter a unicidade de um organismo nas mais diferentes condições ambientais. Lidar com as notícias falsas e distinguir os sonhos e pesadelos da realidade. Entender por que certos sonhos ou pesadelos são recorrentes e poder estar preparado para viver de dia e de noite. Acompanhando com menos intensidade o que acontece em Israel e no mundo, tenho a sensação que a Caixa de Pandora ainda está aberta. Decidi repartir com vocês algo que acompanho na Internet. Tenho críticas, mas ao mesmo tempo despertou minha curiosidade por unir dois temas díspares. Melatonina e glândula pineal são objetos de minha pesquisa. Vejam que interessante e instigador o que encontrei. 

Mayim Achronim (Últimas Águas) é um site de propriedade de Efraim Palvanov um divulgador de judaísmo no You Tube, tendo escrito alguns livros sobre judaísmo. É professor em Toronto na Yeshivá Or Chaim e no Ulpan Orot. Nasceu na Rússia, emigrou para Israel e depois para o Canadá. Família judia, de origem sefaradi proporcionou uma vivência não ortodoxa. Sempre interessado em estudar e pesquisar, graduou-se em ciências e a seguir formou-se médico. O interesse pelo judaísmo e Kabalah aumenta com o correr dos anos. Compartilha com milhões de pessoas seus conhecimentos via YouTube. 

Ao estudar a Parashá de Yitró (Shemot, Êxodos 18:1; 20:21) decide unir os dois conhecimentos de forma brilhante. Unir as Sefirot da Kabalah ao nosso organismo via moléculas que conversam entre si e dão um saber especial ao nosso ser é algo inspirador. É algo que une o sonho e a realidade.

Os neurotransmissores presentes em maior quantidade são glutamato e gaba. O primeiro responsável por ações positivas, excitatórias e o segundo como um regulador negativo, inibitório. Estes foram colocados na parte central nas sefirot Chessed e Guevura. Para balancear entre o que excita e o que inibe há necessidade de uma ação motora consciente. A acetilcolina que é o transmissor que promove a atividade dos músculos esqueléticos, que permite nossa locomoção controlada pela vontade e pelo querer faz o balanço entre excitar e inibir de forma inconsciente. A vontade e a presença são capazes de balancear. Ampliando a conexão entre o involuntário e o voluntário, a própria acetilcolina é o neurotransmissor que reduz a frequência cardíaca, com isso modulando o coração.

Descendo em direção ao Reino Terrestre encontramos a norepinefrina e epinefrina, mais conhecidas no Brasil como noradrenalia e adrenalina. Força, energia, alerta. No lado esquerdo vemos um neurotransmissor que leva as mensagens do sistema nervoso simpático e que envia mensagens do cérebro para todos os órgãos vitais, adaptando nosso organismo para a atividade. Já a adrenalina é um hormônio, liberado no sangue para energizar todo o organismo.  Netsar (Vitoria) e Hod (Glória). 

Quanta agitação, quanta energia sendo produzida e gasta! Para balancear este momento, e para podermos entrar com calma no Reino terrestre chega a endorfina, a morfina produzida pelo nosso organismo. Reduz a dor, acalma e ajuda a focar (Yessod). 

Chegamos à sefirá Malchut, que representa o Reino Terrestre. O neurotransmissor dopamina, que está conectado a aprendizado, memória e integração. Disfunções dopaminérgicas podem ser a base de depressão.

Olhamos para cima e vemos Keter - a coroa, o reino dos céus. Como partimos das Sefirot Guevurá e Chessed, as regidas pelos neurotransmissores GABA e glutamato, temos que passar por Biná e Chochmá (Rormá). Biná foi traduzida biologicamente pelo hormônio de tecido / neurotransmissor ocitocina. Esta é a subtância liberada na hora do parto, regendo a saída do feto do útero materno e sua entrada no mundo terrestre. Esta é a substância que promove a produção e liberação do leite. Esta é a substância que traz o novo ser ao mundo e que provê sua alimentação no início da vida. De geração em geração, aleluia.

No lado direito, na sefirá dedicada aos pais, encontramos a histamina. Por muitos anos ligada apenas aos processos alérgicos, hoje sabemos que é um importante neurotransmissor relacionado com a ereção. E muito mais. Nestas duas sefirot vejo o quanto o homem e a mulher formam uma dupla que unida é capaz de alcançar o nível mais alto. E para tanto vejo reservado a neurotransmissor serotonina, que é o precursor da melatonina, hormônio produzido pela glândula pineal.

Este hormônio tem um tempo de vida muito curto, o que é muito adequado para um mensageiro do tempo e um equalizador. Sua síntese é controlada por muitos fatores e deve aparecer e desaparecer rapidamente. Um mensageiro que entrega a informação e sai de cena. Conecta os dias, conecta as estações do ano e participa de processos de defesa. Melatonina é produzida por todas as células do organismo, exercendo funções locais importantes. E é produzida à noite pela glândula pineal. 

Dando um salto do texto do Professor Efraim Palvanov para os textos encontrados no site Sefaria, produzido em homenagem ao Rabino Jonathan Sacks encontro o seguinte:

 


Gênesis 32:31 -> Então, Jacó chamou aquele lugar de PniEl, porque "Eu vi Elohim face a face, e a minha alma será salva". 

PniEl - lembra pineal - e... deixamos as conexões vão sendo feitas com uma glândula que no homem não é o terceiro olho, mas recebe informações diretas e privilegiadas da iluminação ambiental.

E hoje vou ficando por aqui, na esperança que os muitos movimentos que estão sendo feitos para que cheguemos a uma Paz duradoura seja alcançado.

Regina




terça-feira, 11 de novembro de 2025

Iachad (juntos - יחד) - por André Naves: Anjos! Anjos!

 



         Dia desses eu tava no metrô. Linha verde. Indo pra Defensoria. Eu adoro andar de metrô: prefiro me deslocar nele que em carros. Vou vendo o povo. É ali, entre as pessoas, que a vida acontece de verdade. Sem filtros. Sem roteiros. Só gente sendo gente.

É lá que minha forma de enxergar a gente brasileira mudou. Já faz mais de 20 anos... Quase 30... Meu acidente tinha pouco mais de 1 ano. Estação da Sé lotada. 18:00. Lata de sardinha. Eu mal conseguia me mexer. De repente, uma mão desconhecida... "Vem comigo!" Ela me colocou sentadinho dentro do vagão e sumiu.

Desde então só observo... Tanta gente honesta, trabalhadora, dedicada, disciplinada... Sabe aquele silêncio que fala alto? Aquele em que você sente a respiração coletiva? O pulso de histórias acontecendo? É isso que eu enxergo lá.

Eu sei! A gente liga a TV e só vê bandalheira! Desanima, né? Mas o Brasil não é isso. Pra cada malandro deve ter mais de mil corretos. Tem o cobrador de ônibus que conhece o nome de cada passageiro. Tem a faxineira que chega antes do amanhecer. Tem a avó que toma conta dos netinhos enquanto os filhos trabalham.

Anjos que não sabem que são anjos. Ou talvez saibam, sim. Quem sabe? Não acredita? Pensa nos seus conhecidos...

Mas "vamo" voltar. Desculpe o desabafo... Quase que a gente sai do trilho... Lá, sempre tem uns 2 ou 3 lendo. Tento ver que livros são. Talvez, não é? Meu sonho? Algum dia ver alguém me lendo...

Eu sempre carrego meu livro, mas quase não leio: fico ali, só de orelha em pé, "bisoiando"...

É que quando vejo alguém com um livro na mão, sinto aquela coisa... Aquela imaginação de que há outras pessoas também buscando um mundo novo e melhor... Aquela segurança de que não estamos sozinhos nessa fome de sentido.

Tava perto das Clínicas, eu acho. Abriram as portas. Entrou avô levando neto pra passear. Contava uma historinha. Fiquei ouvindo. Parece que eu já ouvi isso antes... Sorri. Era a memória chegando.

Saudades. Aquela saudade que nunca é tristeza, sabe? É aquela que aquece. Que te diz que você viveu de verdade. Que aquilo importou. Que ainda importa. Eram as charretes no Mercadão de Jacareí... O som dos cascos no asfalto... O cheiro de curral... O gosto da paçoca... Jacareí...

Antes do metrô, eu andei muito de charrete. 40 anos... Eu era um menininho! Jacareí... Seu Teófi já conhecia a gente. Moreno, quase negro... Barba branca e grande... Ia charreteando e contando os causos dos "antigo"... Era uma mais legal que a outra...

Ele contava, igualzinho o avô das Clínicas, uma historinha dos anjos. Eu sempre pensava no "Santo Anjo" que eu rezava com a minha mãe toda noite. Aquela reza que o coração  conhece de cor. Minha mãe rezava sempre comigo. Sempre! Hábito que virou minha respiração. Até hoje. Sempre. Até hoje eu rezo sempre.

Anjos... Como diria meu amigo Jacques, "no los creo, pero que los hay, los hay..." Eu acredito sim. E sabe por quê? Porque vi. Porque senti. Porque uma mão desconhecida em uma estação lotada é prova de que há algo além do que a razão consegue explicar. Há Alguém olhando. Há Alguém cuidando. Gosto de falar. Eu creio em Anjos!

Mas o seu Teófi ia falando dos anjos que a gente recebe em casa.

Sempre que eu ranheteava com meus pais, bagunçava, não era um bom menino, eu tava convidando um anjo rebelde... Não que ele fosse maldoso, pelo contrário, era bonzinho! É só que gostava duma confusão, duma algazarra! E como é legal bagunçar de vez em quando! Nesses dias, num dava tempo nem de lanchar!

Mas quando o obediente era eu, quando eu organizava tudinho, ajudava, não brigava, era como se eu chamasse um anjo bom para me guardar, me zelar e me iluminar. E ele vinha sempre! E você sabe quando ele chega. Escuta!

Pão de queijo, bolo de fubá, café, leite e meu amiguinho, o Anjo!

Os anos passaram... 40 anos depois e eu ouvindo a mesma história... Agora não é charrete, é metrô. Agora não é o seu Teófi, é um avó anônimo...

Mas... Sabe os anjos?

O vagão, as ruas, os pontos de ônibus, o Mundo... Eles estão por aí!

São aquela música que não se ouve, mas se escuta... São aquela Luz que não se vê, mas se enxerga...

Prest´enção!

André Naves
Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Sociais e Inclusão Social. Comendador Cultural. Escritor e Professor.
www.andrenaves.com | Instagram: @andrenaves.def

 

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

ACONTECE: Nosso planeta comum

 



Por Juliana Rehfeld


Como chegamos nisso? Todas as atenções do planeta voltadas para o que acontece até fins de novembro em Belém. A COP 30 é um evento no qual todos querem ser vistos, querem ver o que os outros vieram mostrar, querem saber como e quando o efeito das mudanças climáticas pode ser retardado, já que efetivamente evitado ele não mais pode ser. Desta vez houve uma inversão de agenda, o encontro entre líderes está sendo feito antes de todas as apresentações e negociações, o que provavelmente vai pressionar os acordos e compromissos de cada país e região com a real implementação das promessas que vêm sendo repetidas ao vento já há décadas… E a feliz circunstância de ocorrer na Amazônia, cantada como o “pulmão do planeta”, aumenta a importância e urgência das soluções que são esperadas. Vamos acompanhar!

Onde está Israel? Um pequeno e jovem país, ainda em guerra, estabelecido em pleno deserto, portanto sem água, quase sem recursos minerais, com apenas gás natural (menos de 0,1% das reservas mundiais) e potássio (cerca de 6% se dividirmos o total de 11,5% no Mar Morto, compartilhada com a Jordânia). Mesmo com este pouco talento natural, o pequeno país tornou-se autossuficiente em gás com a produção nos campos estratégicos nas plataformas no Mediterrâneo e até exporta ao Egito e Jordânia, e ocupa a 6a posição mundial na produção do potássio e é um grande exportador do produto. Isto mostra o que Israel vem fazendo com o pouco que tem. 

Mas o principal “pouco que tem” se refere ao DESERTO. O deserto, sabemos, não tem água e lá nada consegue viver. Israel já “nasceu desmatado”. A escassez de água foi superada com inovações como a dessalinização, o reuso de água tratada e outras fontes não tradicionais, tornando o país um dos líderes mundiais em gestão hídrica. Com a água foi possível plantar.  Israel focou em pesquisa e desenvolvimento, tornando-se líder mundial em inovação climática, agricultura sustentável e tecnologias para a gestão de água e resíduos. 

A cobertura vegetal “produzida” é pequena se comparada à média mundial (mais de 6,5% - dos quais 2,2% são florestas naturais - o que o classifica na 160a posição). A cobertura vegetal em Israel aumentou aproximadamente 1800% desde o início do século XX, como resultado de um projeto florestal maciço liderado pelo Fundo Nacional Judaico (KKL-JNF). O governo criou 142 reservas naturais e 44 parques nacionais para preservar o patrimônio natural do país, incluindo florestas, áreas marinhas, dunas, desertos e oásis. A localização geográfica de Israel, na junção de três continentes, resultou em uma grande diversidade de flora e fauna, com cerca de 2.800 espécies de plantas catalogadas, e uma importante rota migratória para aves. 

E Israel é considerado líder em inovações climáticas em agricultura, lixo, água e alimentos (assista ao vídeo abaixo, de 2023).




Portanto onde está Israel agora em novembro/2025, na COP30 em Belém? Pela primeira vez desde o inicio das Conferências da ONU sobre o clima, o governo de Israel anunciou através de seu Ministério do Meio Ambiente hoje que não enviará uma delegação oficial completa e alegou: tensões diplomáticas com o país anfitrião (a postura pró-palestina de Lula), preocupação com segurança e potenciais provocações, alocação de recursos (drenados para a atual guerra), e a pressão internacional expressa por uma autodenominada coalizão Palestina da COP 30 que havia pedido ao Brasil e a UNFCCC - Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima - que o país fosse excluído do evento por “não cumprir a lei internacional e não respeitar os direitos dos palestinos". 




Infelizmente e diferentemente da COP29, realizada em 2024 no Azerbaijão, quando Israel enviou mais de 100 representantes e apresentou 20 projetos climáticos em um pavilhão próprio, desta vez a presença será simbólica. Apenas dois funcionários do Ministério da Proteção Ambiental acompanharão os trabalhos da COP30, um por vez o chefe da Divisão de Resiliência Climática participará da primeira semana, e o líder do Departamento de Relações Internacionais, da segunda.

É realista a preocupação de Israel com a "bagunça" que seria a presença de uma grande delegação e os prováveis protestos, e danos, que a instalação de um stand poderia causar… mas é uma grande perda! Para quem? Para Israel, que não poderá compartilhar e ser reconhecido pelas incríveis soluções de sustentabilidade que tem, para o público ávido de bons exemplos, para a ciência, a pesquisa, a tecnologia ambiental, para a força das ações multilaterais, para a biodiversidade, para o planeta. Não acho que isso seja exagero…

É similar ao rompimento de laços acadêmicos de universidades brasileiras, entre outras, com as instituições israelenses como a Universidade Hebraica de Jerusalém, Universidade de Tel Aviv, Universidade Bar-Ilan, Universidade de Haifa, Universidade Ariel e Technion - Instituto de Tecnologia de Israel. Este movimento que diz que pretende “punir as instituições por serem coniventes com as práticas criminosas de guerra do governo” e “atender ao clamor da sociedade palestina” mancha a liberdade acadêmica, desconsidera a realidade da postura pacifista de muitos dos membros destas instituições, não contribui em nada para a paz, mas, acima de tudo, mais uma vez, distingue Israel de outros países e instâncias em conflito o que claramente demonstra antissemitismo! 

Perdemos todos. Perde, como sempre, o debate, o conhecimento, e portanto, o nosso futuro como humanidade…

Que a luz ilumine os grandes resquícios de trevas que ainda carregamos ou que estupidamente recriamos ao longo da história…e que nós humanos consigamos nos manter vivos no planeta que ainda nos hospeda e acolhe apesar do muito que fazemos para destruir nossas chances de aqui habitar!

Shabat Shalom

Iachad (juntos - יחד) - por André Naves: O Mistério de Loew

 



         Loew...

Mistério...

Lembram de quando eu contei dos domingos lá na vó Tereza? Aquele perfume de molho de tomate misturado com frango, junto com uma sinfonia de sons dispersos e misturados, que iam do tema da vitória do Senna, passando pelo lá-lá-lá do Sílvio, até a voz do Lombardi na Semana do Presidente?

Acho que minha admiração pelo Sarney vem daí, mas isso já é uma outra história...

Lembram como eu me lembro da voz da tia Julinha chamando meu pai? “Francisquinho!”. E a tia Mara? A vó Tereza? Era um tal de Francisquinho pra lá, pra cá... E, aos poucos, essas vozes foram indo para o Oriente...

É lá, no tempo da delicadeza, que meu pai e todos eles continuam conversando enquanto o Senna corre e o homem do Baú anima!

Hoje, o tio João ainda resiste, firme e forte.

Firme e forte... Eu sempre fui um primo mais novo. Quando vi a Luz, meus primos já eram crescidinhos... Depois de mim, só dois (e um deles é meu irmãozinho!).

Acho que isso foi o motivo maior do meu desconcerto! Quando vi a ligação perdida no celular pensei em tudo, menos nisso... Pensei que minha mãe queria contar sobre a palestra dela... Pensei que era alguma novidade com os meus sobrinhos – será que já tá na época de cair os dentes de leite?... Pensei até no pé do papagaio!

Quando escutei, desabei.

O Paulo? Ele era atleta... Tava jogando basquete até ontem... Sabe um primo que a gente não se via há vários anos, mas os laços do afeto continuam? Ele morava em Goiânia! Casado, família linda! Um casal de filhos já na idade do ENEM...

A gente tava naquela fase tão ocupada da vida, em que se acha imortal e eterno... No tempo da solidão moderna, em que só umas curtidas no Instagram já valem. Palavras? Pra que palavras?

Escutei a voz dele naquele Oriente Eterno rindo e falando “Tio Chico! Vó! Mãe! Tio Marcelo! Tia Mara! Tio Fernando!”. Enquanto isso, o Senna ganhando corrida e o Sílvio animando as colegas de trabalho. O perfume do frango com macarronada. Tudo como antes, mas até melhor...

D´us fala com a gente por esses pequenos códigos, que a gente insiste em chamar de dia-a-dia. Tudo é tão especial. Só que a gente tem de ter Alma pra escutar e escolher responder! A gente tem de ser ESCOLHIDO!

Escutar o Altíssimo é uma decisão! Entender a mensagem é uma decisão! Seguir seu mapa? DECISÃO!

Sinceramente? Não sei se sonhei dormindo ou acordado... Enquanto o carro tava na estrada pra Jacareí, fiquei pensando nisso tudo. Na infância. Na juventude. Na vida adulta. Na idade avançada. E, mais que de repente, um arco-íris mostrando a Esperança do ciclo que se renova.

Após o Dilúvio, a tormenta, vem sempre a Esperança num futuro que responde ao passado pelas tortas, ainda que certas, linhas de Sua escrita...

Parecia que eu escutava! Tava ele, o meu pai, a tia Julinha e a turma toda falando pr´eu ir por mim mesmo. Pr´eu ter olhos de ver, e entender, finalmente, depois de tanto tempo, o mistério de Loew. Pr´eu escolher, decidir!

Se eu quiser saber disso eu vou precisar de Disciplina para escolher entender todos os sinais da lenda que podem me levar aos tesouros deliciosos. É um trabalho duro e, exatamente por isso, valioso.

Quem é Loew?

Um rabino que criou um Golem e inspirou a construção do Frankenstein e do ChatGPT... Só com Alma existe a Pessoa!

Rabi Yehuda Loew... Um dos mais sábios rabinos, Cabalista, Talmudista. Sabe, tipo um mestre Yoda? Um leão da sabedoria? Um jovem leão que ruge os mais sublimes conhecimentos...

MaHaRal... Era feminista também! Fazia questão de que sua mulher estudasse para garantir ideias e Autonomia. Escutava... Sabia que da diversidade nascia a Criatividade.

Também construía a filosofia da vida com os números da vida, numa matemática poética que abre as cortinas dos algarismos para o entendimento da realidade!

É assim que construímos nosso destino de acordo como escolhemos responder a D´us.

Escolher! Decidir! Isso é ser um leão! Isso é Loew!


André Naves
Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Sociais e Inclusão Social. Comendador Cultural. Escritor e Professor.
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