Por Itanira Heineberg
“Are you Jewish?”
“Você é judia?”

“Você não parece judia!”
“Sua mãe não é judia!!!”
Estas e outras inquirições duvidosas acompanharam a
rabina Angela W. Buchdahl durante sua vida, conforme relata em seu esplendoroso
livro.
Coração de uma Estranha: A História de Fé, Identidade e
Pertencimento de uma Rabina Inusitada
Você Sabia que Angela Warnick Buchdahl, nascida em 8 de
julho de 1972, na Coreia do Sul, uma
rabina americana nascida em Seul, foi a primeira americana de ascendência
asiática a liderar uma grande sinagoga nos EUA?
Aos cinco anos Warnick mudou-se com a família para
Tacoma, em Washington, onde seu pai, um judeu reformista americano, e sua mãe,
uma budista coreana, a criaram na fé judaica. Musicalmente talentosa, ela não
só cantava como também aprendeu a tocar vários instrumentos, incluindo piano e
flauta, e aos 14 anos tornou-se professora de música em sua sinagoga local.
Frequentou acampamentos de verão do movimento reformista
e, depois de passar um tempo em Israel em um programa para jovens aos 16 anos,
decidiu se tornar rabina. Formou-se em Estudos Religiosos pela Universidade de
Yale em 1994, onde conheceu seu futuro marido, Jacob Buchdahl, que se tornou
advogado.

Warnick completou seus estudos rabínicos e cantoriais no
Hebrew Union College – Jewish Institute of Religion, na cidade de Nova York.
Ela foi contratada como cantora litúrgica em 1999 e ordenada rabina em 2001,
tornando-se a primeira mulher a ocupar ambos os cargos.
Em seguida, atuou como rabina associada e cantora
litúrgica no Templo Reformista de Westchester, em Scarsdale, Nova York.
Em 2006 Warnick atuou na Sinagoga Central da cidade de
Nova York como Chazan Principal (cantora) e em 2014 a Congregação do templo a
escolheu como Rabina Sênior.
Além de exercer suas funções oficiais, começou a escrever
artigos e a falar publicamente sobre suas experiências como judia
asiático-americana e seu desafio de aceitar sua herança mista.
Em seu instigante livro, em parte autobiografia, em parte
coletânea de sermões, “Coração de uma Estranha” conta a história da
rabina/cantora Angela Buchdahl.
Filha de uma mãe budista coreana e de um pai judeu
americano, Buchdahl narra os muitos caminhos que percorreu para se tornar a
rabina sênior da Sinagoga Central, uma das comunidades judaicas mais
proeminentes e inovadoras dos Estados Unidos.
Embora o livro narre os eventos de sua vida, fica claro
desde as primeiras páginas que “Coração de uma Estranha” não é uma
autobiografia comum.
Cada capítulo é temático.
Primeiramente, aborda uma pessoa ou um episódio da vida
de Buchdahl. Esses temas variam desde as primeiras experiências espirituais em
caminhadas com sua mãe até os encontros de Buchdahl na infância com a música
folclórica judaica, passando pelo amor por seu marido, Jacob, até os desafios
que enfrentou na administração de sua congregação.
A cada uma dessas reflexões pessoais, há um sermão,
centrado em uma única palavra hebraica, que resume o tema principal da prédica.
Um exemplo, Buchdahl escreve comoventemente sobre a
experiência de dar à luz seu primeiro filho, Gabriel. Ela relata o medo que
sentiu, ciente do fardo sagrado que carregava ao cuidar daquele bebê. A
maternidade a obrigou a encarar sua imperfeição e a ensinou a depender do apoio
dos outros. Essa história é acompanhada por uma meditação sobre ruach, que ela
traduz como “vento”, mas depois ensina
que pode significar espírito e respiração. Ela conta a história de quando
andava de bicicleta num dia de vento — como era fácil quando o vento estava a
seu favor, mas como era difícil quando pedalava contra ele. Esse vento, ela nos
lembra, é como Deus. Não podemos vê-lo, mas o sentimos. Esse ensinamento já
seria poderoso por si só, mas, aliado à história de sua maternidade em
desenvolvimento, torna-se ainda mais impactante. Embora ela não se aprofunde
muito na espiritualidade ao segurar seu bebê, o fato de essa história ser
seguida por uma meditação sobre Deus mostra que sua experiência de parto foi
profundamente espiritual. A inclusão do sermão permite que ela capture o humor
e o pathos da história original e, em seguida, revele camadas adicionais de
significado, de modo que possa filosofar sem perder o foco.
Segundo Marc Katz, para aqueles que admiram Buchdahl à
distância, seu livro responde a muitas perguntas. O que a levou a amar a
música? O que significa se sentir ao mesmo tempo parte integrante e fora da
comunidade judaica? Como ela foi parar na Sinagoga Central? Como ela lida com a
política em uma sinagoga rica e ideologicamente diversa do Upper East Side?
Talvez o capítulo mais fascinante seja sobre um episódio
de 2022, quando um homem entrou numa sinagoga em Colleyville, Texas, fez os
fiéis reféns e exigiu falar com Buchdahl — que ele acreditava, num delírio
antissemita, ser poderosa o suficiente para libertar um prisioneiro detido nas
proximidades sob acusações de terrorismo. Embora Buchdahl já tenha falado sobre
esse dia em entrevistas e sermões, o livro oferece muito mais detalhes sobre
seus sentimentos.
Coração de uma Estranha é um retrato comovente da jornada
rabínica de uma mulher com uma história rica. O título é, de fato, apropriado.
Ele não apenas revela como Buchdahl lida com suas duas identidades, tornando-a
mais sensível àqueles que podem se sentir como forasteiros, mas também como o
livro nos permite entrar em seu coração.
Coração de uma Estranha nos mostra os valores, as lutas,
os anseios e a Torá que guiam uma das mestras mais influentes do judaísmo.

E neste novo século onde a
diversidade humana desabrocha apesar da intolerância de muitos, do
antissemitismo e do racismo em todos os continentes, mas com a compensação daqueles
que procuram conhecer seus semelhantes, suas histórias e crenças para entendê-los
melhor e melhor os aceitar fugindo dos preconceitos, Angela Buchdal, seu livro e
sua reflexão sobre o ser e o viver têm muito a nos ensinar sobre nós mesmos e
nossas escolhas e nos trazem uma mensagem auspiciosa de esperança para os dias
que estamos vivenciando.
E completando nosso texto sobre esta pessoa exemplar,
convidamos a todos para melhor conhecer e desfrutar de sua simpatia e sorriso
franco, para o vídeo abaixo:
FONTES:
https://www.britannica.com/biography/Angela-Warnick-Buchdahl
https://jwa.org/encyclopedia/article/buchdahl-angela
https://centralsynagogue.org/about-us/our-clergy/angela-w-buchdahl
https://www.washingtonpost.com/books/2025/10/18/rabbi-angela-buchdahl-memoir/
https://www.hartman.org.il/person/angela-buchdahl/
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