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segunda-feira, 19 de setembro de 2022

VOCÊ SABIA? - Sinagoga com chão de areia?

 

Shaar Shalom, na Jamaica: uma das poucas sinagogas caribenhas com um chão que abafa o som de passos.

Por Itanira Heineberg



Você sabia que, com a maldade e injustiça da Inquisição no final do século XV, todos os judeus que puderam fugir da península ibérica levaram consigo sua religião, seus livros, torás e objetos sagrados e construíram suas próprias sinagogas em vários recantos do mundo?

Os judeus jamaicanos hoje constituem uma pequena, mas vibrante comunidade religiosa estabelecida atualmente na capital de Kingston.

 

 “Enquanto o núcleo da comunidade traça sua ascendência à Península Ibérica e ao êxodo judaico que começou no final do século XV, os judeus jamaicanos hoje vêm da Polônia, França, Itália, África, Israel, Turquia e muitos outros lugares. Eles têm suas próprias receitas exclusivas para os pratos tradicionais jamaicanos mais amados - incluindo ackee e peixe salgado, bammy frito (um pão achatado de mandioca), fruta-pão, e outras guloseimas típicas - e sua principal sinagoga é uma de apenas um punhado no mundo com um piso de areia.

Enquanto cerca de 22.000 judeus viviam na ilha, a população judaica hoje é de apenas cerca de 450 pessoas.”

 

As origens destes judeus divergem: de Portugal, onde foram traídos pelo rei D. Manuel I da Espanha, já fugindo nas naus de Cristóvão Colombo; das colônias portuguesas de Hamburgo, Londres, Livorno; de Amsterdã para o nordeste do Brasil, especificamente Pernambuco, onde viveram em paz durante o governo de Maurício de Nassau, um nobre holandês que dirigiu a colônia lá estabelecida pela Companhia das índias Ocidentais até serem expulsos pelos portugueses em 1654.

Em 1655 os britânicos colonizaram a Jamaica e uma nova onda de imigrantes judeus para lá se dirigiu.

 

“Sob os britânicos, tornou-se legal praticar o judaísmo, o que por sua vez levou ao estabelecimento da primeira sinagoga da ilha em Port Royal, um movimentado centro comercial conhecido como base de piratas. Pouco se sabe sobre esta sinagoga, que foi destruída junto com grande parte da cidade em um terremoto e tsunami em 1692.”

Lápide de cemitério com letras judaicas e o símbolo dos piratas - caveira com dois ossos.


Muitos judeus foram expulsos de suas propriedades praticamente com a roupa do corpo, viajando fugitivos nos navios pelo Oceano Atlântico. Sem posses, sem documentos, bastardos e sem pátria, ficaram conhecidos como vagabundos, muitos unindo-se aos piratas europeus que os aceitavam e com eles partilhavam os lucros das conquistas. E assim, nas ilhas do Caribe, criaram uma vida nova e fortaleceram-se, tornando-se piratas orgulhosos de suas origens, encontrando uma liberdade que na Europa dominada pela Inquisição já não possuíam.

E com os resultados de suas conquistas marítimas, ajudavam os judeus mais pobres e a comunidade de um modo em geral, sempre obedecendo o preceito judaico primordial de praticar a caridade e seguindo ”kol Israel arezim ze baze” , outro preceito judaico que aprendi com nosso colega Guilherme Susteras, “cada um é responsável por aqueles ao seu redor”.



“Unindo-se às naus piratas de holandeses e ingleses, tomavam os produtos de saques espanhóis e portugueses roubados dos indígenas e povos pré-colombianos do México, das Antilhas e da América do Sul, principalmente ouro, prata e diamante, a fim de que estes tesouros não chegassem às mãos de governantes da península Ibérica e Itália, que eram comandados pela Igreja, com consequente enriquecimento desta. Era a vingança contra todos e tudo que passaram na Europa, constituindo um verdadeiro golpe contra as gloriosas armadas espanhola e portuguesa, ditas como invencíveis, espalhando terror entre todos.”


De mercadores, intelectuais e astrônomos a intrépidos aventureiros nos mares do Caribe... uma desforra inusitada...


Já no século XXI, Edward Kritzler pesquisava a história de Jamaica na Biblioteca Nacional da capital quando se deparou com uma interessante narrativa de 1642 no diário de William Jackson, um pirata britânico. Ali, ele relata o encontro na ilha com judeus portugueses que sub-repticiamente se ofereceram a desvendar o local onde os espanhóis guardavam suas riquezas.

Edward aprofundou seus estudos e em 2008 publicou o livro “Piratas Judeus do Caribe” onde relata todos os acontecimentos humilhantes e dolorosos pelos quais os judeus passaram com a Inquisição e os caminhos que estes judeus percorreram para se salvar, recomeçar uma nova mas santa vida e proteger seus descendentes. E na sequência da história, Edward apresenta a saga daqueles que se lançaram ao mar como uma opção de sobrevivência.

Ali aparecem os irmãos Abraão e Moisés Cohen Henriques, Yaakov Koriel e David Abravanel, judeus ‘Portugueses’ ao lado dos holandeses ou dos ingleses contra os espanhóis, a Inquisição e o Santo Ofício. É interessante lembrar que estes piratas observavam o Shabat, elevavam sinagogas com solos arenosos para os serviços e nomeavam seus veleiros de “A Rainha Ester”, “O Profeta Samuel” ou “Escudo de Abraão”.



Sob a areia do solo existe sempre um bom soalho de madeira como suporte e de anos em anos deve-se acrescentar mais areia para repor aquela consumida com o movimento das pessoas.

De onde surgiu esta prática?

Não há uma resposta definitiva, e as explicações variam: talvez a origem seja Amsterdã onde usava-se areia para secar o barro dos sapatos dos participantes, há quem diga que a areia lembra o terreno do deserto por onde os judeus vagaram por 40 anos, mas a mais aceita é simplesmente que a prática se originou no Brasil, no início de 1600, quando os convertidos que voltaram ao Judaísmo optaram por manter os costumes de seus familiares.

 


O que será que pensam estas pessoas ao pisar na areia de sua sinagoga?

Lembram a história das perseguições? Estranham este costume? Agrada-lhes esta sensação de liberdade que a areia da praia nos traz?

Nesta sinagoga abrangente encontramos mais uma vez a beleza do Judaísmo, a diversidade de pessoas, sítios geográficos, edificações... sempre sob a palavra da Torá, e a fidelidade a um só D’us!


Crianças da Sinagoga em 2015, um templo progressista que a todos acolhe sempre a lembrar da história de seu povo e de suas adversidades!


FONTES:

https://www.myjewishlearning.com/article/the-jewish-community-of-jamaica/?utm_content=bufferd4423&utm_medium=social&utm_source=mjlfacebook&utm_campaign=buffer&fbclid=IwAR3hmCL0JLEU45hp7SlUg-Jw7BbYuQQbV-jBDaqpI8x-drJHGqsT8doo8UY

https://www.jewsofjamaica.com/articles/united-congregation-mission

https://www.facebook.com/ucijamaica/

https://www.lonelyplanet.com/jamaica/kingston/attractions/shaare-shalom-synagogue/a/poi-sig/1421629/358074

https://cityseeker.com/kingston/76823-shaare-shalom-synagogue

https://yellow.place/pt/shaare-shalom-synagogue-kingston-jamaica

https://anussim.org.br/piratas-ou-usurpadores-judeus-do-caribe/

https://www.shavei.org/pt-br/blog/2021/05/27/piratas-judeus-no-caribe/

https://journals.openedition.org/lerhistoria/5043

http://zivabdavid.blogspot.com/2012/02/piratas-judeus.html

quinta-feira, 15 de setembro de 2022

Editorial - Dia da Amazônia e o judaísmo - por Guilherme Susteras

 

EshTá Na Mídia no Dia da Amazônia

Por Guilherme Susteras


Semana passada, dia 05/09, foi comemorado o Dia da Amazônia e, quase como um simbolismo irônico, no dia 09/09 líamos a notícia de que a fumaça de queimadas da amazônia estava cruzando o Brasil e deixando 'cheiro' de queimado em São Paulo e céu fechado no Rio Grande do Sul.

E o que isso tem a ver com judaísmo? Tudo!

Há cerca de um mês tive a oportunidade de participar de um evento organizado pela Iniciativa Inter Religiosa pelas Florestas Tropicais (IRI), uma iniciativa internacional ligada ao Programa de Meio Ambiente da ONU e que conta com o apoio financeiro do governo da Noruega.

O objetivo da IRI é contribuir para que as lideranças e as comunidades religiosas possam aprofundar seus conhecimentos e atuação voltados para o cuidado com a natureza, com foco na preservação do equilíbrio climático, na conservação e no uso sustentável das florestas e na proteção dos direitos dos povos indígenas e das demais comunidades tradicionais.

Juntamente com o rabino Guershon Kwasniewski, pude representar a comunidade judaica nesse grupo formado por representantes de outras denominações religiosas - entre eles o Catolicismo, o Islamismo, o Protestantistmo, Budismo, Umbandismo, Candomblé e Bahá’i.

Estivemos no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), onde os pesquisadores nos apresentaram dados relacionados aos desafios já vividos por conta das mudanças climáticas e sobre a importância da preservação da floresta amazônica para evitarmos uma situação irreversível para o planeta.

O foco da conversa foi em dados científicos, o que por si só representa uma enorme mensagem de que ciência e religião podem (e devem) caminhar juntas, demonstrando o avanço das nossas sociedades em relação ao obscurantismo de séculos atrás.

Para além do clima extremamente amistoso entre todos os representantes religiosos, ficou absolutamente claro como todas as fés, cada uma do seu jeito, valorizam o mesmo princípio que o nosso tikun olam – cuidar do nosso planeta.

No dia seguinte, visitamos o Centro de Monitoramento de Desastres Naturais (CEMADEN), onde nos foi apresentado como iniciativas educacionais comunitárias têm o efeito de proteger a população de danos causados por desastres como alagamentos e deslizamentos de terra.

Aqui, o foco foi no papel que líderes religiosos têm em cuidar de suas comunidades, princípio compartilhado por todas as fés, assim como o nosso “kol Israel arezim ze ba ze” – cada um é responsável por todos ao seu redor.

A primeira grande lição que ficou para mim é como a humanidade seria muito mais produtiva se nos uníssemos uns aos outros para defender e proteger os nossos valores comuns, ao invés de termos que gastar tanta energia nos protegendo de ações racistas e/ou antissemitas.

E a segunda grande lição é que, embora soe utópico, o evento organizado pelo IRI demonstrou que é, sim, possível !

 


Shabat Shalom e boa semana a todos!

Guilherme Susteras


segunda-feira, 12 de setembro de 2022

VOCÊ SABIA? - A arte saqueada pelos nazistas

 

Nova York – Mostra de Arte Saqueada pelos Nazistas contou uma história judaica perdida e agora recuperada.

Por Itanira Heineberg


“Afterlives: Recovering the Lost Stories of Looted Art”

Exposição 20 de agosto de 2021 a janeiro de 2022


Detalhe de "Purim", de Marc Chagall, pintado por volta de 1916-1917. (Philadelphia Museum of Art, Filadélfia. © Artists Rights Society (ARS), Nova York / ADAGP, Paris/ Museu Judaico NYC)

Esta tela vibrante de Chagall foi retirada do museu alemão de Essen como uma obra degenerada, mas misteriosamente passou às mãos de um colecionador de arte em Berlim, membro do partido nazista.


Você sabia que durante a Segunda Guerra os nazistas, com determinação e disciplina, saquearam um número incontável de obras de arte e peças de domínio cultural para enriquecer o futuro Terceiro Reich e apagar os rastros da identidade e cultura judaica?

Ainda que um número exorbitante de peças esteja faltando, mais ou menos um milhão de obras de arte e dois milhões e meio de livros já foram recuperados até o momento.

O objetivo desta mostra em Nova York foi trazer à luz um assunto pouco conhecido da história: o saque das obras de arte e de objetos culturais dos judeus pelos nazistas, a desaparição dos mesmos e a consecutiva reaparição em locais de destaque, museus e galerias, encantando a todos - porém sem revelar suas verdadeiras e tristes narrativas.

Assim, 75 anos após o fim da guerra, tivemos 53 telas de arte e 80 objetos cerimoniais expostos no Museu Judaico de Nova York.


Materiais recuperados pela Jewish Cultural Reconstruction, Inc. em armazenamento no Museu Judaico por volta de 1949.

(Arquivos do Museu Judaico, Nova Iorque)


A mostra conta o trajeto das obras em meio à violência da guerra e relata em minúcias o resgate complicado, quando possível, de cada uma delas.


Henri Matisse – 1939 - “A garota de amarelo e azul com guitarra”


Duas telas de Matisse enriqueceram a exposição; a da foto acima com a garota e “As Margaridas”, tentando contar suas histórias e percalços até chegarem à mostra.

“A garota de amarelo e azul...” estava pendurada na sala da casa de Hermann Goering, no sudoeste da Alemanha, onde foi encontrada no final da guerra. Em 1942 o curador de arte Gustave Rochlitz a sequestrou do Museu Jeu de Paume, Paris, a mando de Goering.

A tela “As Margaridas” estava em Paris.

E não foram só estas! 600 mil obras foram roubadas dos judeus: além da tentativa de morte de um povo, a morte também de sua cultura e tradição.

A exposição tenta acordar o mundo, contar uma história quase incontável se levarmos em conta o pouco número de sobreviventes em condições e idade de lutar por seus direitos e pertences. Mas a Cultura Judaica sobreviveu, frutificou e resistiu à tragédia do Holocausto.

Paul Klee, Gustave Courbet, Camile Pissaro, sem esquecer da Dama Dourada de Paul Klimt.

Todas estas notícias e descobertas surpreenderam os visitantes. Algo devia ser feito para conscientizar as pessoas, trazendo luz ao Mal menos conhecido e difundido do Holocausto.

 

Placa de Seder Hierárquica (bandeja em camadas) – Polônia - séc.XVIII – XIX


Ciente de que os nazistas saqueariam a grande sinagoga de Danzig, a comunidade judaica encaixotou seus objetos rituais valiosos, ouro e prata, e enviou 10 arcas para o Seminário Teológico Judaico de Nova York. Em 1954 as peças foram devolvidas aos seus verdadeiros donos.


Bernando Strozzi, 'Um Ato de Misericórdia: Dando Bebida aos Sedentos' pintado na década de 1620. (John and Mable Ringling Museum of Art, o State Art Museum of Florida, Florida State University, Sarasota/ Jewish Museum NYC)


“Legisladores da cidade de Nova York descobriram: as pesquisas   mostraram que os nova-iorquinos mais jovens não sabiam dos fatos básicos sobre o genocídio. Uma pesquisa de 2020 da Conferência de Reivindicações, que representa os judeus que buscam compensação pelo Holocausto, constatou que 60% dos nova-iorquinos não sabiam que seis milhões de judeus foram assassinados; 58% não poderiam nomear um único campo de concentração; 19% acreditavam que os judeus causavam o Holocausto; e 43% não sabiam o que era Auschwitz.”


“Batalha na Ponte” – Claude Lorrain

Tela vendida sob coação e reservada para o futuro museu pessoal de Hitler, que nunca veio a existir.



“Em agosto 2022 a governadora do estado de Nova York Kathy Hochul assinou um trio de projetos de lei do Holocausto, incluindo um que exige que museus rotulem obras de arte saqueadas sob o regime nazista.”


Tropas americanas encontram uma coleção inestimável de arte saqueada escondida no Castelo de Neuschwantstein em Fussen, perto da fronteira suíça na Áustria, maio de 1945.



A nova Lei Estadual de Nova York está exigindo de seus museus que rotulem as obras de arte saqueadas, contando aos visitantes sobre a dor e tristeza daqueles que as possuíam ao perdê-las assim como ao perder suas casas, suas vidas, suas identidades.

Desde 1994 a educação sobre o Holocausto tornou-se matéria obrigatória nas escolas do estado, mas pelo que se viu nas pesquisas realizadas esta demanda não está sendo muito eficiente.

Os principais museus de arte da cidade - Met, MAM, Guggenheim - têm em mente aplicar a lei no intuito de diminuir este fluxo ilegal.

O que faria um curador de arte ao receber telas sequestradas famosas dos mais famosos pintores em troca de benefícios fiscais?

Esta exposição representou um lembrança funesta da história da arte saqueada durante o Holocausto e contou ao mundo insensível, que não quer ver nem ouvir, mais uma página de atribulação e injustiças do Povo Judeu.


“As Margaridas” – Henri Matisse – 1939



FONTES:

https://www.timesofisrael.com/nyc-exhibit-of-nazi-looted-art-tells-a-tale-of-jewish-loss-and-recovery/

https://www.timesofisrael.com/new-york-law-on-nazi-looted-art-aims-to-shine-light-on-lesser-known-holocaust-evil/?utm_source=The+Daily+Edition&utm_campaign=daily-edition-2022-09-02&utm_medium=emailrecovery/


sexta-feira, 9 de setembro de 2022

Editorial - Desfechos



Estamos nos aproximando do fim de mais um ciclo anual judaico, do período em que faremos um balanço do que acertamos e do que erramos e buscaremos por um bom desfecho e por nossa inscrição no livro da vida do ano que vem… 

Desfechos são necessários para que começos possam acontecer. Esta semana houve alguns desfechos relacionados a Israel e me inspiraram a olhá-los em conjunto. 

Um que demorou 50 anos para ocorrer foi o desfecho da negociação da indenização às famílias dos atletas israelenses que perderam suas vidas no atentado à Vila Olímpica em Munique em 1972. Isso aconteceu na véspera da cerimônia de lembrança do massacre - 5 de setembro -  sem o que as famílias não pretendiam comparecer ao evento. Pelo acordo finalmente firmado, aceito pelas famílias, a Alemanha pagará um total de 28 milhões dólares como compensação - sendo que isso inclui pagamentos já feitos ao longo dos anos. A gravidade da tragédia foi causada por uma sequência de erros na segurança, pelo fato das autoridades alemãs não terem atribuído a devida importância a sinais recebidos e descuidos. O COI - Comitê Olímpico Internacional- sempre ignorou sua responsabilidade de relembrar este massacre nas competições seguintes, mas finalmente em 2016, no Rio de Janeiro, isto aconteceu - e foi construído um monumento para lembrar que o terror não poupa nem o esporte! Mesmo assim, nem o monumento no Rio e nem o de Munique este ano têm o porte que a tragédia merecia para ser devidamente marcada. E, neste 5 de setembro, finalmente o presidente alemão pediu desculpas pelo que ocorreu na Baviera! 

Incluímos um vídeo em que Marcos Susskind relembra como acompanhou as notícias do daquele dia. 




Outro desfecho destes dias foi relativo à decisão de retorno a Israel de um objeto muito especial - trata-se de um documento extremamente raro escrito sobre um papiro de 2600 anos, da época do primeiro Templo. O documento havia sido encontrado há décadas em uma das cavernas do deserto da Judeia, e estava em poder de um americano que o recebeu em 1965 de sua mãe e de um colecionador. Ele aceitou devolvê-lo ao entender que a Autoridade Israelense para Antiguidades (IAA), que o procurava com a ajuda de serviço de inteligência, desde 2018, tem o melhor local e técnicas para preservá-lo junto a outros dois documentos do mesmo período encontrados em 1948 e 1956 nas cavernas. No precioso papiro lê-se em hebraico antigo as palavras “ …enviar a Ismael…”, sugerindo tratar-se de uma carta com instruções ao destinatário, segundo o IAA. Ismael apareceu como o nome de oficiais em achados paleográficos tais como bulas e selos em argila usados para selar documentos Reais.

Finalmente esses dias também ocorreu o desfecho da última investigação sobre a morte da jornalista Shireen Abu Akleh, da Al Jazeera - a conclusão apresentada é a de que “não foi possível determinar inequivocamente a origem da bala que a matou mas há uma alta probabilidade de ter vindo de arma de soldado de Israel, disparada acidentalmente". Ela foi atingida em meio a um tiroteio em Jenin no âmbito da operação “Quebrar a Onda” em maio deste ano. A operação ainda está em vigor e a referida onda é uma série de atentados contra civis israelenses que matou 19 pessoas.

Não foi um desfecho agradável, pleno, mas foi transparente. Foi uma resposta, a mais precisa encontrada para o mundo. O mundo acompanhou este horrível acontecimento basicamente porque jornalistas de todos os lugares têm acesso a todos os cantos do país e têm total liberdade para fotografar, filmar e escrever o que quiserem. Isso é uma notória exceção na região onde há restrições e censuras de todo tipo, quando não, risco à vida do profissional de imprensa!

De qualquer forma Israel vem perseguindo os fatos e buscando explicações, não se satisfazendo com ilações, desculpas, omissões. E em inúmeros desfechos de investigações, desde a criação do Estado, soldados ou outros cidadãos têm sido cobrados, julgados, condenados ou presos. Será esse desfecho o final, haverá mais investigações? 

Precisamos sempre perseguir desfechos com coragem. Muitas vezes nos sentimos aliviados, recompensados, mas nem sempre os desfechos serão satisfatórios, nem sempre fáceis de conviver quando formos em frente. A transparência e a justiça são valores fundamentais ao judaísmo. E são sem dúvida pilares da nossa civilização. Vimos repetindo Tzedek, Tsedek, Tirdof - Justiça, Justiça você deve perseguir.


Shabat Shalom!


Juliana Rehfeld

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

Você Sabia? - A síndrome K

 

Surgimento da Síndrome K em plena Segunda Guerra Mundial vira um documentário

Por Itanira Heineberg


Hospital Fatebenefratelli, Roma, 1943, onde uma doença falsa foi criada em benefício dos perseguidos 


Você sabia que um hospital italiano salvou enfermos dos nazistas criando uma falsa doença?

E pensar que esta ação generosa - um ato arriscado para os dirigentes assim como para todos os participantes, salvando vidas humanas - ficou assim tão esquecida ou talvez, propositalmente, não comentada!


Hospital Fatebenefratelli, em uma ilha do Tibre: portas cerradas protegiam uma enfermaria com doentes  portadores da Síndrome K. 


“Essa doença nova e não familiar – cujo nome evocava a Síndrome de Koch (tuberculose) – era um forte impedimento para os soldados nazistas ocupantes que cumpriam buscas de rotina pelo hospital por judeus, partidários e antifascistas. Temendo infecção, os nazistas não se atreviam entrar na enfermaria, voltando sua atenção para outro lugar.”

 

Em 16 de outubro de 1943 os nazistas invasores passaram um pente fino nos judeus de Roma aprisionando 1.200 deles, dos quais só 15 sobreviveram.

E foi assim que os médicos e frades do hospital passaram a aceitar números cada vez maiores de pacientes, ou seja, refugiados. A Síndrome K era uma mentira criada por Giovanni Borromeo, o principal médico do hospital, com a ajuda de sua equipe médica, com o propósito de salvar tanto judeus como antifascistas em busca de proteção.


“O Justo que inventou a Síndrome K”, por Pietro Borromeo, filho do Dr. Giovanni Borromeo.


Borromeo (1898-1961) era um cristão piedoso e antifascista declarado.

E foi por esta razão que aceitou trabalhar no Fatebenefratelli, dirigido por frades católicos, um hospital privado, sem conexão com as leis fascistas do Estado - não exigindo de seus funcionários lealdade ao partido.

Borromeo se cercou de médicos discriminados pelo regime, como o judeu Vittorio Emanuele Sacerdoti, que acolheu e ocultou alguns dos sobreviventes dos eventos de 16 de outubro.

A partir de então o hospital se tornou um foco de resistência política.

 

“Mas a resistência antifascista no Fatebenefratelli não estava apenas confinada na Síndrome K. Em colaboração com os frades, Borromeo e seus aliados instalaram uma estação de rádio dentro do hospital, e a usaram para comunicar com partidários de modo a organizar sua luta. Quando Borromeo e os frades perceberam que os nazistas tinham identificado a posição da rádio, eles jogaram tudo no Tibre.”


Síndrome K, uma doença infecciosa, um código para pessoas escondidas no hospital localizado bem perto do gueto judeu em Roma.


Os médicos responsáveis eram Vittorio Sacerdoti, Giovani Borromeo e Adriano Ossicini.

Vittorio Sacerdoti era judeu e os outros dois eram católicos. Em 2004, ao contar a farsa da Síndrome K, Sacerdoti declarou à BBC:

 

 “Os nazistas pensaram que era câncer ou tuberculose e fugiram como coelhos”.

 

Borremeo que, entre outras coisas, protegeu a família de um de seus mentores judeus, é reconhecido como um Justo Entre as Nações em Yad Vashem, Memorial do Holocausto em Israel.


Borromeo, à esquerda, e Sacerdoti, à direita


O diretor e compositor Stephen Edwards ficou admirado ao descobrir a história quase inédita dos 3 médicos italianos e sua audácia em combater o regime e salvar vidas humanas. Em 2018, começou a trabalhar em seu documentário “Síndrome K”, um assunto tão pouco conhecido da humanidade e concluiu: “E acho que é por isso que ficou uma história tão secreta – os médicos não se gabam do que fizeram nem falam muito sobre isso”. É uma história tão obscura que nem o falecido historiador Robert Katz, “The Battle for Rome: The Germans, the Allies, the Partisans, and the Pope, September 1943-June 1944”, considerado um livro definitivo sobre a ocupação nazista da cidade, não menciona isso.”

Ainda em 2018, Edwards descobriu que o médico Adriano Ossicini estava vivo, aos 98 anos, e assim conseguiu uma entrevista com um dos heróis desta epopeia italiana.

Edwards com Ossicini na foto abaixo, durante a produção do documentário.



Foram encontrados diferentes relatos sobre as atividades do hospital e seus abençoados protetores dos refugiados.

Dezenas deles foram salvos e deram seus depoimentos, inclusive o médico Sacerdoti, que participou de uma entrevista completa nos escritórios da USC Shoah Foundation em Israel.

Apesar de tentar obter o vídeo com a entrevista, não o consegui.

O importante é saber que a inexistente Síndrome K manteve os nazistas bem longe dos judeus e antifascistas, bem acomodados nos leitos da enfermaria “infectada” do hospital acolhedor, até a chegada dos Aliados em Roma em junho de 1944.

É sempre bom contar uma história em que uma doença contagiosa, porém falsa, ajudou a salvar vidas de pessoas inocentes. E lembrar daqueles que em momentos de perigos e guerras arriscam suas próprias cabeças para ajudar seus semelhantes.

Enfim, um paradoxo, uma contradição, uma história com final feliz, sem vítimas e sem armas em tempos de muita dor, bombardeios, separações, injustiças e mortes, nos dias do Holocausto.

Algumas imagens sobre este fato pouco divulgado, a seguir:






FONTES:

https://www.timesofisrael.com/to-save-jews-and-keep-nazis-away-these-doctors-invented-a-fake-infectious-disease/?utm_source=The+Daily+Edition&utm_campaign=daily-edition-2022-08-20&utm_medium=email

https://radiopeaobrasil.com.br/como-um-hospital-italiano-salvou-pacientes-dos-nazistas-inventando-uma-doenca-falsa/

https://www.imdb.com/video/vi1845281305/?ref_=tt_vi_i_1

https://www.jewishvirtuallibrary.org/giovanni-borromeo

https://israelagora.com.br/holocausto/para-salvar-os-judeus-e-manter-os-nazistas-afastados-esses-medicos-inventaram-uma-doenca-infecciosa-falsa/

https://righteous.yadvashem.org/

sexta-feira, 2 de setembro de 2022

Editorial - Israel, um Templo também da música

 

A Orquestra Sinfônica de Israel. Crédito: David Vinoker


No domingo passado, na noite de 28 de Agosto, a Sala São Paulo recebeu uma das orquestras mais famosas do mundo: a Orquestra Sinfônica de Jerusalém, dirigida pelo maestro Yeruhan Scharovsky e pela solista israelense Daniella Akta, considerada como uma das principais jovens violoncelistas prodígios.

O maestro Sharovsky, um argentino, é conhecido no Brasil pois dirigiu de 1998 a 2004 a Orquestra Sinfônica Brasileira do Rio de Janeiro e criou em 1999 a Orquestra Sinfônica Jovem Brasileira, recebendo o título de “Cidadão Honorário do Rio de Janeiro” por sua contribuição artística, social e cultural, além de ter dirigido mais de 50 orquestras de destaque em mais de 20 países.

Como sempre, o programa se iniciou com o hino Nacional Brasileiro seguido da Hatikwah, o hino de Israel.

A primeira música do programa foi a Abertura do “O Guarani”, de Carlos Gomes. Seguiu-se o Concerto para violoncelo N 4 de Elgar, interpretado por Danielle e a orquestra e claro que foram vivamente aplaudidos.

Com o pedido insistente de “bis” pelo público, Danielle tocou um solo no violoncelo – o famoso “Tico Tico no Fubá” - que levantou a plateia em longos aplausos.

E porque trago este tema?

No dia seguinte, segunda-feira, o maestro, Danielle e mais alguns músicos foram visitar a Favela de Heliópolis onde está a sede a famosa Orquestra Bacarelli... e esta visita me leva a recordar um dos momentos mais marcantes de minha vida.

Em agosto de 2005 eu dirigia o Centro da Cultura Judaica, e com o apoio de diversos patrocinadores trouxemos a orquestra Filarmônica de Israel, com o famoso maestro Zubin Mehta, para duas apresentações na Sala São Paulo.

No dia seguinte à primeira apresentação, fomos também visitar a Orquestra Bacarelli que, aliás, é formada só por crianças e jovens da favela de Heliópolis num programa de formação artística.

Lá chegando encontramos os jovens estudando a 5a sinfonia de Beethoven dirigidos pelo maestro Tibiriçá, que foi colega de Zubin Mehta na Juilliard School. Tibiriçá ofereceu a batuta a Zubin, que naquele momento recusou e ficou observando as crianças tocando - mas uns 10 minutos se passaram e Zubin tirou seu paletó, aproximou-se a Tibiriçá, que entendeu seu gesto e passou a batuta a Zubin que em lágrimas dirigiu os jovens...

No término da obra, vivamente ovacionado por todos os presentes, Tibiriçá apresentou a Zubin Mehta Adriano Costa Chaves, um jovem que na época tinha apenas 17 anos, morador da favela e que tocava contrabaixo.

Zubin, também contrabaixista, pediu para ao jovem tocar e vivamente impressionado, convidou Adriano para se apresentar naquela noite ao naipe de Contrabaixos.....a história continua com Zubin Mehta convidando Adriano para ir a Israel estudar na sua Academia Buchmann-Mehta Institut, que é a academia formadora dos músicos para a Filarmônica de Israel.

Adriano nunca tinha saído de Heliópolis! Agora ia viajar para Israel... outro lado do mundo! Um país com outra língua, outra cultura... um grande desafio para todos envolvidos no projeto.

A coordenadora dos cursos do Centro de Cultura Judaica Cecilia ben David e eu criamos um curso de um ano para que Adriano estivesse preparado para poder enfrentar o seu novo e fantástico destino. Ensinamos Hebraico, ensinamos sobre a cultura judaica, e o que o “novo mundo” mostraria para Adriano.

A despedida foi em Congonhas, já que ele tomou um voo que o levaria ao Rio e de lá a Israel via Madrid, para estudar em Israel e tocar no naipe dos contrabaixos em diversos concertos da famosa Orquestra Filarmônica de Israel.

A Orquestra Bacarelli em peso veio se despedir de seu contrabaixista numa noite inesquecível, já que no salão de Congonhas os jovens tocaram para Adriano diversas músicas, o que emocionou a todos os presentes e levou muitos às lagrimas, inclusive eu.

Israel é um dos países onde diversas orquestras são hoje ícones em todo o mundo - eu diria que Israel é um dos templos do mundo na música.

Falando em templo, me veio à memória uma história de Napoleão e a comunidade judaica: certo dia, Napoleão teve conhecimento de que a comunidade judaica estava de luto e que nas sinagogas os judeus lamentavam, em prantos, um acontecimento do passado.

Napoleão se interessou pelo assunto e lhe foi dito que aquele dia era 9 de Av pelo calendário judaico – o dia no qual, de acordo com a tradição judaica, se lembrava da destruição dos dois Templos de Jerusalém, o primeiro pelos Babilônios em 586 AC e o segundo pelos Romanos em 70 DC.

Napoleão, ao tomar conhecimento da razão do luto, comentou: “ Um povo que chora por seu Templo há tanto tempo merecerá vê-lo reconstruído”.

Há um linha religiosa judaica que pretende reconstruir o Templo em Jerusalém, inclusive com a tradição de oferendas... mas será uma boa reconstruir o Templo em Jerusalém, em nossos dias ou no futuro?

Eu tenho duas colocações (aliás, como um bom judeu!) para esta pergunta:

Um NÃO e um SIM....

NÃO... se você incialmente quiser criar um grupo de judeus que represente todas as linhas religiosas judaicas para estudar esta eventualidade... só isto já criará um pandemônio que dificilmente chegará a um consenso.

Imaginemos, por um instante apenas, que isto tenha sido possível - recriar o grupo de planejamento para desenhar as plantas do terceiro Templo de Jerusalém – para que seja um lugar onde todas as diferentes linhas religiosas judaicas tenham sua representação e tradições... outra hipótese totalmente improvável...

Continuemos a dar asas à nossa imaginação... há um grupo que representa todas as linhas religiosas. Este grupo, imaginemos, chega a um consenso que cada linha tenha a sua representatividade neste Templo... o edifício, ou melhor este complexo de edificações deverá cobrir uma imensa área horizontal, e ao mesmo tempo com incontáveis níveis, ou andares...pois a história da religião de nosso povo foi criada, recriada, reestudada, rediscutida e continua e continuará assim pelo futuro... assim, o NÃO para a criação do terceiro Templo será a melhor solução.

 

SIM... para mim, a reconstrução do Templo de Jerusalém já pode ser entendida através da criação do Estado de Israel. Israel é para mim um Templo, não do ponto de vista físico, mas do ponto de vista institucional judaico.

Os dois antigos Templos de Jerusalém eram a emanação apenas da religião judaica.

Lá os Cohanim, os Sumo-sacerdotes, é que mantinham a relação com a Divindade através de sacrifícios de animais e oferendas de vegetais que todo o povo oferecia.

Hoje, Israel é a aglutinação de todas as linhas religiosas judaicas, e da cultura daqueles para quem a religião não é a prioridade, os assim chamados seculares.

 

SIM, para mim Israel é um Templo, mas um templo onde a Shechiná, a Glória de Deus, continua repousando através da liberdade religiosa para todas as religiões.

Para mim, o Estado de Israel incorporou a explicação do início da Torah, onde Deus criou o ser humano no sentido de ser o Pai de toda a humanidade, e em Israel todas as religiões são livres para serem vivenciadas...

Os judeus mereceram recriar o Templo, recriar Sion, e criaram Israel depois de 2.000 anos de diáspora....

Mas Israel, para mim, é mais do que um Templo religioso; é o Templo da tecnologia agrícola, da medicina, da informática, da música, e muito mais, fonte para toda a humanidade.

 

SIM, Napoleão estava certo... merecemos recriar o terceiro Templo, e Israel é todo Um Templo, e cabe a cada judeu ou judia estar ligado ou ligada e este lugar extraordinário em suas incontáveis fontes de conhecimento para toda a humanidade.

Seja benvinda a Orquestra Sinfônica de Jerusalém, Maestro Sharovski, Daniella Akta e todos os seus músicos!

Shabat shalom!

Le leshana Abá ve Ierushalaim! O ano que vem em Jerusalém!

 

RAUL MEYER


Regina P. Markus, do nosso Comitê Editorial, com a família para a apresentação da Orquestra Sinfônica de Jerusalém