Dizem
que em Portugal, o filme “Psicose” se chama “O Filho que era a Mãe”. Piada de
mau gosto, tá na cara. Lá ele se chama “Psico”. Aliás, falando em Hitchcock, o
“Festim Diabólico” é uma tradução brasileira muito mais carnavalesca que a
portuguesa “Corda”... No original, o filme se chama “Rope”...
Diriam
os italianos, “traduttore, traditore”...
A
Bárbara Heliodora, quando traduzia “O Mercador de Veneza” de Shakespere,
estudava a cultura e o idioma do Vêneto, ainda que os originais da peça fossem
ingleses... Ela aprendeu usos, costumes, palavras do dialeto...
Tudo para traduzir...
Dan
Stulbach falou, inclusive, que só um judeu poderia dar um tempero especial no
Shylock... Conhecer os pequenos gestos, as risadas, as mãos, o andar, dava um
sabor especial pra peça...
É
que cada um de nós já vem de fábrica com uma série de características. Essas,
inclusive, vão se incrementando com o nosso caminhar. Sabe, ganhando mais
sabor, mais tempero, mais vida...
Pensa
numa comida bem aconchegante. Aquela da sua vó... “Cê” acha que o tempero dela
veio da noite pro dia? Foi uma vida inteira de tentativa e erro. Alguns acertos
e muitos enganos! Mas depois de tanto tempo, de tanto erro e de tanta delícia,
um sabor único e especial vai surgindo. Só ela, depois de tanto caminhar,
depois de reforçar as características do caminho, consegue fazer assim...
Ou
seja, pra cozinhar, pra traduzir, pra escrever, pra rezar, pra viver... A gente
precisa viver! Caminhar! Só assim os melhores temperos vão sendo colocados na
nossa mochila, e os piores vão sendo despejados. Cada indivíduo com sua
individualidade, ao longo do caminho!
É
como dizem: o erro é o ensaio do acerto! É assim que nossa individualidade vai
se aprimorando!
Agora,
pensa numa coisa legal! É essa: pra gente conseguir ser a melhor versão da
gente, é necessário olhar para o Outro! Alteridade!
Não
sou a Bárbara Heliodora, mas vou tentar traduzir isso: O INDIVÍDUO SÓ SE
REALIZA NA COLETIVIDADE. É que todos nós temos vantagens e limitações: a
limitação do outro se completa na nossa vantagem, e vice-versa. Ao mesmo tempo,
convivendo, assistindo à vida e aos exemplos, vamos, aos poucos, ganhando novos
sabores na nossa essência.
Egoísmo
é o contrário disso.
Quando a gente rompe os laços coletivos
e sociais, a gente cai no poço sem fundo da solidão. A gente vai se seduzindo
com nossos próprios vícios. A gente termina na armadilha da idolatria. Ídolos
de barro ou de ouro: todos desviam nosso olhar do que importa de verdade! A
gente termina pior, menos interessante, menos complexo, mais frágil! Na
sarjeta! Imundo!
Mas é aí que mora o mistério: será que
a coletividade é só a soma dos indivíduos, ou ela é algo maior? Sabe quando a
soma das partes ainda não é tão grande e especial como o todo? Eu acho que a
coletividade é assim: maior que a soma dos indivíduos!
Mas sem indivíduo não tem coletividade!
Sem diversidade, sem pluralidade, a gente não tem nada. Pra ser coletivo, tem
de ser diverso! Ou seja, a coletividade, que exalta o indivíduo, é o contrário
do coletivismo, que esmaga a individualidade...
No coletivismo “Narciso acha feio o que
não é espelho”! Narciso é o ídolo de Narciso!
Essa é a nossa responsabilidade
individual! A gente, enquanto pessoa que é, não fica à toa, sendo manipulado
pelo coletivo. Pelo contrário, a cada momento a gente tem de escolher e decidir
quais dos nossos valores fortalecer. É assim que o indivíduo molda a
coletividade, ao mesmo tempo em que é moldado por ela.
E nesse baile da vida, em que os
indivíduos atravessam caminhos e são atravessados por eles, em que eles dão
tempero à coletividade enquanto ganham novos sabores dela, é nesse baile que a
música Divina toca e as lágrimas sempre vêm antes e depois dos risos!
É nesse baile, ouvindo essa música,
atravessando os caminhos da vida e sendo atravessado por eles, que escrevo
essas pequenas crônicas.
Na verdade, não eu... Nós... Juntos...
Mas aos olhos meus...
André Naves
Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Sociais e Inclusão
Social. Comendador Cultural. Escritor e Professor.
www.andrenaves.com | Instagram: @andrenaves.def












