Por Juliana Rehfeld
Há um fenômeno, ou prática, comum, que abunda na comunicação
no nosso cotidiano, estejamos nós em momento eleitoral ou não. Isso já está
incorporado em todos os meios de comunicar e contamina praticamente todas as
pautas. Refiro-me à DISTORÇÃO.
A origem da palavra é o latim distortio, (dis- que indica
separação ou afastamento — e torquere — torcer ou retorcer) que significava
"ato de torcer para lados opostos" ou virar algo para direções
diferentes.
Sabem, esse termo é usado em muitas áreas, sempre com o
sentido de alteração, desvio, deformação do original. Em medicina ou psicologia
quer dizer deformação na percepção das coisas, em rádio, tecnologia e música quer dizer deformação desproporcional de onda, com ampliação sonora.
Minha questão aqui é a distorção de fatos justamente para
amplificar notícias, criar percepções opostas à ideia original e reverberar…
Falamos hoje, na língua das redes sociais, em
“desinformação”, “fake news”, “pós verdade”. Mas isso parece invenção, mentira
e assim, a maioria descarta como lixo produzido por quem quer vender produto,
algo “que não me atinge”…
Já a distorção parte de um fato, “uma verdade”, e tem suas
“feições”, formas, significados, alterados para algo diferente, distante,
chegando a seus opostos.
Mais um pouco de conceito, o Google diz: pós-verdade é um
conceito que descreve um contexto no qual os fatos objetivos e as evidências
perdem relevância na formação da opinião pública, sendo substituídos por apelos
emocionais e crenças pessoais.
Principais Características
* Supremacia da emoção: Mensagens que geram forte impacto
sentimental (como medo, raiva ou indignação) são aceitas mais facilmente do que
dados comprovados.
* Relevância da crença: As pessoas tendem a acreditar e
compartilhar informações que confirmam o que elas já pensam (viés de
confirmação), ignorando provas em contrário.
* Descarte de especialistas: Há uma desconfiança
generalizada em relação a fontes oficiais, à imprensa tradicional e ao método
científico.
Bem, há mais de 20 anos se fala na “guerra assimétrica”
entre Israel e Hezbollah, ou Hamas, e outros movimentos extremistas antissemitas
que preferem ser vistos como Resistência, e que consiste na ensurdecedora
disseminação de pós verdades pela mídia, todas as mídias. E aí, lembramos
prontamente de Joseph Goebbels, ministro da propaganda nazista, chamado pela
mídia brasileira (ironicamente justamente pela mídia de esquerda) de genocida,
antissemita mestre da lavagem cerebral, que em 1934 disse “A propaganda jamais
apela à razão, mas sempre à emoção e ao instinto.” E disse mais: “depois que a
propaganda conscientizou todo um povo a respeito de uma ideia, a organização
pode obter o máximo de benefícios com a ajuda apenas de um punhado de pessoas”.
Pois é, os políticos bebem nessa fonte, os antissemitas
bebem nessa fonte, e nós, cidadãos do mundo contemporâneo, somos afogados numa
crescente tsunami de distorções e pós-verdades para as quais não temos bóias ou
barcos adequados ou suficientes… Israel tem fragorosamente perdido essa guerra
assimétrica e, em tempos de guerra real, e dramática, pós 7 de outubro, pergunto-me se essa derrota tem alguma
possibilidade de “virada”, de superação, de sobrevivência… tenho que, quero
acreditar que temos alguma chance!
Então, na situação complexa em que vive Israel, social e
geopoliticamente, há muitos fatos e verdades inconvenientes, de difícil
digestão para nós judeus e para os cidadãos israelenses… mas, sem escondê-los
debaixo do tapete, ou fingir que não existem, precisamos investigá-los,
entendê-los de forma realista, e lidar com eles como “merecem” - criticando ou
justificando - e isso, é claro, é muito cansativo… mas cabe-nos, de maneira
transparente e responsável, defender o que este oceano de pós-verdades vem tentando,
sorrateira e mal intencionadamente, alcançar: a destruição do Estado. E nem tão
sorrateiramente mais, cada vez mais de modo eloquente. O que está em risco é
muito precioso, então não dá pra descansar, ou deixar pra lá… pra depois…
Exemplos de distorções, de pós verdades, de inversões e
mesmo de invenções não faltam. E eles têm sido cada vez mais populares e seu
poder de enganar os incautos, os que não conhecem Israel e os judeus reais,
apenas os "imaginários" formam a crescente massa de manobra a nos empurrar
para um mar que não promete se abrir desta vez…
Já comentei aqui a distorção que o super aplaudido
documentário Naza faz com o conceito preventivo de “dano colateral”… Israel por
um lado respondeu querendo retirar a cidadania dos cineastas (medida que não faz
jus à democracia lá vigente) mas, de outro lado, divulgou um vídeo com fatos e
depoimentos reais sobre isso.
Na sexta-feira passada cometeu- se, na minha opinião e na de
muitos outros, um “atentado à justiça”, ou, nas palavras do Estadão, “a
desmoralização do prêmio Nobel da Paz”: foi escolhida para o prêmio Navi
Pillay, ex-juíza do Tribunal Penal Internacional (TPI) e ex-alta comissária da
ONU para os Direitos Humanos, mas também conhecida ativista contra Israel há
muitos anos e que deveria, por isso, ter sido impossibilitada de atuar como
juíza nessa causa. O filho do prêmio Nobel Elie Wiesel, Elisha, declarou que “o
Prêmio Nobel da Paz foi morto” com essa premiação.
Podia ter sido pior, caso ganhasse outra candidata ao prêmio,
Francesca Albanese, ainda Relatora Especial das Nações Unidas (ONU) para os
Territórios Palestinos Ocupados, apesar de inúmeros pedidos de destituição e
acusações de parcialidade e antissemitismo. E muitos, muitos outros eventos da
ONU, posturas de países europeus, etc..etc..
Tenho encontrado mensagens cada vez mais assustadoras contra
judeus e Israel, e são assustadoras pela profusão e pelo volume, temos muito
trabalho pela frente: cada um/uma de nós no nosso entorno, onde for possível…
as manifestações distorcidas vem crescendo até porque nós silenciamos! Existem
hoje muitas fontes de fatos, no Brasil e fora, nas quais podemos buscar fatos
para podermos contar verdades, não fiquemos parados. Parafraseando um ditado
popular: “se você dormir a tsunami te leva”.
Shabat Shalom

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