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quinta-feira, 8 de outubro de 2026

VOCÊ SABIA? - Angela Buchdahl, uma Rabina inusitada

Por Itanira Heineberg


“Are you Jewish?”                                                      

“Você é judia?”

 

“Você não parece judia!”                                         

“Sua mãe não é judia!!!”

Estas e outras inquirições duvidosas acompanharam a rabina Angela W. Buchdahl durante sua vida, conforme relata em seu esplendoroso livro.

 

Coração de uma Estranha: A História de Fé, Identidade e Pertencimento de uma Rabina Inusitada

 

Você Sabia que Angela Warnick Buchdahl, nascida em 8 de julho de 1972,  na Coreia do Sul, uma rabina americana nascida em Seul, foi a primeira americana de ascendência asiática a liderar uma grande sinagoga nos EUA?

Aos cinco anos Warnick mudou-se com a família para Tacoma, em Washington, onde seu pai, um judeu reformista americano, e sua mãe, uma budista coreana, a criaram na fé judaica. Musicalmente talentosa, ela não só cantava como também aprendeu a tocar vários instrumentos, incluindo piano e flauta, e aos 14 anos tornou-se professora de música em sua sinagoga local.

Frequentou acampamentos de verão do movimento reformista e, depois de passar um tempo em Israel em um programa para jovens aos 16 anos, decidiu se tornar rabina. Formou-se em Estudos Religiosos pela Universidade de Yale em 1994, onde conheceu seu futuro marido, Jacob Buchdahl, que se tornou advogado.

Warnick completou seus estudos rabínicos e cantoriais no Hebrew Union College – Jewish Institute of Religion, na cidade de Nova York. Ela foi contratada como cantora litúrgica em 1999 e ordenada rabina em 2001, tornando-se a primeira mulher a ocupar ambos os cargos.

Em seguida, atuou como rabina associada e cantora litúrgica no Templo Reformista de Westchester, em Scarsdale, Nova York.

Em 2006 Warnick atuou na Sinagoga Central da cidade de Nova York como Chazan Principal (cantora) e em 2014 a Congregação do templo a escolheu como Rabina Sênior.

Além de exercer suas funções oficiais, começou a escrever artigos e a falar publicamente sobre suas experiências como judia asiático-americana e seu desafio de aceitar sua herança mista.

Em seu instigante livro, em parte autobiografia, em parte coletânea de sermões, “Coração de uma Estranha” conta a história da rabina/cantora Angela Buchdahl.

Filha de uma mãe budista coreana e de um pai judeu americano, Buchdahl narra os muitos caminhos que percorreu para se tornar a rabina sênior da Sinagoga Central, uma das comunidades judaicas mais proeminentes e inovadoras dos Estados Unidos.

Embora o livro narre os eventos de sua vida, fica claro desde as primeiras páginas que “Coração de uma Estranha” não é uma autobiografia comum.

Cada capítulo é temático.

Primeiramente, aborda uma pessoa ou um episódio da vida de Buchdahl. Esses temas variam desde as primeiras experiências espirituais em caminhadas com sua mãe até os encontros de Buchdahl na infância com a música folclórica judaica, passando pelo amor por seu marido, Jacob, até os desafios que enfrentou na administração de sua congregação.

A cada uma dessas reflexões pessoais, há um sermão, centrado em uma única palavra hebraica, que resume o tema principal da prédica.

Um exemplo, Buchdahl escreve comoventemente sobre a experiência de dar à luz seu primeiro filho, Gabriel. Ela relata o medo que sentiu, ciente do fardo sagrado que carregava ao cuidar daquele bebê. A maternidade a obrigou a encarar sua imperfeição e a ensinou a depender do apoio dos outros. Essa história é acompanhada por uma meditação sobre ruach, que ela traduz como  “vento”, mas depois ensina que pode significar espírito e respiração. Ela conta a história de quando andava de bicicleta num dia de vento — como era fácil quando o vento estava a seu favor, mas como era difícil quando pedalava contra ele. Esse vento, ela nos lembra, é como Deus. Não podemos vê-lo, mas o sentimos. Esse ensinamento já seria poderoso por si só, mas, aliado à história de sua maternidade em desenvolvimento, torna-se ainda mais impactante. Embora ela não se aprofunde muito na espiritualidade ao segurar seu bebê, o fato de essa história ser seguida por uma meditação sobre Deus mostra que sua experiência de parto foi profundamente espiritual. A inclusão do sermão permite que ela capture o humor e o pathos da história original e, em seguida, revele camadas adicionais de significado, de modo que possa filosofar sem perder o foco.

Segundo Marc Katz, para aqueles que admiram Buchdahl à distância, seu livro responde a muitas perguntas. O que a levou a amar a música? O que significa se sentir ao mesmo tempo parte integrante e fora da comunidade judaica? Como ela foi parar na Sinagoga Central? Como ela lida com a política em uma sinagoga rica e ideologicamente diversa do Upper East Side?

Talvez o capítulo mais fascinante seja sobre um episódio de 2022, quando um homem entrou numa sinagoga em Colleyville, Texas, fez os fiéis reféns e exigiu falar com Buchdahl — que ele acreditava, num delírio antissemita, ser poderosa o suficiente para libertar um prisioneiro detido nas proximidades sob acusações de terrorismo. Embora Buchdahl já tenha falado sobre esse dia em entrevistas e sermões, o livro oferece muito mais detalhes sobre seus sentimentos.

Coração de uma Estranha é um retrato comovente da jornada rabínica de uma mulher com uma história rica. O título é, de fato, apropriado. Ele não apenas revela como Buchdahl lida com suas duas identidades, tornando-a mais sensível àqueles que podem se sentir como forasteiros, mas também como o livro nos permite entrar em seu coração.

Coração de uma Estranha nos mostra os valores, as lutas, os anseios e a Torá que guiam uma das mestras mais influentes do judaísmo.

 

E neste novo século onde a diversidade humana desabrocha apesar da intolerância de muitos, do antissemitismo e do racismo em todos os continentes, mas com a compensação daqueles que procuram conhecer seus semelhantes, suas histórias e crenças para entendê-los melhor e melhor os aceitar fugindo dos preconceitos, Angela Buchdal, seu livro e sua reflexão sobre o ser e o viver têm muito a nos ensinar sobre nós mesmos e nossas escolhas e nos trazem uma mensagem auspiciosa de esperança para os dias que estamos vivenciando.

E completando nosso texto sobre esta pessoa exemplar, convidamos a todos para melhor conhecer e desfrutar de sua simpatia e sorriso franco, para o vídeo abaixo:




FONTES:

https://www.britannica.com/biography/Angela-Warnick-Buchdahl

https://jwa.org/encyclopedia/article/buchdahl-angela

https://centralsynagogue.org/about-us/our-clergy/angela-w-buchdahl

https://www.washingtonpost.com/books/2025/10/18/rabbi-angela-buchdahl-memoir/

https://www.hartman.org.il/person/angela-buchdahl/

https://www.jewishbookcouncil.org/book/heart-of-a-stranger-an-unlikely-rabbis-story-of-faith-identity-and-belonging

 

 

 


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