Conheça a história da Albânia, do seu código de honra e dos muçulmanos que salvaram milhares de judeus do Holocausto.
Por Itanira Heineberg
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| Famílias albanesas, em sua maioria muçulmanas, acolheram em suas casas e protegeram milhares de refugiados de países como Alemanha e Áustria que fugiam da perseguição durante o Holocausto. |
Você Sabia que a Albânia foi o país que apresentou o maior número de judeus em seu território ao final do Holocausto, ao contrário dos outros? Foi o único país em que isso aconteceu.
Hoje, seus cidadãos figuram entre os Justos entre as
Nações no Jardim do Yad Vashem, o Centro Mundial da Memória do Holocausto em
Jerusalém, Israel.
"Justos entre as Nações" é o título concedido
pelo Museu do Holocausto - Yad Vashem - a não judeus que arriscaram suas vidas
para salvar judeus durante o Holocausto. A Albânia é mundialmente reconhecida
por este feito histórico, abrigando dezenas de homenageados e sendo o único
país europeu com mais judeus após a guerra do que antes dela.
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| Berat, Albânia - família Frasheri, que salvou judeus da Iugoslávia. |
Em 1945, a Albânia chegou ao fim da guerra com mais de 3
mil refugiados judeus em seu território. Como explicar este elevado número de
sobreviventes ao final da guerra?
O que salvou estes indivíduos foi o código de honra
denominado Besa, associado à tradicional solidariedade dos cidadãos albaneses.
Até então eu nunca havia ouvido falar deste código quase
mágico, uma força potente que desafiou a intransigência, a dureza e a crueldade
nazista.
Há anos convivo com famílias muçulmanas em nosso
carinhoso grupo Família Abraâmica em São Paulo e nunca, em nenhuma
apresentação, explicação ou aula este assunto foi aventado.
Nem nos livros de História, nem na literatura, nem no
cinema.
Descobri com prazer o auspicioso conceito Besa.
Quem sabe ainda possamos reavivá-lo, difundí-lo, ensiná-lo
ao mundo nestes tempos que vivemos, tempos de dor, ódio, guerras? Uma esperança
brilha ao longe e hoje li que este código ainda está sendo observado na pobre e
pequena Albânia de nossos dias. Recentemente, a Albânia recebeu e acolheu quatro
mil afegãos fugindo das atrocidades do Talibã.
Falemos deste fenômeno Besa. Acredito que todos queiram
conhecê-lo e talvez praticá-lo em suas vidas agora.
Besa é um código de honra cultural e ético tradicional
albanês que dita que a casa de um homem pertence a um hóspede e a Deus, e que a
hospitalidade sagrada exige a proteção da vida de qualquer pessoa que busque
refúgio.
A maioria da população salvadora era muçulmana, mas o
esforço envolveu cristãos e autoridades de todo o país. A Albânia não apenas
protegeu sua pequena população de judeus nativos, como também acolheu centenas
de refugiados que fugiram da Alemanha, Áustria e Iugoslávia.
Mais de 70 cidadãos albaneses foram oficialmente
reconhecidos como "Justos entre as Nações" pelo Yad Vashem.
Este pequeno país montanhoso na costa sudeste da
península balcânica tinha uma população de 803.000 habitantes. Destes, apenas
duzentos eram judeus. Após a ascensão de Hitler ao poder em 1933, muitos judeus
encontraram refúgio na Albânia. Não existem números exatos sobre a quantidade
de judeus; no entanto, diferentes fontes estimam que entre 600 e 1.800
refugiados judeus entraram no país vindos da Alemanha, Áustria, Sérvia, Grécia
e Iugoslávia, na esperança de seguir para a Terra de Israel ou outros locais de
refúgio.
Existe uma lenda urbana que relata a passagem de Albert
Einstein pelo país antes de se dirigir à Palestina, hoje Israel.
Após a ocupação alemã em 1943, a população albanesa, num
ato extraordinário, recusou-se a cumprir as ordens dos ocupantes para entregar
as listas de judeus residentes no país. Além disso, diversas agências
governamentais forneceram a muitas famílias judias documentos falsos que lhes
permitiram misturar-se com o resto da população. Os albaneses não só protegeram
os seus cidadãos judeus, como também deram refúgio a refugiados judeus que
tinham chegado à Albânia quando esta ainda estava sob domínio italiano, e que
agora se viam ameaçados de deportação para campos de concentração.
A notável assistência prestada aos judeus baseava-se na
Besa, um código de honra que ainda hoje serve como o mais alto código ético do
país. Besa significa literalmente "cumprir a promessa". Quem age de
acordo com a Besa é alguém que cumpre sua palavra, alguém em quem se pode
confiar a própria vida e a de sua família.
A ajuda prestada tanto a judeus quanto a não judeus deve
ser entendida como uma questão de honra nacional. Os albaneses se esforçavam
para prestar auxílio; além disso, competiam entre si pelo privilégio de salvar
judeus. Esses atos originavam-se da compaixão, da bondade e do desejo de ajudar
os necessitados, mesmo aqueles de outra fé ou origem.
A Albânia, o único país europeu com maioria muçulmana,
obteve sucesso onde outras nações europeias falharam. Quase todos os judeus que
viviam dentro das fronteiras albanesas durante a ocupação alemã, tanto os de
origem albanesa quanto os refugiados, foram salvos, com exceção de membros de
uma única família. Impressionantemente, havia mais judeus na Albânia no final
da guerra do que antes.
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Memorial do Holocausto no Grand Park da capital Tirana - 2020 |
FONTES:
https://wwv.yadvashem.org/yv/en/exhibitions/besa/index.asp




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