Por Juliana Rehfeld
Acontece que tem chovido muito, ultrapassando médias e máximas históricas, até recebi uma figurinha que anexo aqui, mostrando como vista de um apartamento um parque, um barco, uma arca, e casais de animais subindo a rampa para entrar. Estamos assistindo a um dilúvio nestes dias terríveis, “Iamim Noraim”. E penso na coincidência de termos esta chuva justo ao lermos a Parashá Haazinu (Escutem”) - lindíssimo poema conhecido como Cântico de Moisés no finalzinho da Torá. Ele começa com:
“Escutem, ó céus, e eu falarei;
e ouça a terra as palavras da minha boca.
Que minha instrução caia como a chuva,
que minha palavra flua como o orvalho;
como a chuva fina sobre a relva,
e como as gotas sobre a vegetação.”
Moisés, falando ora em nome Deus, ora em seu nome, em tom de despedida, segundo Jonathan Sacks “expressa, em forma poética, a relação entre o Deus da justiça e o Seu povo, muitas vezes rebelde. A ideia central da canção reside na lógica da aliança, na qual uma das partes pode processar a outra pelo descumprimento dos deveres acordados na própria aliança. Esse tipo de processo (conhecido no hebraico bíblico como riv) é frequentemente mencionado pelos profetas posteriores, geralmente como uma acusação de Deus contra os israelitas, mas ocasionalmente como o oposto.” Há um movimento neste poema que nos lembrou, no grupo de estudos da Parashá, o movimento de “encolhimento" de Deus, o conceito judaico de צמצום (tzimtzum), o “encolhimento” ou “retração” de Deus para abrir espaço para a criação. Essa ideia é uma formulação posterior da Cabala, especialmente associada ao Isaac Luria (Ari), no século XVI. E a imagem é que o Ein Sof (o Deus infinito) “contrai” ou “retira” sua presença para que possa existir um espaço no qual o mundo criado — e, portanto, o ser humano — possa existir.
Então, em Haazinu, nas portas da entrada na Terra Prometida, e à beira de sua própria morte, Moisés invoca esta criação, o céu e a terra, como testemunhas do relato da história dos israelitas, onde aparece uma tensão entre a grandeza infinita de Deus e o espaço concedido à humanidade para escolher, agir e assumir responsabilidade.
Tensão entre a Vontade e o Poder Divino e o Livre Arbítrio, a liberdade humana.
E esta liberdade humana produziu até aqui uma longa história, repleta de guerras por alimento, depois, e até hoje, por territórios mas também repleta de descobertas e construções que nos permitiram crescer e multiplicarmo-nos e espalharmo-nos pelo planeta, e explorarmos para além dele; história também repleta de criações de arte em desenho, pintura, música, literatura que tanto vêm nos emocionando, a nossos antepassados e a nós, há milhares de anos. São legados, de geração em geração, “Le dor va dor”, que absorvemos e com os quais interagimos desde que começamos a respirar até o dia em que paramos de fazê-lo, por vontade divina, por parada na operação da fantástica máquina que somos. E por mais que tenhamos aprendido sobre esta máquina, a ponto de consertá-la de inúmeros defeitos e prolongar consideravelmente sua operação, não sabemos quando e de que forma ela, enfim, cessará de modo irreversível…
A cada ano que vivemos somos gratos por isso, pelo que foi bom e produtivo, choramos pelo que não foi nada disso, pelas terríveis notícias que nos bombardeiam diariamente pelos nossos ultramodernos dispositivos, e nestes dias cada vez mais chuvosos pensamos no que fizemos e também no que não fizemos, e em como podemos, no ano que vem, se nele estivermos, fazer mais e melhor, para nós, nossa família e comunidade, e ״לכל יושבי תבל”, col ioshvei tevel, todos os habitantes do mundo.
E se estas tão numerosas gotas que caem são de fato ensinamentos divinos, cada vez mais abundantes e críticos porque merecemos por termos errado muito, ou são cada vez mais abundantes porque nossas descobertas e engenhocas têm alterado as condições climáticas e a capacidade deste planeta de nos conter…
E com estas reflexões, e orações, em jejum ou não, esperamos que ao som do último toque do shofar no Iom Kipur - “Neilá”, fechamento - os “portões celestiais” se fechem deixando-nos deste lado, em vida e que os portões do ano judaico de 5787 se abram e nos deixem adentrar um novo período repleto de oportunidades de continuar nossa história pessoal e a deste complexo mundo em que estamos.
Shabat Shalom,
Hatimá Tová (boa inscrição no livro da vida do próximo ano),
Shaná Tová Umetuká (um ano bom e doce).
.jpeg)
Muito bom Juliana!
ResponderExcluirQue lindo insight Ju!! Gmar Chatima Tova
ResponderExcluir