Por Juliana Rehfeld
País avança para trás
Estamos em Tisha beAv, 9 do mês Av, a data que concentra as maiores tragédias para o povo judeu, pelas quais se entra em luto. A Mishná (Tratado Ta’anit 4:6) cita cinco calamidades principais ocorridas nesse dia, e a tradição posteriormente associou diversos outros acontecimentos históricos à mesma data.
- O pecado dos espiões que Moisés enviou para descobrir como era Canaã e cujo relato pessimista de 10 entre os 12 que foram resultou na demora de 40 anos no deserto e consequente morte de toda uma geração.
- Destruição do Primeiro Templo em 586 a.e.c. Jerusalém e o Templo de Salomão, por Nabucodonosor II, iniciando o exílio babilônico.
- Destruição do Segundo Templo em 70 d.e.c. pelo romano Tito durante a Grande Revolta Judaica. Deu início ao longo período de dispersão.
- Queda da fortaleza de Betar em 135 d.e.c., último grande reduto da revolta de Bar Kochba contra Roma na qual milhares de judeus morreram.
- Jerusalém foi devastada pelos romanos e transformada na colônia romana de Aelia Capitolina, com proibição em grande parte da presença judaica.
Ao longo dos séculos, a tradição também relacionou ao 9 de Av diversos episódios marcantes da história judaica, entre eles:
* 1290 – Expulsão dos judeus da Inglaterra por ordem do rei Eduardo I da Inglaterra.
* 1492 – Entrada em vigor do Decreto de Alhambra, que expulsou os judeus da Espanha sob os Reis Católicos, Fernando II de Aragão e Isabel I de Castela.
Por isso, o 9 de Av tornou-se um dia que simboliza não apenas a destruição dos Templos, mas todas as grandes rupturas nacionais do povo judeu: perda da soberania, exílio, perseguições e dispersão.
Talvez a reflexão mais frequente neste dia em nosso tempo é a de que será que faz sentido lembrar todas essas as tragédias quando hoje temos de volta a “Terra Prometida” e afinal a dispersão do povo é uma decisão individual nossa? E uma frequente resposta é a de que desse dia de maior escuridão poderá surgir a redenção, razão pela qual Tishá BeAv é também entendido como um convite à reconstrução espiritual e nacional. Não se trata apenas de recordar perdas, mas de reconhecer a capacidade de sobrevivência e renovação do povo judeu, que afinal construiu e administra um país pujante e contemporâneo, cuja população segue crescendo e produzindo grandes contribuições à humanidade…
Mas os sábios do Talmud ensinam que o Segundo Templo foi destruído por causa do sinat chinam — o ódio infundado entre judeus. E essa mensagem ganha especial relevância no Israel contemporâneo, onde as profundas e concretas divisões entre religiosos e seculares, direita e esquerda, e diferentes setores da sociedade, e têm sido motivo de preocupação constante, pior, motivo, na minha opinião, e não só na minha, de perda (recuperável?) de valores essenciais do judaísmo…
A divisão foi escancarada nas 5 eleições entre abril de 2019 e novembro de 2022, em plena pandemia… 2023 começou com gigantes manifestações contra a chamada “reforma judiciária” de 4 de janeiro que pretendeu reduzir o poder da Suprema Corte, o que, num país sem uma constituição única nem uma segunda câmara legislativa, colocaria em risco a separação de poderes e a proteção das minorias. Esta mega discussão que, provavelmente logo se encaminharia a mais uma quebra da coalizão e traria mais um eleição, foi brutalmente interrompida por 7 de outubro de 2023. E a sociedade se calou, se desesperou e seu foco mudou. E novas manifestações voltaram às ruas.
A atual composição da coalizão que governa o país, com grande peso da extrema direita e da ultra ortodoxia, tem empurrado esta contemporânea democracia para trás!
Às vésperas de uma nova eleição em 27/10 próximo e antes da unânime auto dissolução em 17/07, houve uma maratona de votações nos últimos dias, um rolo compressor, antes que venha a nova realidade prevista nas pesquisas: Bloco da oposição: cerca de 61–62 cadeiras, suficiente para uma maioria mínima na Knesset; Bloco pró-Netanyahu: cerca de 48–49 cadeiras; Partidos árabes e outros não alinhados: aproximadamente 10–11 cadeiras, que podem ser decisivos dependendo das negociações.
Em resumo, as principais vitórias legislativas dos partidos ultraortodoxos antes das eleições foram:
1. a suspensão prática das sanções e prisões para muitos jovens haredim que não se apresentam ao serviço militar;
2. a ampliação da possibilidade de programas universitários separados por gênero;
3. o reconhecimento, em lei, do estudo da Torá como um valor fundamental do Estado.
Além disso, foi aprovada uma decisão do gabinete de segurança (Security Cabinet), seguida da aprovação de recursos orçamentários pela coalizão, para financiar uma nova expansão de assentamentos na Cisjordânia. A medida prevê cerca de 34 novos assentamentos, mas, com eles, o número de assentamentos iniciados ou autorizados durante o atual mandato do governo chega a 103.
Há mais, mas paro por aqui… e pergunto, neste 9 de Av, para onde “avança” esta contemporânea, diversa e pujante democracia?
Shabat Shalom

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