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segunda-feira, 21 de março de 2022

Você Sabia? - Shalom

 

“Junto com a Verdade e a Justiça, a Paz está entre os valores judaicos mais sagrados.”

Por Itanira Heineberg


Paz - shalom (שׁלום) - deriva de uma raiz que denota totalidade ou integridade e refere-se à noção de Shelemut - perfeição.



Você sabia que a palavra SHALOM – PAZ - cujo significado é o mais almejado por cidadãos de todo o mundo diante desta guerra absurda e letal contra a Ucrânia - aparece centenas de vezes na Torah, a Bíblia Hebraica?

Shalom aparece em todos os tipos de relatos, sejam eles sobre cidades, nações ou indivíduos.


“Na Bíblia Hebraica, a palavra Shalom, geralmente traduzida como paz, significa mais do que a ausência de conflito; ela conota uma sensação segura de bem-estar e integralidade (esta última é talvez a melhor definição literal).”

 

Neste momento de História atual que estamos vivenciando, todos aqueles que defendem a liberdade, a democracia e os direitos humanos perseguem a Paz.

Os rabinos já ensinaram que Shalom é um dos nomes secretos de D’us. (Levítico Rabbah 9:9)

Incontáveis expressões eloquentes de paz da Bíblia aparecem no Levítico citado acima, no Sidur - o livro de orações, e na cultura e literatura judaicas.

Citaremos algumas das mais apregoadas:

 

“Que o Senhor te abençoe e te proteja.

Que o Senhor negocie gentilmente e graciosamente com você!

Que o Senhor lhe dê favores, e lhe conceda paz.”

 

Isaías 57:19

Este profeta era conhecido por seus conselhos poéticos.

A seguir algumas palavras de profundo alívio, oferecendo ao povo a perfeição - paz.

 

“Na verdade, o senso de totalidade e cura (não apenas ausência de guerra) evocado por esta passagem é um significado essencial da palavra Shalom.”

 

“Sim, você deve sair com alegria e ser levado para casa em paz.

Diante de você, montanha e colina gritarão em voz alta,

E todas as árvores do campo baterão palmas.”

 

E portanto, após milênios de exortação, a humanidade ainda não consegue alcançar a PAZ.




No domingo, 20 de março de 2022, o grupo Família Abraâmica, do qual faço parte junto a outros membros da Esh Tamid, assistiu a uma missa solene de rito ucraniano na igreja em São Caetano para mostrar solidariedade aos descendentes de ucranianos daquela paróquia e oferecer ajuda nos aspectos que pudessem ser necessários e possíveis. Só trabalhando em conjunto com todas as diversidades podemos pensar em atingir essa almejada Shalom.




A intenção do evento era rezar e pedir pela PAZ. Lá estava presente a primeira refugiada da Ucrânia em São Paulo, por eles abrigada em sua comunidade.

E aprendi então que os delicados pássaros japoneses tsurus, aves sagradas do Japão, símbolos de saúde, cura, boa sorte e felicidade são também responsáveis por trazer a PAZ.

Na ocasião, uma representação da comunidade Sino-brasileira de São Paulo entregou ao pároco mil tsurus, dobrados por japoneses da cidade em prol da PAZ na Ucrânia.


Tsurus em arte japonesa de papel dobrado com as mãos conhecida como Origami.



E assim saímos reconfortados ao constatar mais uma vez a solidariedade aos ucranianos e seus descendentes expressa por todas as crenças presentes: cristãos, judeus, muçulmanos e budistas.

Restam-nos orações, ações e canções para apaziguar a violência humana.



Continuemos a pedir por uma Paz Total, Shalom Rav, em nossas preces a cada sexta-feira em nossos Cabalat Shabbatot, na esperança de deixarmos um mundo melhor para nossos filhos e netos.

 

Não podemos esquecer a música, elemento de grande importância para os judeus - ela deve sempre nos acompanhar ao pedir a paz para toda a humanidade. Amém!




Ouçamos agora a famosa e envolvente melodia pela paz neste vídeo abaixo, na esperança que um dia nossos sonhos de paz se realizem:



FONTES:

https://www.myjewishlearning.com/article/quotes-from-the-jewish-bible-about-peace/

https://www.myjewishlearning.com/article/shalom/

https://lyricstranslate.com/pt-br/oseh-shalom-%D7%A2%D7%95%D7%A9%D7%94-%D7%A9%D7%9C%D7%95%D7%9D-oseh-shalom.html

https://lyricstranslate.com/pt-br/oseh-shalom-%D7%A2%D7%95%D7%A9%D7%94-%D7%A9%D7%9C%D7%95%D7%9D-oseh-shalom.html

https://www.myjewishlearning.com/article/shalom/







quinta-feira, 17 de março de 2022

TRANSFORMAÇÃO: Entre a Escolha e o Sorteio



TRANSFORMAÇÃO: 
Entre a Escolha e o Sorteio




O mundo continua conturbado. Ucrânia ainda sob ataque da Rússia, tsunami no Japão, nova variante do vírus corona aumentando casos em todo o mundo. Relatos da China, Israel, vários países da Europa e também no Brasil alertam para uma nova onda. E... o mundo judaico celebra a Festa de Purim. Festa que lembra o que aconteceu na Pérsia séculos antes da entrada na era comum. 

Os judeus que lá moravam desde o exílio babilônico tinham uma vida comunitária sob o reinado de Assuero (Xerxes). A história é contada num pergaminho guardado em forma de rolo chamado de Meguilat Ester. A festa no dia 14 de Adar é precedida de um dia de jejum e comemorada com muita alegria. Convido a todos a verem um rolo da Meguilat Ester descoberto no Irã (atual nome da Pérsia). 
Em 2020, comentamos aqui sobre o local onde estão enterrados Ester e seu tio Mordechai, o herói central da narrativa.

Uma das mitzvot de Purim é ouvir a Meguilat Ester. Nas sinagogas tradicionais, a leitura é feita na noite em que se inicia a festa e no dia 14 de Adar. OUVIR – será mais que escutar? Leitura que na minha juventude era feita com uma coreografia própria. As pessoas fantasiadas, cada uma recebia um reco-reco, e toda a vez que o nome de Haman era mencionado fazia-se muito barulho. A ideia era impedir que o nome de Haman fosse escutado. A história versa sobre por que o rei, aconselhado por Haman, decide que os judeus da Pérsia deveriam ser eliminados. Ester, que se tornou rainha devido a uma desavença do rei com sua antecessora, a Rainha Vashti, incentivada por seu tio Mordechai faz com que o rei evite que o primeiro édito seja cumprido. Salvar o povo judeu de um holocausto é o mote principal.

No dia que antecede a festa é feito o Jejum Ester. Neste dia, a partir do nascer do sol até aparecer a primeira estrela, há restrição total a alimentos e bebidas. Ao aparecer a primeira estrela, um espírito carnavalesco supera a tristeza: danças, muita comida gostosa e bebida e também a obrigação de escutar a história de Purim transformam o cenário. Como esta é uma comemoração para todos, há o preceito (mitzvá) de dar aos mais necessitados dinheiro para que possam comprar comida – e este deve ser dado na base individual. Todos devem doar, mesmo aqueles que pouco têm. Assim, pouco importa a quantia, o que importa é que seja de pessoa para pessoa. O respeito pelo indivíduo e não pelo sua condição de necessitado.

Seguindo o mesmo espírito de uma refeição festiva e diversa, é um preceito dar presentes na forma de comida e bebida e participar de uma refeição festiva em família ou em comunidade.

Aprender, Cuidar, Presentear, Festejar... música, dança e fantasia – assim comemora-se a Festa de Purim (Pur – sorte em persa).

Mas quando paramos para realmente escutar a Meguilat Ester ouvimos uma história muito mais complexa. Um história que envolve duas mulheres muito bonitas, de personalidade, que personificam mulheres independentes, convivendo ou não em harmonia. Buscando caminhos que indicam a necessidade da afirmação da mulher. Vashti, a rainha que se rebela contra o domínio masculino e Ester, a menina que era submissa ao tio e depois ao rei e marido, mas que encontra formas próprias de a partir do presente contextualizar o passado e escrever o futuro.

As personalidades masculinas do Haman, Rei e Mordechai destacam a ambição, a liderança, a capacidade de lidar com adversidades. Mas esta não é apenas uma história de bons e maus. O lado do mal é evidente e baseado na premissa de fazer cumprir o supérfluo “todos os homens deveriam curvar-se e ajoelhar frente ao Primeiro Ministro Haman”. O lado do bem precisa de uma análise muito mais detalhada. No início, a Rainha Ester tem dúvidas sobre ser capaz de alterar o Édito do Rei. Há um momento em que encontra a forma como pode agir e o faz com habilidade. Saltando muitos detalhes, chegamos ao momento em que sem poder revogar um ato do rei, o próprio rei cria condições para que seu ato possa ser anulado por terceiros. Aqui surge um outro ponto interessante: por que a palavra dada não pode ser alterada futuramente? Por que o compromisso assumido não pode ser reavaliado em um outro contexto? Será que isso parece familiar, ou melhor, será que podemos aplicar nos dias de hoje?

Um dos pontos mais chocantes é que a forma de evitar o extermínio dos judeus foi dar a estes a possibilidade de lutar. Eles se defenderam e conseguiram ganhar o status de um povo entre os povos. A Pérsia na época de Xerxes era pluralista e formada por vários povos. 

TRANSFORMAR – repaginar, “retrofit”... todas palavras que remetem ao conceito de que, usando o que temos, avançamos para um outro contexto. Um contexto que possa inspirar um texto mais digno e mais inclusivo. Um contexto que premie a humanodiversidade.

Hoje penso que a festa de Purim nos transmite aquilo que nosso ser é capaz de compreender, e por isso, a cada ano, com muito barulho e movimento lemos o texto de acordo com o contexto!

Se tiverem oportunidade leiam alguns versículos deste rolo impressionante!
Alguns rabinos e pensadores costumam perguntar “onde estava D’us no momento em que houve a luta?” A resposta, muitas vezes, é que “a Face de D’us estava oculta”. Lendo a Meguilá (sem a letra “t” que faz as vezes da preposição “de” em português), atrevo-me a pensar que D’us está no texto que vai sendo transmitido ao longo das gerações por mais de 2 milênios!

Boa Semana!
Regina P. Markus

segunda-feira, 14 de março de 2022

ZELENSKY: Um aceno de luz nos céus da Europa Ocidental...

 

"A luta está aqui: Preciso de munição, não de carona" - resposta do presidente ucraniano aos Estados Unidos.

Por Itanira Heineberg


SER OU NÃO SER, O HOMEM burlesco, divertido, QUE VIROU HERÓI E ESTÁ LUTANDO POR UMA NOVA EUROPA!



Você sabia que um ex-comediante, ator muito aplaudido, lutando lado a lado de seus soldados, preparado para morrer, está brilhando nos palcos de uma absurda guerra contra sua pátria, a Ucrânia?

 

"Eu estou aqui. Não vamos baixar as armas. Estaremos defendendo nosso país, porque nossa arma é a verdade, e nossa verdade é que esta é a nossa terra, nosso país, nossos filhos, e vamos defender tudo isso", disse o presidente Zelensky.

 

Recentemente, tão logo a Rússia se pronunciou contra a Ucrânia, ameaçando seu pacífico povo de conquista e submissão, encantei-me com a atitude de seu jovem presidente (44 anos em janeiro último) e comecei a pesquisar suas origens e vida. Queria falar sobre ele, mas quanto mais eu descobria sobre suas ações e caráter, mais eu me intimidava. Como ousaria eu falar sobre este idealista tão sincero, leal e destemido?

Foi quando li sobre os 16 judeus ucranianos que enriqueceram a humanidade com seus feitos que obtive coragem e aqui estou contando um pouco mais sobre Volodymyr Zelensky.

Nascido na única porção da Ucrânia destinada aos judeus, Pale of Settlement, na cidade de Kryvyi, Zolonsky cresceu em um país dominado pela União Soviética, uma terra sem religião segundo os princípios do governo, onde os judeus eram totalmente fiscalizados e por muitas gerações foram vítimas de pogroms, terror e muito medo.



Sua família, um núcleo típico dos judeus soviéticos dos anos 80, não era religiosa, pois religião não existia naqueles tempos, era ilegal e os judeus eram constantemente vigiados  pelo governo. Zelensky não fala abertamente sobre o assunto mas acredita em Deus e com Ele só fala em seus momentos pessoais. Ele até chegou a pedir orações judaicas ao mundo nestes atuais dias de guerra. Ser judeu faz parte de sua identidade e o Holocausto é também sua história; seu bisavô e três irmãos de seu avô morreram durante a invasão nazista no território ucraniano. Seu avô e tios avós lutaram contra nazistas como parte do Exército Vermelho. Seu avô foi o único a sobreviver.

Zelensky atribui aos pais seus princípios democráticos e sua “bússola moral”.

Seu pai, matemático que dirige um departamento de ciência da computação da universidade e sua mãe Rimma, engenheira, incutiram no menino o valor da verdade e o desprezo pela mentira.

“Eu sempre reajo dolorosamente às mentiras", disse ele. "Esta é a principal característica que meus pais me deram."

Zelensky conhece Israel, tem parentes por lá, apresentou-se em shows e até ganhou uma bolsa de estudos para estudar no país. Porém, obedecendo ao seu pai, ficou e estudou Direito na Ucrânia.

Pai de uma bela família hoje com dois filhos, Oleksandra e Kyrylo, namorou sua esposa Olena, conhecida dos tempos de escola e em 2003 eles se casaram.

“Olena é uma defensora de mulheres e crianças desde que Zelensky assumiu o cargo, e recentemente ela postou no Instagram sobre a bravura das mulheres ucranianas que estão defendendo seu país contra os russos.

Zelensky disse que sua família permanece na Ucrânia, mas que ele não divulgará sua localização.”



Volodymyr, um homem de muitos talentos artísticos e profissionais, grande dançarino e escritor (sua autobiografia já é mais do que uma ideia), também participou de shows televisivos como podemos ver no vídeo abaixo, no concurso “Dançando com as estrelas”:



Em 2015 ele ajudou a criar o seriado “Servo do Povo”, onde um professor de história critica o governo do país e do dia para a noite passa a ser presidente. Este show caiu rapidamente no gosto da população e, como afirmam alguns, a arte imita a vida - e em 2019 Zelensky virou o presidente do país com 73% de apoio de seu povo. Ao fazer sua campanha eleitoral, chamou seu partido de Servo do Povo.

Falar de Zelensky é uma tarefa desafiante, assim escolhi selecionar um texto de Diogo Mainardi, um admirador do presidente ucraniano, escrito ainda no início da guerra, para finalizar nosso artigo:

 

"Putin tem um Exército incomensuravelmente mais poderoso - e letal.

Mas Zelensky venceu a guerra psicológica contra o assassino russo - e venceu de forma avassaladora. Ele conseguiu encorajar todos ucranianos, civis e militares, que há mais de uma semana resistem heroicamente aos invasores, enfrentando tanques inimigos com o próprio corpo. Ao mesmo tempo, ele persuadiu as democracias ocidentais a entregar-lhe milhares de javelins e stingers, a fim de defender o país das tropas russas."




FONTES:

https://www.jta.org/2022/03/01/global/18-things-to-know-about-volodymyr-zelensky-showman-paddington-voice-and-jewish-defender-of-ukrainian-democracy?_ga=2.167838438.672048660.1646402775-606777884.1598795474

https://www.tabletmag.com/sections/news/articles/ukraines-hero-president-z

https://edition.cnn.com/2022/02/26/europe/ukraine-zelensky-evacuation-intl/index.html

https://www.msn.com/pt-br/noticias/mundo/volodymyr-zelensky-de-comediante-a-presidente-da-ucr%C3%A2nia/ss-AAUJehT

https://poligrafo.sapo.pt/fact-check/esta-imagem-retrata-o-presidente-da-ucrania-com-farda-militar-na-guerra-em-curso-frente-a-russia


quinta-feira, 10 de março de 2022

SALVAR UMA VIDA SALVA A HUMANIDADE

 À VIDA - Le CHAIM - פיקוח נפש - Salvando Vidas


Rabino Nega Antissemitismo na Ucrânia atual link


Tempos de guerra. A imprensa, a intelectualidade e mesmo os descendentes de russos e ucranianos têm dificuldade em explicar o porquê desta guerra sanguinária. Pessoas públicas muito consideradas no Brasil e no mundo afirmam categoricamente que, apesar das ameaças de Vladimir Putin, presidente da Rússia, este desfecho teria mínimas probabilidades de ocorrer.

Estamos na segunda semana da guerra e podemos seguir pela imprensa a série de medidas que os aliados da OTAN vêm tomando para aumentar a capacidade de defesa da Ucrânia e para trazer para territórios vizinhos a enorme quantidade de pessoas que estão fugindo dos bombardeios e dos ataques de tanques. Imagens de cidades destruídas e tudo mais.

SALVAR UMA VIDA e SALVAR A HUMANIDADE é um dos principais ensinamentos do judaísmo. A expressão Pikuach Nefesh (פיקח נפש), traduzida literalmente, seria "Supervisão" ou "Comando" da Alma. Como expressão idiomática da Torá (5 livros de Moisés), significa Salvar Vidas! Podemos unir os dois conceitos ao lembrarmos que em hebraico os verbos SER e ESTAR nunca são pronunciados na primeira pessoa do singular no tempo presente. É muito comum escutar israelenses que falam o português por conviver com brasileiros dizendo "eu linda", "eu fome". Como sabemos, o presente é eterno, porque se renova a cada minuto, e "EU SOU" ou "EU ESTOU" é um dos nomes de D'us mencionados na Torá. Juntando as pontas deste quebra cabeça fica fácil entender que cada um é importante e que qualquer comando é menor do que salvar uma vida. O judaísmo não admite mártires ideológicos, e trabalhar no sábado é uma benção quando a intenção é salvar uma vida humana.

A ligação do Povo Judeu com a Ucrânia é muito antiga. No "Você Sabia?" desta semana, Itanira Heineberg comenta sobre a vida de 16 judeus de origem ucraniana. É esta relação e o firme propósito de salvar vidas nos dias de hoje que vem abrindo a possibilidade de uma nova relevância geopolítica para Israel, Turquia e Países Árabes mulçumanos que do Atlântico ao Pacífico vêm ampliando suas relações com Israel.

Se a inesperada visita do Primeiro Ministro de Israel à Rússia e Alemanha na última semana e nesta a visita do Presidente de Israel à Turquia mostram que há busca para mediar o fim do conflito armado, ao mesmo tempo Israel auxilia a Ucrânia com logística militar e com ajuda humanitária.

A população judaica na Ucrânia está sendo retirada daquele país e dos locais de desembarque nos países vizinhos e levada para Israel. A Agência Judaica (Sochnut) tem feito um trabalho pró-ativo logo na chegada dos que estão fugindo do conflito. Estas pessoas são documentadas e seguem para Israel. A recepção é calorosa. Aviões com órfãos e pessoas idosas. Com muitas mulheres e poucos homens, pois estes ficam para lutar no conflito. Há também um fluxo de cidadãos com dupla cidadania, ucraniana e israelense, em direção à zona de conflito. Segundo a ministra do interior de Israel, Ayelet Shaked, são 100.000 judeus ucranianos chegando a Israel.

Na fala da ministra no dia 8 de março de 2022 foi anunciado que Israel receberá também 25.000 ucranianos não judeus como refugiados. Lembramos que Israel tem recebido não judeus refugiados de países da África e também da Ásia. 

Conceitualmente, salvar uma vida é salvar a humanidade, mas também pode levar a fatos que vão além da imaginação.

Conversando com um pessoa que estava em Israel, e comentando estar escrevendo um texto sobre a faísca de humanidade que devemos procurar, ocorreu uma reação inusitada. "OLHA O JORNAL DE HOJE!" Letras maiúsculas representando o entusiasmo! 

O Yeridoth Ahronot, jornal diário israelense, conta que um agente da imigração de Israel fica nas estações de trens dos países vizinhos chamando o nome dos que imigrarão para Israel. Uma atividade de rotina, mas quando o trem chega são muitas centenas que descem e o altofalante chama. Numa das estações, neste trabalho impessoal, é chamado o nome Warshavski. Chegam duas mulheres, bastante parecidas, mas havia registro apenas de uma! Conversam e descobrem que são irmãs por parte de pai. Moraram a vida inteira em Kiev, capital da Ucrânia. Rapidamente foi providenciada documentação para as duas, que não só vão para uma situação mais segura, como passam a contar com uma nova família.

Há também as histórias que fazem com que o presente jogue novas luzes sobre o passado de forma a alterar o futuro. Esta é uma das possibilidades de "eternidade". Neste contexto, a youtuber brasileira Aline, que mora em Jerusalém, traz uma história maravilhosa que todos podem acompanhar e se emocionar seguindo este link. 

Brevemente, como aqueles que participaram da corrente de Pikuach Nefesh, na segunda guerra mundial - mais conhecidos como JUSTOS NA TERRA - agora são resgatados com a mesma rede.

125.000 pessoas - conversações e mediações - carinho e coragem... são ingredientes que emergem desta situação de conflito.

MAS - antes de encerrar - e sem poder tocar em profundidade, mas não querendo esquecer - segue o programa de ataque iraniano a Israel e aos países do Golfo, e os chamados países ocidentais parecem não ter capacidade de lidar com esta importante barrica de pólvora. Comentamos futuramente.

SALVAR UMA VIDA é SALVAR A HUMANIDADE! Metaforicamente e de fato! A menina salva na década de 1940 hoje senta aninhada por filhos, netos e bisnetos! Hoje, com mais de 90 anos, participa das recepções e conversas!

Boa semana!

Regina P. Markus

segunda-feira, 7 de março de 2022

Você Sabia? - Dezesseis judeus ucranianos que mudaram o mundo

 

Por Itanira Heineberg


Da esquerda para direita: Golda Meir, Menachen Mendel Schneerson, Mila Kunis, Sholem Aleichem



Você sabia que estamos vivendo dias de ansiedade e guerra, e que um Judeu está se esforçando pela Paz e será sempre lembrado como mais um Judeu da Ucrânia tentando mudar o mundo?



Volodymyr ZELENSKY, o sorridente presidente da Ucrânia desde 2019, lembra o hábil pastor Davi na luta contra o temível gigante Golias (aguarde nosso próximo assunto para a semana que vem).

Obedecendo ao ensinamento do Tikun Olam (Consertar o Mundo), também judeus ucranianos têm contribuído para o pensamento e cultura judaicos destacando-se na ciência, na arte, na política e muito mais.

Desde a Idade Média a Ucrânia acolheu uma comunidade judaica significativa e vibrante, mesmo sendo a história do judaísmo ucraniano uma vivência difícil com períodos de intenso antissemitismo.

 

“As fronteiras mudaram após o colapso do Império Russo - e mais tarde, a União Soviética - e a perseguição e vigilância quase constantes levaram muitos judeus a emigrar para outro lugar. Mas um número surpreendente de judeus ucranianos, quer tenham passado a vida inteira no país ou viajado para outro lugar, fizeram contribuições notáveis para a arte, cultura, ciência, política, esportes etc. A Ucrânia também foi o berço de importantes desenvolvimentos judaicos, mais notavelmente o Hassidismo.”

 

Baal Shem Tov, pintura a óleo por Shoshannah Brombacher


Baal Shem Tov 

Fundou o Judaísmo Hassídico, um movimento espiritual ortodoxo que tem centenas de milhares de adeptos hoje. Nascido Israel ben Eliezer em 1698 em Okopy, Ucrânia, Baal Shem Tov literalmente significa "Mestre do Bom Nome" e é frequentemente abreviado como Besht.


Golda Meir

Golda Meir, a internacionalmente admirada primeira-ministra de Israel em 1969, nasceu em Kiev, capital da Ucrânia, em 1898. Outros líderes israelenses que nasceram na Ucrânia incluem o segundo primeiro-ministro de Israel, Moshe Sharett e seu sucessor, Levi Eshkol.



Sholem Aleichem   

Nascido Sholem Rabinovitz em 1859 em Pereyaslav, Ucrânia, Sholem Aleichem é considerado um dos mais amados escritores iídiches de todos os tempos. Seus contos sobre Tevye, o Leiteiro, inspiraram o sucesso musical e filme “Fiddler on the Roof” (“Um Violinista no Telhado”).


Mila Kunis

Nascida em Chernivtsi, Ucrânia, em 1983, Mila Kunis e sua família fugiram da União Soviética quando ela tinha sete anos. Sua família foi reassentada em Los Angeles com a ajuda da Sociedade Hebraica de Ajuda aos Imigrantes. Kunis ganhou fama ao estrelar “That 70’s show” e teve papéis importantes em dezenas de séries e filmes desde então.


Menachem Mendel Schneerson

Conhecido por muitos como "o Rebbe", Menachem Mendel Schneerson foi o último rebbe do movimento Chabad Lubavitch e é considerado um dos líderes judeus mais influentes do século XX. 

Liderando o movimento Chabad de sua sede no Brooklyn, Schneerson nasceu em Mykolaiv, Ucrânia, em 1902.


Oksana Baiul

A patinadora artística Oskana Baiul fez história em 1994, quando se tornou a primeira atleta a representar a Ucrânia pós-soviética a ganhar uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos. Criada cristã ortodoxa, ela descobriu e abraçou sua ascendência judaica materna quando tinha 25 anos. Desde que se aposentou da patinação no gelo, serve como administradora do Tikva Children's Home, um orfanato judeu em Odessa. 


Selman Waksman

Selman Waksman nasceu em 1888 em uma pequena vila da Ucrânia. Como pesquisador da Universidade de Rutgers em Nova Jersey, ele descobriu vários antibióticos que levaram ao primeiro tratamento com êxito na cura da tuberculose. Em 1952 Waksman recebeu o prêmio Nobel em medicina por suas contribuições em microbiologia.




Natan Sharansky 

Nascido em Donetsk, Ucrânia, em 1948, Natan Sharansky é um dos mais famosos refugiados que defendiam o direito do judeu soviético de emigrar durante os anos 1970 e 1980. Entre os anos de 1977 e 1986, Sharansky foi preso por seu ativismo. Após ser libertado, imigrou para Israel e entrou no mundo da política. Sharansky recebeu o Prêmio Israel em 2018.



Vladimir Horowitz

Aclamado como um dos maiores pianistas de todos os tempos, Vladimir Horowitz nasceu em Kiev em 1903. Ele deixou a União Soviética aos 22 anos e passou a residir em Berlim e Nova York. Depois de ganhar dezenas de Prêmios Grammy do final dos anos 1960 até o início dos anos 1990, Horowitz ganhou o Grammy Lifetime Achievement Award em 1990. Houve muitos outros músicos judeus ucranianos notáveis, incluindo o violinista de renome internacional e seis vezes vencedor do Grammy, Isaac Stern.


Jan Koum

Nascido em Kyiv em 1976, Jan Koum imigrou para a Califórnia com sua mãe na adolescência. Depois de trabalhar por vários anos em cibersegurança e programação, Koum inventou o aplicativo de mensagens WhatsApp em 2009. O WhatsApp tem bilhões de usuários em todo o mundo e foi adquirido pela Meta Platforms do Facebook por US$ 19,3 bilhões em 2014. 




Rav Nachman of Breslov

Rav Nachman, também conhecido como Nachman de Uman ou Reb Nachman, nasceu em Medzhybizh, na Ucrânia, em 1772. Neto do Baal Shem Tov, Rav Nachman fundou o movimento hassídico breslov, que combinava elementos do misticismo com os escritos de Torá. Mudou-se para Uman em 1810 e morreu mais tarde naquele ano. Hoje, o túmulo de Rav Nachman em Uman (foto acima) é um local de peregrinação que recebe dezenas de milhares de visitantes todos os anos.



Ilya Kaminsky

Ilya Kaminsky nasceu em Odessa em 1977. Aos 16 anos, Kaminsky e sua família emigraram para os EUA devido ao antissemitismo na Ucrânia. As coleções de poesia de Kaminsky, “Dançando em Odessa” e “República Surda”, receberam elogios internacionais, e Kaminsky foi selecionado como um Guggenheim Fellow em 2018.



Boris Aronson

Nascido em Kiev em 1898, Boris Aronson estudou teatro e arte em todo o Império Russo e Europa ocidental antes de imigrar para os EUA em 1923. Depois de passar vários anos projetando cenários em teatros iídiches, Aronson começou a trabalhar na Broadway. Ele projetou três dúzias de produções da Broadway e ganhou o Tony Award de Design Cênico seis vezes.



Hayim Nahman Biyalik

Nascido perto de Volínia, Ucrânia, em 1873, Hayim Nahman Bialik é lembrado como um pioneiro da poesia hebraica moderna. Ele é apenas um dos muitos judeus ucranianos que moldaram a literatura israelense primitiva e o pensamento sionista. 

Ahad Ha'am, um ensaísta que também foi influente no renascimento da escrita hebraica, nasceu em Skvyra, Ucrânia, de uma família hassídica em 1856. Ele também é considerado o pai do sionismo cultural.

Ze'ev Jabotinsky, o fundador do sionismo revisionista, nasceu em Odessa em 1880. Jabotinsky também estabeleceu o movimento juvenil beitar e o Irgun, uma organização paramilitar no pré-estado de Israel.

 

Shlomo Ganzfried

Rabino e especialista em direito judeu, Shlomo Ganzfield nasceu em 1804 em Uzhhorod, Ucrânia. Considerado um prodígio infantil no mundo yeshiva da Europa Oriental, a contribuição mais notável de Ganzfried para o judaísmo foi escrever o Kitzur Shulchan Aruch, uma versão condensada e facilmente compreendida do Shulchan Aruch, o código mais citado da lei judaica.



Volodymyr Zelensky

O atual presidente da Ucrânia usando sua arma poderosa, a comunicação, em prol da paz.




Até a próxima semana, quando traremos esta figura instigante e inspiradora para nossos canais!

Boa semana para todos!


FONTES:

https://www.myjewishlearning.com/article/16-jews-from-ukraine-who-changed-the-world/

https://www.absolutearts.com/painting/oil/shoshannah-brombacher-the-baal-shem-tov-1054583646.html

https://www.nobelprize.org/prizes/medicine/1952/waksman/facts/

https://www.gettyimages.com.br/detail/foto-jornal%C3%ADstica/ukrainian-president-volodymyr-zelensky-speaks-to-the-foto-jornal%C3%ADstica/1178365027?adppopup=true

https://web.facebook.com/TheGraveOfRabbiNachmanfromBreslevInCityUman/?_rdc=1&_rdr

quarta-feira, 2 de março de 2022

Você Sabia? - O garçom por trás do Oscar

 

Um ato de bondade mudou a vida de uma pessoa.  

Tikun Olam, um chamado ao ser humano para agir, movimento sempre para a frente, sem parar!


Por Itanira Heineberg


Sidney Poitier e sua ascensão ao mundo artístico graças a um velho garçom judeu que trabalhava no restaurante onde ele lavava as louças todas as noites.


Sidney Poitier (1927-2022) faleceu em fevereiro de 2022.



Você sabia que, às vezes, um simples ato pode mudar a vida inteira de uma pessoa?

Foi um ato assim que ajudou Sidney Poitier, um menino simples e iletrado, que o levou ao sucesso e à realização de um sonho de vida.


CORRIGIR O MUNDO - E CORRIGIR-NOS TAMBÉM


“O Tikun Olam é formado por um tripé de valores e práticas: tzedaká (justiça), compaixão (chessed) e paz (shalom). Na prática, representa o desafio constante do ser humano de buscar justiça social, liberdade, igualdade, paz e cuidado com tudo que cerca a vida humana, incluindo natureza e meio ambiente.”

 

Nestes primeiros dias de guerra contra a Ucrânia, é com alegria que vemos nas notícias o cuidado, a dedicação e até o amor dispensados aos refugiados pelos habitantes dos países que os recebem.

 

Neste curto vídeo (clique para assistir) percebemos a emoção e o reconhecimento de Poitier ao relatar a ajuda recebida pelo garçom judeu em sua juventude.

Poitier estava desanimado após seu desastre no teatro negro ao perceber que não conseguia ler com fluência e compreensão as linhas do script que lhe eram destinadas.

Poitier passara a infância como garoto pobre de Cat Island, nas Bahamas, com poucos estudos, nascido prematuramente em uma embarcação a caminho de Miami durante uma das viagens dos pais agricultores quando levavam sua produção para a venda na Flórida.

Quando tinha 11 anos, seus pais decidiram mudar para Nassau - de acordo com biógrafos, a família era descendente de imigrantes haitianos.

 

“Aos 15 anos ele foi levado para Miami para morar com seu irmão mais velho. Sentiu na pele a discriminação racial com o mau tratamento que recebeu nas ruas de Miami despertando nele uma determinação para criar oportunidades para os negros.”

 

Já aos 16, decidiu-se por Nova Iorque. Lá dormiu em terminais de ônibus e trabalhou como lavador de pratos em restaurantes.

Em 1943 arriscou-se a forjar uma nova identidade, alistando-se ao Exército.

Após o Exército, demonstrou interesse pelo teatro, tentando ingressar no The American Negro Theatre - porém foi rejeitado. Nos meses que se seguiram, procurou aprimorar seu desempenho e em especial o seu sotaque.

Porém nunca abandonou sua luta contra o racismo reinante no país:

 

“No calor da batalha pelos direitos civis dos anos 1960, Sidney Poitier já estava lá, na frente antirracista, com filmes como Adivinhe quem Vem Para Jantar e Ao Mestre com Carinho, ambos de 1967. Sua figura imponente (quase 1m90 de altura) era modulada por uma postura quase doce, como a sugerir um meio termo entre a radicalidade de um Malcolm X e a não-violência de um Martin Luther King.”


Uma personalidade forte e resistente, firme diante das adversidades, Poitier recebeu com simpatia a amizade e ajuda de seu companheiro de trabalho, o garçom judeu que trabalhava no mesmo restaurante.

Todas as noites, após fecharem o restaurante, o garçom virava professor e o lavador de pratos, aluno. Os dois debruçavam-se em frente às palavras para decifrá-las e delas se apoderar.

Em 1967, em seu trabalho hollywoodiano de arte e cinema, Poitier vive o papel de um dedicado e carinhoso professor orientando um grupo de jovens desajustados e sem perspectivas para o futuro.

Decidimos reviver  seu personagem no filme “Ao Mestre com Carinho” num pequeno vídeo abaixo, na certeza de que Poitier dedicaria a canção gratificante que recebeu de sua classe, ao seu grande professor e amigo judeu. 




FONTES:

https://www.israelunwired.com/sidney-poitier-tells-the-story-of-the-jewish-waiter-who-taught-him-to-read/

https://luizzanin7.wordpress.com/2022/01/08/sidney-poitier-e-a-batalha-contra-o-racismo/

https://www.conib.org.br/glossario/tikun-olam/

https://en.notrecinema.com/communaute/stars/stars.php3?staridx=16158

https://jewishlink.news/features/20473-tikun-olam-and-aleinu

https://www.ebiografia.com/sidney_poitier/



Nossa Humanidade - onde está?

 NOSSA HUMANIDADE - onde está?



Estamos vivendo dias difíceis enquanto acompanhamos a guerra. A Rússia, sob o comando de Vladimir Putin, invadiu a Ucrânia com tropas terrestres e bombardeia vilarejos e cidades de forma impiedosa. Cidadãos russos protestam e são presos. O mundo assiste e reage na base do dia a dia. Ameaças eram feitas, mas havia uma incredulidade que isto poderia acontecer. Todos podemos acompanhar a opinião de comentaristas, especialistas em geopolítica, história, economia, etc. Há "fake news" e fatos. Mortos, feridos, refugiados e heróis públicos e anônimos, como ocorre em todas as guerras, vão desfilando nos noticiários e nas mídias sociais.

Na foto acima chamamos atenção para dois fatos importantes. A cidade de Kiev, na capital da Rússia, foi bombardeada. O alvo principal foi a torre de comunicação. O uso da INTERNET tem sido intenso e o Presidente, outros membros do governo e parlamento, assim como a população em geral estão em todas as mídias. Informação, pedidos e atualizações permitem acompanhar quase em tempo real uma guerra que poucos poderiam antecipar. O Presidente Volodimir Zelensky tem liderado seus conterrâneos e vem informando o mundo por meio de transmissões esclarecedoras e ao mesmo tempo emotivas. Um ator e comediante que dispõe de uma "arma" nunca considerada: a capacidade de comunicar mantendo-se dentro de fronteiras que podem ser comprovadas. Toda a mídia, e o próprio Presidente Zelensky, destacam sua origem judaica. 

Olhem a parte de baixo da figura! Quase um século: este é o tempo que separa as duas imagens. Muito perto da Torre de Comunicação de Kiev está o local onde os cidadãos da Ucrânia, nos dias de 29 e 30 de setembro de 1941, mataram a tiros quase 34.000 judeus. Uma enorme vala cavada pelos homens serviu de sepultura para uma enorme parcela dos habitantes judeus de Kiev. Até a semana passada, existia no local um monumento para marcar esta data. Este monumento foi bombardeado junto com a Torre de Comunicação. 
Tempo e Espaço: o tempo pode ressignificar locais onde foram cometidas atrocidades? Minha resposta é positiva, mas a memória das atrocidades invadirão os novos tempos.

A história da região acima do Mar Negro é descrita desde a Antiguidade, quando os gregos expandiram para os territórios da Crimeia. A vida judaica na Ucrânia data do século IX, muito antes da existência de uma nação ucraniana ou da Rússia. Vale conferir a história até o início do século XX escrita quando a atual guerra não fazia parte nem da ficção (Revista Morashá, Julho 2014) Na época era contada a saga dos judeus nas terras que seriam a Ucrânia e dentro deste território durante o Império Russo e a União Soviética. Atenção especial para a menção de correspondência encontrada na Guenizá do Cairo que data do século XX, a importância do Reinado da Polônia-Lituânia, o estabelecimento da Arenda (arrendamento) para os judeus e o Chassidismo. Em todos estes tempos o antissemitismo esteve presente.

Os judeus que emigraram da Ucrânia e das terras do Leste Europeu foram para todos os países do Globo. Muitos se estabeleceram no Brasil e, mantendo a diversidade judaica, seus decendentes pertencem aos mais diversos ramos do judaísmo ou abandonaram sua identidade. Nesta semana o jornalista Arnaldo Bloch escreveu o artigo "A Ucrânia Existe?" relembrando o que escutava dos imigrantes do início do século XX, quando esta região fazia parte do Império Russo. 

Como será contada a memória dos dias de hoje? Yuval Noah Harari, Professor de História da Universidade Hebraica de Jerusalém e da Universidade de Oxford, voz que se destaca na capacidade de unir conhecimentos científicos e a história da humanidade, publicou um texto nesta semana que nos dá a dimensão desta relação. Harari escreve como cidadão do mundo e compartilha de toda a nossa indignação ao ver humanos contra humanos perpetrando uma história de horrores em pleno século XXI. Ao mesmo tempo, expressa com primor a admiração por um Presidente que criou uma forma importante de defesa e empoderamento. Um povo que sabe ser resiliente e lutar contra uma força muito maior. 
 
"O presidente que se recusou a fugir da capital, dizendo aos EUA que precisa de munição, não de carona; os soldados da Ilha das Cobras que mandaram um navio de guerra russo “vá se foder”; os civis que tentaram parar os tanques russos sentando-se em seu caminho. Este é o material de que as nações são construídas. A longo prazo, essas histórias contam mais do que tanques." O texto completo está aqui.

A guerra sempre é acompanhada de ações que permitem vislumbrar nossa identidade como humanos. Esta vem sendo expressa por muitos e aqui destacamos os esforços dos judeus e do Estado de Israel. Vejam a foto abaixo.
(As reações do mundo estão disponíveis na grande mídia).

A longa relação entre as comunidades judaicas do mundo e o grande número de ucranianos que emigraram para Israel e outros países cria laços pessoais que impulsionam ações humanitárias. A este contingente também têm que ser incluídos os israelenses não judeus que estavam na Ucrânia a trabalho, estudando ou mesmo visitando.

É neste contexto que podemos observar ações pessoais e governamentais que têm a preocupação de criar condições de sobrevivência e resgate. Na figura acima destacamos judeus ucranianos incorporados ao exército e, ao contrário do que ocorria há 1 século, hoje podem se expressar livremente. Os ortodoxos podem inclusive seguir com os rituais, mantendo a sua identidade. 

Nas várias cidades ocupadas pelo exército russo em que há sinagogas, estas abrigam crianças e adultos, judeus e não judeus. A proteção contra os bombardeios é o primeiro foco, mas em paralelo está sendo desenvolvida uma grande ação humanitária para alimentar e criar condições de cruzar fronteiras vizinhas. Nos relatos de muitos, o objetivo não é a imigração, mas sim a proteção temporária.

A estimativa do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados é que nos últimos sete dias saíram da Ucrânia cerca de 841.000 pessoas. Para ajudar nesta situação o Estado de Israel está enviando aviões com alimentos, roupas e  equipamentos para atendimento médico para os países vizinhos e para a Ucrânia. Equipes médicas treinadas e de socorristas também estão chegando.

Há ainda uma ação que visa a volta de cidadãos israelenses e a facilitação para o recebimento de ucranianos judeus. A Ucrânia tem um sistema de Universidades que atrai pessoas de todo o mundo. Muitos palestinos que moram fora do Estado de Israel também precisam voltar para suas residências. Muitos têm feito declarações na rede declarando que sua volta está sendo facilitada pelo governo israelense. 

Pessoas que falam com pessoas e preocupam-se com pessoas - este é um ponto essencial para a humanodiversidade! Somos todos diferentes - mas somos responsáveis uns pelos outros - e quem disso esquece ...

Olhando as cores da bandeira da Ucrânia - 🇺🇦 Azul e Amarelo - olhando as cores com que o Escudo de David (Maguen David), conhecido em português como a estrela de David - foram pintadas: há um século, os que esperavam nas estações de trem eram separados e enviados para os campos de extermínio e trabalho forçado. Hoje, o escudo azul representa proteção e acolhida.

A retórica do Certo e Errado sempre nos levará à GUERRA. As ações que admitem que cada um de nós, seres humanos, somos diferentes e que devemos respeitar nossas identidades, abrirão portas para a convivência, o debate e... o que mais? O FUTURO DIRÁ. 


Regina P. Markus