Por Juliana Rehfeld
É grande hoje a procura pelo novo, pela aventura, por emoções que façam os sentidos reconhecerem que se está vivo, que está presente o privilégio de continuar vivo. Esportes radicais, lugares distantes, passeios a cantos extremos, natureza inóspita. Os mais jovens buscam isso cada vez mais, até porque estão mais aptos a enfrentar os riscos… mas acontece que são os mais entediados. Entediados com… o que mesmo? Com a rotina, com a disciplina necessária, com as mesmas trajetórias, as mesmas notícias, as mesmas pessoas, mesmas palavras… estão todos mal-acostumados ao stress. Então a necessidade de mais stress é imperiosa.
Imagine você então como seria passar 40 anos no deserto… mesmo que você tenha tido que sair fugindo às pressas de sua casa, sido perseguido(a) por soldados montados e equipados com espadas… mesmo que tenha presenciado o mar se abrir à sua frente e tenha podido olhar para trás após a travessia só para vê-lo fechar-se sobre seus perseguidores… mesmo que logo que você tenha sentido fome, do céu tenha caído uma refeição e que isso continuasse todos dias acompanhando você enquanto se deslocava.
Como era mesmo?
O maná caía durante a noite, como uma fina camada sobre o solo (Êxodo 16). Cada família saía cedo para recolher apenas a quantidade necessária para aquele dia. Antes do calor do sol aumentar, o maná derretia. Por isso, não era possível deixar para depois. Às sextas-feiras recolhiam o dobro, pois no Shabat não havia maná.
Pela manhã, preparavam o maná. A Torá diz que podia ser moído, pilado, cozido ou assado, e tinha sabor agradável, comparado a bolo com mel ou azeite. Alimentavam os animais e cuidavam dos pertences. As mulheres cuidavam da casa e das crianças, embora certamente muitas atividades fossem compartilhadas.
Durante o dia o povo vivia em um enorme acampamento organizado: no centro ficava o Tabernáculo (Mishkan). Ao redor dele acampavam os levitas. Mais externamente, as outras doze tribos, cada uma em sua posição fixa. Havia diversas atividades: julgamentos de conflitos (primeiro por Moisés e depois também pelos anciãos), ensino da Torá, sacrifícios diários no Tabernáculo, confecção e manutenção das tendas, cuidado com rebanhos de ovelhas, cabras e gado, que eles trouxeram do Egito.
Quando a nuvem se movia… esse era talvez o momento mais marcante da vida no deserto.
A nuvem sobre o Tabernáculo indicava quando Deus ordenava partir.
Então: desmontavam todas as tendas; os levitas desmontavam cuidadosamente o Tabernáculo; cada tribo saía em uma ordem específica; caminhavam até o próximo local; montavam novamente todo o acampamento.
Às vezes permaneciam meses no mesmo lugar; outras vezes apenas alguns dias.
À tarde continuavam os trabalhos cotidianos. Havia instrução religiosa. Algumas pessoas levavam ofertas ao Tabernáculo.
À noite jantavam. A coluna de fogo substituía a nuvem, simbolizando a presença divina. Descansavam aguardando o novo dia.
Como era viver assim? Imagine uma cidade de talvez 2 a 3 milhões de pessoas, mas formada apenas por tendas.
Era uma vida sem agricultura, sem cidades, sem comércio desenvolvido, dependente diariamente do maná e da água provida por Deus, organizada em torno do Mishkan.
Ao mesmo tempo, era uma longa escola espiritual. O objetivo não era apenas atravessar um deserto físico, mas transformar um povo de ex-escravos em uma nação capaz de viver segundo a Torá.
Não há registro de sensação de tédio, até porque durante essa rotina de vez em quando alguém se rebelava e podia ser fulminado por um raio, ou a terra se abria e muitos eram engolidos pelo buraco…
Havia, para a maioria, uma sensação de proteção, de que tudo daria certo no final… para a geração que iniciou a fuga, não deu. Morreram todos antes de chegar à terra prometida. O último, Moisés, que ao longo das décadas no deserto “segurou as pontas” por todos, negociou com Deus para que não fossem todos destruídos, ele próprio não entrou em Canaã… pôde apenas contempla-lá do alto do monte Nebo, na atual Jordânia… e morreu aos 120 anos.
A nossa rotina diária, como se diz, a “de ter de matar um leão a cada dia pra sobreviver” é mais arriscada, nada garantida, até porque se não vivemos em locais onde há guerras sem fim, vivemos próximos a centros nos quais a violência só cresce e não temos tido sucesso em reduzi-la mesmo rezando muito…
À nossa volta tudo está sempre acontecendo, coração palpita, até demais, corremos o tempo todo, e mesmo no arrastado trânsito ouvimos notícias surpreendentes e alarmantes no rádio ou no fone ligado ao celular. Difícil esconder-se do que acontece.
Menos, no Shabat. Se tivermos o privilégio e a teimosia de desacelerar, parar mesmo para encontrar a turma, presencial ou virtualmente, entoar “nigunim”, melodias, que nos reconectam ao calor e ao silêncio do deserto, que nos desafiavam mas também confortavam, onde sentíamos que tudo daria certo, no final…
Shabat Shalom















