Imagine um chaveiro...
Sabe? Daqueles que a gente carrega e às
vezes perde?
Cada chave com um desenho diferente,
cada uma abrindo uma porta do mundo e, às vezes, do coração...
O Chaverim, para mim, sempre foi isso...
De certa forma, um chaveiro de gente. Um chaveiro da gente! Gente que abre... Que
destranca... Gente que constrói pertencimento!
Quando eu tomei conhecimento dele, ali,
naquela primeira vez... Eu achava que ia ser só uma palestra... Mais uma! Era
só mais um convite... Bem... Essa “palestra” em que eu mais escuto que falo, já
dura mais de década!
Cheguei lá meio à toa. Ganhei uma
família. Várias! Eu tava lá, assistindo a um laboratório de amizade,
acolhimento e humanidade.
É uma revolução pela convivência. Pela
amizade!
Sim... Em hebraico, “Chaverim”
significa “amigos”. Mas O Chaverim significa muito mais... É o canto pela união
daquilo que o mundo insiste em separar!
É curioso como, para enfrentar o
antissemitismo, muita gente pensa que basta ensinar história, denunciar o ódio,
explicar contextos. Sempre tive minhas dúvidas... Não me entenda mal, por
favor! Claro que isso é necessário! É que não basta...
O antissemitismo — como todo
preconceito — se dissolve é na convivência. Odiar de longe é sempre mais fácil;
é no encontro que o erro se desmancha.
E é isso que o Chaverim faz, há mais de
trinta anos... 30 anos! Não são 30 dias. Não é uma iniciativa de agora. Quando
o mundo nem sonhava com pertencer, acolher e conviver, ele já tava lá...
Criando encontros. Laços. Vínculos tão
verdadeiros que nenhuma desinformação consegue romper!
Sabe o mais legal? É muito divertido perceber
como essa caminhada — tão judaica e tão brasileira — acaba por ressaltar uma
obviedade: a gente é muito igual!
Quem tem mãe ou avó mineira sabe do que
eu tô falando... Ela sempre manda levar um casaquinho, uma matulinha... Toda
vez! Ela fala que a gente precisa comer mais... Sabe uma Yiddish Momme?
Quem já viu mesa grande em Minas, Goiás
ou no sertão paulista reconhece de longe aquelas conversas paralelas, aquele
falatório... Tá todo mundo em uma estação diferente, mas ninguém perde o fio da
meada. E nas reuniões?
E os temperos? A abundância asquenazi
convivendo, sem conflito, com o calor dos sabores sefaradis — tudo isso fala ao
Brasil profundo.
Até o trânsito...
Acho que por isso o Chaverim seja tão
importante no combate ao antissemitismo. Ele aproxima. Ele mostra a Humanidade...
Ele destrói a lógica do “outro” e inaugura a lógica do “nós”.
Janusz Korczak dizia que educar é
acordar almas adormecidas. E, por muito tempo, nossa sociedade — estruturada
num capacitismo quase inconsciente — tentou manter muitas almas dormindo.
O Chaverim é o som do shofar que
desperta. Acorda talentos, acorda habilidades, acorda autoestima. E acorda
também a sociedade para uma obviedade: a inclusão não é favor; é ética e inovadora!
A gente nunca tenta “consertar” ninguém...
Ia ser o cúmulo da arrogância, né? Quem sou eu na fila do pão pra achar que sei
consertar alguém (seja lá o que isso signifique...). A gente luta pra remover
barreiras.
Ali se constrói pertencimento. Ali se
dá as mãos — e quando a gente se dá as mãos, as limitações de uns são sempre
complementadas pelas forças de outros.
É por isso que eu digo que o Chaverim é
um chaveiro... De pérolas!
Cada pessoa que chega ali é uma chave.
E cada chave abre uma pérola escondida, que tá lá dentro da nossa alma,
quietinha, só esperando um ambiente de sorriso e acolhimento pra brilhar.
Sabe o som do shofar que desperta as
almas?
Esse é o pulo do gato! Pra mim, o
Chaverim deveria ser conhecido por toda a sociedade. Deveria ser abraçado por
escolas públicas, universidades, empresas, órgãos privados e públicos... Em
tempos de ódio, o Chaverim também é um antídoto!
Uma revolução da Amizade!
A comunidade judaica não só está no
Brasil. Ela é parte do Brasil! E o Chaverim é a prova disso: judaico,
brasileiro e universal, comunitário e acolhedor, identitário e aberto!
No fim das contas, o antissemitismo —
assim como qualquer preconceito — não resiste ao encontro. E o Chaverim é
encontro puro. Encontro como método. Encontro como cura.
Ali, cada chave abre um peito. Cada
peito revela uma pérola. E cada pérola reacende nossa fé na humanidade.
Eu disse uma vez, e repito agora: hoje,
sou um pouco o Chaverim.
E o Chaverim é um pouco da minha essência. É impossível passar por lá e sair o
mesmo...
Muito obrigado, Chaverim...
Realmente... Pra iluminar o mundo,
basta despertar uma alma...
Só uma...
De cada vez!
André Naves, vice-presidente do Chaverim.

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