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quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Iachad (juntos - יחד) - por André Naves: O Brasil Já Era...

 


Lotada! A pizzaria tava cheia... Cheia como sempre... Ana Rosa e eu... Logo na entrada. Sabe, tipo mestre de cerimônias? É legal observar, imaginar, criar... Refletir!

Foi o que aconteceu. Juro! Verdade! Certeza!

De repente quem entra? Quem? Quem? Não era o Raimundo Nonato! Vou dar uma dica: “Ohh céus! Ohh vida! Ohh azar!”... Descobriram?

Isso mesmo. Hardy, a hiena. Aquela mesma, pessimista, deprimida... Lembram dela?

Aquela hiena do desenho de um tempo gostoso que não volta mais. Eu em Jacareí assistindo ao Sérgio Mallandro e esperando a hiena. Lippy, o leão; Hardy, a hiena que adorava se lamentar: "Oh, céus! Oh, vida! Oh, azar!"

Junto com ela, uma surpresa! Dr. Pangloss! Tão otimista que chega a ser ingênuo...  Aquele do Cândido de Voltaire! Tudo sempre tava encadeado no melhor dos mundos possíveis.

Pois é. Pangloss sobreviveu ao século XVIII e veio jantar pizza em São Paulo. E com quem? Com Hardy!

Sentaram... Pelo que consegui pescar, tavam falando sobre o Brasil. Sobre o depois da algazarra eleitoral...

— Acabou tudo! O Brasil já era! — disse Hardy. — Olha o mercado. O Ibovespa despencou... Circuit Breaker de cara! O dólar no Everest! O risco-Brasil disparou. Isso não é ideologia, é fato! O Brasil já era. A saída é Guarulhos!

Pangloss só olhou. Sorriu...

— Minha caríssima hiena, você só enxerga o esperneio do mercado, mas não escuta o povo que trabalha. Enquanto o especulativo saía aos berros, o investimento estrangeiro direto batia recorde! Terceiro maior destino do mundo! A gente só tá atrás dos Estados Unidos e da China.. Isso, minha hiena, é confiança!

— Confiança? Cê já tá bêbado? E a educação? A gente só produz analfabetos funcionais. E ainda me inventam esse tal de Pé-de-Meia! Absurdo! E o celular, então? O povo não conversa mais, não olha nos olhos, não pensa. Cada um na sua... Hipnotizado! Sozinho! Uma juventude toda perdida, que não sabe se divertir... Vazia de sentido! Que país a gente tá construindo? Nenhum. O Brasil já era.

— Hieninha... Tá certo que a gente ainda tem muito que fazer, mas repare: um país que, contra tudo e todos, reelegeu um Presidente numa virada épica e surpreendente, e que no dia seguinte viu o TSE proclamar o resultado e o partido derrotado reconhecê-lo em nota oficial — esse país deu ao mundo uma aula de institucionalidade.

Quem ganhou, Hardy? Não foi o algoritmo. Não foi a pesquisa. Não foi um bilionário. Foi o povo! Aqui, não! Além disso, Hardy, um país que entrega emprego, alimento, energia limpa e instituições seguras não tá beirando o abismo. Esse é o Brasil!

— Beirando, não — Hardy insistiu na lamentação. — Já caiu. Só não percebeu.

E nesse jogo de esgrimas, continuaram. Fatia após fatia. Vinho após vinho. Ela com o colapso, ele com o recorde. Ela com o analfabetismo, ele com a energia limpa. Ela com a solidão das telas, ele com a mobilização popular. Ela com o risco-Brasil, ele com o foodshoring, o nearshoring, o greenshoring, o friendlyshoring.

Uma última grappa! Se o Brasil vai acabar, que seja com estilo! Ainda brincou Dr. Pangloss!

Levantaram. Ao passar pela porta, Pangloss olhou para trás. A casa estava abarrotada. Gente em pé, esperando mesa, rindo, brindando, pedindo mais uma rodada de pizza, mais um pedaço de vida. Fila na porta, àquela hora. Uma cidade inteira querendo celebrar junto. Sorriu.

— É — disse, baixinho, para a hiena. — Parece que o Brasil vai acabar mesmo...

Hardy parou. Olhou a fila, olhou a mesa cheia, olhou o garçom correndo de um lado para o outro. Olhou pras garrafas de vinho, cerveja, grappa...

— Oh, céus! Oh, vida! Oh, azar!... Espera essa conta chegar.


André Naves — Defensor Público Federal, escritor, Comendador Cultural. Autor de "Caminho: A beleza é enxergar" e "Beethoven enxergou o Luar". Vice-Presidente do Grupo Chaverim. www.andrenaves.com | @andrenaves.def


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