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quinta-feira, 6 de agosto de 2026

ACONTECE: Saudades do deserto

 Por Juliana Rehfeld


É grande hoje a procura pelo novo, pela aventura, por emoções que façam os sentidos reconhecerem que se está vivo, que está presente o privilégio de continuar vivo. Esportes radicais, lugares distantes, passeios a cantos extremos, natureza inóspita. Os mais jovens buscam isso cada vez mais, até porque estão mais aptos a enfrentar os riscos… mas acontece que são os mais entediados. Entediados com… o que mesmo? Com a rotina, com a disciplina necessária, com as mesmas trajetórias, as mesmas notícias, as mesmas pessoas, mesmas palavras… estão todos mal-acostumados ao stress. Então a necessidade de mais stress é imperiosa. 

Imagine você então como seria passar 40 anos no deserto… mesmo que você tenha tido que sair fugindo às pressas de sua casa, sido perseguido(a) por soldados montados e equipados com espadas… mesmo que tenha presenciado o mar se abrir à sua frente e tenha podido olhar para trás após a travessia só para vê-lo fechar-se sobre seus perseguidores… mesmo que logo que você tenha sentido fome, do céu tenha caído uma refeição e que isso continuasse todos dias acompanhando você enquanto se deslocava. 

Como era mesmo? 

O maná caía durante a noite, como uma fina camada sobre o solo (Êxodo 16). Cada família saía cedo para recolher apenas a quantidade necessária para aquele dia. Antes do calor do sol aumentar, o maná derretia. Por isso, não era possível deixar para depois. Às sextas-feiras recolhiam o dobro, pois no Shabat não havia maná.

Pela manhã, preparavam o maná. A Torá diz que podia ser moído, pilado, cozido ou assado, e tinha sabor agradável, comparado a bolo com mel ou azeite. Alimentavam os animais e cuidavam dos pertences. As mulheres cuidavam da casa e das crianças, embora certamente muitas atividades fossem compartilhadas.

Durante o dia o povo vivia em um enorme acampamento organizado: no centro ficava o Tabernáculo (Mishkan). Ao redor dele acampavam os levitas. Mais externamente, as outras doze tribos, cada uma em sua posição fixa. Havia diversas atividades: julgamentos de conflitos (primeiro por Moisés e depois também pelos anciãos), ensino da Torá, sacrifícios diários no Tabernáculo, confecção e manutenção das tendas, cuidado com rebanhos de ovelhas, cabras e gado, que eles trouxeram do Egito.

Quando a nuvem se movia… esse era talvez o momento mais marcante da vida no deserto.

A nuvem sobre o Tabernáculo indicava quando Deus ordenava partir.

Então: desmontavam todas as tendas; os levitas desmontavam cuidadosamente o Tabernáculo; cada tribo saía em uma ordem específica; caminhavam até o próximo local; montavam novamente todo o acampamento.

Às vezes permaneciam meses no mesmo lugar; outras vezes apenas alguns dias.

À tarde continuavam os trabalhos cotidianos. Havia instrução religiosa. Algumas pessoas levavam ofertas ao Tabernáculo.

À noite jantavam. A coluna de fogo substituía a nuvem, simbolizando a presença divina. Descansavam aguardando o novo dia.

Como era viver assim? Imagine uma cidade de talvez 2 a 3 milhões de pessoas, mas formada apenas por tendas.

Era uma vida sem agricultura, sem cidades, sem comércio desenvolvido, dependente diariamente do maná e da água provida por Deus, organizada em torno do Mishkan.

Ao mesmo tempo, era uma longa escola espiritual. O objetivo não era apenas atravessar um deserto físico, mas transformar um povo de ex-escravos em uma nação capaz de viver segundo a Torá.

Não há registro de sensação de tédio, até porque durante essa rotina de vez em quando alguém se rebelava e podia ser fulminado por um raio, ou a terra se abria e muitos eram engolidos pelo buraco… 

Havia, para a maioria, uma sensação de proteção, de que tudo daria certo no final… para a geração que iniciou a fuga, não deu. Morreram todos antes de chegar à terra prometida. O último, Moisés, que ao longo das décadas no deserto “segurou as pontas” por todos, negociou com Deus para que não fossem todos destruídos, ele próprio não entrou em Canaã… pôde apenas contempla-lá do alto do monte Nebo, na atual Jordânia… e morreu aos 120 anos. 

A nossa rotina diária, como se diz, a “de ter de matar um leão a cada dia pra sobreviver” é mais arriscada, nada garantida, até porque se não vivemos em locais onde há guerras sem fim, vivemos próximos a centros nos quais a violência só cresce e não temos tido sucesso em reduzi-la mesmo rezando muito…

À nossa volta tudo está sempre acontecendo, coração palpita, até demais, corremos o tempo todo, e mesmo no arrastado trânsito ouvimos notícias surpreendentes e alarmantes no rádio ou no fone ligado ao celular. Difícil esconder-se do que acontece. 

Menos, no Shabat. Se tivermos o privilégio e a teimosia de desacelerar, parar mesmo para encontrar a turma, presencial ou virtualmente, entoar “nigunim”, melodias, que nos reconectam ao calor e ao silêncio do deserto, que nos desafiavam mas também confortavam, onde sentíamos que tudo daria certo, no final…

Shabat Shalom

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

VOCÊ SABIA? - Sinagoga Basílica, uma joia arqueológica

 

Por Itanira Heineberg




A ALBÂNIA, um dos países mais pobres da Europa, uma democracia de pouco mais de 30 anos de existência, guarda em seu território uma joia judaica arqueológica de valor inestimável, bem zelada e preservada - mas de pouco conhecimento por parte de seus cidadãos.







Você Sabia que a Sinagoga-Basílica de Sarandë é um dos sítios arqueológicos mais fascinantes da Albânia, documentando a transição religiosa e cultural da região entre os séculos IV e VI?




Muito importante ressaltar que este complexo localizado no coração da cidade costeira de Sarandë (antiga Onchesmos) representa a primeira evidência arqueológica de uma comunidade judaica antiga na Albânia.



A história dos judeus no país remonta a cerca de 2.000 anos.

De acordo com o historiador Apostol Kotani (Albânia e os judeus), "Os judeus podem ter chegado pela primeira vez à Albânia já em 70 d.C. como prisioneiros em navios romanos que foram arrastados para a costa sul do país. Descendentes desses cativos construiriam a primeira sinagoga na cidade portuária do sul de Sarandë no século V.”


As maravilhas arqueológicas de Sarandë


Descoberta na década de 1980, escavada e restaurada no início dos anos 2000, a sinagoga de Sarandë data do século V e pertencia a uma comunidade próspera e proeminente, como indica sua localização no coração da cidade velha. Os visitantes podem agora admirar os mosaicos, incluindo uma menorá e o que parece ser a Arca da Aliança.

No século VI, a sinagoga foi transformada em basílica.

Os visitantes podem encontrar informações mais detalhadas e fotografias no Museu Arqueológico da cidade.



Vejamos agora o histórico do Sítio Arqueológico:

O monumento passou por fases distintas ao longo de sua existência:

Séculos II a IV (Origens): O local inicialmente abrigava residências privadas romanas, identificadas por fundações de vilas e mosaicos primitivos.

Século V (A Sinagoga): Uma próspera comunidade de judeus (que teriam chegado à costa albanesa por volta de 70 d.C.) construiu uma grande sinagoga. Esta fase continha várias salas decoradas com mosaicos que exibiam símbolos puramente judaicos, como a Menorá (candelabro de sete braços), o Shofar (chifre de carneiro) e o Etrog (fruta cítrica).

Século VI (Conversão em Basílica Cristã): Durante o Império Bizantino, a estrutura foi expandida e convertida em uma Basílica Paleocristã (igreja cristã primitiva). Novos mosaicos foram sobrepostos, retratando animais, árvores, vasos e representações bíblicas sem referências estritamente judaicas.

Destruição: Estima-se que o complexo foi totalmente destruído por invasões eslavas e bávaras entre os anos de 580 e 585 d.C.



Em 2003, uma cooperação internacional entre o Instituto de Arqueologia de Tirana e o Instituto de Arqueologia da Universidade Hebraica de Jerusalém retomou os trabalhos no local. Foi essa escavação conjunta que confirmou a identidade judaica do templo primitivo ao limpar os mosaicos enterrados.




Ao preparar nossa recente viagem à Albânia descobri a existência das ruínas desta sinagoga e estava ansiosa por visitar o sítio.

Mas desde o primeiro contato em terra firme, ouvia dizer que não havia sinagogas ou ruínas no país. O motorista de táxi, as moças e moços da recepção dos hotéis, nosso maravilhoso guia que nos acompanhou durante 6 dias, todos negavam a minha história.

Já no penúltimo dia, ou melhor, penúltima noite de nosso périplo pelo país, num momento de quase fúria, após um dia cansativo de muitas caminhadas e visitas a castelos e temperaturas de 42 graus, arrisquei a IA e descobri que estávamos perto do lugar sagrado, Sarandë, uma linda cidade.

Com muito sol, calor e alegria percorremos as ruas das ruínas, imaginando onde estaria a bimah, onde ficariam as pessoas durante as orações. Enfim, havíamos chegado ao lugar por nós tão esperado.

Queríamos desfrutar desta oportunidade de ver um pouco mais deste país,

Desta Albânia que protegeu seus judeus durante a Segunda Guerra Mundial com base no código de honra tradicional chamado besa.

O país foi um dos raros lugares na Europa onde a população judaica aumentou durante o Holocausto devido aos refugiados abrigados.





Hoje a população judaica no país reduziu-se a cem pessoas pois, com o fim do regime comunista, os judeus albaneses emigraram para Israel.




 

FONTES:

https://jguideeurope.org/en/region/albania/sarande/

https://www.bbc.com/portuguese/articles/cq5y9nr3n79o

https://blog.ehri-project.eu/2024/01/24/the-rescue-of-jews-in-albania/

IA



Iachad (juntos - יחד) - por André Naves: Bnei Anussim

 


Bnei Anussim

Saudades...

Saudades...

Saudades...

Pra última flor do Lácio, pro português quadradinho das gramáticas, saudade é um ente abstrato. Não existe o plural de saudade!

Que loucura isso! Não existe plural...

Justo as saudades! Quer coisa mais coletiva, mais ancestral, que isso? Nossas saudades...

Mas aqui é minha crônica! Linguagem do conforto, da fogueira, do café, do bolo de fubá...

Aqui as saudades são ancestrais. Vêm de antepassados e vão sendo construídas passo a passo, fagulha a fagulha... De geração em geração!

Acho que até fiquei um tiquinho confuso...

Claro que eu sou um indivíduo. Tenho minhas características únicas, cores e sons, luzes e trevas. Sou gente! Nada do que é humano me é estranho, dizem...

Mas foi o caminho de minha história que me trouxe até aqui.

Até aqui...

Eu sou fruto da união de algumas famílias. Quem não é, não é?

Os Naves, que vieram da Espanha. Aliás, bem pertinho de Oviedo ainda tem o vilarejo Naves. Interessante isso, né?

Porque os Naves... bem, eu não sei qual é o nome original, mas eram armadores. Originalmente, armadores. Construtores de caravelas. Desbravadores. Mas caíram nas tramas da inveja, da intriga! Massacrados! Aniquilados! Fogueiras da Inquisição. Fogueiras da destruição! Convertidos à força! Forçados... Expropriados... Degradados!

De descobridores a refugiados...

Essa fogueira começou numa tragédia, num massacre, mas terminou aqui, nessas reticências...

E tem o outro lado também... A outra turma! Meu outro eu! Os Logaldi Bartholomeu! Arberesh! Albaneses expulsos quando o Império Otomano dominou. Desembarcaram na Itália. Séculos se passaram... De repente, Brasil!

Do refúgio às reticências...

Minhas raízes! O italiano sempre foi o idioma de dominadores, de invasores! Nada como o doce som do Arberesch falado na Calábria!  Não tinha o sabor ancestral do raki... Era só um vinho importado, um modismo autoritário, sem tradição, sem vida, sem alma nem história!

Refugiados no Brasil!

Silva e Logaldi Bartholomeu. Brasil e Europa. Tudo se cruzou, se emaranhou, se amalgamou... Eis-me aqui! Das tragédias abrem-se as cortinas para o Futuro!

Promessa!

É uma enormidade de fatos e coincidências, desastres e delícias, de histórias que nos embalaram até essa letra! Esse "A"!

Já pensou se de repente um ancestral meu tivesse resolvido tomar outro caminho, outra escolha? E se ele tivesse morrido de morte matada? Ou de morte morrida? Ou se tivesse ganhado fortuna?

A história faz parte de quem eu sou. Faz parte dessas palavras que vocês estão lendo. De tudo o que falo, de tudo o que sei, de tudo o que sou...

Taí a beleza da vida! Esse é o milagre! O MILAGRE!

No fim, a gente é muito mais do que somente coletivo. A gente é histórico. É ancestral. A gente foi sendo construído, transmitido, aos poucos... Passo a passo... Tradição a tradição... De geração em geração!

Bnei Anussim... Filhos dos Forçados... Filhos da Força!

No fim, a gente é História, mas isso não é uma condenação. É uma promessa, uma possibilidade! Se somos frutos da nossa história, temos a possibilidade de quebrar ciclos. De começar do zero uma nova linhagem geracional. Mais limpa. Mais iluminada. Mais potente.

Um momento, uma tomada de decisão! Única! E, de repente, a gente tá com o timão da vida... Vontade, desejo e paixão! Crescer, caminhar, estar ao lado dos outros, perceber a comunidade. É isso que faz o que nós somos!

Responsabilidade...

É por isso que é melhor a gente não fugir das tragédias. Elas acontecem... Fazem parte desse mundo. E, acreditem, elas nos tornam pessoas melhores — comunidades melhores, pessoas históricas e coletivas, ancestrais e coletivas, melhores.

Pensa no paradoxo... Talvez a maior de todas as tragédias seja nunca ser purificado por uma tragédia. A ostra só produz pérolas quando incomodada pelo grão de areia...

Armadores ibéricos que construíam caravelas foram queimados nas fogueiras, enquanto os que restaram foram jogados no mar, para as Américas. Albaneses perseguidos por impérios atravessaram mares e montanhas e acabaram no Brasil. Nessas reticências...

A gente sente na pele o eco de fogueiras que nunca viu, mas que queimaram algo dentro de nós... Traumas históricos. Saudades ancestrais...

Mas olha... Eu acho que todos nós somos, de alguma forma, não importa se nossos ancestrais foram judeus ibéricos e albaneses, otomanos, africanos escravizados, indígenas massacrados, migrantes famintos... Todos nós somos filhos dos que foram forçados — pela história, pela tragédia, pela crueldade dos impérios e das inquisições de cada tempo.

E estamos aqui e agora, todos nós, portadores do mesmo tesouro, pescadores das mesmas pérolas, proprietários da mesma oportunidade: quebrar o ciclo. Começar de novo. Sob Aquela Luz que sempre continua brilhando. Silenciosa. Discreta.

Como a saudade que não tem plural no dicionário, mas que em nós se faz multidão, o todo é muito maior do que a soma das partes, juntos pelo amálgama do Amor.

Juntos por Amor!

Naves. Logaldi. Bartholomeu. Silva. Fogueiras. Caravelas. Oceanos. Pérolas. Brasil!

Tudo isso sou eu. Tudo isso somos nós.

Bnei Anussim.

Filhos dos Forçados...

Filhos da Força!

André Naves Defensor Público Federal. Escritor. Presidente do Chaverim (www.chaverim.org.br) www.andrenaves.com | Instagram: @andrenaves.def