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quinta-feira, 29 de outubro de 2026

ACONTECE: O que elegemos?

 

O que elegemos?

Por Juliana Rehfeld




Semana entre eleições importantes, países totalmente diferentes, sistemas eleitorais totalmente diferentes, mas muito semelhantes temores e dúvidas sobre o futuro. Que futuro se está desenhando nestas eleições para as sociedades que vimos construindo e nas quais nossos filhos e netos viverão?

Temos de reconhecer de princípio que poder eleger representa um privilégio, significa que temos alguma possível voz, fazemos alguma diferença, enquanto cidadãos ou cidadãs « responsáveis » dentro de sociedades mais ou menos estáveis e democratas. 

Duas básicas definições agrupam países em nossos dias:

Democracia plena: além de eleições livres, exige instituições sólidas, liberdades civis e funcionamento adequado do governo.

Democracia eleitoral: exige eleições competitivas e significativas, mas pode apresentar deficiências nas instituições e na proteção de direitos.

Entre 15% (26) e 48% (87) dos países no planeta estão neste universo, o que configura claramente este nosso privilégio. Que benção!

Eleger significa selecionar entre as opções apresentadas a que preferimos por atender nossas expectativas. Mas esta situação não poderia estar mais longe da realidade em que estes atuais pleitos se inserem. As alternativas que se apresentam nas cédulas de votação, sejam elas físicas ou eletrônicas, têm sido resultado de penosos, e muitas vezes levianos, processos entre as fibras deste tecido político, corrompidos fios que amarram por pressão, poder e dinheiro, os mais variados atores cuja real atividade nos está escondida por trás de inúmeras formas de comunicação, as mais variadas mídias, gritos no alto falante, proferidos por influencers ou exércitos de voluntários robotizados torturando os fatos, ou mesmo pessoas, para servir às causas dentre as quais elegemos a mais sedutora… ou será que é a menos repulsiva?! Achei que enredar você nesta longa frase traz mais vividamente a angústia que vivemos para realmente acessar, entender e selecionar « o joio do trigo ». As opções são todas trigo e joio junto e misturado. 

Conviver com o joio e o trigo é parte inevitável da vida adulta e responsável, crescemos para além do maniqueísmo dos contos infantis, aprendemos que « ninguém é totalmente do bem ou totalmente do mal ». Mas então porque estamos tão polarizados? Nos EUA há 2 partidos majoritários, até dá para entender. Ter o 2o turno no Brasil acaba levando para um « Fla x Flu » mas que nunca esteve tão empatado e « sangrento » como agora…

E Israel? O processo de formação de um novo governo lá é tão complexo quanto a situação sócio-político-religiosa-militar neste 5787/2026... ou seja, nem sempre quem ganha mais votos tem condições de formar uma coalizão que pareça  estável aos olhos do presidente a quem cabe dar o bastão « governamental ». O que ficou claro é que a maioria dos eleitores não quer mais Netanyahu e que os árabes querem muito participar do governo. E que país surgirá daí??  É cedo para dizer, é há muitos que já prevêem uma nova eleição para o ano que vem… 

Lemos esta semana a Parashá Vayerá -  וַיֵּרָ , e apareceu - quando Deus aparece mais uma vez a Abraão, a quem já havia eleito para sair de casa, para seguir para uma terra nova, para iniciar uma aliança, um compromisso expresso concretamente por Abraão na circuncisão. Agora aparece novamente para avisá-lo, através de anjos, de que aos 100 anos de idade, ele e Sara terão um filho. Yitzhak-  יצחק , rirá - . Será que ele ganha esse nome porque Sara aos 99 anos de idade ri ao ouvir que vai ter um filho, ou será porque bom tempo depois, quando Abraão já discutiu com Deus para salvar vidas em Sodoma e Gomorra, quando ele justamente pede a Deus que separe o joio do trigo ou que na dúvida, reduza as mortes, e Deus o respeita e cede, após tudo isso Abraão está pronto para cegamente obedecer qualquer ordem, mesmo que ela seja, como foi, a de executá-lo… mas, diante desta prova de obediência total do seu pai, ele, Ytzhak, é substituído por um carneiro para ser sacrificado? Há várias interpretações… 

A cada ano lemos o mesmo texto com os olhos de quem busca um novo sentido, mais próximo às preocupações que vivemos neste ano. Nossos pactos com Deus, com o Deus que trazemos em nós, individual e coletivamente, trazem novos olhos e ouvidos a cada ano… e às vezes lemos e ressignificamos este pacto em momentos de eleição… como compreender e, mais difícil, como explicar para nossos filhos e netos, esta complexidade dos nossos tempos, a diversidade de joio e trigo que nos envolve, e preparar-nos, e a eles e elas, para eleger com responsabilidade e crença num futuro melhor? Como reler, como  entender e como contribuir para que o futuro não seja sacrificado, para que as futuras gerações possam rir, como Ytzhak?

Shabat Shalom

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