Por Juliana Rehfeld
Enquanto escuto o som do Shofar em Elul e ouço governantes e repórteres “trombeteando” as notícias deste nosso mundo… nesta última semana as situações de guerras e políticas tiveram pioras significativas: apesar de Putin voltar a mencionar um possível acordo com a Ucrânia, os duros combates - e as mortes -, continuam; a guerra entre EUA e Irã voltou a escalar em torno de Ormuz, subindo os preços de petróleo a ponto da Europa prever riscos à sua energia; apesar de haver cessar-fogo entre Israel e Hezbolah surgiram novos pontos de tensão no sul do Líbano que o Irã já inseriu em suas ameaças militares; em Gaza o cessar-fogo continua extremamente frágil com ataques e mortes; apesar de Netanyahu se referir a “apenas pequeno grupo de arruaceiros” na Cisjordânia ainda há ocorrências de violência por colonos contra árabes palestinos…
“Quando fordes à guerra, em vossa terra, contra o inimigo que vos oprime, tocareis as trombetas…”
— BaMidbar (no deserto) ou Números 10:9, Deus ordena a Moisés que faça duas trombetas de prata (חֲצוֹצְרוֹת, ḥaṣoṣərōt). Elas tinham várias funções: convocar a comunidade; dar sinais para levantar acampamento; anunciar a presença de toda a comunidade diante da Tenda do Encontro e, explicitamente, dar o sinal de guerra.
Mas havia também uma dimensão religiosa, o toque não era simplesmente um “alarme militar”. O versículo continua dizendo que, ao tocar as trombetas durante a guerra, Israel seria lembrado perante Deus e seria salvo de seus inimigos.
Já o shofar - שׁוֹפָר — era, e é, um instrumento natural feito de chifre de animal, geralmente Cordeiro, ou outro animal Casher como ovelha ou antílope, mas não vaca, utilizado em contextos religiosos, de convocação e ele também em ações militares.
Jericó — os sacerdotes tocam shofarot enquanto o povo marcha ao redor da cidade (Josué 6).
Gideão — os 300 homens usam shofarot para produzir confusão no acampamento midianita (Juízes 7).
A associação de instrumentos de sopro e guerras é muito mais ampla do que a tradição judaica. Ao longo da história, trombetas, cornetas e instrumentos semelhantes tiveram uma função essencialmente prática no campo de batalha: transmitir ordens a distância, quando a voz humana não alcançava as tropas; na Antiguidade e para gregos e romanos vários instrumentos davam o sinal para reunir, avançar e atacar.
Na Idade Média, as trombetas eram sinais de guerra; Na Europa medieval, passaram a estar fortemente associadas à cavalaria e à autoridade militar. Antes de uma batalha, os toques podiam: reunir os combatentes; anunciar a chegada de um comandante; ordenar o avanço; coordenar movimentos; anunciar retirada ou cessação dos combates.
A trombeta tornou-se também um símbolo visual e sonoro do poder militar. Reis, nobres e comandantes eram frequentemente acompanhados por trombeteiros.
Entre os séculos XVI e XIX, as cornetas e trombetas tornaram-se particularmente importantes na cavalaria.
Nos séculos XVIII e XIX, isso ficou ainda mais sistematizado.
Exércitos europeus desenvolveram regulamentos de sinais por corneta ou trompete.
Um dos exemplos mais conhecidos é “The Last Post”, associado às forças britânicas e posteriormente às cerimônias militares de homenagem aos mortos.
Outro é “Reveille”, tradicionalmente usado para marcar o despertar ou início das atividades militares.
Com o passar da história a transformação histórica mais interessante foi da comunicação prática ao símbolo:
Originalmente: 🎺 “Faça isto!” Depois: 🎺 “O exército está se mobilizando.”
E finalmente: 🎺 “Atenção: estamos diante de algo solene, militar ou decisivo.”
Já o Shofar, embora possa ter antigamente sido usado para conduzir rebanhos, não é possível afirmar que essa fosse uma função tradicional documentada do shofar… a associação bíblica entre pastor e rebanho não depende do shofar. A metáfora do pastor vem da própria atividade pastoril — conduzir, proteger e cuidar do rebanho — enquanto o shofar adquiriu suas próprias funções de sinalização, convocação e ritual. O toque do Shofar tem seus próprios sinais padrão, o significado religioso dos diferentes toques foi desenvolvido pela tradição rabínica, enquanto o uso do shofar como sinal de convocação, alarme e guerra aparece no texto bíblico.
Na tradição judaica, os três sons básicos são:
• Tekiah (תקיעה) — um toque longo, contínuo:
TAAAAA
• Shevarim (שברים) — três toques quebrados, mais curtos:
TAA–TAA–TAA
• Teruah (תרועה) — uma sequência de toques muito rápidos e entrecortados:
TATATATATATA
Há ainda combinações desses sons, especialmente nos toques de Rosh Hashaná, mas por que esses toques?
A Torá diz:
“Será para vós um dia de toque [יוֹם תְּרוּעָה]”
— Números 29:1
E a sequência cria um contraste muito expressivo:
som contínuo → som quebrado → som entrecortado → som contínuo
Na interpretação religiosa posterior, isso pode ser ouvido como uma espécie de movimento:
inteireza → ruptura → lamento → restauração.
São os momentos pelos quais afinal passamos ciclicamente e, de maneira intensa, imersa, no período que começa em Rosh Há Shaná .
O clamor do Shofar ao longo de Elul é um lembrete, um convite para deixarmos de ouvir as trombetas das guerras e demais batalhas com as quais lidamos diariamente para mergulhar nesta revisão, análise crítica, arrependimento e replanejamento - e dela sair restaurado (a) e reintegrado para “estar à altura” e “merecer” o privilégio - “dádiva” divina? - de percorrer mais um ciclo em vida…
Até que mergulhemos nos Iamim Noraim na semana que vem e ainda estamos invadidos pelas notícias, há vida além de Netanyahu, Trump, Irã e Gaza!
A NASA publicou esta semana seu guia de observação do céu para setembro. Vênus estará particularmente brilhante, e haverá uma série de encontros aparentes entre a Lua e outros astros durante o mês, para nossa busca e contemplação!
Shabat Shalom

Nenhum comentário:
Postar um comentário