Sabe?
A vida capota, né mesmo? A mãe do
Forrest Gump falava que era uma caixa de chocolates... Eu adoro essa visão
cheia de sabor! Tudo parece que sempre volta, mas diferente... Diferente... Mas
volta... Ah... Volta!
E se ela for um caleidoscópio, cheio de
cores, mas totalmente imprevisível? A gente nunca sabe o que vem pela frente!
Chocolates, caleidoscópio, carrossel... Não sei... Parece tudo isso junto. Tudo
junto e misturado!
Mas tem um detalhe que é mais
importante! Ela também é ciranda: todo mundo, de mãos dadas, girando,
cantando... Lá a gente mesmo canta... O que a gente quiser!
Mas... tem horas em que a vida parece
que perde o alumbramento! Tudo parece tédio! Escuridão! Prisão! Uma masmorra
modorrenta, soturna, mofada... Cadê o tempo? Tudo perde o sentido...
Quero te contar... Eu já tive lá. Fui
aprisionado nas profundezas de um coma! E foi exatamente lá que eu comecei a
escutar o que o barulho do dia a dia nos esconde. ESCUTAR! ENXERGAR!
Sabe um rio barrento? Um barranco todo
enlameado? Chuva... Cinza... Esperança? Desesperança? Nesses momentos, eu
ouvia... Sussurros. Um idioma novo! Carinhoso! Curativo! Era eu! Identidade!
Existir... Resistir!
Beep! Beep! Beep!
Os sons ritmados e constantes dos
monitores hospitalares tornaram-se o relógio da minha sobrevivência.
Tatuaram-se em brasa na minha personalidade. Cicatrizes sonoras que ainda ecoam
na minha mente.
UTI... Eu lutava numa encruzilhada
definitiva. Ou soltar as amarras e me deixar levar pelo repouso e pela calma,
ou continuar lutando.
CONTINUAR LUTANDO!
E não é que tudo começou a clarear? Bem
aos poucos... Dia após dia... E os dias viraram semanas... E depois... Por
una Cabeza, o entendimento veio!
Por uma Cabeza...
Eu sabia que podia... Mas escolhi!
Escolhi o serviço. Escolhi a Humanidade. Porque a Vida é Trabalho. Vida é
Serviço. Vida é Liberdade.
A vida tinha parado naquela
quinta-feira de Carnaval. O desgoverno de um caminhão arremessou o nosso carro
numa ribanceira. Asfalto que rasgou a minha juventude. Que levou dois dos meus
melhores amigos... Um para o túmulo, o outro para a inconsciência...
Minha primeira lembrança? Dia 22 de
abril — o aniversário do nosso Brasil. Dia do Descobrimento! Uma festa do povo!
Do Brasil! Renasci, paralisado, reaprendendo a respirar, a comer, a viver!
Reaprender a EXISTIR!
Por uma Cabeza...
Um tempão depois, ainda em frangalhos e
meio que me arrastando, trupicando, centro caótico de São Paulo, eu era a presa
perfeita. Na lógica do Datena, eu deveria ter sido engolido pela violência ou,
na melhor das hipóteses, passado batido pela indiferença da multidão.
É aí que a vida parece mesmo uma caixa
de chocolates! Um caleidoscópio, colorido e imprevisível!
Invés do abuso, da violência, da
bandidagem, só achei a alma decente, honesta e trabalhadora do povo brasileiro.
Todos os dias tinham mãos estendidas de pessoas anônimas que, mesmo lutando
suas próprias batalhas diárias para sobreviver, pararam para me dar um ombro
amigo! Nunca pediram absolutamente nada!
Só compartilharam a sua Humanidade. A
nossa Humanidade!
HUMANIDADE!
E não é que o trauma é um professor?
Severo e implacável. Sabe o que ele me ensinou? Uma lição surpreendente, mas
completamente óbvia: toda superação é coletiva. Nesse mundo ninguém se salva
sozinho!
Claro que o esforço individual é
importantíssimo, fundamental, mas ele depende de tanta gente, de tanta coisa...
Foi essa caminhada que me fez... Eu
parei de "ver" o mundo com os olhos e passei a "enxergar"
com a alma.
ENXERGAR!
No fim, minha sobrevivência deu luz a
uma dívida impagável de gratidão. Nada de uma dívida chata, dessas que a gente
se sacrifica pra pagar. Pelo contrário! É um prazer enorme! Quando a gente fala
"muito obrigado" tá reconhecendo uma obrigação de trabalhar, de
construir, um mundo estruturalmente mais inclusivo, digno e justo!
Eu escolhi dizer "Muito
obrigado" para o Povo brasileiro!
Para o Povo!
Para todos... Juntos...
Iachad!

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