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quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Iachad (juntos - יחד) - por André Naves: Aos olhos meus...

 



          Dizem que em Portugal, o filme “Psicose” se chama “O Filho que era a Mãe”. Piada de mau gosto, tá na cara. Lá ele se chama “Psico”. Aliás, falando em Hitchcock, o “Festim Diabólico” é uma tradução brasileira muito mais carnavalesca que a portuguesa “Corda”... No original, o filme se chama “Rope”...

          Diriam os italianos, “traduttore, traditore”...

          A Bárbara Heliodora, quando traduzia “O Mercador de Veneza” de Shakespere, estudava a cultura e o idioma do Vêneto, ainda que os originais da peça fossem ingleses... Ela aprendeu usos, costumes, palavras do dialeto...

Tudo para traduzir...

          Dan Stulbach falou, inclusive, que só um judeu poderia dar um tempero especial no Shylock... Conhecer os pequenos gestos, as risadas, as mãos, o andar, dava um sabor especial pra peça...

          É que cada um de nós já vem de fábrica com uma série de características. Essas, inclusive, vão se incrementando com o nosso caminhar. Sabe, ganhando mais sabor, mais tempero, mais vida...

          Pensa numa comida bem aconchegante. Aquela da sua vó... “Cê” acha que o tempero dela veio da noite pro dia? Foi uma vida inteira de tentativa e erro. Alguns acertos e muitos enganos! Mas depois de tanto tempo, de tanto erro e de tanta delícia, um sabor único e especial vai surgindo. Só ela, depois de tanto caminhar, depois de reforçar as características do caminho, consegue fazer assim...

          Ou seja, pra cozinhar, pra traduzir, pra escrever, pra rezar, pra viver... A gente precisa viver! Caminhar! Só assim os melhores temperos vão sendo colocados na nossa mochila, e os piores vão sendo despejados. Cada indivíduo com sua individualidade, ao longo do caminho!

          É como dizem: o erro é o ensaio do acerto! É assim que nossa individualidade vai se aprimorando!

          Agora, pensa numa coisa legal! É essa: pra gente conseguir ser a melhor versão da gente, é necessário olhar para o Outro! Alteridade!

          Não sou a Bárbara Heliodora, mas vou tentar traduzir isso: O INDIVÍDUO SÓ SE REALIZA NA COLETIVIDADE. É que todos nós temos vantagens e limitações: a limitação do outro se completa na nossa vantagem, e vice-versa. Ao mesmo tempo, convivendo, assistindo à vida e aos exemplos, vamos, aos poucos, ganhando novos sabores na nossa essência.

          Egoísmo é o contrário disso.

Quando a gente rompe os laços coletivos e sociais, a gente cai no poço sem fundo da solidão. A gente vai se seduzindo com nossos próprios vícios. A gente termina na armadilha da idolatria. Ídolos de barro ou de ouro: todos desviam nosso olhar do que importa de verdade! A gente termina pior, menos interessante, menos complexo, mais frágil! Na sarjeta! Imundo!

Mas é aí que mora o mistério: será que a coletividade é só a soma dos indivíduos, ou ela é algo maior? Sabe quando a soma das partes ainda não é tão grande e especial como o todo? Eu acho que a coletividade é assim: maior que a soma dos indivíduos!

Mas sem indivíduo não tem coletividade! Sem diversidade, sem pluralidade, a gente não tem nada. Pra ser coletivo, tem de ser diverso! Ou seja, a coletividade, que exalta o indivíduo, é o contrário do coletivismo, que esmaga a individualidade...

No coletivismo “Narciso acha feio o que não é espelho”! Narciso é o ídolo de Narciso!

Essa é a nossa responsabilidade individual! A gente, enquanto pessoa que é, não fica à toa, sendo manipulado pelo coletivo. Pelo contrário, a cada momento a gente tem de escolher e decidir quais dos nossos valores fortalecer. É assim que o indivíduo molda a coletividade, ao mesmo tempo em que é moldado por ela.

E nesse baile da vida, em que os indivíduos atravessam caminhos e são atravessados por eles, em que eles dão tempero à coletividade enquanto ganham novos sabores dela, é nesse baile que a música Divina toca e as lágrimas sempre vêm antes e depois dos risos!

É nesse baile, ouvindo essa música, atravessando os caminhos da vida e sendo atravessado por eles, que escrevo essas pequenas crônicas.

Na verdade, não eu... Nós... Juntos... Mas aos olhos meus...

André Naves
Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Sociais e Inclusão Social. Comendador Cultural. Escritor e Professor.
www.andrenaves.com | Instagram: @andrenaves.def

 

         

 


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